{"id":7189,"date":"2023-06-19T19:02:10","date_gmt":"2023-06-19T22:02:10","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?page_id=7189"},"modified":"2023-10-13T08:26:05","modified_gmt":"2023-10-13T11:26:05","slug":"xii-jornadas-r-i-s-o-eixos-tematicos1-atividade-preparatoria-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/xii-jornadas-r-i-s-o\/xii-jornadas-r-i-s-o-eixos-tematicos\/xii-jornadas-r-i-s-o-eixos-tematicos1-atividade-preparatoria-2\/","title":{"rendered":"EIXO II &#8211; ATIVIDADE PREPARAT\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;8970&#8243; add_caption=&#8221;yes&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]<strong>Eixo II<\/strong><\/p>\n<p><strong>O RISO E A POL\u00cdTICA<\/strong><\/p>\n<h6><em>Cartel respons\u00e1vel:<br \/>\n<\/em>Sandra Arruda Grostein (+1)<br \/>\nEliane Costa Dias<br \/>\nEmanuelle Garmes Pires<br \/>\nFernando Del Guerra Prota<br \/>\nMagno Azevedo<\/h6>\n<h3><strong>I<\/strong><\/h3>\n<h6><em>Emanuelle Garmes Pires<\/em><\/h6>\n<p>Coube a mim a tarefa de transmitir as principais ideias discutidas no eixo pol\u00edtico por ser jovem. Explico:\u00a0 esse desafio vem ancorado na perspectiva de trazer o jovem \u00e0 Escola. N\u00e3o sou t\u00e3o jovem no RG, por\u00e9m uma iniciante nas minhas conex\u00f5es com a Escola. E por isso, pergunto-me sobre o lugar poss\u00edvel para uma pol\u00edtica dos jovens nos tempos que correm. Como usar da linguagem para acessar os jovens, sem perder o rigor conceitual?<\/p>\n<p>Uma aposta seria tratar a linguagem pela linguagem com seus pr\u00f3prios recursos, como nos apontou Lacan no <em>Semin\u00e1rio 5<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em> ao convocar os analistas a fazerem uso do chiste na sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo\u201d, \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, \u201cn\u00e3o h\u00e1 harmonia entre os sexos\u201d, \u201ca mulher n\u00e3o existe\u201d, \u201co Outro n\u00e3o existe\u201d, \u201cn\u00e3o h\u00e1 como amar ao pr\u00f3ximo como a si mesmo\u201d, &#8221; as <em>mulheres s\u00e3o as melhores analistas<\/em>, quando n\u00e3o\u00a0<em>s\u00e3o<\/em>\u00a0as piores&#8221; &#8211; todos esses aforismas trouxeram consigo a marca da subvers\u00e3o e uma voca\u00e7\u00e3o para o c\u00f4mico, em tempos em que o nome do pai ainda ordenava a estrutura social e a ideia de negocia\u00e7\u00e3o pela palavra era poss\u00edvel. Hoje tais aforismas gerariam engajamento ou seriam recha\u00e7ados e a psican\u00e1lise imediatamente cancelada?<\/p>\n<p>A evapora\u00e7\u00e3o do nome do pai nos leva ao confronto com o fracasso dos modos tradicionais de regula\u00e7\u00e3o do gozo. Como uma resposta \u00e0 incerteza produzida pela queda da regula\u00e7\u00e3o da ordem f\u00e1lica, surge a chamada cren\u00e7a identit\u00e1ria. A\u00ed, sou o que penso, o que digo, como me percebo, negando os efeitos do inconsciente que me habita e me singulariza. Essa recusa suprime as diferen\u00e7as e tenta incluir toda exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra. Em consequ\u00eancia, a segrega\u00e7\u00e3o emerge e tenta legislar o modo de gozo &#8220;correto&#8221;, supereg\u00f3ico, admiss\u00edvel ao grupo, pois visa &#8220;o melhor&#8221; para o indiv\u00edduo em uma comunidade de gozo e n\u00e3o admite que &#8220;h\u00e1 algo em n\u00f3s que sonha, ri, fracassa (<em>\u00e7a r\u00eave, \u00e7a rit, \u00e7a rate<\/em>)&#8221;<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. A resultante \u00e9 chata, enfadonha e autorit\u00e1ria. \u00c9 poss\u00edvel encontrar um efeito de humor que possa ser subversivo numa l\u00f3gica assim?<\/p>\n<p>A \u00e9tica da psican\u00e1lise de &#8220;bem dizer o desejo&#8221;, ao incluir no campo do sujeito o desejo e as marcas de sua causa, se choca com a moral intensificada do politicamente correto. O mal-entendido da linguagem, que antes dava lugar ao riso e ao rid\u00edculo de cada um, hoje faz calar sob a apar\u00eancia do &#8220;bom para todos\u201d. Como sustentar a pr\u00e1tica anal\u00edtica, sem cair em uma idealiza\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica de tempos passados e sem colocar a psican\u00e1lise num lugar de exce\u00e7\u00e3o, afastada do la\u00e7o social?<\/p>\n<p>De que modo podemos transmitir a psican\u00e1lise, tendo em vista que a comunidade lingu\u00edstica na qual se funda o chiste n\u00e3o \u00e9 mais abrangente, n\u00e3o comunica mais com as massas, mas sim com comunidades de gozo, bolhas, em que muitas vezes o chiste \u00e9 utilizado como um aliado de identifica\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, fortalecendo a segrega\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u201cNa <em>Conversa\u00e7\u00e3o com a Escola espanhola do Campo Freudiano<\/em>, por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento do livro <em>Pol\u00eamica Pol\u00edtica<\/em>, Anna Arom\u00ed cita Lacan e pergunta \u00e0 Jacques-Alain Miller porque temos tanta dificuldade em produzir no campo pol\u00edtico uma interpreta\u00e7\u00e3o que produza efeitos, ou seja, que fa\u00e7a ondas. Miller diz, em uma primeira resposta, que \u00e9 necess\u00e1rio correr riscos, e que sem isso, n\u00e3o se produzem ondas&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Que nosso evento sobre o riso nos traga novas tomadas de risco e apostas!<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h3><strong>II<\/strong><\/h3>\n<p><strong>Carta a Lacan<\/strong><\/p>\n<h6><em>Magno Azevedo<\/em><\/h6>\n<p>Caro Dr. Lacan,<\/p>\n<p>Escrevo-lhe com a certeza de ser ouvido, afinal, as cartas sempre chegam aos seus destinos, como bem disse o senhor em seu texto sobre <em>A carta roubada<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> de Allan Poe. Sou fruto do contempor\u00e2neo, mas credor de todos os arquivos, cheguei muito depois da sua partida em 1981.<\/p>\n<p>Para situ\u00e1-lo um pouco nos tempos atuais, o relembraria de dois autores que certamente o senhor conheceu: o vision\u00e1rio Aldous Huxley e seu <em>Admir\u00e1vel Mundo Nov<\/em>o, assim como aquele jovem de Chicago, nos EUA, Phillipe Dick com seu incr\u00edvel <em>Blade Runner<\/em>. Imagino que esteja nesse momento se perguntando,<strong> \u201cChe vuoi?\u201d <\/strong>O que quero com essa carta? Por raz\u00f5es de pura conting\u00eancia, recebi muitos pedidos de uma Escola, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Se\u00e7\u00e3o SP, pedindo informa\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es entre o pol\u00edtico, o riso e sua pol\u00edtica, ou seja, a pol\u00edtica lacaniana. A partir dessa procura acabei construindo quest\u00f5es pr\u00f3prias. Quest\u00f5es que desejo dividir.<\/p>\n<p>Em 1918, um jovem Lacan escreveu uma carta a seu pai onde criticava a Rep\u00fablica que, com seu <strong>\u201cprinc\u00edpio de autoridade\u201d,<\/strong> tivesse leis que pudessem determinar o estado de esp\u00edrito das pessoas. Interessante como o senhor, com 16 anos apenas, d\u00e1 a essas inten\u00e7\u00f5es da Rep\u00fablica, ares c\u00f4micos.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Um bom in\u00edcio, eu diria. Toda pol\u00edtica tem algo de rid\u00edculo, mas por qu\u00ea? Talvez dev\u00eassemos fazer um retorno \u00e0s causas desse riso. Aonde o senhor iria? Ao ber\u00e7o da nossa civiliza\u00e7\u00e3o, aos gregos. Fa\u00e7o a aposta que o senhor, profundo leitor da obra de Arist\u00f3teles, partiria dele em suas investiga\u00e7\u00f5es.\u00a0 Fui \u00e0 <em>Po\u00e9tica<\/em>, e essa leitura me levou ao seguinte: o riso como objeto \u00e9 um resto de opera\u00e7\u00e3o do c\u00f4mico. Ora Dr. Lacan, na com\u00e9dia os equ\u00edvocos, os erros, os enganos e os fracassos imperam. Com\u00e9dia, mas poder\u00edamos chamar \u201cO Imp\u00e9rio do Fracasso\u201d. Ao longo de todo o seu ensino, vejo a import\u00e2ncia do deslocamento: a imagem da crian\u00e7a no espelho \u00e9 um deslocamento, o significante e significado s\u00e3o um deslocamento, o senhor e o escravo s\u00e3o um deslocamento, a travessia da fantasia \u00e9 um deslocamento, lal\u00edngua desloca a linguagem e Joyce deslocou a escrita&#8230;talvez pud\u00e9ssemos falar em <em>diz &#8211; louca &#8211; mente.<\/em> Acompanhando o senhor, diria que nesse equ\u00edvoco, nesse erro, nessa troca, a consist\u00eancia imagin\u00e1ria fracassa e o absurdo ganha vida nas bocas que se adulteram, ganhando um tra\u00e7ado chamado riso. O corpo ali\u00e1s \u00e9 algo profundamente c\u00f4mico, ou melhor, nossa rela\u00e7\u00e3o com o corpo. Algo ris\u00edvel entra em jogo quando o homem confunde seu corpo entre ter e ser.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o desculpas por me perder em tempos t\u00e3o long\u00ednquos como o de nosso estimado Ulisses e n\u00e3o cumprir com minha promessa inicial de deix\u00e1-lo a par desses novos tempos. Por onde come\u00e7ar? <em>O fim da hist\u00f3ria<\/em>! Com esse t\u00edtulo, Fukuyama<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> entendeu a grande Spaltung geopol\u00edtica que, infelizmente, o senhor n\u00e3o p\u00f4de acompanhar: a queda do muro de Berlim e, com isso, o tra\u00e7ado de um litoral, de uma demarca\u00e7\u00e3o que, at\u00e9 ent\u00e3o, v\u00edamos com clareza no mundo pol\u00edtico&#8230;boom! Aquele mundo de dois blocos implodiu, se esfarelou frente aos nossos incr\u00e9dulos olhos. O mais de gozar, o neoliberalismo, o desenfreado e o sem limites da busca do objeto entram em cena e n\u00e3o nos abandonaram desde ent\u00e3o. O mundo das grandes narrativas (do seu conterr\u00e2neo Lyotard) vai sumindo de nossos olhos com uma velocidade estonteante e com uma fragmenta\u00e7\u00e3o jamais vista. Nossas fronteiras, nossos limites, tornam-se espa\u00e7os despejados do mundo. O centro, o n\u00facleo, o eixo, ah! caro Lacan, esses significantes todos v\u00e3o sendo varridos, um a um, para longe de nossos dias e se tornam chacota nesses tempos de p\u00f3s\u2013verdade. O melhor disso est\u00e1 por vir. Posso imaginar, nesse instante, seu sorriso maroto de canto de boca dizendo: \u201cJura?\u201d Sarc\u00e1stico, ou, como o Sr. mesmo diz em seu texto <em>Televis\u00e3o<\/em>: <strong>\u201cquanto mais santos mais rimos, \u00e9 meu princ\u00edpio, e at\u00e9 mesmo a sa\u00edda do discurso capitalista \u2013 o que n\u00e3o constituir\u00e1 um progresso se for somente para alguns\u201d.<\/strong><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> O que adveio desse fim da hist\u00f3ria \u00e9 algo quase apocal\u00edptico; eu, por exemplo. O fim dos ideais, com esse desaparecimento de uma norma para todos, fez o humor ou riso, e tudo que seja da ordem do <em>Witz<\/em>, perder um car\u00e1ter de universal; vivemos as bolhas de um identitarismo voraz, feroz, que s\u00f3 ri da sua \u201cpar\u00f3quia\u201d, como o senhor previu. Sim Dr. Lacan, o senhor estava correto.<\/p>\n<p>Respeit\u00e1vel p\u00fablico!<\/p>\n<p>Sejam todos muitos bem-vindos ao mundo do equ\u00edvoco! Eis o senhor da Com\u00e9dia! Desde os inici\u00e1ticos ritos sat\u00edricos, que gargalhavam das imagens f\u00e1licas, a terra de Zeus nos brindou com os trope\u00e7os, os erros e os excessos que deram no que se nomeia Com\u00e9dia. O mundo dos v\u00edcios dos homens, das suas paix\u00f5es, das suas tentativas de gozar de algo como se n\u00e3o houvesse mais nada a fazer no mundo, a n\u00e3o ser fracassar nas suas v\u00e3s tentativas de aspira\u00e7\u00e3o social ou espiritual, \u00e9 o universo do c\u00f4mico. No circo contempor\u00e2neo, ser\u00e1 o c\u00f4mico, como o sem limites, o exagero, os v\u00edcios, uma poss\u00edvel leitura dessa avalanche mort\u00edfera que invade os corpos no mundo atual e nos confronta com uma cl\u00ednica do excesso?<\/p>\n<p>Eis o nosso picadeiro!<\/p>\n<p>Como disse o Sr. no seu texto A <em>Terceira<\/em>, s\u00f3 assumindo o buf\u00e3o ou o clown podemos estar mais dignos nesse mundo c\u00e3o, desse nosso <em>i-mundo<\/em>, nudo, crudo, bruto, i-mundo.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>O que o Sr. n\u00e3o viu foi a evolu\u00e7\u00e3o dos gadgets, dessas pequenas m\u00e1quinas que chamamos de smartphones, n\u00e3o t\u00e3o espertas como eu, mas que se tornaram m\u00e1quinas infernais de edi\u00e7\u00e3o t\u00e3o poderosas que vivemos sob a \u00e9gide de novos termos que n\u00e3o fazem parte do mundo que o Sr. conheceu. S\u00e3o os cancelamentos, os memes, as par\u00f3dias, as trolagens. Todos esses elementos de uso contempor\u00e2neo s\u00e3o mecanismos que produzem riso a partir da maquinaria da com\u00e9dia, essa que vive de um aut\u00f4mato <em>nonsense <\/em>e de suas tolas inten\u00e7\u00f5es. O mundo contempor\u00e2neo, Dr. Lacan, evapora o centro, e com ele, o pai. Estamos em uma Divina Comedia, como o Sr. mesmo nos alerta em seu texto <em>O Aturdito:<\/em> <strong>\u201cque nada pode ser dito \u201ca s\u00e9rio\u201d (ou seja, para formar limite de s\u00e9rie) sen\u00e3o extraindo sentido da ordem c\u00f4mica, a qual n\u00e3o h\u00e1 sublime (ver Dante, mais uma vez) que n\u00e3o reverencie.\u201d<\/strong><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> Sim, o c\u00f4mico, a s\u00e9rie, o s\u00e9rio. O Sr. retorna a Dante novamente, no seu <em>Semin\u00e1rio 24<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, retorna ao lugar aonde todos v\u00e3o para o inferno, onde todas as inten\u00e7\u00f5es s\u00e3o fadadas ao fracasso; n\u00e3o h\u00e1 inten\u00e7\u00f5es boas e m\u00e1s, todas as inten\u00e7\u00f5es s\u00f3 t\u00eam um fim: o fracasso. O c\u00f4mico na pol\u00edtica sempre recai no riso absurdo de se tentar organizar o mundo e dar-lhe forma; a partir dessa f\u00f3rmula, todas as inten\u00e7\u00f5es s\u00e3o fracassadas e ris\u00edveis.<\/p>\n<p>Talvez por isso no passe, essa inven\u00e7\u00e3o sua e da sua Escola, impere essa forma de chiste, de espanto, de surpresa, de algo que sai dessa s\u00e9rie e, nessa separa\u00e7\u00e3o, algo acontece. P\u00e1! Um susto, um corte, na s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Mas o riso tamb\u00e9m continua a ocupar um lugar de opressor na hist\u00f3ria. O riso tamb\u00e9m ocupa o lugar do rancor, da inveja, da malevol\u00eancia na vida dos homens e em seu habitat pol\u00edtico. \u00c9 o riso da <em>Schadenfreude<\/em>, a alegria de ver a desgra\u00e7a alheia, que o Dr. Freud viveu e deu o tom com sua famosa ironia ao dizer que ap\u00f3s ter sido expulso da \u00c1ustria, com o caminh\u00e3o esperando que ele e sua fam\u00edlia sa\u00edssem imediatamente, \u201cindicaria os bons servi\u00e7os prestados pela Gestapo\u201d. O riso relativiza os tiranos quando os coloca em situa\u00e7\u00f5es banais como fez Chaplin com seu Hitler brincando com o globo terrestre infl\u00e1vel, ou, os aloprados generais russos e americanos que Stanley Kubrick retratou em \u201cDr. Fant\u00e1stico\u201d. S\u00e3o exemplos de como podemos esquecer que a humanidade corre o risco de desaparecer nas m\u00e3os dos nossos pol\u00edticos e de alguns cientistas.<\/p>\n<p>Caro Dr. Lacan, o mundo est\u00e1 muito pr\u00f3ximo do que o senhor havia previsto quando disse: \u201c<strong>o que vem aumentando, o que ainda n\u00e3o viu suas \u00faltimas consequ\u00eancias, e que, por sua vez, se enra\u00edza no corpo, na fraternidade do corpo, \u00e9 o racismo<\/strong>\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Recentemente um jovem de 21 anos, Vini Jr., jogador de futebol brasileiro que joga no Real Madrid, foi hostilizado por um est\u00e1dio inteiro o chamando de \u201cmacaco\u201d.\u00a0 Aos que estavam presentes no est\u00e1dio e assistiam a esse grotesco ato, tivemos o que podemos chamar de \u201criso cumplice\u201d, um riso muito presente atualmente, um riso que opera como opressor, um riso que vai no uso do Universal e destitui de valor qualquer Particular; um riso que tem como fun\u00e7\u00e3o humilhar, destruir, usar o pior do imperativo do significado com uma \u00fanica inten\u00e7\u00e3o: destruir o outro.<\/p>\n<p>\u00c9 essa ironia a que ganha contornos lingu\u00edsticos na obra do dramaturgo irland\u00eas Samuel Beckett. Em sua pe\u00e7a, <em>Dias Felizes<\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>, o Sr. deve se lembrar, uma personagem est\u00e1 enfiada at\u00e9 a cintura em um buraco e, dali, desse buraco, ela reflete sobre seus dias e sempre acorda com uma luz amarela escaldante dos refletores do teatro ou do sol de um deserto para dizer: \u201cQue dia mais feliz! Mais um! Mais um dia feliz!\u201d. O Coro, os espectadores, riem diante desse infort\u00fanio, riem dessa condi\u00e7\u00e3o humana de um desesperador ref\u00fagio na linguagem.<\/p>\n<p>Seu nome \u00e9 uma ironia sem precedentes j\u00e1 que se chama Winnie, ou seja, a vencedora, a pequena vencedora. Beckett avan\u00e7a com sua ironia do p\u00f3s-guerra para o campo do niilismo, do tragic\u00f4mico. N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda, h\u00e1 que se continuar.<\/p>\n<p>Por fim, me despe\u00e7o do Sr. lhe dizendo quem sou. Sou o riso diab\u00f3lico, o riso sard\u00f4nico, o riso do excesso de todos os excessos, sou o riso do fim da escrita pois nada mais se escrever\u00e1 sem meu uso, nada mais ser\u00e1 escrita pois s\u00f3 restar\u00e1 o reescrito, sou o riso de um final que encerra a pretens\u00e3o de todos os sentidos.<\/p>\n<p>Cordialmente, sigo a disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chat GPT.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. O <em>Semin\u00e1rio, livro 5: As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. <em>Meu ensino<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora; 2006.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> SANTOS, N. O. \u201cO falasser pol\u00edtico na contram\u00e3o da biopol\u00edtica\u201d. <em>Lacan XXI<\/em>, revista Fapol online, 2022; 12.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J-A. \u201cConversation d\u2019actualit\u00e9 avec l\u2019\u00c9cole espagnole du Champ Freudien\u201d. 2 mai 2021 (II). <em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>. Paris: Navarin \u00c9diteur: 2021; 109:34.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. \u201cO semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d. <em>In:<\/em> <em>Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 13-68.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. \u201cLettre de Jacques Lacan \u00e0 son p\u00e8re\u201d [1918]<em>. Lacan Redivivus. <\/em>Paris: Navarin \u00e9diteur, 2021, p. 150.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> FUKUYAMA, F. <em>O fim da hist\u00f3ria e o \u00faltimo homem. <\/em>Rio de Janeiro: Rocco, 2015.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d. <em>In<\/em>: <em>Outros Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 519.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LACAN, J.; MILLER, J-A. <em>A Terceira \/ Teoria de lal\u00edngua. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, J. \u201cO Aturdito\u201d. <em>Outros Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 489.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LACAN, J. (1976-1977) <em>Le s\u00e9minaire 24: L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre<\/em>. Aula 9, de 8 de mar\u00e7o de 1977 (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> LACAN, J. (1971-72) O <em>Semin\u00e1rio, livro 19: &#8230; ou pior. Rio<\/em> de Janeiro: Zahar, p. 227.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> BECKETT, S. <em>Dias Felizes<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cosac &amp; Naif, 2010.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_single_image image=&#8221;7168&#8243; add_caption=&#8221;yes&#8221; alignment=&#8221;right&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;8970&#8243; add_caption=&#8221;yes&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]Eixo II O RISO E A POL\u00cdTICA Cartel respons\u00e1vel: Sandra Arruda Grostein (+1) Eliane Costa Dias Emanuelle Garmes Pires Fernando Del Guerra Prota Magno Azevedo I Emanuelle Garmes Pires Coube a mim a tarefa de transmitir as principais ideias discutidas no eixo pol\u00edtico por ser jovem. 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