{"id":3057,"date":"2018-06-15T03:04:32","date_gmt":"2018-06-15T06:04:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3057"},"modified":"2018-06-15T03:04:32","modified_gmt":"2018-06-15T06:04:32","slug":"trechos-dos-seminarios-de-jacques-lacan-por-temas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/trechos-dos-seminarios-de-jacques-lacan-por-temas\/","title":{"rendered":"TRECHOS DOS SEMIN\u00c1RIOS DE JACQUES LACAN (POR TEMAS)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Sobre o AMOR:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSartre observa muito justamente que, no vivido do amor, o que exigimos do objeto pelo qual desejamos ser amados n\u00e3o \u00e9 um engajamento completamente livre. o pacto inicial, o <em>voc\u00ea \u00e9 minha mulher<\/em> ou <em>voc\u00ea \u00e9 meu esposo<\/em>, ao qual fa\u00e7o frequentemente alus\u00e3o quando lhes falo do registro simb\u00f3lico, n\u00e3o tem verdadeiramente nada na sua abstra\u00e7\u00e3o corneliana para saturar as nossas exig\u00eancias fundamentais. \u00c9 numa esp\u00e9cie de enviscamento corporal da liberdade que se exprime a natureza do desejo. Querem os nos tomar para o outro um objeto que tenha para ele o \u00b7mesmo valor de limite que tem, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua liberdade, o seu pr\u00f3prio corpo. Queremos nos tornar para o outro n\u00e3o somente aquilo em que a sua liberdade se aliena &#8211; sem nenhuma d\u00favida, \u00e9 preciso que a liberdade intervenha, porque o engajamento \u00e9 um elemento essencial da nossa exig\u00eancia de sermos amados &#8211; mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m que seja muito mais do que um engajamento livre. \u00c9 preciso que uma liberdade aceite se renunciar a si mesma para estar, a partir de ent\u00e3o, limitada a tudo que podem ter de caprichoso, de imperfeito, e mesmo de inferior, os caminhos para os quais a arrasta o estar cativado por esse objeto que somos n\u00f3s mesmos.\u201d (Semin\u00e1rio 1, p.248)<\/p>\n<p>\u201cSe o amor est\u00e1 inteiramente preso e enviscado nessa intersubjetividade imagin\u00e1ria, na qual desejo centrar a aten\u00e7\u00e3o de voc\u00ea, ele exige, na sua forma acabada, a participa\u00e7\u00e3o no registro do simb\u00f3lico, a troca. liberdade-pacto, que se encarna na palavra dada. A\u00ed se escalona uma zona em que voc\u00eas poder\u00e3o distinguir planos de identifica\u00e7\u00f5es, como dizemos na nossa linguagem frequentemente imprecisa, e toda uma gama de nuan\u00e7as, todo um leque de formas que agem entre o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico.\u201d (idem)<\/p>\n<p><strong>Fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cNunca se fala tanto nos termos mais crus do amor do que quando a pessoa \u00e9 transformada numa fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Vemos aqui funcionar em estado puro o m\u00f3vel do lugar ocupado pela visada tendencial na sublima\u00e7\u00e3o, ou seja, que aquilo que o homem demanda, em rela\u00e7\u00e3o ao qual nada pode fazer sen\u00e3o demandar, \u00e9 ser privado de alguma coisa de real. (&#8230;) essa demanda derradeira de ser privado de alguma coisa de real \u00e9 essencialmente ligada \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o primitiva que se encontra inteiramente na significa\u00e7\u00e3o do dom de amor.\u201d (Semin\u00e1rio 7, p.186)<\/p>\n<p><strong>Homem\/mulher, casamento:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO amor que a mulher d\u00e1 a seu esposo n\u00e3o visa ao indiv\u00edduo, nem mesmo idealizado \u2013 eis o perigo daquilo que se denomina a vida em comum, a idealiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para sustentar &#8211; visa, por\u00e9m, a um ser para al\u00e9m. O amor sagrado propriamente falando, aquele que constitui o la\u00e7o matrimonial, vai da mulher \u00e0quilo que Proudhon denomina todos os homens. Assim como, atrav\u00e9s da mulher, s\u00e3o todas as mulheres que a fidelidade do esposo visa.\u201d (Semin\u00e1rio 2, p.327)<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) para que a situa\u00e7\u00e3o seja sustent\u00e1vel, \u00e9 preciso que a posi\u00e7\u00e3o seja triangular. Para que o casal se mantenha no plano humano, \u00e9 preciso que a\u00ed esteja um deus. \u00c9 ao homem universal, ao homem velado, do qual todo ideal \u00e9 apenas substituto idol\u00e1trico, que se dirige o amor, este famoso amor genital do qual fazemos festas e chacotas.\u201d (Idem, p.330)<\/p>\n<p>\u201cQue n\u00e3o apenas como La Rochfoucauld disse, &#8220;h\u00e1 bons casamentos, mas n\u00e3o os h\u00e1 deliciosos&#8221;, podemos acrescentar que, desde ent\u00e3o, tudo se deteriorou um pouco mal, j\u00e1 que n\u00e3o os h\u00e1 tampouco bons, digo, dentro da perspectiva do desejo. Seria, todavia, um pouco inveross\u00edmil que tais prop\u00f3sitos n\u00e3o possam ser postos no primeiro plano, numa assembleia de analistas. Isso n\u00e3o faz de voc\u00eas os propagandistas de uma er\u00f3tica nova, isso lhes situa o que voc\u00eas t\u00eam a fazer em cada caso particular: t\u00eam a fazer exatamente o que cada um tem a fazer para si e pelo motivo que o leva a maior ou menor necessidade de sua ajuda, ou seja, aguardando o astronauta da er\u00f3tica futura, solu\u00e7\u00f5es artesanais.\u201d (Semin\u00e1rio 9, 14 de mar\u00e7o de 1962 \u2013 tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/p>\n<p><strong>\u00c9 dar do que n\u00e3o se tem; objeto fetiche:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO que interv\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o de amor, o que \u00e9 demandado como signo de amor nunca passa de alguma coisa que s\u00f3 vale como signo. Ou, para ir ainda mais adiante, n\u00e3o existe maior dom poss\u00edvel, maior signo de amor que o dom daquilo que n\u00e3o se tem. Mas vamos observar bem que a dimens\u00e3o do dom s\u00f3 existe com a introdu\u00e7\u00e3o da lei. Como nos afirma toda a medita\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, o dom \u00e9 algo que circula, o dom que voc\u00eas fazem \u00e9 sempre aquele que receberam. Mas quando se trata do dom entre dois sujeitos, o ciclo de dons vem ainda de outra parte, pois o que estabelece a rela\u00e7\u00e3o de amor \u00e9 que o dom \u00e9 dado, se podemos diz\u00ea-lo, em troca de nada.\u201d (Semin\u00e1rio 4, p.142)<\/p>\n<p>\u201cNo ato do amor, \u00e9 a mulher que recebe realmente, ela recebe bem mais do que d\u00e1. Tudo nos indica, e a experi\u00eancia anal\u00edtica o acentuou, que n\u00e3o existe posi\u00e7\u00e3o mais captadora, at\u00e9 mesmo mais devoradora no plano imagin\u00e1rio. Se isso \u00e9 invertido na afirma\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, que a mulher se d\u00e1, \u00e9 na medida em que deve ser assim simbolicamente, a saber, que ela deve dar alguma coisa em troca daquilo que recebe, isto \u00e9, o falo simb\u00f3lico. A\u00ed est\u00e1, pois, o fetiche, nos diz Freud, representando o falo como ausente, o falo simb\u00f3lico. Como n\u00e3o ver que \u00e9 necess\u00e1ria esta esp\u00e9cie de invers\u00e3o inicial para que possamos compreender coisas que, do contr\u00e1rio, seriam paradoxais? Por exemplo, \u00e9 sempre o menino que \u00e9 fetichista, nunca a menina. Se tudo residisse no plano da diferen\u00e7a, ou mesmo da inferioridade imagin\u00e1ria, entre os dois sexos, seria de prefer\u00eancia naquele que \u00e9 realmente privado do falo que os fetichismos e deveria declarar mais abertamente. Ora, n\u00e3o \u00e9 nada disso. O fetichismo \u00e9 excessivamente raro na mulher, no sentido pr\u00f3prio e individualizado em que ele se encarna num objeto que podemos considerar como respondendo, de uma maneira simb\u00f3lica, ao falo como ausente.\u201d (Idem, p.156\/157)<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que lhes repiso desde sempre que o amor \u00e9 dar o que n\u00e3o se tem. \u00c9 esse, inclusive, o princ\u00edpio do complexo de castra\u00e7\u00e3o. Para poder ter o falo, para poder fazer uso dele, \u00e9 preciso, justamente, n\u00e3o o ser. Quando voltamos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es em que parecemos s\u00ea-lo \u2013 porque tamb\u00e9m o somos, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida disso quanto ao homem, e, quanto \u00e0 mulher, voltaremos a dizer por que incid\u00eancia ela \u00e9 levada a s\u00ea-lo -, pois bem, \u00e9 sempre muito perigoso.\u201d (Semin\u00e1rio 10, p.122)<\/p>\n<p>\u201cComo \u00e9 que o a, objeto da identifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m o a, objeto do amor? Ele o \u00e9 na medida em que arranca metaforicamente o amante, para empregar o termo medieval e tradicional, do status em que ele se apresenta, o de am\u00e1vel, <em>eromenos<\/em>, para transform\u00e1-lo em erastes, sujeito da falta, mediante o que ele se constitui propriamente no amor. \u00c9 isso que lhe d\u00e1, se assim posso dizer, o instrumento do amor, uma vez que se ama, que se \u00e9 amante &#8211; voltaremos a isso &#8211; com aquilo que n\u00e3o se tem.\u201d (Idem, p.131-132)<\/p>\n<p><strong>E desejo sexual:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO desejo, seja ele qual for, em estado de desejo puro, \u00e9 algo que, arrancado do terreno das necessidades, ganha uma forma de condi\u00e7\u00e3o absoluta em rela\u00e7\u00e3o ao Outro. Ele \u00e9 a margem, o resultado da subtra\u00e7\u00e3o, por assim dizer, da exig\u00eancia da necessidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 demanda de amor. Inversamente, o desejo apresenta-se como aquilo que, na demanda de amor, \u00e9 rebelde a qualquer redu\u00e7\u00e3o a uma necessidade, porque, na realidade, n\u00e3o satisfaz a nada sen\u00e3o ele mesmo, ou seja, ao desejo como condi\u00e7\u00e3o absoluta. \u00c9 por essa raz\u00e3o que o desejo sexual entra nesse lugar, na medida em que se apresenta em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito, em rela\u00e7\u00e3o ao indiv\u00edduo, como essencialmente problem\u00e1tico, e nos dois planos da necessidade e da demanda de amor.\u201d (Semin\u00e1rio 5, p.395)<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1, por um lado, a posi\u00e7\u00e3o do Outro como Outro, como lugar da fala, aquele a quem \u00e9 endere\u00e7ada a demanda, aquele cuja irredutibilidade radical manifesta-se por ele poder dar amor, isto \u00e9, alguma coisa que \u00e9 t\u00e3o mais totalmente gratuita na medida em que n\u00e3o existe nenhum suporte do amor, j\u00e1 que, como eu lhes disse, dar amor \u00e9 n\u00e3o dar nada que se tenha, pois \u00e9 justamente por n\u00e3o se o ter que se trata de amor. Mas h\u00e1 uma discord\u00e2ncia entre o que h\u00e1 de absoluto na subjetividade do Outro que d\u00e1 ou n\u00e3o d\u00e1 amor e o fato de que, para haver acesso a ele como objeto de desejo, \u00e9 necess\u00e1rio que ele se fa\u00e7a totalmente objeto. \u00c9 nesse desvio vertiginoso, nauseante, para cham\u00e1-lo por seu nome, que se situa a dificuldade de acesso na abordagem do desejo sexual.\u201d(Idem, p.397)<\/p>\n<p><em><strong>Hainamoration<\/strong><\/em><strong>:<\/strong><\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) quanto mais o homem se possa prestar, para a mulher, \u00e0 confus\u00e3o com Deus, quer dizer, aquilo de que ela goza, menos ele odeia e menos ele \u00e9 \u2013 e uma vez que, depois de tudo, n\u00e3o h\u00e1 amor sem \u00f3dio, menos ele ama\u201d. (Semin\u00e1rio 20, p.95)<\/p>\n<p><strong>Mal-estar; <\/strong><em><strong>ame o pr\u00f3ximo como a si mesmo<\/strong><\/em><strong>:<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar o pr\u00f3ximo \u00e9 um ser malvado, cuja natureza profunda voc\u00eas viram ser desvelada em sua escrita. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Freud diz mais (&#8230;) meu amor \u00e9 algo precioso, n\u00e3o vou d\u00e1-lo inteiramente a cada um que se apresente como sendo o que \u00e9, s\u00f3 porque ele se aproximou. Encontram-se aqui observa\u00e7\u00f5es de Freud que s\u00e3o just\u00edssimas, e que apresentam uma inflex\u00e3o emocionante no que se refere ao que vale a pena ser amado. Ele revela como se deve amar o filho de um amigo, pois, se desse filho o amigo for privado, o sofrimento ser\u00e1 intoler\u00e1vel. Toda a concep\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica dos bens est\u00e1 a\u00ed viva nesse homem verdadeiramente homem, e que nos diz as coisas mais sens\u00edveis e\u00a0mais sensatas sobre o que vale a pena partilhar com ele, esse bem que \u00e9 o nosso amor. Mas o que ele elude \u00e9 que talvez seja justamente ao tomar essa via que percamos o acesso ao gozo. \u00c9 da natureza do bem ser altru\u00edsta. Mas o amor ao pr\u00f3ximo n\u00e3o \u00e9 isso. Freud faz com que se perceba isso, sem articul\u00e1-lo plenamente. (&#8230;) cada vez que Freud sede t\u00eam, como que horrorizado, diante da consequ\u00eancia do mandamento do amor ao pr\u00f3ximo, o que surge \u00e9 a presen\u00e7a dessa maldade profunda que habita no pr\u00f3ximo. Mas, da\u00ed, ela habita tamb\u00e9m em mim. E o que me \u00e9 mais pr\u00f3ximo do que esse \u00e2mago em mim mesmo que \u00e9 ode meu gozo, do que n\u00e3o me ouso aproximar? Pois assim que me aproximo &#8211; \u00e9 esse o sentido do <em>Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> -surge essa insond\u00e1vel agressividade diante da qual eu recuo, que retorno contra mim, e que vem, no lugar mesmo da Lei esvanecida, dar seu peso ao que me impede de transpor uma certa fronteira no limite da Coisa. (&#8230;) o gozo de meu pr\u00f3ximo, seu gozo nocivo, seu gozo maligno, \u00e9 ele que se prop\u00f5e como o verdadeiro problema para o meu amor. (Semin\u00e1rio 7, p.227-229)<\/p>\n<p><strong>Civiliza\u00e7\u00e3o; sublima\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPara tratar do amor, assim como para tratar da sublima\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso lembrar o que os moralistas anteriores a Freud (&#8230;) j\u00e1 articularam plenamente, e cujo saber n\u00e3o conv\u00e9m considerarmos ultrapassado: o amor \u00e9 a sublima\u00e7\u00e3o do desejo. Resulta da\u00ed que n\u00e3o podemos, de modo algum, servir-nos do amor como primeiro nem como \u00faltimo termo, por mais primordial que ele se afigure em nossa teoriza\u00e7\u00e3o. O amor \u00e9 um fato cultural (&#8230;). Isso deve incitar-nos a dispor de outra maneira os suportes do que temos a dizer acerca da conjun\u00e7\u00e3o do homem e da mulher no ponto em que o pr\u00f3prio Freud o diz, assinalando que esse desvio poderia ter-se produzido de forma diferente.\u201d (Semin\u00e1rio 10, p.198)<\/p>\n<p><strong>Amor e transfer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cPara os que ouviram meu discurso sobre <em>O banquete<\/em>, o texto de Dora &#8211; naturalmente, primeiro conv\u00e9m voc\u00eas se familiarizarem com ele &#8211; pode lembrar a dimens\u00e3o sempre evitada quando se trata da transfer\u00eancia, a saber, que a transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9, simplesmente, aquilo que reproduz e repete uma situa\u00e7\u00e3o, um ato, uma atitude, um trauma antigo. H\u00e1 sempre uma outra coordenada, que enfatizei a prop\u00f3sito da interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica de S\u00f3crates, ou seja, nominalmente, no caso que estou evocando, um amor presente no real. Nada poderemos compreender da transfer\u00eancia se n\u00e3o soubermos que ela tamb\u00e9m \u00e9 consequ\u00eancia desse amor, desse amor presente, e os analistas devem lembrar-se disso no correr da an\u00e1lise. Esse amor se faz presente de diversas maneiras, mas que ao menos eles se recordem disso, quando ele estiver ali, vis\u00edvel. \u00c9 em fun\u00e7\u00e3o desse amor, digamos, real que se institui o que \u00e9 a quest\u00e3o central da transfer\u00eancia, aquela que o sujeito formula a si mesmo a respeito do <em>\u00e1galma<\/em>, ou seja, o que lhe falta, pois \u00e9 com essa falta que ele ama.\u201d (Idem, p.122)<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) na medida em que o desejo interv\u00e9m no amor e \u00e9 um piv\u00f4 essencial dele, o desejo n\u00e3o diz respeito ao objeto amado. Enquanto essa verdade primordial, a \u00fanica em torno da qual pode girar uma dial\u00e9tica v\u00e1lida do amor, for colocada por voc\u00eas na categoria de um acidente, de uma <em>Erniedrigung<\/em> [humilha\u00e7\u00e3o] da vida amorosa, de um \u00c9dipo segurado pelos p\u00e9s, pois bem, n\u00e3o compreender\u00e3o absolutamente nada da maneira como se deve formular a pergunta referente ao que pode ser o desejo do analista; \u00e9 que \u00e9 preciso partir da experi\u00eancia do amor, como fiz no ano de meu Semin\u00e1rio sobre a transfer\u00eancia, para situar a topologia em que essa transfer\u00eancia pode se inscrever.\u201d (Idem, p.170)<\/p>\n<p>\u201cFui levado a abord\u00e1-lo ap\u00f3s ter colocado que a transfer\u00eancia \u00e9 aquilo que manifesta na experi\u00eancia a atualiza\u00e7\u00e3o da realidade do inconsciente, no que ela \u00e9 sexualidade. Encontro-me parado no que comporta essa afirma\u00e7\u00e3o mesma. Se estamos certos de que a sexualidade est\u00e1 presente em a\u00e7\u00e3o na transfer\u00eancia, \u00e9 na medida em que em certos momentos ela se manifesta a descoberto em forma de amor. \u00c9 disso que se trata.\u201d (Semin\u00e1rio 11, p.165)<\/p>\n<p>\u201cAquilo que surge no efeito de transfer\u00eancia se op\u00f5e \u00e0 revela\u00e7\u00e3o. O amor interv\u00e9m em sua fun\u00e7\u00e3o aqui revelada como essencial, em sua fun\u00e7\u00e3o de tapea\u00e7\u00e3o. O amor, sem d\u00favida, \u00e9 um efeito de transfer\u00eancia, mas em sua face de resist\u00eancia. (&#8230;) o sujeito enquanto assujeitado ao desejo do analista, deseja engan\u00e1-lo dessa sujei\u00e7\u00e3o, fazendo-se amar por ele, propondo por si mesmo essa falsidade essencial que \u00e9 o amor.\u201d (Semin\u00e1rio 11, p.239-240)<\/p>\n<p><strong>Amor, gozo e desejo:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo.\u201d (Semin\u00e1rio 10, p.197)<\/p>\n<p>\u201cA necessidade em que se acha Freud de se referir \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do <em>Ich<\/em>com o real para introduzir a dial\u00e9tica do amor &#8211; enquanto que, propriamente falando, o real neutro \u00e9 o real dessexualizado \u2013 n\u00e3o interveio no n\u00edvel da puls\u00e3o. \u00c9 isto que ser\u00e1 para n\u00f3s o mais enriquecedor, no que concerne a o que devemos conceber da fun\u00e7\u00e3o do amor &#8211; a saber, de sua estrutura fundamentalmente narc\u00edsica. Que haja um real, isto n\u00e3o \u00e9 absolutamente duvidoso. Que o sujeitos \u00f3 tenha rela\u00e7\u00e3o construtiva com esse real na depend\u00eancia estreita do princ\u00edpio do prazer, do princ\u00edpio do prazer n\u00e3o acossado pela puls\u00e3o, a\u00ed est\u00e1 (&#8230;) o ponto de emerg\u00eancia do objeto do amor. Toda a quest\u00e3o \u00e9 saber como esse objeto de amor pode vir a preencher um papel an\u00e1logo ao objeto do desejo &#8211; sobre que equ\u00edvocos repousa a possibilidade para o objeto de se tornar objeto de desejo.\u201d (Semin\u00e1rio 11, p.176)<\/p>\n<p>\u201cO n\u00edvel do <em>Ich<\/em> \u00e9 n\u00e3o-pulsional, e \u00e9 a\u00ed &#8211; eu lhes rogo que leiam atentamente o texto &#8211; que Freud funda o amor. Tudo que \u00e9 assim definido no n\u00edvel do <em>Ich<\/em> s\u00f3 toma valor sexual, s\u00f3 passa da <em>Erhaltungstrieb<\/em>, da conserva\u00e7\u00e3o, ao <em>Sexualtrieb<\/em>, em fun\u00e7\u00e3o da apropria\u00e7\u00e3o de cada um desses campos, sua apreens\u00e3o, por uma das puls\u00f5es parciais(&#8230;). A\u00ed est\u00e1 ent\u00e3o aonde Freud entende assentar as bases do amor. \u00c9 somente om a atividade-passividade que entra em jogo o que \u00e9 propriamente da rela\u00e7\u00e3o sexual (&#8230;). Ora, a rela\u00e7\u00e3o atividade-passividade, cobrir\u00e1 ela a rela\u00e7\u00e3o sexual? Eu lhes rogo que se refiram a tal passagem do <em>Homem dos Lobos<\/em>, por exemplo, ou a tais outras repartidas nas <em>Cinco Psican\u00e1lises<\/em>. Freud ali explica em suma que a refer\u00eancia polar atividade-passividade est\u00e1 ali para denominar, para recobrir, para metaforizar o que resta de insond\u00e1vel na diferen\u00e7a sexual (&#8230;). Certamente, na rela\u00e7\u00e3o sexual entram em jogo todos os intervalos do desejo. Que valor tem para ti meu desejo? Quest\u00e3o eterna que se p\u00f5e no di\u00e1logo dos amantes. (Idem, p.181-182)<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o sexual:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDessa conjun\u00e7\u00e3o do sujeito no campo da puls\u00e3o com o sujeito tal como ele se evoca no campo do Outro, desse esfor\u00e7o para se reunir, depende que haja um suporte para a <em>ganze Sexualstrebung<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 outro. \u00c9 somente a\u00ed que a rela\u00e7\u00e3o dos sexos \u00e9 representada no n\u00edvel do inconsciente. Para o resto, a rela\u00e7\u00e3o sexual fica entregue ao aleat\u00f3rio do campo do Outro. Fica entregue \u00e0s explica\u00e7\u00f5es que se lhes deem. Fica entregue \u00e0 velha de quem se precisa &#8211; n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1bula v\u00e3 &#8211; para que Daphnis aprenda como se tem que fazer para fazer amor.\u201d (Idem, p.188)<\/p>\n<p>\u201cS de A barrado \u00e9 uma coisa bem diferente de \u03a6. N\u00e3o \u00e9 com isso que o homem faz amor. No final das contas, ele faz amor com seu inconsciente, e mais nada. Quanto ao que fantasia a mulher, se \u00e9 mesmo isso que nos foi apresentado pelo filme, \u00e9 alguma coisa que, de todo modo, impede o encontro. (&#8230;) O grande A \u00e9 barrado porque n\u00e3o h\u00e1 Outro &#8211; n\u00e3o a\u00ed onde h\u00e1 supl\u00eancia, a saber o Outro como lugar do inconsciente, esse de quem eu disse que \u00e9 com isso que o homem faz amor, em outro sentido da palavra com e que \u00e9 o parceiro &#8211; o grande A \u00e9 barrado porque n\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro.\u201d (Semin\u00e1rio 23, p.123)<\/p>\n<p><strong>Amor e identifica\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOs objetos que est\u00e3o no campo do <em>Lust<\/em> t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o profundamente narc\u00edsica com o sujeito que, no fim das contas, o mist\u00e9rio da pretensa regress\u00e3o do amor \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o encontra sua raz\u00e3o na simetria desses dois campos que lhes designei por <em>Lust<\/em> e <em>Lust-Ich<\/em>. O que n\u00e3o podemos guardar do lado de fora, temos sempre sua imagem do lado de dentro.\u00c9 mesmo tola assim, a identifica\u00e7\u00e3o ao objeto do amor. E n\u00e3o vejo por queisso criou tanta dificuldade, e ao pr\u00f3prio Freud. Isso, meu caro, \u00e9 o objeto do amor.\u201d (Semin\u00e1rio 11, p.229)<\/p>\n<p><strong>Amor e castra\u00e7\u00e3o<\/strong>:<\/p>\n<p>\u201cO amor \u00e0 verdade\u00e9 o amor a essa fragilidade cujo v\u00e9u n\u00f3s levantamos, \u00e9 o amor ao que a verdade esconde, e que se chama castra\u00e7\u00e3o.Eu n\u00e3o deveria ter que lembrar estas coisas, que s\u00e3o de algum modot\u00e3o livrescas. Parece que \u00e9 entre os analistas, entre eles especialmente que,em nome de certas palavras-tabu com que se lambuza o seu discurso,jamais se entende o que \u00e9 a verdade &#8211; \u00e9, a saber, a impot\u00eancia.Ali \u00e9 que se edifica tudo o que concerne \u00e0 verdade. Que haja amor\u00e0 fraqueza, est\u00e1 a\u00ed sem d\u00favida a ess\u00eancia do amor. Como j\u00e1 disse, o amor\u00e9 dar o que n\u00e3o se tem, ou seja, aquilo que poderia reparar essa fraqueza original.\u201d (Semin\u00e1rio 17, p.49)<\/p>\n<p>\u201cA pai-vers\u00e3o \u00e9 a san\u00e7\u00e3o do fato de que Freud faz tudo se ater na fun\u00e7\u00e3o do pai. E o n\u00f3 bo \u00e9 isso.O n\u00f3 bo \u00e9 apenas a tradu\u00e7\u00e3o do que me foi lembrado ainda ontem \u00e0 noite: que o amor e, ainda por cima, o amor que podemos qualificar de eterno, se endere\u00e7a ao pai, em nome disso, de ele ser o portador da castra\u00e7\u00e3o. Pelo menos \u00e9 o que Freud apresenta em Totem e tabu com a refer\u00eancia \u00e0 primeira horda. Na medida em que s\u00e3o privados de mulher,os filhos amam o pai.Eis alguma coisa totalmente singular e perturbadora, sancionada apenas pela intui\u00e7\u00e3o de Freud.Tento dar outro corpo a essa intui\u00e7\u00e3o em meu n\u00f3 bo, que \u00e9 muito apropriado para evocar o monte Nebo onde, tal como se diz, a Lei foi entregue &#8211; essa que n\u00e3o tem absolutamente nada a ver com as leis do mundo real, uma vez que essas leis s\u00e3o, ali\u00e1s, uma quest\u00e3o que permanece inteiramente em aberto. A Lei da qual se trata, nesse caso, \u00e9 simplesmente a lei do amor, isto \u00e9, a pai-vers\u00e3o.\u201d (Semin\u00e1rio 23, p.146-147)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o AMOR: Imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico: \u201cSartre observa muito justamente que, no vivido do amor, o que exigimos do objeto pelo qual desejamos ser amados n\u00e3o \u00e9 um engajamento completamente livre. o pacto inicial, o voc\u00ea \u00e9 minha mulher ou voc\u00ea \u00e9 meu esposo, ao qual fa\u00e7o frequentemente alus\u00e3o quando lhes falo do registro simb\u00f3lico,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3057","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos_jornada","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3057","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3057"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3057\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3057"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3057"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3057"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3057"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}