{"id":3233,"date":"2018-08-10T13:05:43","date_gmt":"2018-08-10T16:05:43","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3233"},"modified":"2018-08-10T13:05:43","modified_gmt":"2018-08-10T16:05:43","slug":"orientacao-amor-e-verdade-mentirosa-uma-conjectura-sobre-eros-e-psique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/orientacao-amor-e-verdade-mentirosa-uma-conjectura-sobre-eros-e-psique\/","title":{"rendered":"#Orienta\u00e7\u00e3o &#8211; Amor e Verdade Mentirosa: Uma conjectura sobre Eros e Psiqu\u00ea"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3245\" aria-describedby=\"caption-attachment-3245\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3245 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/cupid04_0031-1.png\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"267\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3245\" class=\"wp-caption-text\">Psiche sorprende Amore, dipinto di Giovanni Francesco Zucchi conservato alla Galleria Borghese di Roma Credito fotografico obbligatorio: Archivi Alinari, Firenze<\/figcaption><\/figure>\n<p>A verdade mentirosa foi formulada por Lacan no <em>Pref\u00e1cio \u00e0<\/em> <em>Edi\u00e7\u00e3o Inglesa<\/em> <em>do Semin\u00e1rio 11<\/em>.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Ele come\u00e7a seu escrito enfatizando a rela\u00e7\u00e3o entre verdade e mentira, \u201cn\u00e3o h\u00e1 verdade que, ao passar pela aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o minta\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, para depois discorrer sobre analisantes e analistas desde Freud, colocar nisso sua \u201cpitada de sal\u201d, a <em>histoeria <\/em>(hist\u00f3ria\/histeria) e, sobretudo, falar do passe como estando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o \u201cdaqueles que se arriscam a testemunhar da melhor maneira poss\u00edvel sobre a verdade mentirosa.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Ou seja, chegar ao final da an\u00e1lise e ser capaz de <em>historisterizar<\/em> a si mesmo, substituindo a cren\u00e7a na verdade de sua hist\u00f3ria pela constata\u00e7\u00e3o de que se trata de uma verdade mentirosa. A histeria aparece no neologismo <em>histoeria<\/em> por ser a \u201cgrande l\u00edngua\u201d da neurose (a neurose obsessiva \u00e9 apenas o seu dialeto, como diz Freud em \u201cO Homem dos Ratos\u201d) e, tamb\u00e9m, pela posi\u00e7\u00e3o do discurso hist\u00e9rico no giro dos quatro discursos, como o mais pr\u00f3ximo do discurso anal\u00edtico, transforma\u00e7\u00e3o discursiva, portanto, a ser alcan\u00e7ada nas proximidades do final da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Tomando por essa vertente, a \u201ctrag\u00e9dia\u201d de Eros e Psiqu\u00ea pode ser uma boa met\u00e1fora do n\u00f3 estabelecido no final da an\u00e1lise entre verdade, mentira, histeria e, por conseguinte, verdade mentirosa. Uma elucubra\u00e7\u00e3o relacionada ao Recenseamento do Campo Freudiano, terceira Se\u00e7\u00e3o estabelecida por Lacan no Ato de Funda\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, destinada a aproximar a psican\u00e1lise das ci\u00eancias conjecturais, como a antropologia estrutural, a hist\u00f3ria, a filosofia, a l\u00f3gica, a m\u00fasica, a arte.<\/p>\n<p>Lacan deteve-se longamente sobre o mito de Eros e Psiqu\u00ea no Semin\u00e1rio 8<em>.<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Interessou-lhe precisamente a rela\u00e7\u00e3o entre Psiqu\u00ea e o complexo de castra\u00e7\u00e3o, discuss\u00e3o \u00e0 qual dedica todo um cap\u00edtulo do Semin\u00e1rio, e bem representada no quadro <em>Psiche sorprende Amore<\/em>, de Jacopo Zucchi (1589), pintor maneirista. O quadro, citado por Lacan no Semin\u00e1rio<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> e reproduzido acima, fixa na pintura o momento exato no qual Psiqu\u00ea quebra o pacto que havia celebrado com Eros: ela jamais o veria, a n\u00e3o ser na mais completa escurid\u00e3o. Ao iluminar o amado com uma lamparina de azeite e se embevecer ao deparar-se com sua beleza divina, deixa cair uma gota do azeite em seu dorso. Na outra m\u00e3o, uma adaga, um trinchante. Um objeto pronto para cortar, castrar. Eros, machucado, assustado e surpreso, foge&#8230;<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Lacan analisa o quadro de Zucchi chamando aten\u00e7\u00e3o para o buqu\u00ea de flores no primeiro plano: \u201cSua presen\u00e7a [do buqu\u00ea] serve para recobrir o que \u00e9 para se recobrir e que era menos o falo amea\u00e7ado de Eros [&#8230;] do que o ponto preciso de uma presen\u00e7a ausente, uma aus\u00eancia presentificada.\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Portanto, ao recobrir o falo de Eros, o buqu\u00ea acaba por marc\u00e1-lo pela aus\u00eancia, pois, por tr\u00e1s das flores n\u00e3o h\u00e1 nada. O que Psiqu\u00ea estaria a ponto de cortar j\u00e1 desapareceu, pois o \u00f3rg\u00e3o s\u00f3 pode ser abordado se transformado em significante. E, nessa transforma\u00e7\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o desaparece, e sua aus\u00eancia-presen\u00e7a como falo representa, justamente, o significante da falta.<\/p>\n<p>Assim, o encontro faltoso entre Eros (o Amor) e Psiqu\u00ea, apresentado no quadro, pode ilustrar tanto o objeto do desejo como a dial\u00e9tica da castra\u00e7\u00e3o e seu paradoxo (como s\u00f3 o significante pode abordar e trazer o \u00f3rg\u00e3o, e considerando que a palavra mata a coisa, n\u00e3o h\u00e1 nada a ser castrado).<\/p>\n<p>O ato de Psiqu\u00ea faz com que ela ganhe corpo, nas\u00e7a, mostre-se f\u00e1lica em sua histeria, e, ao mesmo tempo, no instante seguinte, esse ato faz desaparecer o que ela quis revelar e capturar, ou seja, o objeto de seu desejo: apenas por um \u00e1timo pode realizar o desejo de ver, o desejo de saber. Mesmo advertida pelas irm\u00e3s para n\u00e3o desvelar o amado, levou esse desejo de saber \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, sendo depois submetida \u00e0 vingan\u00e7a de Afrodite, m\u00e3e de Eros.<\/p>\n<p>\u201cPsiqu\u00ea estava muito feliz numa rela\u00e7\u00e3o com aquilo que n\u00e3o era, absolutamente, um significante, mas a realidade de seu amor por Eros. Mas, como \u00e9 Psiqu\u00ea, ela quer saber. Ela se coloca a quest\u00e3o porque a linguagem j\u00e1 existe e n\u00e3o se passa a vida apenas fazendo amor, mas tamb\u00e9m papeando com as irm\u00e3s. [&#8230;] Ela quer possuir sua felicidade e isso n\u00e3o \u00e9 simples [&#8230;] possuir sua felicidade \u00e9 poder mostr\u00e1-la, dar conta dela, arrumar suas flores, igualar-se \u00e0s irm\u00e3s mostrando que tem coisa melhor do que elas. E \u00e9 por isso que Psiqu\u00ea surge na noite com sua luz e tamb\u00e9m com seu pequeno trinchante.\u201d <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>A celebra\u00e7\u00e3o do pacto \u00e9, do lado de Psiqu\u00ea, mentirosa a princ\u00edpio, pois a hist\u00e9rica n\u00e3o poria em risco a descoberta da verdade em fun\u00e7\u00e3o de qualquer pacto significante \u2013 \u201co sujeito s\u00f3 afirma a dimens\u00e3o da verdade como original no momento em que se serve do significante para mentir.\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> Por\u00e9m, ilustra bem a realiza\u00e7\u00e3o de uma verdade mentirosa, uma verdade que n\u00e3o subsiste a qualquer tipo de confronto com a realidade. Estamos aqui com Lacan em maio de 1976, quando escreveu o <em>Pref\u00e1cio<\/em>, portanto em seu ultim\u00edssimo ensino. Se a verdade mentirosa n\u00e3o se sustenta na realidade, sustenta-se no real, pois somente esse registro pode cernir a passagem da histeria, que tem a verdade como causa de desejo, \u00e0 <em>histoeria<\/em> e sua verdade mentirosa. Neste ponto, Lacan trata o inconsciente como real, caso se acredite nele. E o real funciona como tamp\u00e3o da verdade mentirosa: \u201ca falta da falta constitui o real, que s\u00f3 sai assim, como tamp\u00e3o. Tamp\u00e3o que \u00e9 sustentado pelo termo imposs\u00edvel, do qual o pouco que sabemos em mat\u00e9ria de real mostra a antinomia com qualquer verossimilhan\u00e7a.\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>O trinchante na m\u00e3o direita de Psiqu\u00ea poderia indicar, al\u00e9m do desejo de contemplar o corpo interditado de Eros, al\u00e9m de saber sobre o sexo, que ela gostaria de <em>ter<\/em> o \u00f3rg\u00e3o encoberto pelas flores? O desejo sempre insatisfeito da hist\u00e9rica e seu complexo de castra\u00e7\u00e3o teriam a\u00ed uma resolu\u00e7\u00e3o, uma possibilidade de satisfa\u00e7\u00e3o? Estaria, pois, amea\u00e7ado o suposto falo de Eros? N\u00e3o, pois a causa do desejo de Psiqu\u00ea, isto \u00e9, daquilo que falta, o objeto <em>a<\/em>, vincula-se ao olhar. \u201cA miragem da verdade, da qual s\u00f3 se pode esperar a mentira, [&#8230;] n\u00e3o tem outro limite sen\u00e3o a satisfa\u00e7\u00e3o que marca o fim da an\u00e1lise.\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> Psiqu\u00ea pagou caro, mas experimentou seu pequeno quinh\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O olhar de Psiqu\u00ea, causa de seu desejo, despertou Eros e, sobretudo, podemos conjecturar, \u201cdespertou\u201d o real. Nesse momento, sob o impacto do encontro com o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se inscrever, sob o impacto do encontro com a falta, a histeria de Psiqu\u00ea poderia ter se transformado em <em>histoeria<\/em>, como em uma an\u00e1lise vertiginosa e fulgurante.<\/p>\n<p>Faltaria o passe para dar testemunho de sua verdade mentirosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Maria do Carmo Dias Batista<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro, JZE, 2003, p. 567\/569.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 567.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Idem, ibidem<\/em>, p. 569.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. \u201cAto de Funda\u00e7\u00e3o\u201d. In: <em>Outros Escritos.<\/em> Op. Cit., p. 237.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. O Semin\u00e1rio \u2013 livro 8<em> \u2013 A Transfer\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro, JZE, 1992, p. 220\/236.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 220.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> As desventuras de Psiqu\u00ea foram retratadas pelo barroco Peter Paul Rubens, meio s\u00e9culo depois (1636), com o mesmo tema, recortando o mesmo instante, assim como Rafael o faz no teto e nos muros do pal\u00e1cio Farnesina, em Roma, apoiado no texto de Apuleio sobre o mito. LACAN, J. Op. Cit., p. 224.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. O Semin\u00e1rio \u2013 livro 8. Op. Cit., p. 235.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LACAN, J. O Semin\u00e1rio \u2013 livro 8. Op. Cit., p. 241.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, J. O Semin\u00e1rio \u2013 livro 8. Op. Cit., p. 230.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LACAN, J. \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d. Op. Cit., p. 569.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> LACAN, J. \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d. Op. Cit., p. 568.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdade mentirosa foi formulada por Lacan no Pref\u00e1cio \u00e0 Edi\u00e7\u00e3o Inglesa do Semin\u00e1rio 11.[1] Ele come\u00e7a seu escrito enfatizando a rela\u00e7\u00e3o entre verdade e mentira, \u201cn\u00e3o h\u00e1 verdade que, ao passar pela aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o minta\u201d[2], para depois discorrer sobre analisantes e analistas desde Freud, colocar nisso sua \u201cpitada de sal\u201d, a histoeria (hist\u00f3ria\/histeria) e,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3233","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-biblioteca-secao-sao-paulo","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3233\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3233"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}