{"id":7061,"date":"2023-05-16T09:18:39","date_gmt":"2023-05-16T12:18:39","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?page_id=7061"},"modified":"2023-10-13T08:24:16","modified_gmt":"2023-10-13T11:24:16","slug":"xii-jornadas-r-i-s-o-eixos-tematicos1-atividade-preparatoria","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/xii-jornadas-r-i-s-o\/xii-jornadas-r-i-s-o-eixos-tematicos\/xii-jornadas-r-i-s-o-eixos-tematicos1-atividade-preparatoria\/","title":{"rendered":"EIXO I &#8211; ATIVIDADE PREPARAT\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;8970&#8243; add_caption=&#8221;yes&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]<strong>Eixo I<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00d3 RISO?!<\/strong><\/p>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong><strong><em>Cartel respons\u00e1vel:<br \/>\n<\/em><\/strong><em>Maria Cec\u00edlia Galletti Ferretti (+1)<br \/>\n<\/em><em>Camila Col\u00e1s<br \/>\n<\/em><em>Carmen Silvia Cervelatti<br \/>\n<\/em><em>Daniela de Camargo Barros Affonso<br \/>\n<\/em><em>Jovita Carneiro de Lima<\/em><\/h6>\n<p>O riso em Lacan traz fortemente a quest\u00e3o do gaio saber. Em \u201cTelevis\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> localiza o gaio saber como o oposto da tristeza, sendo ele pr\u00f3prio uma virtude. Nietzsche, em seu livro \u201cO gaio saber\u201d, afirma que \u201cum s\u00f3 homem sem alegria \u00e9 o suficiente para criar em toda uma casa um mal humor cont\u00ednuo e envolv\u00ea-la em uma nuvem negra\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Em tempos de preval\u00eancia do real o gaio saber se distancia do sentido.<\/p>\n<p>O riso foi tratado pelo fil\u00f3sofo Henri Bergson (1859-1941) com grande \u00eanfase, tendo dedicado ao tema seu conhecido texto, \u2018Ensaio sobre a significa\u00e7\u00e3o do c\u00f4mico\u2019<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. As reflex\u00f5es de Bergson propiciaram in\u00fameros trabalhos acad\u00eamicos, podemos dizer que em toda a hist\u00f3ria da filosofia, foi aquele que mais se deteve em conceituar e formalizar o referido tema.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 em Bergson tr\u00eas pontos bastante significativos sobre o riso (&#8230;), n\u00e3o h\u00e1 riso fora do propriamente humano: ainda que algum objeto fa\u00e7a rir, ele o far\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o de sua semelhan\u00e7a ou na rela\u00e7\u00e3o com o humano\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Este, o aspecto mais citado por todos aqueles que se ocupam da obra de Bergson, se faz acompanhar, como foi dito, de mais dois: para Bergson o riso \u00e9 incompat\u00edvel com a emo\u00e7\u00e3o, \u00e9 a atividade da \u201cintelig\u00eancia pura\u201d, caso irrompa a emo\u00e7\u00e3o, o riso se dissipa. As consequ\u00eancias disto s\u00e3o bastante importantes, pois se rimos de algu\u00e9m, neste espec\u00edfico momento, o sentimento que nutrimos por este algu\u00e9m, desaparece.<\/p>\n<p>Ainda no campo da filosofia, aproximando Nietzsche e Espinosa, podemos dizer que o aspecto da alegria os coloca lado a lado. Interessante notar que ambos, como duas refer\u00eancias de Lacan \u00e0 filosofia, nos chamam a aten\u00e7\u00e3o naquilo que concerne a este afeto, pois \u201ca filosofia de Espinosa \u00e9 uma \u00e9tica da alegria, da felicidade, do contentamento intelectual e da liberdade individual e pol\u00edtica\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, vamos nos ater ao terceiro aspecto de Bergson que interessa bem de perto \u00e0 psican\u00e1lise: o riso precisa de eco, isto \u00e9, o riso precisa do terceiro, seja do outro, seja da linguagem.<\/p>\n<p>Freud n\u00e3o fez uma teoria sobre o riso, mas preocupou-se em teorizar exaustivamente o que seria o <em>Witz. <\/em>Admite que todos os esfor\u00e7os da filosofia e da literatura n\u00e3o estiveram \u00e0 altura em rela\u00e7\u00e3o a natureza e as implica\u00e7\u00f5es do <em>Witz<\/em> na vida ps\u00edquica. A partir da literatura, segundo Freud \u201cseria inteiramente impratic\u00e1vel tratar dos chistes fora do contexto do c\u00f4mico\u201d.<\/p>\n<p>No texto \u201cO chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente\u2019 <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Freud, traz justamente, qual seria a diferen\u00e7a entre o c\u00f4mico, o chiste e o humor, j\u00e1 que o riso est\u00e1 inclu\u00eddo em todos eles. Por que a imita\u00e7\u00e3o provoca o riso? Al\u00e9m disso, o que dizer do c\u00f4mico enquanto inconsciente?<\/p>\n<p>Para Freud, o chiste e o c\u00f4mico se distinguem sobretudo na localiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, \u201co chiste \u00e9, por assim dizer, a contribui\u00e7\u00e3o para o c\u00f4mico no \u00e2mbito do inconsciente\u201d (&#8230;) o chiste \u00e9 criado, o c\u00f4mico \u00e9 encontrado\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. No chiste, a terceira pessoa \u00e9 indispens\u00e1vel, j\u00e1 no c\u00f4mico, pode-se contentar com apenas duas pessoas e se tiver a terceira, a quarta&#8230; n\u00e3o acrescenta nada de novo.<\/p>\n<p>Dentre as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente o <em>Witz<\/em> ou tirada espirituosa, \u00e9 a que melhor p\u00f5e em evid\u00eancia a rela\u00e7\u00e3o entre a linguagem e o inconsciente, \u00e9 o que nos diz Lacan desde o in\u00edcio do seu ensino. J\u00e1 em \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d, ao falar sobre o livro de Freud sobre\u00a0 o chiste, diz que \u201ccontinua a ser a obra mais incontest\u00e1vel, porque a mais transparente, em que o efeito do inconsciente nos \u00e9 demonstrado at\u00e9 os confins de sua fineza; e a face que ele nos revela \u00e9 justamente a do esp\u00edrito, da espirituosidade, na ambiguidade que lhe confere a linguagem, onde a outra face de seu poder de realeza \u00e9 a \u201csali\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> pela qual sua ordem inteira aniquila-se num instante\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Freud, nos d\u00e1 um exemplo formid\u00e1vel o qual nos faz rir alto, para ilustrar o que seria um chiste ing\u00eanuo \u201cj\u00e1 que a fala, e n\u00e3o os atos, \u00e9 a forma habitual de express\u00e3o do <em>Witz<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma menina de tr\u00eas anos e meio avisa seu irm\u00e3o: n\u00e3o coma muito disso, sen\u00e3o voc\u00ea vai ficar doente e tem que tomar bubicamento. Bubicamento?, pergunta a m\u00e3e, o que \u00e9 isso? Quando eu estava doente, explica-se a crian\u00e7a, tamb\u00e9m tive de tomar medicamento <em>[Medizin]<\/em>. A crian\u00e7a acha que o recurso prescrito pelo m\u00e9dico chama-se \u201cmedi-camento\u201d. <em>[M\u00e4di-zin]<\/em> quando se destina a uma menina <em>[M\u00e4di],<\/em> e conclui que deve chamar-se \u201cbubi-camento\u201d quando destinado a um menino <em>[Bubi]<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><strong>[11]<\/strong><\/a>\u201d.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Com esse exemplo \u00e9 poss\u00edvel elucidar a posi\u00e7\u00e3o do ing\u00eanuo, entre o chiste e o c\u00f4mico, um uso equivocado da palavra que aparece como absurdo, algo de obsceno e que faz todos rirem.<\/p>\n<p>Mais tarde, no Semin\u00e1rio 5, o <em>Witz<\/em> \u00e9 tomado por Lacan como esse ato de linguagem que vez ou outra, ao transgredir o c\u00f3digo e a ordem do discurso comum, se faz c\u00f4mico, ao ser apanhado numa palavra nova, num tra\u00e7o, ou num engavetamento de palavras. A surpresa, diz Lacan, atesta que estamos no inconsciente, que nesse encontro rel\u00e2mpago, revela sua estrutura de linguagem. Nesse momento do ensino, o acento est\u00e1 na primazia do simb\u00f3lico e formaliza\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora paterna como ponto de ancoragem do sujeito.<\/p>\n<p>A estrutura tern\u00e1ria do <em>Witz<\/em> \u00e9 condi\u00e7\u00e3o mesma para dar a ele seu estatuto de forma\u00e7\u00e3o do inconsciente. Portanto, a san\u00e7\u00e3o do Outro do significante \u00e9 fundamental para que a tirada espirituosa seja sancionada como tal, ou como diz Lacan \u201co que se produz entre mim e o Outro, no momento da tirada espirituosa, \u00e9 como uma comunh\u00e3o toda especial entre o pouco-sentido e o passo-do-sentido\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. O que reaparece na tirada espirituosa \u00e9 o desejo, que ao entrar no inconsciente, \u201cconserva-se em sua forma simb\u00f3lica, isto \u00e9, sob a forma do tra\u00e7o indestrut\u00edvel\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>A com\u00e9dia do falo<\/strong><\/p>\n<p>Em Freud, constata-se que o falo s\u00f3 se define por sua possibilidade de faltar, surgindo como um equivalente da opera\u00e7\u00e3o de castra\u00e7\u00e3o, que se deduz da vis\u00e3o do sexo feminino. Assim, tanto a menina quanto o menino precisam lan\u00e7ar m\u00e3o do elemento simb\u00f3lico do falo para equacionar o enigma da falta no campo do outro. Quando se levanta o v\u00e9u depara-se com algo irris\u00f3rio. H\u00e1 algo de c\u00f4mico neste desmascaramento.<\/p>\n<p>Em Lacan, podemos pensar no falo como um elemento que, se por um lado, conecta simbolicamente os sexos, por outro faz barreira a esta conex\u00e3o. Segundo ele, o falo \u201cirrealiza\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Afirma: o ser apenas comparece nesse equacionamento f\u00e1lico do desejo por obra de um \u201cparecer que substitui o ter, para, de um lado, proteg\u00ea-lo e, de outro mascarar a sua falta no outro, e que tem por efeito projetar inteiramente as manifesta\u00e7\u00f5es ideais ou t\u00edpicas do comportamento de cada um dos sexos, at\u00e9 o limite da copula\u00e7\u00e3o, na com\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<p>Lacan aponta a desarmonia estrutural entre os sexos. No Semin\u00e1rio 4, diz: \u201cO erro \u00e9 a partir da ideia de que existem a linha e a agulha, a mo\u00e7a e o rapaz, e entre um e outro uma harmonia preestabelecida, (&#8230;) de tal maneira que, se alguma dificuldade se manifesta, s\u00f3 pode ser por (&#8230;) algum acontecimento puramente acidental e contingente\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Esta hip\u00f3tese faz pensar que este desencontro entre os sexos somente ser\u00e1 remediado por estrat\u00e9gias ps\u00edquicas imagin\u00e1rias. N\u00e3o seria, ent\u00e3o, justamente por isso que este tema \u00e9 representado t\u00e3o ami\u00fade na com\u00e9dia?<\/p>\n<p>Em \u201cTelevis\u00e3o\u201d, Lacan aponta o uso do bom-senso (sentido f\u00e1lico) como condicionado por um saber, implicado na estrutura da com\u00e9dia, relativo \u00e0 impossibilidade da correla\u00e7\u00e3o entre os sexos. Ele diz: \u201cH\u00e1 ainda o sentido (sens) que se faz passar por bom-senso (bom sens) e que, ainda por cima, \u00e9 tido como senso comum (sens commun). \u00c9 o c\u00famulo do c\u00f4mico, salvo que o c\u00f4mico n\u00e3o se d\u00e1 sem o saber da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na jogada, na jogada do sexo. Donde nossa dignidade vem revezar-se com ele, ou at\u00e9 substitu\u00ed-lo\u201d<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>Graciela Brodsky<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> afirma que para a psican\u00e1lise, chama-se com\u00e9dia um regime estritamente articulado \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica. A com\u00e9dia dos sexos, para a psican\u00e1lise, &#8220;requer o falo e sua burla, requer o S1 e sua queda do pedestal&#8221;. \u00c9 pela via da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica em jogo no amor que est\u00e1 sua dimens\u00e3o c\u00f4mica nas diversas situa\u00e7\u00f5es, em que dois inconscientes est\u00e3o em jogo, situa\u00e7\u00f5es da vida cotidiana dos parceiros em que se manifesta algo que escapa.<\/p>\n<p><strong>Ironia e o riso<\/strong><\/p>\n<p>A ironia provoca o riso? Certamente, o riso a ironia provoca. Mas quem ri com ela? Quem a produz ou a quem recebe? \u201cA ironia \u00e9 justamente aquela da apresenta\u00e7\u00e3o pelo oposto (&#8230;) que pode ser compreendido sem que precisemos solicitar o inconsciente\u201d. Freud<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>, em rela\u00e7\u00e3o a ironia nos alerta \u201ca ironia s\u00f3 \u00e9 utiliz\u00e1vel quando o outro est\u00e1 preparado para ouvir o oposto, de modo que n\u00e3o lhe falte a inclina\u00e7\u00e3o a contradizer\u201d. Miller<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a> traz que a ironia n\u00e3o \u00e9 do Outro e sim do sujeito e por isso, vai contra o Outro. \u201cA ironia \u00e9 a forma c\u00f4mica tomada pelo saber de que o Outro n\u00e3o existe, isto \u00e9, de que, como Outro do saber, ele n\u00e3o \u00e9 nada. Quando o humor se exerce do ponto vista do sujeito suposto saber, a ironia s\u00f3 se exerce a\u00ed onde a queda do sujeito suposto saber foi consumada\u201d, ou seja, onde n\u00e3o se tem mais nada a dizer, o riso \u00e9 o que pode restar!<\/p>\n<p><strong>O equ\u00edvoco, o sem sentido e o riso<\/strong><\/p>\n<p>Em \u201co engano do sujeito suposto saber\u201d Lacan retoma um ap\u00f3logo de Freud<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a> que faz rir: \u201cEssas representa\u00e7\u00f5es se somam, como se diz do caldeir\u00e3o, e seu malef\u00edcio \u00e9 afastado, primeiro, por n\u00e3o me ter sido emprestado, segundo porque, quando eu o tive, ele j\u00e1 era furado, e terceiro, porque ele era perfeitamente novo no momento de devolv\u00ea-lo. E enfie o que voc\u00ea est\u00e1 me mostrando onde quiser\u201d<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. Tal ap\u00f3logo mostra como a sequ\u00eancia de representa\u00e7\u00f5es conserva o equ\u00edvoco e fura o sentido. A representa\u00e7\u00e3o \u00e9 da ordem do imagin\u00e1rio, \u00e9 intui\u00e7\u00e3o sempre ing\u00eanua, \u00e9 ar para inflar o inconsciente. Quando pensamos nas mais diversas situa\u00e7\u00f5es numa an\u00e1lise em que o riso aparece, ser\u00e1 que poder\u00edamos pens\u00e1-lo como um efeito, uma borda a algo que emerge subitamente, deixando o equ\u00edvoco, o engano, no ar?<\/p>\n<p>\u00c9 pelo dizer que, ao comportar sempre uma ambiguidade, um equ\u00edvoco, que o inconsciente em sua mais pura ess\u00eancia<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a> em seu acontecer fortuito, escancara o furo que em seguida, volta a se fechar: nada de apreens\u00e3o, nada de saber. O sujeito s\u00f3 se revela naquilo que \u00e9 engano (<em>m\u00e9prise). <\/em>A satisfa\u00e7\u00e3o que o dizer espirituoso proporciona adv\u00e9m desse engano. Assim, a porta do riso se abre e \u201cal\u00e9m da qual, n\u00e3o h\u00e1 mais nada a encontrar\u201d<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>. A\u00ed sim, poder\u00edamos dizer que estamos no inconsciente real?<\/p>\n<p>Em \u201cRumo a um significante novo\u201d<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a> Lacan parece aproximar uma psican\u00e1lise do <em>Witz.<\/em> O chiste, um dizer espirituoso, se ocupa de um equ\u00edvoco, como diz Freud, de uma economia, da\u00ed a aproxima\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise enquanto \u201cuma pr\u00e1tica sem valor\u201d, por\u00e9m eficaz.<\/p>\n<p>Sobre a inven\u00e7\u00e3o de um significante novo, aquele que como o real n\u00e3o tem nenhum sentido: talvez isso fosse fecundo, talvez um meio de sidera\u00e7\u00e3o, \u00e9 isso em que consiste um chiste, disse Lacan, \u201cconsiste em se servir de uma palavra para outro uso que n\u00e3o aquele para o qual ela \u00e9 feita, dobramo-la, um pouco, e \u00e9 nessa dobradura que reside seu efeito operat\u00f3rio\u201d<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>.<\/p>\n<p>Assim, evidencia-se o furo por meio do qual o inconsciente, puls\u00e1til, por se fechar n\u00e3o desperta, pois s\u00f3 h\u00e1 despertar quando o que se apresenta e se representa n\u00e3o tem nenhuma esp\u00e9cie de sentido, ou seja, quando o furo faz sua fun\u00e7\u00e3o ao apresentar o real.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da via do significante e do cristal da l\u00edngua, em toda forma\u00e7\u00e3o do inconsciente h\u00e1 um fundo de satisfa\u00e7\u00e3o, de gozo, designado por Lacan como objeto<em> a<\/em>. Ele tamb\u00e9m tem estrutura de furo.<\/p>\n<p>Na abertura do Semin\u00e1rio 11, Lacan se refere \u00e0 excomunh\u00e3o da qual foi alvo por parte da IPA, apontando sua dimens\u00e3o c\u00f4mica. Ali, diz ele, o c\u00f4mico n\u00e3o est\u00e1 exatamente no expurgo, mas no fato de se ver no lugar de negociado. O ponto de grande import\u00e2ncia \u00e9 que a\u00ed surge o objeto velado por natureza: o c\u00f4mico puro.<\/p>\n<p>Miller<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a> \u00a0retoma esse ponto ao dizer que ali, a s\u00e9rie de neologismos, o ensino neol\u00f3gico de Lacan, n\u00e3o foi sancionado pelo Outro psicanal\u00edtico, por essa raz\u00e3o a excomunh\u00e3o n\u00e3o tem a estrutura da tirada espirituosa que \u00e9 alcan\u00e7ada somente quando o Outro a reconhece como tal. Ao contr\u00e1rio, o que se v\u00ea \u00e9 o Outro dizendo: &#8220;isso n\u00e3o \u00e9 uma tirada espirituosa&#8221; (&#8230;) de certa maneira, disseram a Lacan: &#8220;isso n\u00e3o \u00e9 um ensino&#8230;digno de formar psicanalistas\u201d<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, estejamos advertidos: n\u00e3o h\u00e1 na psican\u00e1lise uma preconiza\u00e7\u00e3o do riso como rem\u00e9dio para todos os males! Assim como n\u00e3o h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o estreita com a vis\u00e3o tr\u00e1gica do mundo, como poder\u00edamos pensar ao nos dar conta das refer\u00eancias a esta vis\u00e3o tr\u00e1gica no semin\u00e1rio VII, <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/em> Se Lacan saiu do tr\u00e1gico atrav\u00e9s do criacionismo, isto \u00e9, da sublima\u00e7\u00e3o, do lado do riso em Lacan, h\u00e1 a sua teoria dos afetos cuja variedade aponta para a ang\u00fastia, como o afeto que n\u00e3o engana.<\/p>\n<p>Assim, deixamos a provoca\u00e7\u00e3o para os trabalhos das XII Jornadas, s\u00f3 riso?!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d. <em>In:\u00a0Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.525.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> NIETZSCH, F. Le gai savoir. Paris: Gallimard, 1950, p. 211.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> BERGSON, H. <em>Ensaio sobre a significa\u00e7\u00e3o do c\u00f4mico<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MENDON\u00c7A JR,\u00a0 J. P. <em>O riso e a Ordem Social: Ensaio sobre a teoria de Henri Bergson sobre o riso e o c\u00f4mico<\/em>. Tese de Mestrado\/ PUC, Rio Grande do Sul.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> CHAU\u00cd, M. <em>Desejo, paix\u00e3o e a\u00e7\u00e3o na \u00e9tica de Espinosa<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.67.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> FREUD, S. <em>O chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o Inconsciente<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p.257.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Segundo o dicion\u00e1rio Houaiss da l\u00edngua portuguesa \u2013 Parte que se sobressai, o que se destaca em rela\u00e7\u00e3o aos demais, atrevimento, excesso de liberdade.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LACAN, J. <em>\u201c<\/em>Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise<em>\u201d<\/em>.<em> In: Escritos<\/em>.\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p\u00e1g. 271.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> FREUD, S.\u00a0 <em>O chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o Inconsciente<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.259.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Idem, p. 259-260.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 5 :as forma\u00e7\u00f5es do Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p.123.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Idem,97.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 701.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> LACAN, J.\u00a0 O Semin\u00e1rio, livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995, p. 48.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> LACAN, J.\u00a0 <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 513.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> BRODSKY, G. \u201cUm homem, uma mulher e a psican\u00e1lise\u201d. In <em>Latusa &#8211; Revista de psican\u00e1lise da Escola Brasileira de psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Rio de janeiro<\/em>, n.13, p. 163.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> FREUD, S. <em>O chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o Inconsciente<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.248.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> MILLER, J-A.\u00a0 <em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.311 e 312. Vers\u00e3o e-book.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Durante a an\u00e1lise do sonho A Inje\u00e7\u00e3o de Irma, Freud se recorda dessa hist\u00f3ria contada por um homem acusado por seus vizinhos de devolver o caldeir\u00e3o emprestado furado.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> LACAN, J. \u201cO engano do sujeito suposto saber\u201d,<em> In:<\/em> <em>Outros escritos<\/em>, p. 330.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> LACAN, J. \u201cDa psican\u00e1lise em suas rela\u00e7\u00f5es com a realidade\u201d. In <em>Outros escritos<\/em>, p. 355.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a> Idem, p. 356.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> LACAN, J. \u201cRumo a um significante novo\u201d. <em>In:<\/em> <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana,<\/em> 22, p. 11<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a> Idem, p.13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a> MILLER, J-A. <em>Perspectivas do semin\u00e1rio 5 de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p.13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> MILLER, J-A. <em>Perspectivas do semin\u00e1rio 5 de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p.14.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_single_image image=&#8221;9275&#8243; add_caption=&#8221;yes&#8221; alignment=&#8221;right&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;8970&#8243; add_caption=&#8221;yes&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_column_text]Eixo I S\u00d3 RISO?! \u00a0Cartel respons\u00e1vel: Maria Cec\u00edlia Galletti Ferretti (+1) Camila Col\u00e1s Carmen Silvia Cervelatti Daniela de Camargo Barros Affonso Jovita Carneiro de Lima O riso em Lacan traz fortemente a quest\u00e3o do gaio saber. Em \u201cTelevis\u00e3o\u201d[1] localiza o gaio saber como o oposto da tristeza, sendo ele pr\u00f3prio uma virtude.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":6905,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-7061","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/7061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7061"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/7061\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9276,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/7061\/revisions\/9276"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6905"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}