{"id":3347,"date":"2018-09-11T14:37:08","date_gmt":"2018-09-11T17:37:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3347"},"modified":"2025-07-18T04:55:11","modified_gmt":"2025-07-18T07:55:11","slug":"o-tabu-da-virgindade1-leituras-da-biblioteca-freud-e-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-tabu-da-virgindade1-leituras-da-biblioteca-freud-e-o-amor\/","title":{"rendered":"\u201cO tabu da virgindade\u201d1 &#8211; Leituras da Biblioteca Freud e o amor"},"content":{"rendered":"<h4 style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2358 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Paola-258x300.jpg\" alt=\"\" width=\"258\" height=\"300\" \/>Paola Salinas (EBP\/AMP)<\/h4>\n<h4>O tabu da virgindade \u00e9 abordado e justificado devido \u00e0 hostilidade e ao desejo de vingan\u00e7a que o defloramento provocaria. Ao desenvolver correla\u00e7\u00f5es sobre o tema, Freud destaca a frigidez como aspecto importante na vida sexual da mulher, articulando ao \u00c9dipo e ao complexo de castra\u00e7\u00e3o. Associa tal hostilidade, na base do tabu, \u00e0 inveja do p\u00eanis e ao protesto de masculinidade.<\/h4>\n<h4>A valoriza\u00e7\u00e3o da virgindade seria a extens\u00e3o do direito de propriedade \u00e0 mulher, incluindo seu passado, o que \u00e9 natural e indiscut\u00edvel para o homem da \u00e9poca; da\u00ed a incompreensibilidade do tabu presente nos povos primitivos, os quais, para evitar a hostilidade do defloramento, o fariam em rituais antes do casamento.<\/h4>\n<h4>Tal valoriza\u00e7\u00e3o se associa \u00e0 <em>servid\u00e3o sexual<\/em>, depend\u00eancia de uma pessoa com quem h\u00e1 envolvimento sexual, base do matrim\u00f4nio, explicada em fun\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o sexual feminina, chegando ao sacrif\u00edcio dos interesses pessoais.<\/h4>\n<h4>Contudo, tal valoriza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ocorre nos povos primitivos, ao ponto do defloramento ter se tornado tabu, proibi\u00e7\u00e3o de cunho religioso frente \u00e0 presen\u00e7a de um perigo, ainda que psicol\u00f3gico, segundo a defini\u00e7\u00e3o freudiana.<\/h4>\n<h4>Freud toma o horror \u00e0 efus\u00e3o de sangue e a ang\u00fastia frente a todo ato primeiro, como poss\u00edveis motivos para o tabu. Contudo, destaca a import\u00e2ncia do defloramento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 resist\u00eancia sexual vencida e o fato de ocorrer apenas uma vez. Estamos diante de um acontecimento intenso e \u00fanico, que tem o peso de um ato.<\/h4>\n<h4>Este ato traz uma nova significa\u00e7\u00e3o pelo furo no saber que engendra, presen\u00e7a de algo incompreens\u00edvel e inquietante, por vezes tratado em rituais de passagem.<\/h4>\n<h4>Crawley fala da abrang\u00eancia do tabu em quase toda a vida sexual: \u201cquase poderia se dizer que a mulher \u00e9 um tabu em sua totalidade. N\u00e3o somente em situa\u00e7\u00f5es derivadas da sua vida sexual, menstrua\u00e7\u00e3o, gravidez, parto e puerp\u00e9rio\u201d2, exemplificando pela necessidade de afastamento das mulheres, em alguns povos, na \u00e9poca de ca\u00e7a, guerra ou colheita.<\/h4>\n<h4>Verificamos nesse afastamento um temor fundamental \u00e0 mulher. Esta ocupa o lugar de enigma, e algo disso persiste. A mulher encarna tal diferen\u00e7a em seu corpo.<\/h4>\n<h4>Neste ponto, Freud fala do narcisismo das pequenas diferen\u00e7as: \u201ccada indiv\u00edduo se diferencia dos demais por um tabu de isolamento pessoal que constitui as pequenas diferen\u00e7as entre as pessoas, que quanto ao restante s\u00e3o semelhantes, e constituem a base dos sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles\u201d3. Poder\u00edamos hipotetizar a repulsa narcisista \u00e0 mulher.<\/h4>\n<h4>Embora Freud diga que o tabu com a mulher em geral n\u00e3o esclarece o tabu da virgindade, abre uma quest\u00e3o sobre o lugar do feminino.<\/h4>\n<h4>Os motivos levantados n\u00e3o explicam o tabu, a inten\u00e7\u00e3o de negar ou evitar ao marido algo que seria insepar\u00e1vel do primeiro ato sexual, mesmo que dali surja uma liga\u00e7\u00e3o intensa da mulher com o marido.<\/h4>\n<h4>A g\u00eanese do tabu tem uma ambival\u00eancia original, que podemos articular \u00e0 alteridade que a mulher representa. A rela\u00e7\u00e3o entre o primeiro coito e a frigidez, estaria de pleno acordo com o perigo ps\u00edquico que o defloramento traz \u00e0 tona. O gozo, pelo avesso, a frigidez, marca um funcionamento pulsional outro, articulado \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o frente \u00e0 sexualidade feminina.<\/h4>\n<h4>Freud destaca a ofensa narc\u00edsica que o coito pode assumir pela destrui\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o (h\u00edmen) e pela perda do valor sexual da mulher dele decorrente. Com maior import\u00e2ncia fala do poder da distribui\u00e7\u00e3o inicial da libido, a fixa\u00e7\u00e3o intensa da libido em desejos sexuais infantis. Nas mulheres, a libido estaria ligada ao pai ou ao irm\u00e3o, sendo o marido sempre um substituto.<\/h4>\n<h4>Destaca a inveja do p\u00eanis anterior \u00e0 fase da escolha do objeto amoroso, mais pr\u00f3xima do narcisismo primitivo do que do objeto de amor. Haveria, portanto, algo do narcisismo feminino em jogo nesta hostilidade, hip\u00f3tese que podemos aprofundar.<\/h4>\n<p>__________________________<\/p>\n<p>1 FREUD, S. \u201cO tabu da virgindade (Contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor III) (1918 [1917]). In: Edi\u00e7\u00e3o Standard. Vol. XI, Imago: Rio de Janeiro. 1970.<\/p>\n<p>2 _______. Op. Cit. P. 183. N.A.: Freud refere-se \u00e0 Crawley (1902), Ploss and Bartels (1891), Frazer (1911) e Havelock Ellis [1913].<\/p>\n<p>3 _______. Op. Cit. P. 184.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paola Salinas (EBP\/AMP) O tabu da virgindade \u00e9 abordado e justificado devido \u00e0 hostilidade e ao desejo de vingan\u00e7a que o defloramento provocaria. Ao desenvolver correla\u00e7\u00f5es sobre o tema, Freud destaca a frigidez como aspecto importante na vida sexual da mulher, articulando ao \u00c9dipo e ao complexo de castra\u00e7\u00e3o. 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