{"id":3421,"date":"2018-09-16T07:02:40","date_gmt":"2018-09-16T10:02:40","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3421"},"modified":"2018-09-16T07:02:40","modified_gmt":"2018-09-16T10:02:40","slug":"pergunta-e-resposta-por-leonardo-gorostiza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/pergunta-e-resposta-por-leonardo-gorostiza\/","title":{"rendered":"#Pergunta e resposta"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3412\" aria-describedby=\"caption-attachment-3412\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3412\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/boletim005_003-1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"245\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3412\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Peter Stackpole, bloglovin.com<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Por Leonardo Gorostiza<\/strong><\/h6>\n<p><strong>Pergunta<\/strong>: Em uma entrevista publicada em Registros 10, <em>Un nuevo amor<\/em>, voc\u00ea diz que \u201cA escrita acentua a aus\u00eancia do objeto enquanto presen\u00e7a carnal, sendo este o paradigma do amor cort\u00eas\u201d. Podemos tomar essa afirma\u00e7\u00e3o que voc\u00ea traz para pensar o sucesso das rela\u00e7\u00f5es virtuais, ou do uso dos aplicativos nos relacionamentos na contemporaneidade, j\u00e1 que a palavra de amor e a escrita de amor cernem de distintas maneiras o gozo? E com rela\u00e7\u00e3o ao processo psicanal\u00edtico, o que se poderia dizer?<\/p>\n<p><strong>Gorostiza<\/strong>: N\u00e3o poderia afirmar que &#8220;o sucesso das rela\u00e7\u00f5es virtuais&#8221; possa ser explicado pela men\u00e7\u00e3o que voc\u00ea faz ao que eu dizia em tal entrevista. Como costumamos dizer, n\u00e3o existem para n\u00f3s, psicanalistas de Orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, orienta\u00e7\u00f5es que possam ser consideradas de alcance universal. Sempre tratar-se-\u00e1 do caso a caso. Assim, em alguns casos talvez ocorra o que voc\u00ea sugere: que a escrita via internet, que por sua brevidade em geral se diferencia muito das cl\u00e1ssicas cartas ou poemas do amor cort\u00eas, possa cumprir a fun\u00e7\u00e3o de acentuar a aus\u00eancia do objeto enquanto presen\u00e7a carnal. Enquanto que em outros casos, por exemplo mediante o uso do WhatsApp, a acelera\u00e7\u00e3o temporal do interc\u00e2mbio de mensagens entre grandes dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas, pode ter o efeito inverso: provocar a ilus\u00e3o de que o objeto est\u00e1 &#8220;presente&#8221;. Assim mesmo, n\u00e3o esque\u00e7amos que os la\u00e7os virtuais fazem uso, cada vez mais, das imagens. As quais, se bem n\u00e3o se confundem com o objeto &#8220;carnal&#8221;, est\u00e3o longe de produzir, como as cartas de amor o fazem, uma circunscri\u00e7\u00e3o, um contorno, em torno do objeto ausente.<\/p>\n<p>Nesse sentido, h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre a palavra de amor e a carta de amor. A palavra de amor se dirige ao objeto em presen\u00e7a e pode ser a condi\u00e7\u00e3o para o encontro, inclusive dos corpos. Al\u00e9m disso, no limite, a palavra de amor \u2013 tal como o assinala Lacan em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar\u2026\u201d-, como \u201cjaculat\u00f3ria de amor\u201d, se localiza no mesmo registro que a inj\u00faria. Ou seja, como um uso do significante que, reduzido a sua unicidade, como um S1, aponta a alcan\u00e7ar o \u201cser\u201d do objeto de amor. \u201cChuchuzinho!\u201d, \u00e9 um dos exemplos que Lacan menciona ali. Enquanto que a carta de amor, tal como dizia antes, sup\u00f5e um encadeamento significante que contorna o objeto e que, nesse pr\u00f3prio percurso, acentua sua aus\u00eancia ao mesmo tempo que a gera como tal. De certo modo, tal como Lacan assinala no <em>Semin\u00e1rio 7 <\/em>sobre <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lises <\/em>com os poemas de amor cort\u00eas eleva-se a Dama \u00e0 dignidade da Coisa, ou seja, corresponde a um processo de sublima\u00e7\u00e3o que, na medida em que \u00e9 um destino da puls\u00e3o, contorna seu objeto. O que n\u00e3o impede que, tanto nestas \u201ccartas de amor\u201d como nos escritos dos m\u00edsticos, ao aproximar-se do objeto ausente e inalcan\u00e7\u00e1vel, as jaculat\u00f3rias possam tamb\u00e9m ter lugar.<\/p>\n<p>A partir desta perspectiva, podemos concluir que, na experi\u00eancia anal\u00edtica o analista, ao ocupar o lugar do objeto <em>a<\/em> e pela regra da abstin\u00eancia, encarna em presen\u00e7a o objeto ausente ou, dito de outro modo, p\u00f5e em ato a \u201cn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. Assim, a associa\u00e7\u00e3o livre do analisante pode ser considerada como um equivalente da carta de amor. O que deixa aberto o debate acerca de qual lugar dar, em nossa pr\u00e1tica ao uso dos sistemas virtuais de comunica\u00e7\u00e3o. Nestes, efetivamente, o corpo, ao estar subtra\u00eddo rebaixa a pot\u00eancia paradoxal de uma presen\u00e7a, a do corpo do analista que, pela regra da abstin\u00eancia, faz ainda mais patente a impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o pelo fato de n\u00e3o permanecer velada pelos limites pr\u00f3prios do meio tecnol\u00f3gico que se utilize.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Leonardo Gorostiza Pergunta: Em uma entrevista publicada em Registros 10, Un nuevo amor, voc\u00ea diz que \u201cA escrita acentua a aus\u00eancia do objeto enquanto presen\u00e7a carnal, sendo este o paradigma do amor cort\u00eas\u201d. Podemos tomar essa afirma\u00e7\u00e3o que voc\u00ea traz para pensar o sucesso das rela\u00e7\u00f5es virtuais, ou do uso dos aplicativos nos relacionamentos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3421","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletins","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3421"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3421\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3421"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}