{"id":2649,"date":"2018-03-23T13:42:32","date_gmt":"2018-03-23T16:42:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=2649"},"modified":"2018-03-23T13:42:32","modified_gmt":"2018-03-23T16:42:32","slug":"ano-zero-desejo-do-analista-x","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/ano-zero-desejo-do-analista-x\/","title":{"rendered":"Ano Zero \u2013 Desejo do analista X"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2650 \" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/Cynthia-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"252\" height=\"252\" \/>Cynthia N. de Freitas Farias <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>(EBP\/AMP)<\/strong><\/p>\n<p>\u201cUm novo come\u00e7o, uma mudan\u00e7a, uma transfigura\u00e7\u00e3o, uma<em> aufhebung<\/em> segundo o termo de Hegel\u201d [&#8230;] \u201ctudo come\u00e7a sem ser destru\u00eddo para ser levado a um n\u00edvel superior\u201d. Este ponto de <em>capiton<\/em> do qual parte Miller para interpretar os acontecimentos pol\u00edticos de mar\u00e7o de 2017 que balan\u00e7aram o Campo Freudiano recai, a meu ver, sobre cada termo e conceito que ele recupera tanto em Freud quanto em Lacan para dar consequ\u00eancias ao movimento iniciado pelos analistas lacanianos: \u201cirromper em pra\u00e7a p\u00fablica, tomar partido\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Destaco a refer\u00eancia ao desejo do analista, que Miller recupera em Lacan, como aquele que vem subverter a no\u00e7\u00e3o mais comum da posi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica no sentido de neutralidade benevolente, ou mais precisamente, indiferen\u00e7a, na acep\u00e7\u00e3o dos escritos t\u00e9cnicos de Freud. Inicia sua reflex\u00e3o, partindo da indiferen\u00e7a que definiria a posi\u00e7\u00e3o do analista, para situa-la em seu devido lugar. O analista s\u00f3 \u00e9 indiferente no n\u00edvel da escuta. No exerc\u00edcio da escuta o analista n\u00e3o deve ser seletivo, assim como o analisante tamb\u00e9m n\u00e3o deve escolher o que dizer<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Por\u00e9m, na condu\u00e7\u00e3o do tratamento, no que diz respeito \u00e0s interven\u00e7\u00f5es, ele n\u00e3o \u00e9, em nada, indiferente.<\/p>\n<p>Ao longo de seu ensino, Lacan referiu-se ao Desejo do Analista de v\u00e1rias maneiras, sem nunca esgot\u00e1-lo em uma defini\u00e7\u00e3o \u00fanica<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, mantendo sempre um ponto de tens\u00e3o. Nos tratamentos, \u201co desejo do analista \u00e9 sua enuncia\u00e7\u00e3o&#8221;<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e somente pode operar em posi\u00e7\u00e3o de x, cujo valor o analisante dever\u00e1 encontrar. Em seu <em>Semin\u00e1rio 11, <\/em>Lacan o define como desejo de obter a \u201cdiferen\u00e7a absoluta\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, de permitir que o analisante avance al\u00e9m dos limites da lei. Trata-se de um desejo articulado ao real, ao insuport\u00e1vel de cada um, o que lhe confere seu valor operat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Miller<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> retoma essa defini\u00e7\u00e3o de Lacan, visando ao inconsciente real: o desejo do analista \u201cn\u00e3o \u00e9 um desejo puro [&#8230;] n\u00e3o \u00e9 uma pura meton\u00edmia infinita [como uma defesa contra o real] mas nos aparece como um desejo de alcan\u00e7ar o real, de reduzir o Outro a seu real e libert\u00e1-lo do sentido\u201d.<\/p>\n<p>Os acontecimentos de mar\u00e7o de 2017 tornam-se o marco definitivo da mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o dos analistas lacanianos que vinha j\u00e1 ocorrendo nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Os analistas s\u00e3o convocados a ir a p\u00fablico e tomar a palavra.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m ao analista tomar partido<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> mas n\u00e3o lhe conv\u00e9m ser partid\u00e1rio. Ser partid\u00e1rio implica escolher um dos lados, polarizar a quest\u00e3o e consequentemente alienar-se a uma posi\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. O analista toma partido do real em jogo seja na cl\u00ednica, seja na pol\u00edtica. Como afirma Miller, o analista n\u00e3o demanda o reconhecimento no discurso do mestre mas, ao se relacionar com ele, visa a subvert\u00ea-lo<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Cabe ao analista na cena pol\u00edtica, interpretar o discurso do mestre a partir do que lhe faz furo e \u201cdevolver ao sujeito a escolha, a escolha decidida [&#8230;]\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> dessa rela\u00e7\u00e3o com o significante que o discurso do mestre institui.<\/p>\n<p>Retomar, neste momento, a refer\u00eancia ao desejo do analista, me parece a oportunidade de \u201clev\u00e1-lo a um n\u00edvel superior\u201d, orientando a tomada de partido do analista na cena p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER, J.-A. Curso de Psican\u00e1lise, aula de 24 de junho de 2017. <a href=\"https:\/\/youtu.be\/S66vAiQPIsg\">https:\/\/youtu.be\/S66vAiQPIsg<\/a> (tradu\u00e7\u00e3o livre da autora)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Principio da aten\u00e7\u00e3o flutuante do lado do analista e da associa\u00e7\u00e3o livre do lado do paciente. FREUD, S. \u201cRecomenda\u00e7\u00f5es aos m\u00e9dicos que exercem a psican\u00e1lise\u201d. <em>Obras completas, <\/em>vol. XII, Rio de Janeiro: Zahar.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan formula o desejo do analista pela primeira vez\u00a0 em \u201cA dire\u00e7\u00e3o da cura e os princ\u00edpios de seu poder\u201d (1958, In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998), depois em 1964, em <em>O Semin\u00e1rio, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise (Rio de Janeiro, Zahar). <\/em>Tamb\u00e9m em 1974, em seu Semin\u00e1rio 21 (in\u00e9dito) ele o define como o desejo que surge ao final de uma an\u00e1lise como desejo de saber.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>LACAN, J. \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. In <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. <\/em>Rio de Janeiro, Zahar, p.260.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>MILLER, J.-A. \u201cO real no s\u00e9culo XXI\u201d. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana,<\/em> Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n. 63, 2012, p. 17.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>MILLER, J.-A. Curso de Psican\u00e1lise, aula de 24 de junho de 2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> AROMI, A. \u201cRaz\u00f5es de um fracasso\u201d. <em>Lacan cotidiano, <\/em>763, 9 de fevereiro de 2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> MILLER, J. A. \u201cQuest\u00e3o de Escola: Proposta sobre a Garantia\u201d. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, <\/em>ano 8, n. 23, julho 2017, p. 2 e 3.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> BROUSSE, M. H. <em>O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica. <\/em>S\u00e3o Paulo: EBP &#8211; SP, 2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cynthia N. de Freitas Farias (EBP\/AMP) \u201cUm novo come\u00e7o, uma mudan\u00e7a, uma transfigura\u00e7\u00e3o, uma aufhebung segundo o termo de Hegel\u201d [&#8230;] \u201ctudo come\u00e7a sem ser destru\u00eddo para ser levado a um n\u00edvel superior\u201d. 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