{"id":3428,"date":"2018-09-16T07:26:45","date_gmt":"2018-09-16T10:26:45","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3428"},"modified":"2018-09-16T07:26:45","modified_gmt":"2018-09-16T10:26:45","slug":"orientacao-tinder-primeiro-a-gente-transa-depois-a-gente-ve-o-simbolico-mudou-de-ritmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/orientacao-tinder-primeiro-a-gente-transa-depois-a-gente-ve-o-simbolico-mudou-de-ritmo\/","title":{"rendered":"#Orienta\u00e7\u00e3o \u2013 Tinder: primeiro a gente transa, depois a gente v\u00ea. O simb\u00f3lico mudou de ritmo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3413\" aria-describedby=\"caption-attachment-3413\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3413\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_004-1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_004-1.jpg 200w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_004-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3413\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Instagram @olheosmuros<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Por Christiane Alberti<\/h6>\n<p>Desde a chegada do Tinder, o mundo do namoro mudou. O princ\u00edpio deste aplicativo? Colocar em contato homens e mulheres geograficamente pr\u00f3ximos, por meio de um sistema de geolocaliza\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 o impacto do Tinder nos relacionamentos amorosos? Para Christiane Alberti, psicanalista, os encontros virtuais n\u00e3o eliminar\u00e3o a magia.<\/p>\n<p>\u201cDe toda forma, existe agora alguma coisa mudada. A sexualidade \u00e9 alguma coisa mais p\u00fablica. [&#8230;] A sexualidade \u00e9 todo tipo de coisa, os di\u00e1rios, os vestu\u00e1rios, a forma como nos comportamos, a forma como os meninos e meninas fazem isso, um belo dia, ao ar livre, no mercado.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Estamos um pouco antes de 1968, e aqui novamente Lacan antecipa nosso tempo, esclarecendo certos efeitos do advento do virtual na rela\u00e7\u00e3o entre os sexos.<\/p>\n<p>\u201c<strong>Amor\u201d por um instante <\/strong><\/p>\n<p>Parto do lan\u00e7amento, no mercado dos encontros virtuais, de um aplicativo de celular, o Tinder, que desfila diante dos olhos retratos de meninos e meninas sobre os quais se pode clicar de acordo com as prefer\u00eancias e outras fixa\u00e7\u00f5es inconscientes: \u201c<em>like\/dislike<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Quando a escolha \u00e9 rec\u00edproca, h\u00e1 o \u201cmatch\u201d! Est\u00e1 no bolso! Voc\u00ea pode, desde ent\u00e3o, marcar um encontro com aquele ou aquela que \u201camou\u201d voc\u00ea por um instante.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio, j\u00e1 que voc\u00ea pode se contentar com o n\u00famero de \u201cmatches\u201d conquistados, em virtude de um alinhamento da ordem er\u00f3tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 contabilidade que parece prevalecer sobre os encontros efetivos.<\/p>\n<p>Quantos? Parece ser para alguns o \u00fanico interesse do jogo, como para <u>V\u00edtor<\/u>, nost\u00e1lgico do per\u00edodo em que \u201cos <em>matchs<\/em> contabilizavam muito bem\u201d. (para ler seu relato completo, clicar em seu nome no texto original)<\/p>\n<p>Se n\u00e3o nos deixamos vencer pela repugn\u00e2ncia hist\u00e9rica, v\u00e1rios pontos chamam a aten\u00e7\u00e3o nos relatos dos usu\u00e1rios do Tinder, alguns reunidos por France Ortelli e Thom\u00e1s Bornot no filme \u201cLove me Tinder\u201d.<\/p>\n<p><strong>O roteiro do encontro j\u00e1 est\u00e1 escrito <\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s vamos para o Tinder porque \u201ctodo o mundo est\u00e1 l\u00e1, toda Paris est\u00e1 l\u00e1\u201d!<\/p>\n<p>O Tinder \u00e9, antes de tudo, um lugar: a necessidade de situar o Outro desde que ele desapareceu. N\u00f3s o procuramos e n\u00f3s o encontramos: o aplicativo no celular tomou o lugar do mercado.<\/p>\n<p>O \u201cOutro\u201d organiza as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos, pois a rela\u00e7\u00e3o sexual faz precisamente falta. O Outro que arranjava os casamentos de acordo com os semblantes e a tradi\u00e7\u00e3o, as media\u00e7\u00f5es acordadas, \u00e9 aqui substitu\u00eddo pelo aplicativo, mas se trata de um arranjo feito por um Outro de meia-tigela.<\/p>\n<p>O Outro do Tinder, como na tradi\u00e7\u00e3o, organiza os <em>links<\/em> de acordo com os padr\u00f5es masculinos, paternais, esc\u00f3picos: \u201cn\u00f3s vemos uma linda jovem, n\u00f3s clicamos, n\u00f3s a temos!\u201d Enfim, a verdadeira vida?<\/p>\n<p>A temporalidade est\u00e1 em primeiro plano nos prop\u00f3sitos dos protagonistas. O roteiro do encontro j\u00e1 est\u00e1 escrito, prescrito pelo pr\u00f3prio aplicativo: \u201cj\u00e1 sabemos que vai acabar na cama, ent\u00e3o quanto mais r\u00e1pido, melhor\u201d!<\/p>\n<p>N\u00e3o seria este o sonho de muitos homens? Queimar todas as etapas, evitar todas as preliminares conquistadas com o suor da arte de sedu\u00e7\u00e3o, para chegar rapidamente \u00e0 primeira vez e reduzir assim o tempo que nutre a inquietude, at\u00e9 mesmo a ang\u00fastia daquilo que ser\u00e1.<\/p>\n<p>Digamos que a montagem pulsional se faz de outra forma, seguindo outra temporalidade: \u201cprimeiro a gente transa, depois a gente v\u00ea\u201d. O simb\u00f3lico mudou de ritmo, dan\u00e7amos o <em>rock and roll<\/em> ao contr\u00e1rio, um sinal e opa! Isso n\u00e3o deixa de ser uma montagem. A sexualidade pode estar ao ar livre, o sexo faz sempre \u201cfuro na verdade\u201d. N\u00e3o vamos ficar quites.<\/p>\n<p><strong>Querer terminar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p>Poder\u00edamos ler essa subjetividade do tempo, a multiplica\u00e7\u00e3o dos encontros sem dia seguinte, como uma banaliza\u00e7\u00e3o do ato sexual \u201cque n\u00e3o tem mais import\u00e2ncia, digamos, do que beber um copo d\u2019\u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o dever\u00edamos ler esta suposta indiferen\u00e7a mais do que como uma defesa, como salienta claramente o jogo de palavras de Lacan: \u201c\u00e7a visse exuelle\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. O equ\u00edvoco do \u201cviss\u00e9\u201d (fixado, parafusado) faz ressoar o reprimido interno \u00e0 pr\u00f3pria sexualidade: \u00e9 o contr\u00e1rio de \u201csem import\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Querer terminar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel n\u00e3o \u00e9 causar um curto-circuito na ang\u00fastia, o desarranjo suscitado pelo imprevisto, e encontrar assim uma defesa diante do encontro real, na medida em que ele se constr\u00f3i a partir do imposs\u00edvel? Que seja estabelecido por um clique ou pela tradi\u00e7\u00e3o, o mais dif\u00edcil resta a ser feito, na medida em que falta consumar o verdadeiro encontro.<\/p>\n<p>Para fazer par \u00e9 preciso passar pelo sintoma que em seu princ\u00edpio nos isola. Neste plano, o Outro ser\u00e1 sempre de meia-tigela. Permanece a conting\u00eancia. N\u00e3o d\u00e1 para fazer par sem o pr\u00e9-requisito do encontro. O cupido tem sempre os olhos vendados e atira suas flechas ao acaso!<\/p>\n<p><strong>A proximidade tem prioridade sobre os ideais <\/strong><\/p>\n<p>A cultura 2.0 ou 3.0, ou ainda aquela do \u201chook up\u201d (que designa \u201cuma saidinha\u201d frequentemente invocada pelos usu\u00e1rios destes aplicativos), registra sem d\u00favida uma expans\u00e3o sem precedentes a partir das novas tecnologias.<\/p>\n<p>Ela se caracteriza pelo aumento da oferta que incentiva a otimizar os parceiros. Em virtude de um alinhamento da ordem er\u00f3tica com a ordem econ\u00f4mica, o sexo e o amor est\u00e3o fadados a se submeter \u00e0s regras dos imperativos do hiperconsumo (performance, rapidez, efic\u00e1cia: sedu\u00e7\u00e3o <em>express<\/em> e <em>fast sex<\/em>).<\/p>\n<p>Ela deve certamente o sucesso ao car\u00e1ter horizontal de sua oferta: sonhar ou fantasiar n\u00e3o sobre \u00edcones inating\u00edveis, mas sobre sua vizinha. O conceito do \u201cnext door\u201d \u00e9 a principal palavra-chave do neg\u00f3cio. A proximidade tem prioridade sobre os ideais e as identifica\u00e7\u00f5es verticais de antigamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Trata-se sempre de uma quest\u00e3o de encontro <\/strong><\/p>\n<p>Estes aplicativos de geolocaliza\u00e7\u00e3o exploram a pot\u00eancia das imagens, lisas por defini\u00e7\u00e3o (valor de poder inigual\u00e1vel como bem previu Guy Debord), e a capta\u00e7\u00e3o visual: elas d\u00e3o assim o sentimento que o encontro aconteceu \u201csem dor de cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Eles mascaram que nos fatos e em todos os casos, mesmo que algumas mensagens de aproxima\u00e7\u00e3o sejam suficientes, \u00e9 preciso falar. N\u00e3o se entra na sexualidade e na via amorosa sem palavras. O caso n\u00e3o pode ser conclu\u00eddo sem uma palavra, e a\u00ed tudo se complica!<\/p>\n<p>Isto quer dizer que a magia do encontro, as surpresas do amor e o duro trabalho de fazer par t\u00eam belos dias pela frente! Porque se trata sempre de uma quest\u00e3o de encontro, sempre arriscado. \u00c9 este acaso que transformamos <em>apr\u00e8s coup<\/em> em hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os encontros virtuais n\u00e3o eliminar\u00e3o esta delicada alquimia que faz com que dois seres incompletos e irremediavelmente s\u00f3s, venham a fazer um par.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o:<br \/>\nRos\u00e2ngela Carboni Castro Turim<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o:<br \/>\nDaniela de Camargo Barros Affonso<\/h6>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Texto publicado originalmente em <a href=\"http:\/\/leplus.nouvelobs.com\/contribution\/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html\">http:\/\/leplus.nouvelobs.com\/contribution\/1409836-tinder-on-baise-d-abord-on-voit-ensuite-le-symbolique-a-change-de-tempo.html<\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>Lacan, J. <em>Meu ensino<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 26.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><em>Visse exuelle<\/em> faz homofonia com <em>vie sexuelle<\/em>, vida sexual. (N.T.)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Christiane Alberti Desde a chegada do Tinder, o mundo do namoro mudou. O princ\u00edpio deste aplicativo? Colocar em contato homens e mulheres geograficamente pr\u00f3ximos, por meio de um sistema de geolocaliza\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 o impacto do Tinder nos relacionamentos amorosos? 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