{"id":3236,"date":"2018-08-10T12:50:44","date_gmt":"2018-08-10T15:50:44","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3236"},"modified":"2018-08-10T12:50:44","modified_gmt":"2018-08-10T15:50:44","slug":"ecos-do-trabalho-no-cartel-desconexao-e-desenlace-consideracao-sobre-a-pratica-clinica-com-adolescentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ecos-do-trabalho-no-cartel-desconexao-e-desenlace-consideracao-sobre-a-pratica-clinica-com-adolescentes\/","title":{"rendered":"#ecos do trabalho no Cartel* &#8211; (Des)Conex\u00e3o e desenlace: considera\u00e7\u00e3o sobre a pr\u00e1tica cl\u00ednica com adolescentes"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3226\" aria-describedby=\"caption-attachment-3226\" style=\"width: 176px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3226\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cupid04_005-1.png\" alt=\"\" width=\"176\" height=\"130\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3226\" class=\"wp-caption-text\">Instala\u00e7\u00e3o MAM-SP; Foto: Instagram @vanderem<\/figcaption><\/figure>\n<p>O sonho \u00e9 a Via R\u00e9gia para o Inconsciente, como nos ensina Freud. Dessa forma, tomo a adolesc\u00eancia como a estrada que me permite abrir quest\u00f5es sobre o trabalho da psican\u00e1lise em nossa \u00e9poca. \u00c9 ao lado das novidades que se apresentam nesta cl\u00ednica que compartilho algumas quest\u00f5es que penso sobre o enigma que enla\u00e7a corpo e sintoma, na perspectiva de articular como participa a palavra na dire\u00e7\u00e3o de um tratamento. O que faz marca na subjetividade dos jovens hoje?<\/p>\n<p>Entro no tema da VIII Jornadas da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise da Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo levada pela investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que esta fase de transi\u00e7\u00e3o me permite encontrar na rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o Outro. \u201cO Outro \u00e9 o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, \u00e9 o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer. E eu disse \u00e9 do lado desse vivo, chamado \u00e0 subjetividade, que se manifesta essencialmente a puls\u00e3o.\u201d [1]\n<p>Recorto o significante (des)conex\u00e3o: na adolesc\u00eancia estamos justamente no est\u00e1gio do deselance do Romance Familiar. Uma &#8220;trans-forma\u00e7\u00e3o&#8221; em que o sujeito pode se desligar do objeto primordial de amor para tomar posi\u00e7\u00e3o frente a um objeto eleito como causa de seu desejo e construir uma pergunta sobre o que move a vida.<\/p>\n<p>Para sustentar essa articula\u00e7\u00e3o sobre o desenlace, e o que dele me interessa at\u00e9 aqui, escolho o conceito de repeti\u00e7\u00e3o desenvolvido por Lacan em seu semin\u00e1rio livro 11, Os quatro conceitos fundamentais, por dois aspectos: primeiro por ser por meio deste conceito que Lacan introduz o Real e por ser o sujeito, efeito dos significantes, reflexo do bin\u00f4mio operador ( S1 S2 ). Tomo como \u00e2ncora o desenvolvimento dado por Lacan ao fragmento do sonho: &#8220;Pai, n\u00e3o v\u00eas que estou queimando?&#8221;, ponto precioso de demonstra\u00e7\u00e3o onde o simb\u00f3lico n\u00e3o recobre, por sua vez, todo o real. Escuto essa passagem interessada no modo como os significantes marcam um corpo e operam nas bordas da estrutura ps\u00edquica. &#8220;O lugar do Real, que vai do trauma \u00e0 fantasia, na medida em que a fantasia nunca \u00e9 mais do que a tela que dissimula algo de absolutamente primordial, de determinante na fun\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o. A\u00ed est\u00e1 o que precisamos demarcar agora.&#8221; [2]\n<p>Neste aspecto, vale destacar que, mais ou menos, sabemos em que idade essa fase de transi\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia para a puberdade come\u00e7a; contudo, em pleno s\u00e9culo XXI, n\u00e3o podemos afirmar onde ela termina. Da\u00ed a import\u00e2ncia para a psican\u00e1lise de tomarmos a investiga\u00e7\u00e3o caso a caso.<\/p>\n<p>A vida cotidiana sofre modifica\u00e7\u00f5es: s\u00e3o novas as configura\u00e7\u00f5es familiares, as leis tornaram a escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria e o Estado judicializa o impasse. A incid\u00eancia do discurso da ci\u00eancia, que prop\u00f5e um para todos, deixa de fora a singularidade de cada um e produz segrega\u00e7\u00e3o. O capitalismo com o excesso e a velocidade contribui com os modos de gozo, os objetos n\u00e3o s\u00e3o feitos para durar e sim para consumir. Assim o tempo para a constru\u00e7\u00e3o das tramas de fic\u00e7\u00e3o, presentes na novela familiar, tamb\u00e9m est\u00e3o afetadas.<\/p>\n<p>Sirvo-me dos efeitos de forma\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica das psicoses, que foi por onde tudo come\u00e7ou na Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. Cl\u00ednica essa cujo \u00edndice da foraclus\u00e3o do significante do Nome do Pai revelou todo o trabalho poss\u00edvel, tomando o inconsciente estrutural de Lacan como b\u00fassola na localiza\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico, portanto, a posi\u00e7\u00e3o do sujeito e sua possibilidade ou n\u00e3o de ser representado na cadeia de significantes em um trabalho sob transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Do ensino de Lacan, observar os \u00edndices do desencadeamento \u00e9 o que me faz pensar o desenlace, conex\u00f5es e (des)conex\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o de cada caso <strong>cl\u00ednico<\/strong> e seguir na disciplina de testemunhar a inven\u00e7\u00e3o de cada um, para empreender o tratamento do Outro. Como o analista est\u00e1 com seu desejo, frente \u00e0s telas virtuais, novas paisagens do encontro com o sintoma e com os modo de gozo? H\u00e1 no adolescente, uma dificuldade de fazer uso dos discursos estabelecidos e dos ideais, de modo a organizar o real da sexualidade que se manifesta.<\/p>\n<p>Sabemos, com Freud, que tudo sobre o amor come\u00e7a no \u00c9dipo. Trata-se, como afirma Damasia Amadeo de Freda [3], de um tempo de \u201crebeldia orientada\u201d. Com os transbordamentos presentes na cl\u00ednica, diz Damasia, estamos no tempo da &#8220;rebeldia desorientada&#8221;. Passamos de uma fase na cl\u00ednica da met\u00e1fora paterna para o desenvolvimento epist\u00eamico de Lacan a respeito da cl\u00ednica do sintoma. Tempo no qual os tr\u00eas registros se apresentam an\u00e1logos.<\/p>\n<p>Entre Nome do Pai e sintoma, retorno para a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, verifico a ang\u00fastia que se manifesta na sess\u00e3o, no gozo n\u00e3o falicizado, na agita\u00e7\u00e3o do corpo, na auto-mutila\u00e7\u00e3o, no ato infracional, no uso abusivo de subst\u00e2ncias, na <em>zwang<\/em> dos jogos e &#8220;WhatsApp&#8221;, na viol\u00eancia sexual ou na tentativa de suic\u00eddio. Nesta cl\u00ednica com adolesc\u00eancias onde prevalece o imagin\u00e1rio e t\u00e3o pouco podemos contar com o simb\u00f3lico, \u00e9 preciso apostar na aventura da transfer\u00eancia, para que cada um possa construir o seu la\u00e7o com a palavra.<\/p>\n<p>Como abordar o Real presente e em jogo na experi\u00eancia? Como o analista entra em cena?<\/p>\n<p>Cada adolescente comparece a seu tempo, fala pouco sobre suas tramas de amor, todavia, sustenta uma presen\u00e7a no tratamento. As &#8220;selfies&#8221; aparecem como um novo funcionamento do est\u00e1dio do espelho: aos poucos mostra o trabalho que o corpo d\u00e1 e oscila entre sil\u00eancio e fala\u00e7\u00e3o, marcas de excesso.<\/p>\n<p>Quando diante de uma urg\u00eancia subjetiva, a voz de Lacan: \u201cJ\u2019attends. Mais je n\u2019espep\u00e8re rien\u201d[4]: &#8220;Espero e n\u00e3o tenho expectativas&#8221; me orienta no discurso. Essa frase opera em mim como uma chave que modula a instala\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia com cada adolescente e a mantenho sempre no bolso, assim posso abrir com eles, o meu desejo de saber sobre a cadeia borromeana.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, me parece que a cl\u00ednica mant\u00e9m a estrutura de um trap\u00e9zio fixo de balan\u00e7o duplo, cuja a modalidade do n\u00famero apresentado comp\u00f5e o tempo a\u00e9reo e n\u00e3o apenas o tempo em solo. Imagem que empresto da linguagem art\u00edstica do circo e que traduz, ao meu ver, o cen\u00e1rio onde o tratamento se desenrola.<\/p>\n<p>Quando um adolescente chega &#8220;causando&#8221; \u00e9 preciso apostar de modo a entrever a cena e poder introduzir algo da palavra no que se apresenta no registro do imagin\u00e1rio, restaurar com eles uma suposi\u00e7\u00e3o de saber, com o apoio do simb\u00f3lico. Ora estamos nos mastros e acompanhamos o seu corpo, ora como rede, acolhendo uma palavra que pode apontar para uma interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo que, na repeti\u00e7\u00e3o, varia, modula, \u00e9 apenas aliena\u00e7\u00e3o de seu sentido. (&#8230;) Mas, este deslizamento vela aquilo que \u00e9 o verdadeiro segredo do l\u00fadico, isto \u00e9, a diversidade mais radical que constitui a repeti\u00e7\u00e3o em si mesma.(&#8230;) Esta exig\u00eancia de uma consist\u00eancia distinta dos detalhes de sua narrativa significa que a realiza\u00e7\u00e3o do significante n\u00e3o poder\u00e1 jamais ser bastante cuidadosa em sua memoriza\u00e7\u00e3o para chegar a designar a primazia da signific\u00e2ncia como tal.&#8221;[5]\n<p>Apostamos estar ali para despertar e para acompanhar o trabalho dessa rede de significantes, enquanto trama e teia, a possibilidade de tecer algo simb\u00f3lico frente ao real. \u00c9 ali que esperamos sem expectativas que o sujeito compare\u00e7a ao seu tempo com uma elabora\u00e7\u00e3o que talvez inclua seu sexo.<\/p>\n<p>A cada sess\u00e3o, uma chegada e uma sa\u00edda, conex\u00e3o e desconex\u00e3o para um poss\u00edvel la\u00e7o; um tempo sempre in\u00e9dito e um minuto a mais para sustentar uma experi\u00eancia pela palavra e o que ele escuta no que vem ali dizer, que pode afetar o sintoma. Se a transfer\u00eancia, por assim dizer,&#8221; inventiva&#8221;, se instala, cada pequeno encontro com o analista j\u00e1 \u00e9 contabiliza\u00e7\u00e3o de gozo. Movimento do sujeito que opera em busca de uma nomea\u00e7\u00e3o capaz de produzir uma leitura sobre o que lhe \u00e9 mais singular: construir uma nova alian\u00e7a entre o seu corpo e sua palavra na cena da vida.<\/p>\n<h6><strong><em> Emelice Prado Bagnola<\/em><\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>* Cartel: As trans-forma\u00e7\u00f5es da puberdade, declarado \u00e0 Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e conclu\u00eddo em 2017. Integrantes: Milena Vicari Crastelo, Paola Salinas, S\u00edlvia Sato, Emelice Prado Bagnola e, como Mais Um, Cristina Drummond<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>1.LACAN, J. ( 1964 ). <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pag. 193 &#8211; 194<\/h6>\n<h6>2.Ibid, pag., 61<\/h6>\n<h6>3.AMADEU, Damasia De.Freda. El adolescente atual: nociones cl\u00ednicas. Universidade Nacional de Gral. San Martin: UNSAM Edita, s\u00e9rie Tych\u00e9. 2015<\/h6>\n<h6>4. LACAN, J. ( 1975 &#8211; 1976 ). <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, pag. 133<\/h6>\n<h6>5. LACAN, J. ( 1964 ). <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pag. 62<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sonho \u00e9 a Via R\u00e9gia para o Inconsciente, como nos ensina Freud. 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