{"id":3006,"date":"2018-06-02T06:49:50","date_gmt":"2018-06-02T09:49:50","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=3006"},"modified":"2018-06-02T06:49:50","modified_gmt":"2018-06-02T09:49:50","slug":"o-laco-entre-o-amor-e-a-coragem-fernanda-otoni-brisset","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-laco-entre-o-amor-e-a-coragem-fernanda-otoni-brisset\/","title":{"rendered":"O la\u00e7o entre o amor e a coragem &#8211; Fernanda Otoni-Brisset"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_3002\" aria-describedby=\"caption-attachment-3002\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3002\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/cupid002_002.png\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"186\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3002\" class=\"wp-caption-text\">(Foto: Gian Lucca Amoroso)<\/figcaption><\/figure>\n<h6>09 de maio de 2018 (EBP-SP)<\/h6>\n<p><em>O que do encontro se escreve<\/em>, livro de Pierre Naveau, nos adverte que \u201ca mola do encontro \u2013 o real do inconsciente \u2013 n\u00e3o deve ser esquecido.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Isso nos ensina a ler a l\u00f3gica do gozo nos encontros entre seres falantes. O livro conversa de perto com a Jornada deste ano, na EBP S\u00e3o Paulo: \u201cAmor e sexo em tempo de (des)conex\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>A l\u00f3gica do encontro se articula, indiscutivelmente, com as conex\u00f5es e desconex\u00f5es, com o que n\u00e3o existe e o que insiste, com os fios que tecem um la\u00e7o e o furo que desse la\u00e7o participa. O bin\u00e1rio Amor e Sexo interroga essa costura. Nem sempre amor e sexo andam juntos, ali\u00e1s reunir esses dois em um instante \u00e9 raro! O que verificamos, n\u00e3o raro, \u00e9 a experi\u00eancia de amar desconectada do sexo e a experi\u00eancia do sexo sem amor. Mesmo quando se ama e se faz sexo com o parceiro, a disjun\u00e7\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. \u00c9 poss\u00edvel o encontro entre amor e sexo? Uma pergunta! Mas, seja como for, o que nos adianta Pierre Naveau \u00e9 que para um encontro acontecer \u201c\u00e9 preciso, diz Lacan, coragem, e at\u00e9 mesmo, J.-A. Miller n\u00e3o hesita em diz\u00ea-lo, hero\u00edsmo.&#8221;<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Como ler essa provoca\u00e7\u00e3o lacaniana?<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>Para in\u00edcio de conversa, \u00e9 preciso falar de amor&#8230;<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Em psican\u00e1lise, fala-se! Fala-se dos outros, fala-se sobre o que se pensa ser, sobre o que n\u00e3o sabe de seu ser, sobre a falta a ser, sobre o ser que sofre. \u201c\u2018O que se faz no discurso anal\u00edtico \u00e9 falar de amor\u2019. Tenho em meu ouvido esta afirma\u00e7\u00e3o de Lacan: \u2018Falar de amor \u00e9, em si mesmo, um gozo\u2019\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><em>.<\/em> Um gozo que, dir\u00e1 Lacan no <em>Semin\u00e1rio<\/em> 20, \u201cs\u00f3 se interpela, s\u00f3 se evoca, s\u00f3 se suprema, s\u00f3 se elabora a partir de um semblante, de uma apar\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. O que se faz no discurso anal\u00edtico \u00e9 falar do amor que trabalha sem cessar para reunir Um gozo imposs\u00edvel de dizer a uma apar\u00eancia de ser. Um <em>para-esser (par-\u00eatre)<\/em>! A subst\u00e2ncia que vive no ser \u00e9 incansavelmente incab\u00edvel e fugidia, n\u00e3o cessa de tentar <em>para-esser<\/em> e fracassar; o amor \u00e9 esse esfor\u00e7o do ser falante de conjugar o que n\u00e3o se conjuga: amor conjugal! Lacan conjuga assim o inconjug\u00e1vel: \u201ceu para-sou, tu para-\u00e9s, n\u00f3s para-somos, e assim por diante\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Bem fazemos de mergulhar no semin\u00e1rio \u201cO ser e o Um\u201d de Jacques-Alain Miller. Lacan nos leva a considerar que do ser jamais temos nada. \u201cO ser se apresenta sempre por <em>para-esser.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Do lado do ser est\u00e3o as formas desse <em>para-esser<\/em>, que n\u00e3o \u00e9. E, do outro lado, o imposs\u00edvel de dizer, mas que existe, insiste e itera: o UM que \u00e9. <em>Il y a de l\u2019Un<\/em>! Esse Um que s\u00f3 se apresenta por esse <em>para-esser<\/em>, ou seja, \u201co ser na lateral\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. O equ\u00edvoco participa desse ajuntamento entre o Ser e o Um, entre a forma do ser que n\u00e3o \u00e9 e o Um que \u00e9.<\/p>\n<p>Um conto: dois antigos colegas, amigos de faculdade e nada mais, se encontram por acaso e descobrem que v\u00e3o ao mesmo baile de m\u00e1scaras. Ele vai de Pierr\u00f4, ela de Colombina. L\u00e1 se encontram e, inexplicavelmente, se encantam por aquele ser ao lado&#8230; sabe-se l\u00e1 por qual mist\u00e9rio. O baile acabou, mas eles foram mais longe. Amaram-se como se n\u00e3o houvesse o amanh\u00e3. Ao acordar, perceberam-se ainda mascarados. Ao cair das m\u00e1scaras, descobriram que ele n\u00e3o era ele e ela n\u00e3o era ela.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre as formas fractais do ser e <em>o que \u00e9.<\/em> Esse real localiza e atualiza, em um instante qualquer, que \u00e9 enquanto hi\u00e2ncia que a causa do desejo participa da estrutura do ser falante. Lacan, em <em>as rodinhas de barbante<\/em>, ensina que, \u201cpara todo ser falante, a causa do desejo \u00e9 estritamente (\u2026) equivalente (\u2026) \u00e0 sua dobradura, ao que chamei de divis\u00e3o do sujeito\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Essa dobradura abre, em sua divis\u00e3o, a hi\u00e2ncia que d\u00e1 vida \u00e0 m\u00e1scara e nos dirige \u00e0 cl\u00ednica do <em>parl\u00eatre<\/em>!<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui do encontro entre um sujeito e o Outro, mas comecemos por dizer que o encontro que n\u00f3s estamos tentando ler, nas (des)conex\u00f5es entre o amor e o sexo, resulta dos arranjos e desarranjos do<em> parl\u00eatre<\/em> com seu Outro.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #993300;\">De que Outro se fala?<\/span> <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent, em Barcelona, cita Lacan de 1977 \u2013 sobre a no\u00e7\u00e3o de Outro marcado \u201ccom uma barra que o rompe: (A\/)\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Ao fazer incidir sobre ele a barra, o Outro \u00e9 posto em quest\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre o Um e o Outro. Como mostra o conto, o Outro, de verdade, tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o com o Outro n\u00e3o h\u00e1 de todo. Entre dois, h\u00e1 o Um e o<em> a<\/em>, \u00e9 sempre \u201cUm mais <em>a<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Uma an\u00e1lise, dir\u00e1 Lacan, \u201cenuncia que o Outro nada mais \u00e9 que esta duplicidade. \u2018H\u00e1 Um, mas n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed nada de Outro\u2019\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. Sigamos essa pista, \u201cradical e sutil\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Miller, em 1998, indica essa mudan\u00e7a de vertente e nos prop\u00f5e irmos al\u00e9m. O Outro do significante \u00e9 esvaziado de gozo, portanto, mortificado. Ele nos apresenta outra concep\u00e7\u00e3o de Outro, nos convida a al\u00e7ar o Outro como corpo vivo. Nessa perspectiva, o corpo do Outro \u00e9 um meio de gozo; o Outro \u201c\u00e9 tanto o corpo pr\u00f3prio como o corpo de outrem\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Este \u00e9 um novo modo de conceber o Outro. O Outro do parl\u00eatre \u00e9, ent\u00e3o, um parceiro do gozo \u2013 um parceiro-sintoma. Um parceiro cujo agalma \u00e9 efeito da miragem que o objeto causa evoca.<\/p>\n<p>Agora, sim, podemos ler outra vez em Lacan: \u201cH\u00e1 Um, mas n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed nada de Outro\u201d. N\u00e3o h\u00e1 nada de Outro como lugar do significante puro, o que h\u00e1 \u00e9 apenas e t\u00e3o somente um parceiro do gozo. E n\u00e3o \u00e9 pouca coisa esse nadica de nada a\u00ed. Miller, no osso, mostra que \u201co parl\u00eatre, como ser sexuado, faz parceria n\u00e3o no n\u00edvel do significante puro, mas no n\u00edvel do gozo, e essa liga\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre sintom\u00e1tica\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>Quando pessoas de qualquer sexo se encontram, como o parl\u00eatre a\u00ed concernido se serve do Outro no circuito de seu gozo? Como se conecta a um parceiro-sintoma? Isso n\u00e3o se ensina. Experimenta-se. Esse Outro, dir\u00e1 Lacan, \u201cs\u00f3 se atinge agarrando-se ao <em>a<\/em>, causa do desejo, \u00e9 tamb\u00e9m do mesmo modo \u00e0 apar\u00eancia de ser que ele se dirige. Esse ser a\u00ed n\u00e3o \u00e9 um nada. Ele \u00e9 suposto a esse objeto que \u00e9 o <em>a<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 o que mostro nesta pequena vinheta publicada na revista <em>Curinga<\/em>, n. 31 ( 2010). A cena tem in\u00edcio por \u201cum convite para ela jantar com um casal de amigos e um amigo deles. Rapidamente, estaria frente a uma enorme bandeja de \u2018frutos do mar\u2019. Como comer aquilo?\u201d Com nojo, ela parece indagar como se tem coragem de comer isso. \u201cE escuta o amigo do casal sugerir-lhe que seria mais f\u00e1cil com as m\u00e3os. \u2018Mas que porcaria\u2019, pensa alto. O estranho, de soslaio, a alcan\u00e7a ao dizer: \u2018franc\u00eas adora uma porcaria\u2019\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Uma palavra que fere e desassossega no corpo a experi\u00eancia do encontro com o Outro com apar\u00eancia de ser. Um dizer que fura a cena e alcan\u00e7a a outra coisa. Naquela noite, ela faz um sonho: \u201cpassava mal, intoxicada com a porcaria borbulhando na barriga\u201d. Ao elevar a coisa at\u00e9 a altura da goela, uma amiga \u00edntima olha e diz: \u201cn\u00e3o vejo bem se \u00e9 resto de frutos do mar ou se \u00e9 carne da sua garganta mesmo\u201d \u2013 \u00e9 preciso ver um especialista. \u201cO analista deu uma olhadinha de soslaio no fundo da boca aberta. Sorriu e disse: Nada a fazer, siga\u201d.<\/p>\n<p>O <em>parl\u00eatre<\/em> passa a suspeitar a\u00ed, por essa janela (greta do Outro, de soslaio), as cores do objeto que perscruta. O que a\u00ed se descortina d\u00e1 a ver a l\u00f3gica por onde a insist\u00eancia de Um gozo, que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, se localiza e passa. O que a\u00ed se experimenta \u00e9 um real que faz par com o suposto <em>a<\/em>, cuja apar\u00eancia de ser se ama. Ali\u00e1s, \u201co que vem em supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe \u00e9 o amor\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. E por essas veredas, no encontro com o Outro, faz a-<em>paresser<\/em> o que experimentamos e nos interessa.<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>Uns separados<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Miller, em mar\u00e7o de 2017, esclarece: \u201cA perspectiva do sinthoma como Um produz Uns separados, n\u00e3o articulados, h\u00e1 aqui um radical \u2018a cada um seu sintoma\u2019&#8230; que convida a apreender cada um como um Um absoluto, isto \u00e9, separado.\u201d<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> Esse Um trabalha sozinho e, o que do encontro se escreve, entre Uns, <em>parl\u00eatres<\/em>, homens e mulheres, acontece por onda de resson\u00e2ncia, ao modo de uma revelia for\u00e7ada.<\/p>\n<p>Parada necess\u00e1ria aqui para sublinhar que, para n\u00f3s analistas, \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d s\u00e3o significantes e, como tal, n\u00e3o t\u00eam sentido algum.\u00a0A forma insensata com a qual o real do gozo se resolve \u00e9 \u00fanica para cada um, na variedade colorida dos encontros com seus matizes opacos. \u201cLacan ir\u00e1 dizer que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma maneira de repartir homens e mulheres atrav\u00e9s de seus atributos.\u201d H\u00e1 algo que \u201c\u00e9 puro real que se engancha diretamente com o corpo e n\u00e3o com a imagem. Engancha-se com o corpo nas experi\u00eancias de gozo que s\u00e3o dissim\u00e9tricas\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>, seja do lado homem ou do outro lado.<\/p>\n<p>Como pensar esse enganche por esses dois lados? Pierre Naveau, a partir do ensino de Lacan, quando ele fala que \u00e9 o <em>estrup\u00edcio do falo<\/em><a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a> que impede o homem de gozar do corpo de uma mulher, nos esclarece que n\u00e3o \u00e9 a biologia que o orienta. N\u00e3o se trata de um homem que tem o p\u00eanis ou do corpo de uma mulher, que n\u00e3o o tem. Agarrar-se a este estrup\u00edcio que mexe sozinho, penduricalho do corpo, agarrar-se a\u00ed n\u00e3o \u00e9 um gozo exclusivo do portador do p\u00eanis. Nada mais democr\u00e1tico do que o idiota casamento com o estrup\u00edcio! O exemplo do enganche do lado homem segue, ent\u00e3o, para Lacan, a l\u00f3gica do gozo masturbat\u00f3rio. \u201cO corpo pr\u00f3prio se revela, ele mesmo, o corpo do Outro, no momento do gozo.\u201d<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> Ou seja, \u201cum gozo se produz no corpo do Um atrav\u00e9s do corpo do Outro\u201d, por um enganche a esse peda\u00e7o do qual se faz posseiro, pelo usufruto do objeto. Ou seja, para \u201ctodo x\u201d, o gozo f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Miller esclarece que para Lacan, a estrutura desse \u201c\u201cTodo x\u201d determina, necessariamente, que o parceiro-sintoma \u2013 do lado homem \u2013 \u00e9 o pequeno <em>a\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><strong>[21]<\/strong><\/a><\/em>. Se o estrup\u00edcio do falo o impede de gozar do corpo de uma mulher \u00e9 porque, agarrado a esse pedacinho de gozo, ele se defende de se abandonar a esse outro gozo\u2026 no infinito de um furo sem fundo.<\/p>\n<p>Nesse caminho, vimos que, mais al\u00e9m do gozo f\u00e1lico, h\u00e1 um Outro gozo. Um gozo que se solta do objeto e se jubila no furo de sua aus\u00eancia. Do lado do homem, h\u00e1 um outro lado, <em>n\u00e3o-todo<\/em> inscrito do lado homem. Este \u00e9 o mist\u00e9rio da mulher, seu segredo, e sobre isso <em>ela n\u00e3o solta uma palavra<\/em><a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>, sublinha Naveau, em Lacan. Como ler esse mist\u00e9rio da mulher? De que mulher Lacan est\u00e1 falando. Trago-lhes uma cita\u00e7\u00e3o dele:<\/p>\n<p>O que quer uma mulher? Freud adianta que s\u00f3 h\u00e1 libido masculina. O que quer dizer isto? \u2013 sen\u00e3o que um campo, que nem por isto \u00e9 alguma coisa, se acha assim ignorado. Esse campo \u00e9 o de todos os seres que assumem o estatuto da mulher \u2013 se \u00e9 que esse ser assume o que quer que seja por sua conta. Al\u00e9m disso, \u00e9 impropriamente que o chamamos a mulher, pois (&#8230;), a partir do momento em que ele se enuncia pelo n\u00e3o-todo, n\u00e3o pode se escrever. Aqui, o artigo a s\u00f3 existe barrado. Esse A barrado tem rela\u00e7\u00e3o com o significante A barrado. O Outro (&#8230;) \u00e9 aquilo com que fundamentalmente a mulher tem rela\u00e7\u00e3o. (&#8230;) a mulher \u00e9 aquilo que tem rela\u00e7\u00e3o com esse Outro. (&#8230;) O Outro como barrado.<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a><\/p>\n<p>Eu leio essa frase assim: o outro lado do lado homem, o lado mulher, \u00e9, em Lacan, o que tem rela\u00e7\u00e3o com o furo, com a indetermina\u00e7\u00e3o. O lado mulher, o n\u00e3o todo f\u00e1lico, tem rela\u00e7\u00e3o com o furo e com o gozo que por a\u00ed se passa infinitamente. Esse outro lado implica num saber-fazer com o furo. A mulher n\u00e3o existe, A mulher \u00e9 rompida. A mulher \u00e9 furada. O lado mulher do <em>parl\u00eatre<\/em>, de qual g\u00eanero for esse ser, tem uma rela\u00e7\u00e3o com a barra, ou seja, tem como parceiro-sintoma o Outro atravessado pelo furo.<\/p>\n<p>E aqui vem uma cita\u00e7\u00e3o de Lacan que ganha todo seu valor para o que nos interessa aqui: \u201cEsse A\/n\u00e3o se pode dizer. Nada se pode dizer da mulher. A mulher tem rela\u00e7\u00e3o com S(A\/), e j\u00e1 \u00e9 nisso que ela se duplica, n\u00e3o \u00e9 toda, pois por outro lado, ela pode ter rela\u00e7\u00e3o com o falo.\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>Conex\u00e3o sinthoma<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Muito interessante onde Lacan nos leva&#8230; a isso que se duplica em cada ser falante. Eu leio aqui, nessa dobradura, dobradi\u00e7a, nisso que se duplica, a experi\u00eancia da conex\u00e3o que suporta o sinthoma, onde os dois lados da t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o, que palpitam em cada Um sozinho, se imbricam atrav\u00e9s desse conector que conhecemos por falo.<\/p>\n<p>Entre o <em>a<\/em> e o furo, entre o gozo f\u00e1lico e o outro gozo, entre o lado homem e o outro lado, essa dobradura participa do sinthoma em cada Um. De um lado, o que se infinitiza, \u201co que quer que seja\u201d, e n\u00e3o se pode nada dizer, mas se experimenta. Mas a rela\u00e7\u00e3o a\u00ed \u00e9 n\u00e3o toda, pois pode ter rela\u00e7\u00e3o com o outro lado que a\u00ed joga sua partida. O lado n\u00e3o todo do <em>parl\u00eatre<\/em> n\u00e3o \u00e9 sem rela\u00e7\u00e3o com o falo.<\/p>\n<p>Respons\u00e1vel por verificar o real do gozo e o fixar numa fic\u00e7\u00e3o que participa de diversas formas da nossa cl\u00ednica, desde a identifica\u00e7\u00e3o, fantasia, romance, semblante etc&#8230; \u2013 o falo \u00e9 como um fiador de um gozo, um \u201cgozo que n\u00e3o pode ser mortificado, n\u00e3o pode ser anulado\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>. Em Lacan, esse mais de gozo, peda\u00e7o de corpo vivo, passa a contar como objeto <em>a<\/em>. \u201cO pequeno <em>a<\/em> \u00e9 uma unidade de gozo, \u00e9 uma unidade discreta de gozo, separ\u00e1vel, contabiliz\u00e1vel.\u201d<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a> Por isso, o falo \u00e9 um conector. Um significante que n\u00e3o quer dizer nada, mas funciona como um conector de Um gozo a um quadro, uma forma de ser, um enquadre significante por onde o objeto se suspeita por uma miragem e por a\u00ed se goza. Esse Um do gozo enquadrado \u00e9 o que <span style=\"color: #000000;\">conhecemos<\/span> como gozo f\u00e1lico. \u201cO que \u00e9 isso? \u2013 pergunta Lacan \u2013 sen\u00e3o o que a import\u00e2ncia da masturba\u00e7\u00e3o em nossa pr\u00e1tica sublinha suficientemente, o gozo do idiota.\u201d<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a><\/p>\n<p>J\u00e1 do outro lado, o lado mulher for\u00e7a o parceiro \u201ca tomar a forma do n\u00e3o todo\u201d<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a> e lhe imp\u00f5e experimentar um gozo ilimitado, por exemplo, sob a forma de uma demanda de amor infinita, uma queixa indeterminada e incur\u00e1vel que ao se servir do furo no Outro, ali mergulha e constata que o todo n\u00e3o est\u00e1 formatado, que o todo n\u00e3o faz Um. Para mim, foi esclarecedor dar-me conta que o gozo que se realiza na insatisfa\u00e7\u00e3o eterna \u00e9 efeito desse Outro gozo que transborda do lado da mulher. Sem bordas que o limite, tal gozo flui de forma infinita, seja pela via da demanda insaci\u00e1vel ou, com um pouco de sorte e \u00e0s vezes, s\u00f3 \u00e0s vezes, pelo abandono a um gozo no corpo, que n\u00e3o se sabe, n\u00e3o se diz uma palavra, mas que se experimenta e que se perfila sob um fundo do sil\u00eancio. O gozo m\u00edstico \u00e9 um exemplo que Lacan nos entrega, mas n\u00e3o precisamos ser t\u00e3o religiosos para confirmar sua exist\u00eancia. A esse Outro gozo, Lacan deu o nome de gozo feminino.<\/p>\n<p>Se o falo n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 para verificar, localizar e fixar o gozo num quadro, o real do gozo se infinitiza, sem diques, como nas psicoses. Outras pr\u00f3teses ser\u00e3o exigidas. O gozo transborda quando o falo n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 como referente, borda, litoral ao infinito. Sua pot\u00eancia o empuxa \u00e0 mulher. Se nesta cl\u00ednica o encontro sexual \u00e9 adiado, \u00e9 como defesa ao empuxo; e a cl\u00ednica do louco infrator nos ensina que o ato se revela uma resposta radical que tenta colocar um ponto de basta a esse transbordamento infinito.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que, para o grampo se firmar como ponto de <em>capiton<\/em>, ser\u00e1 preciso reunir a esse encontro do real do gozo com a miragem do objeto, um ponto de basta \u2013 o selo de um significante qualquer que o localize, o fixe, o ordene junto a um corpo que tende a escapar. O falo \u00e9 esse conector privilegiado, mas qualquer gambiarra que venha em seu lugar tem fun\u00e7\u00e3o de amarra\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que a cl\u00ednica do parl\u00eatre nos ensina!<\/p>\n<p>O encontro entre Uns sozinhos e suas (des)conex\u00f5es, como Naveau nos faz ler nosso tempo, por um lado, se agarra ao semblante de objeto segundo a l\u00f3gica f\u00e1lica ou a um enquadre qualquer que lhe sirva de supl\u00eancia, e, d\u2019outro lado, se precipita no furo no Outro por onde escoa o infinito do gozo. Isso leva Lacan a acrescentar ao que j\u00e1 vimos at\u00e9 agora, que, do lado homem, o parceiro sintoma \u00e9 o objeto <em>a<\/em> e \u201ctem a forma do fetiche\u201d; do Outro lado, a parceria \u00e9 com A\/ na \u201cforma erotoman\u00edaca\u201d<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a> \u2013 o que me fez pensar que <strong>se<\/strong> nutrir com o que h\u00e1 no lugar do que n\u00e3o existe \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o antropof\u00e1gica do <em>parl\u00eatre<\/em>.\u00a0Mas o que n\u00e3o muda, seja qual for o lado com o qual o <em>parl\u00eatre <\/em>agarra seu parceiro ou nele se abisma, \u00e9 que o encontro \u00e9 sempre autoer\u00f3tico, solit\u00e1rio, aut\u00edstico.<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>O que se escreve \u00e9 na desordem de uma conting\u00eancia<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Entre homens e mulheres, <em>parl\u00eatres<\/em>, h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es contingentes, n\u00e3o necess\u00e1rias, que deixam marcas. No instante do encontro alguma coisa se escreve: \u201cuma liga\u00e7\u00e3o in\u00e9dita ou sem precedentes se destaca sobre o fundo da indiz\u00edvel opacidade sexual<em>\u201d<\/em><a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a>, e o que a\u00ed se escreve decorre da <em>desordem de uma conting\u00eancia<\/em><a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\">[31]<\/a>, dir\u00e1 Naveau. Ali, a jacula\u00e7\u00e3o de uma palavra que fere, queima e marca, faz qui\u00e7\u00e1&#8230; um rubor, um desfalecimento<em>,<\/em> um arrebatamento<em>, <\/em> um acontecimento de corpo, ou mesmo um sonho, como no caso citado!<\/p>\n<p>O acaso coloca o parl\u00eatre diante de um Outro que n\u00e3o \u00e9, mas que a-<em>paresse<\/em> s\u00ea-lo, um encontro de corpos, miragens e palavras. A rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe entre os termos, mas \u00e9 mesmo por essa equivoca\u00e7\u00e3o que algo ressoa, cintila e enla\u00e7a. \u201c\u00c9 enquanto modo do contingente que ela para de n\u00e3o se escrever\u201d<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\">[32]<\/a>, dir\u00e1 Lacan. E a chave para ler esse enigma est\u00e1 no saber inconsciente, um saber que articula. Articula o qu\u00ea? O saber inconsciente articula um saber-fazer \u201ccom lal\u00edngua \u2013 ou conv\u00e9m acrescentar, diz Pierre Naveau \u2013 daquilo que n\u00e3o se consegue n\u00e3o fazer com ela\u201d<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\">[33]<\/a> que insiste, que itera, e que resta inassimil\u00e1vel, mas que no instante do encontro \u00e9 o que cintila e for\u00e7a o <em>clic<\/em>. Quando uma palavra fere e deixa rastro no corpo, \u00e9 al\u00edngua que ressoa jubilante. Um acidente que faz a\u00ed um corte epistemol\u00f3gico, dir\u00e1 Naveau, um saber novo adv\u00e9m desse corte, uma irrup\u00e7\u00e3o de gozo faz saber do que a\u00ed vibra.<\/p>\n<p>Quando o lado homem toma a dianteira, ele parece saber abordar o objeto <em>a<\/em> \u2013 causa de seu desejo \u2013 no corpo do Outro. Ele visa <em>a<\/em> \u2013 a porcaria! Tal abordagem \u00e9, por estrutura, perversa polimorfa. Se o outro lado, o da mulher, nisso se desperta, o que se sabe do gozo que a\u00ed se experimenta? H\u00e1 um furo no saber, dir\u00e1 Naveau. Sabe-se quase nada, \u201ca n\u00e3o ser que quando isso lhe acontece(conting\u00eancia) ela o experimenta. \u00c9 um acontecimento de corpo\u201d<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\">[34]<\/a> que testemunha o furo com o qual o saber est\u00e1 \u00e0s voltas.<\/p>\n<p>Pierre Naveau vai nos mostrar que, no real, algo se encontra, algo sobre o qual h\u00e1 um saber; um saber que n\u00e3o se fala, mas que se experimenta e por ali algo se articula, se liga, se conecta e se escreve no destino de cada um. A rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe, mas no instante do encontro a inexist\u00eancia n\u00e3o obsta que se localize esse Um que passa pelos poros da equivoca\u00e7\u00e3o. Algo vibra no ser que fala, marca de um saber que encarna seu tra\u00e7o e sua via de miragem. E quando isso acontece, n\u00e3o h\u00e1 nada a dizer. Falar disso que n\u00e3o h\u00e1, \u00e9 falar de amor&#8230; \u201ccartas de almor\u201d.<\/p>\n<p>O verbo almar, inven\u00e7\u00e3o lacaniana, toma o outro como sua alma. \u201cA alma alma a alma\u201d \u2013 por um lado a reciprocidade e, do outro, um nada que ressona. O amor n\u00e3o est\u00e1 no corpo ou pensamento, \u00e9 coisa da alma. O amor \u00e9 disjunto do gozo, \u201co amor \u00e9 separado do sexo por meio de um corte\u201d<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\">[35]<\/a>. Para Lacan, \u201cquando a gente ama, n\u00e3o se trata de sexo\u201d<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\">[36]<\/a>. O amor \u00e9, ent\u00e3o, \u201cuma \u00e9tica fora do sexo. Se o amor \u00e9 fazer signo, o gozo n\u00e3o \u00e9 signo do amor\u201d<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\">[37]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas, \u201co h\u00e1bito ama o monge\u201d, ele o alma, anota Lacan. Mas, \u201co que h\u00e1 sob o h\u00e1bito, e que chamamos de corpo\u201d<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\">[38]<\/a>, n\u00e3o \u00e9 o monge. A\u00ed, voltamos ao in\u00edcio, por (a)<em>para-esser<\/em> esse resto, que d\u00e1 vida ao oco do ser. Uma conting\u00eancia que se encarna e, por um triz, cessa de n\u00e3o se escrever \u2013 toma o corpo, o excita, deixa rastro, se escreve como \u201c<em>conting\u00eancia corporal<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\">[39]<\/a> l\u00e1 onde se verifica uma ef\u00eamera conex\u00e3o, no instante de um lapso, entre o falo e o que quer que seja. Por essas e outras\u2026<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>\u201cCarece de ter coragem, carece de ter muita coragem&#8230;\u201d<\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 que diz o Menino em meio \u00e0 travessia do Rio S\u00e3o Francisco para o pequeno e medroso Riobaldo.\u201d Esse menino \u00e9 Diadorim e, com Naveau, sabemos que ali \u00e9 o lado mulher que coloca \u201ca prova, do lado do homem, a coragem que lhe \u00e9 necess\u00e1ria para enfrentar o saber com que ele alma (\u00e2me)\u201d<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\"><\/a> \u201cA mulher s\u00f3 pode amar no homem \u2013 seu parceiro-sinthoma \u2013 a maneira como ele enfrenta o saber com que ele alma (&#8230;) o saber com que ele \u00e9\u201d<a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\">[41]<\/a>, ensina Lacan. Eu o leria assim: ela ama como ele enfrenta o que ele \u00e9. Como enfrenta o Um. Um gozo que n\u00e3o sabe se dizer. Trata-se de enfrentar o furo no saber com que ele \u00e9. O que quer que seja o que ele \u00e9, n\u00e3o se sabe de todo, \u00e9 n\u00e3o todo. E o que \u00e9 esse Um que faz furo no saber sen\u00e3o um gozo do qual n\u00e3o se sabe e n\u00e3o se diz uma palavra?<\/p>\n<p>Naveau, com Lacan, sublinha que uma mulher ama em seu parceiro a coragem! E eu acrescentaria a coragem com que enfrenta A mulher furada, que enfrenta esse furo por onde escorre um gozo real. A coragem com que enfrenta o infinito. A coragem do parceiro \u201cest\u00e1 de fato, situada por Lacan, na jun\u00e7\u00e3o do saber e do n\u00e3o saber\u201d<a href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref42\">[42]<\/a>, nesta hi\u00e2ncia; a coragem est\u00e1 em enfrentar a desordem dessa jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima, esse salto no abismo. E carece de coragem&#8230; muita coragem, diria Diadorim!<\/p>\n<p>Naveau conclui dizendo que do lado mulher h\u00e1 de se ter coragem para enfrentar a pervers\u00e3o do homem, e, do lado do homem, coragem para enfrentar o enigma da mulher. J\u00e1 que o la\u00e7o entre amor e sexo n\u00e3o h\u00e1, o la\u00e7o do amor com a coragem se faz quando se consente em dar ao parceiro-sintoma, algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9, o que n\u00e3o se tem, esse oco, com a condi\u00e7\u00e3o\/aposta de num instante qualquer poder ali se abandonar, se abismar. Ama-se a coragem para enfrentar isso que em si acontece, que nada sabe ou tem a dizer, mas que se experimenta, como parl\u00eatre, seja homem ou mulher. Coragem de se entregar a esta experi\u00eancia que ultrapassa as bordas do sabido, que transborda, sendo infinito posto que \u00e9 chama. E dura pouco&#8230; o instante de um lapso, quando na a-travessura das noites eternas, se encontram e se enfrentam pervers\u00e3o e enigma.<\/p>\n<p>Logo depois, invariavelmente, em um canto qualquer do teatro da vida cotidiana, encontrar-se-\u00e3o dependurados, em amareladas cartas de almor, os tra\u00e7os inevit\u00e1veis da sua inexist\u00eancia. Mas amanh\u00e3 \u00e9 outro dia para quem tem coragem, dir\u00e1 Scarlett O\u2019Hara. E se o amor \u00e9 separado do sexo por um corte, n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que, na desordem de uma conting\u00eancia, surja a coragem de abismar-se nessa greta.<\/p>\n<p><em>A condi\u00e7\u00e3o do encontro, <\/em>dir\u00e1 Naveau,<em> \u00e9 portanto, que o sujeito aceite que sua defesa contra o infinito seja perturbada pelo que, justamente, o divide, ou seja, pelo que o surpreende<\/em>.<a href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref43\"><\/a><\/p>\n<p>No encontro entre esses Uns \u2013 \u00e9 o que gostaria de lhes propor enquanto quest\u00e3o, para concluir \u2013 o que est\u00e1 em jogo nas (des)conex\u00f5es entre os parl\u00eatres, no nosso tempo, n\u00e3o \u00e9 mais a castra\u00e7\u00e3o, mas a rela\u00e7\u00e3o de cada Um com esse Outro gozo, \u201caquele sobre o qual a mulher n\u00e3o solta uma palavra\u201d<a href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref44\">[44]<\/a>. O gozo do Um infinitamente s\u00f3. Com isto Lacan nos desperta: \u201ch\u00e1 um gozo do corpo que \u00e9 (&#8230;) para al\u00e9m do falo\u201d<a href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref45\">[45]<\/a> e que, mais do que nunca, marca a subjetividade de nossa \u00e9poca, marcada por esse mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 onde nos leva Oswald de Andrade, neste poema sobre o seu casamento com a escritora comunista Patricia Galv\u00e3o, quando se separou de Tarsila do Amaral.<\/p>\n<p>1930, 5 de janeiro. Nesta data contrataram casamento a jovem amorosa Patr\u00edcia Galv\u00e3o e o cr\u00e1pula forte Oswald de Andrade. Foi diante do t\u00famulo do Cemit\u00e9rio da Consola\u00e7\u00e3o, \u00e0 rua 17, n. 17, que assumiram o compromisso. Na luta imensa que sustentam pela vit\u00f3ria da poesia e do est\u00f4mago, foi o grande passo prenunciador, foi o desafio m\u00e1ximo. Depois de se retratarem diante de uma igreja. Cumpriu-se o milagre. Agora sim, o mundo pode desabar.<\/p>\n<p>Agora todas as horas de Pagu s\u00e3o minhas. Eu sou o rel\u00f3gio de Pagu. Ela gosta e vive do meu ponteiro. Um ponteiro s\u00f3. Desde o dia que ela entrou na casa em que eu morava, eu sa\u00ed com ela, vivi com ela. Fui primeiro o minuto, depois as 5 horas, depois a meia-noite. Quando morrer, serei a noite de Pagu. Hoje sou o dia de Pagu. Se Pagu soubesse o que tem sido a minha vida desde maio! S\u00f3 v\u00ea-la, s\u00f3 merec\u00ea-la, s\u00f3 alcan\u00e7\u00e1-la. At\u00e9 o \u00faltimo maio da minha vida, procurarei t\u00ea-la, alcan\u00e7\u00e1-la, merec\u00ea-la. Quantas noites passei pensando nela. Quantas manh\u00e3s acordei os olhos nela. Renovei toda hist\u00f3ria da terra e a hist\u00f3ria do homem na terra! Que digo? Do homem no c\u00e9u. Que amor d\u00e1 c\u00e9u!<\/p>\n<p>Pagu quer que eu escreva mais. Escrever o qu\u00ea? Que esta noite tenho o cora\u00e7\u00e3o menstruado. Sinto uma ternura nervosa, materna, feminina. Que se desprega de mim como um jorro lento de sangue. S\u00f3 um poeta \u00e9 capaz de ser mulher assim. <a href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref46\">[46]<\/a><\/p>\n<p>Um esclarecimento, que devolve a cada um o seu ex\u00edlio, neste mundo no qual nos abandonamos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> NAVEAU, P. <em>O que do encontro se escreve<\/em>. Belo Horizonte: Editora EBP, 2017. p. 39.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 35.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 273.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 99.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 51.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 50.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 135.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. \u201cL\u2019insu que sait de l\u2019une b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre\u201d. 10 de maio de 1977. <em>Ornicar?<\/em>, Paris, Navarin, n. 17-18, 1979, p. 18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LACAN, <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit<\/em>., p. 55.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, J. \u201cL\u2019insu que sait de l\u2019une b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre\u201d. 10 de maio de 1977. <em>Ornicar?<\/em>, Paris, Navarin, n. 17-18, 1979, p. 18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia. Barcelona, 02 de abril. In\u00e9dito (trad. S\u00e9rgio Laia).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> MILLER, J.-A. <em>O osso de uma an\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. p. 90.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 91.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 99.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> OTONI-BRISSET, F. Tr\u00eas sonhos e uma porcaria s\u00f3. <em>Curinga<\/em>, Belo Horizonte, EBP, n. 31, 2010, pp. 67-71.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> LACAN, <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit.<\/em>, p. 51.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> MILLER, J.-A. La orientation lacanienne \u2013 Le tout dernier Lacan. Aula pronunciada no departamento de psican\u00e1lise da Universidade de Paris VIII. 14 de mar\u00e7o de 2017. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> LAURENT, \u00c9. Por que o Um? In: FUENTES, M. J. S.; GORSKI, G. (Orgs.). <em>Leituras do Semin\u00e1rio &#8230;ou pior, de Jacques Lacan<\/em>. Salvador: EBP, 2015. p. 37.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> NAVEAU, <em>O que do encontro se escreve<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p.220<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> MILLER. O osso de uma an\u00e1lise, op. cit., p. 92.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Idem, p.93.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> NAVEAU, O que do encontro se escreve, op. cit., p. 208<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup>[23]<\/sup><\/a> LACAN, O Semin\u00e1rio, livro 20, op. cit., p. 86-87.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 87.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> MILLER, <em>O osso de uma an\u00e1lise<\/em>, <em>op. cit<\/em>., p. 82.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 93.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> LACAN, <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit.<\/em>, p. 87.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> MILLER, <em>O osso de uma an\u00e1lise<\/em>, <em>op. cit<\/em>., p. 94.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 94.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> NAVEAU, <em>O que do encontro se escreve<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p. 277<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\">[31]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 223.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\">[32]<\/a> LACAN, <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit.<\/em>, p. 101.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\">[33]<\/a> NAVEAU, <em>O que do encontro se escreve<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p. 252<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\">[34]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 209.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\">[35]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 201.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\">[36]<\/a> LACAN, <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit.<\/em>, p. 31.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\">[37]<\/a> NAVEAU, <em>O que do encontro se escreve<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p. 201.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\">[38]<\/a> LACAN, <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit.<\/em>, p. 13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\">[39]<\/a> NAVEAU, <em>O que do encontro se escreve<\/em>, <em>op. cit.<\/em>,p.102<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\">[40]<\/a> Idem, p. 211.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\">[41]<\/a> LACAN, <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit.<\/em>, p. 95.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref42\" name=\"_ftn42\">[42]<\/a> NAVEAU, <em>O que do encontro se escreve<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p. 212.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref43\" name=\"_ftn43\">[43]<\/a> NAVEAU, <em>O que do encontro se escreve<\/em>, <em>op. cit.<\/em>, p.124.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref44\" name=\"_ftn44\">[44]<\/a> <em>Idem<\/em>, p. 208.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref45\" name=\"_ftn45\">[45]<\/a> LACAN, <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20, <em>op. cit.<\/em>, p. 80.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref46\" name=\"_ftn46\">[46]<\/a> ANDRADE, O. de, <em>Romance da \u00e9poca anarquista ou \u201cLivro das horas de Pagu que s\u00e3o minhas\u201d<\/em>. In: CAMPOS, A. Pagu \u2013 Vida \u00e9 Obra. S\u00e3o Oaulo: Cia das Letras,2014, p.113.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>09 de maio de 2018 (EBP-SP) O que do encontro se escreve, livro de Pierre Naveau, nos adverte que \u201ca mola do encontro \u2013 o real do inconsciente \u2013 n\u00e3o deve ser esquecido.\u201d[1] Isso nos ensina a ler a l\u00f3gica do gozo nos encontros entre seres falantes. 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