{"id":1235,"date":"2017-01-31T21:26:41","date_gmt":"2017-02-01T00:26:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=1235"},"modified":"2017-01-31T21:26:41","modified_gmt":"2017-02-01T00:26:41","slug":"arte-em-sao-paulo-csponline14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/arte-em-sao-paulo-csponline14\/","title":{"rendered":"ARTE EM S\u00c3O PAULO &#8211; CSPonline#14"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>AS SUTILEZAS DO VINHO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Rejane Tito<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1209 alignleft\" src=\"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/AQUARIUS-VINHO-300x300.jpeg\" alt=\"AQUARIUS - VINHO\" width=\"300\" height=\"300\" \/>Para al\u00e9m do oportuno e necess\u00e1rio debate sobre a triste e grave cena pol\u00edtica brasileira e de tantas outras quest\u00f5es de nosso tempo problematizadas em <strong>Aquarius<\/strong>, o mais novo filme de Kleber Mendon\u00e7a nos convoca pelo vinho! O vinho est\u00e1 em muitas cenas; parece tamb\u00e9m protagoniz\u00e1-las. O vinho est\u00e1 na festa de anivers\u00e1rio de 70 anos da tia L\u00facia, no almo\u00e7o com os filhos, em casa ouvindo m\u00fasica, na volta da praia, no encontro com amigas, no dia de sol, na noite solit\u00e1ria, no sexo&#8230; O vinho na ta\u00e7a de algum personagem&#8230; Apari\u00e7\u00e3o colorida, sinest\u00e9sica, sensorial, corp\u00f3rea&#8230; Uma presen\u00e7a. O vinho convida, celebra, faz la\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste mundo de Clara, pulsante e intensamente vivo, mesmo em meio \u00e0 experi\u00eancia da invas\u00e3o agressiva do mercado, o vinho tonifica esp\u00edrito e corpo, este marcado igualmente por uma invas\u00e3o contida de um c\u00e2ncer. Falar de vinho neste filme \u00e9 falar de corpos vivos, sexualizados, de uma er\u00f3tica da vida, de sujeitos que experimentam o pr\u00f3prio corpo, n\u00e3o sem a presen\u00e7a viva dos outros, do enlace, do encontro, da palavra compartilhada&#8230; O vinho atesta a exist\u00eancia leg\u00edtima e \u00e9tica de corpos presos \u00e0 vida, entregues e respons\u00e1veis por uma vida viva. Aqui o vinho marca uma contraposi\u00e7\u00e3o de mundos, de possibilidades de fazer existirem os sujeitos e seus pr\u00f3prios corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistindo <strong>Aquarius<\/strong> pensei num contraponto: <strong>A festa de Babette,<\/strong> produ\u00e7\u00e3o dinamarquesa de 1987, dirigido por Gabriel Axel. Neste filme, a presen\u00e7a do vinho tamb\u00e9m contracena com uma importante cena pol\u00edtica: a personagem, mulher que sai de Paris, onde vivia como chefe de um sofisticado restaurante franc\u00eas, fugindo da Fran\u00e7a durante a repress\u00e3o \u00e0 Comuna de Paris. Babette chega a um vilarejo na Dinamarca, onde se emprega como faxineira e cozinheira na casa das filhas de um rigoroso pastor. Recebe, muitos anos depois, um pr\u00eamio em dinheiro e resolve oferecer um jantar \u00e0 fam\u00edlia e aos paroquianos em comemora\u00e7\u00e3o ao cent\u00e9simo anivers\u00e1rio do pastor, j\u00e1 falecido. Todos se fartam do vinho e do banquete, generosa e prazerosamente preparado por Babette, com o dinheiro recebido pelo pr\u00eamio. O jantar, fartamente servido com vinho e pratos especiais, vivifica os corpos rigidamente disciplinados por uma cultura religiosa de nega\u00e7\u00e3o do corpo. As cenas do jantar s\u00e3o de grande beleza, em que os personagens degustam o vinho e a comida, com seus aromas, sabores, cores, tornando-se, eles mesmos, belos, alegres e pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <strong>Aquarius<\/strong>, o vinho tamb\u00e9m vivifica os corpos, os sujeitos, os encontros, em oposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a outro mecanismo, n\u00e3o de controle e sacrif\u00edcio do corpo, ditados pelo Outro severo e punidor do discurso religioso, como na comunidade onde se encontra Babette. Temos aparentemente um mecanismo oposto, o do imperativo de gozo \u2013 Goze! \u2013 apontando para uma (tamb\u00e9m?) mortifica\u00e7\u00e3o dos corpos, s\u00f3 que agora em nome do gozo a qualquer custo e sem o Outro. Se l\u00e1 o gozo advinha de um Pai que severamente regulava o corpo de seus filhos, controlando suas demandas de satisfa\u00e7\u00e3o e direcionando-as ao sacrif\u00edcio e \u00e0 acedia, \u00e0 prostra\u00e7\u00e3o da vontade e dos prazeres, na cidade do s\u00e9culo XXI, na vig\u00eancia tir\u00e2nica do mercado, imobili\u00e1rio e outros, bem como de um discurso religioso que se alastra numa onda conservadora e fundamentalista, o que particulariza o gozo igualmente disponibilizado, n\u00e3o no altar, mas em prateleiras? Aqui parece que o imperativo \u00e9 \u201cGoze!!\u201d, e o Outro se apresenta como obst\u00e1culo a esse gozo ilimitado, irrestrito, implac\u00e1vel, sem metaforizar-se a partir do corpo do outro.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-1210 size-medium\" src=\"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/A-FESTA-DE-BABETTE-300x300.jpg\" alt=\"A FESTA DE BABETTE\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um discurso que impele e sustenta essa forma de gozo dos sujeitos? <strong>Aquarius <\/strong>parece ser exemplar nisso. As leis do mercado, do capital, do <em>business<\/em>, dos neg\u00f3cios sem alma, j\u00e1 prenunciado por Faustos. No filme, religiosos ocupam a entrada do condom\u00ednio e parecem manter parcerias n\u00e3o muito claras com os homens de neg\u00f3cio, que fazem orgia no andar de cima de Clara e defecam na escada. Na ant\u00edpoda do vinho, tamb\u00e9m o horror do cupim&#8230; insidiosamente infiltrado em <strong>Aquarius<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nome do pai tirano, n\u00e3o se d\u00e1 lugar a alteridade. O outro precisa ser aniquilado, entrave para o gozo autisticamente centrado no pr\u00f3prio corpo. Submetido ao imperativo do gozo \u2013 presente tanto em \u201cN\u00e3o goze!\u201d quanto em \u201cGoze!\u201d \u2013, o sujeito \u00e9 liquidado. Na companhia de Clara e Babette, no entanto, vemos que \u00e9 pela via do desejo pr\u00f3prio que o sujeito pode brindar \u00e0 vida e dizer n\u00e3o \u00e0 morte. Evo\u00e9!!!<\/p>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] AS SUTILEZAS DO VINHO Rejane Tito Para al\u00e9m do oportuno e necess\u00e1rio debate sobre a triste e grave cena pol\u00edtica brasileira e de tantas outras quest\u00f5es de nosso tempo problematizadas em Aquarius, o mais novo filme de Kleber Mendon\u00e7a nos convoca pelo vinho! O vinho est\u00e1 em muitas cenas; parece tamb\u00e9m protagoniz\u00e1-las. 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