{"id":6573,"date":"2022-08-08T08:57:50","date_gmt":"2022-08-08T11:57:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?page_id=6573"},"modified":"2022-08-08T08:57:50","modified_gmt":"2022-08-08T11:57:50","slug":"eixos-xi-jornadas","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/xi-jornadas-%e2%b1%a5-verdade-e-o-gozo-que-nao-mente\/eixos-xi-jornadas\/","title":{"rendered":"EIXOS TEM\u00c1TICOS \u2013 XI JORNADAS"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #808080;\"><strong>EIXO 1 \u2013 <em>O AMOR \u00c0 VERDADE<\/em> E AS ENTREVISTAS PRELIMINARES<\/strong><\/span><\/h3>\n<p>Freud indicava aos psicanalistas a realiza\u00e7\u00e3o de um tratamento de \u201censaio\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> com o objetivo de diagn\u00f3stico e \u201csondagem\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> da atitude transferencial, visando colocar \u00e0 \u201cprova\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> a possibilidade da oferta do tratamento \u00e0quele que o procurava. Colocar \u00e0 prova as condi\u00e7\u00f5es do paciente se lan\u00e7ar na empreitada anal\u00edtica da busca da verdade do seu sintoma, com a finalidade de deslind\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O \u201camor \u00e0 verdade\u201d \u00e9 apresentado como condi\u00e7\u00e3o \u00e0 cura psicanal\u00edtica expressa no comprometimento do analisante nessa busca.<\/p>\n<p>Como o analista toma o lugar da verdade no in\u00edcio do tratamento hoje? Ainda se espera tal comprometimento?<\/p>\n<p>Com Lacan podemos seguir e afirmar que o tempo preliminar de entrevistas n\u00e3o se restringe \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o da aptid\u00e3o \u00e0 busca pela verdade. Falamos em efeitos de verdade articulados \u00e0 visada inicial da retifica\u00e7\u00e3o na satisfa\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p>Cabe perguntar: O que em nossa pr\u00e1tica tem se apresentado como preliminar? Qual o lugar que temos dado \u00e0s entrevistas preliminares como um tempo de abertura ao inconsciente transferencial?<\/p>\n<p>Miller aponta que \u201cNo lugar do recalcado, a an\u00e1lise do <em>falasser<\/em> (parl\u00eatre) instala a verdade mentirosa que decorre do que Freud reconheceu como o recalque origin\u00e1rio. Isso quer dizer que a verdade \u00e9 intrinsicamente da mesma ess\u00eancia que a mentira. O <em>proton pseudos <\/em>\u00e9 tamb\u00e9m o falso \u00faltimo. O gozo, ou os gozos do corpo falante, por\u00e9m, \u00e9 aquilo que n\u00e3o mente.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Se na \u00e9poca do <em>falasser<\/em> (parl\u00eatre) \u201canalisa-se qualquer um\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>, isto \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 contraindica\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise, o que dizer da articula\u00e7\u00e3o entre verdade e satisfa\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da an\u00e1lise? H\u00e1 algo que se espera como preliminar, ou que possa marcar um antes e depois? Em que termos?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>Freud, S. (1913) \u201cO in\u00edcio do tratamento\u201d. In: <em>Obras completas<\/em> Vol.10. SP: Cia das Letras, 2010. p.165.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Idem, <em>ibidem<\/em>. p.165.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>3 Idem,<em> ibidem<\/em>. p.165.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Miller, J-A. O inconsciente e o corpo falante. In: <em>Scilicet O Corpo Falante \u2013 Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2016. p.32.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Idem, ibidem. p. 31.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6574&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; add_caption=&#8221;yes&#8221; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #808080;\"><strong>EIXO 2: TRANSFER\u00caNCIA: PARADOXOS ENTRE SABER, AMOR E GOZO<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A proposi\u00e7\u00e3o de Lacan de que \u201co analista faz parte do conceito de inconsciente\u201d incide de forma radical sobre o operador da experi\u00eancia anal\u00edtica que Freud nomeou \u201ctransfer\u00eancia\u201d. Para este operador, Lacan formulou um matema, no qual o \u201csignificante da transfer\u00eancia\u201d deve ser entendido como uma quest\u00e3o e, como tal, ele pode instalar um \u201clugar vazio\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A transfer\u00eancia assim sustentada favorece ao sujeito endere\u00e7ar-se a um \u201csignificante qualquer\u201d, sem a garantia outrora dada por um significante mestre que ordenava sua vida. Assim, o analista autoriza um afrouxamento das identifica\u00e7\u00f5es<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Este fundamento tamb\u00e9m est\u00e1 presente na express\u00e3o \u201csujeito suposto saber\u201d. Tal como indica Miller<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, esta express\u00e3o, por nos apresentar in\u00fameras possibilidades de leitura &#8211; o \u201csuposto\u201d, por exemplo, pode referir-se tanto ao sujeito quanto ao saber -, evidencia justamente a \u201cdisjun\u00e7\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o\u201d e o efeito \u00e9 o interrogar-se acerca do que um significante quer dizer<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. No entanto, a experi\u00eancia anal\u00edtica testemunha os impasses advindos na pr\u00f3pria vertente do \u201camor ao saber\u201d ou do \u201cquerer saber\u201d.<\/p>\n<p>Como Freud j\u00e1 formulara, participam da transfer\u00eancia a dimens\u00e3o do amor e a do gozo &#8211; das quais alguns fen\u00f4menos transferenciais encontram m\u00e1xima express\u00e3o. Amor e gozo engendram a presen\u00e7a do objeto, e este ser\u00e1 a chave fundamental para poder dar conta de um ponto de impossibilidade, um real, que o pr\u00f3prio inconsciente transferencial imp\u00f5e. O grande salto cl\u00ednico dado por Lacan \u00e9 indicar que n\u00e3o cabe ao analista deixar-se levar pelas vicissitudes do \u201csujeito suposto saber\u201d, mas servir-se dele para operar desde a l\u00f3gica do objeto <em>a<\/em>, possibilitando \u201calojar\u201d os restos da opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica que aparecem sem-sentido, indicando que, com sua presen\u00e7a, o analista pode \u201cencarnar a parte n\u00e3o simbolizada do gozo\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cf. Laurent, \u00c9. \u201cNaissance du sujet suppos\u00e9 savoir\u201d. In: Lettre Mensuelle, ECF, n. 260, 2007, p. 14. Ver Lacan, J. \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967\u201d. In: <em>Outros escritos, <\/em>Rio de Janeiro: JZE, 2003, p. 253.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Laurent, \u00c9. Ibid. p. 14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J-A. \u201cO inconsciente a advir\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, <\/em>n. 79, julho de 2018, p. 12. Extra\u00eddo da aula de 17\/11\/1999 do curso \u201cOs usos do lapso\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. op. cit. p. 12.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. op. cit. p. 18<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6578&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; add_caption=&#8221;yes&#8221; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h3><strong><span style=\"color: #808080;\">EIXO 3\u2013 <em>A<\/em> <em>MENTIRA VER\u00cdDICA<\/em> E A INTERPRETA\u00c7\u00c3O NA EXPERI\u00caNCIA DA PSICAN\u00c1LISE<\/span> <\/strong><\/h3>\n<p>Com Lacan se descortina um giro no modo de pensar a interpreta\u00e7\u00e3o, de um significante que produziria uma verdade, antes recalcada, para um dizer que afeta o corpo, que ressoa nele e altera a satisfa\u00e7\u00e3o, sob a forma de um acontecimento. Tomar a interpreta\u00e7\u00e3o a partir do mist\u00e9rio do corpo falante, \u00e9 tom\u00e1-la como uma opera\u00e7\u00e3o que visa capturar o real, que pretende ler o sintoma e destacar sua vertente de letra sem sentido. Trata-se de um percurso que vai da interpreta\u00e7\u00e3o-tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o assem\u00e2ntica<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia anal\u00edtica a \u201cmentira ver\u00eddica\u201d <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> localiza um ponto desde o qual uma verdade se produz e o saber relativo, na via de sua decifra\u00e7\u00e3o, se mostra impotente frente ao indecifr\u00e1vel em jogo.<\/p>\n<p>Seguindo com Miller, a \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um dizer que visa ao corpo falante para produzir nele um acontecimento, para\u00a0<em>passar para as tripas,\u00a0<\/em>dizia Lacan. Isso n\u00e3o se antecipa, mas se verifica a posteriori, pois o efeito de gozo \u00e9 incalcul\u00e1vel. Quando se analisa o inconsciente, o sentido da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a verdade. Quando se analisa o falasser, o corpo falante, o sentido da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 o gozo.\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>No Posf\u00e1cio do Semin\u00e1rio 11, lido por Gil Caroz<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, encontramos a interpreta\u00e7\u00e3o e a leitura colocadas no <em>depois do \u00c9dipo<\/em>, cabendo considerar o interpretar em termos do <em>n\u00e3o-a-ser-interpretado<\/em> e o ler como o<em> n\u00e3o-a-ser-lido<\/em>, indicativos da imposs\u00edvel abordagem do real.<\/p>\n<p>Nesse contexto perfilam os significantes <em>apparola<\/em> e jacula\u00e7\u00e3o para cernir o que estaria em jogo na interpreta\u00e7\u00e3o, que a partir de outros desdobramentos \u00e9 tomada como acontecimento.<\/p>\n<p>Desse modo, o que podemos dizer das an\u00e1lises hoje conduzidas em termos da \u201cimpot\u00eancia da verdade\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> e o poder dos imposs\u00edveis\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, naquilo que a interpreta\u00e7\u00e3o visa tocar? O que falar do consentimento acerca de um novo regime de satisfa\u00e7\u00e3o frente ao gozo que n\u00e3o mente?<\/p>\n<p>O que dizer desde o lugar vazio do analista sobre as resson\u00e2ncias de uma interpreta\u00e7\u00e3o e do reenvio da fala \u00e0 escrita?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Miller, J.- A. A interpreta\u00e7\u00e3o pelo avesso. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, SP, n 15, p. 96-99, 1996.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. I RJ: Zahar, 1988, p. 137.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Miller, J-A. O inconsciente e o corpo falante. In: <em>Scilicet O Corpo Falante \u2013 Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2016. p.32.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Caroz, G. Interpreta\u00e7\u00e3o\/Leitura. In: Scilicet. Um real para o s\u00e9culo XXI. Ondina Machado Vera Avelar Ribeiro (org.) Belo Horizonte, Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio 17: o avesso da psican\u00e1lise.\u00a0 RJ: Zahar, 1992, p. 156.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio 17. Ibid. p. 172.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6581&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; add_caption=&#8221;yes&#8221; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #808080;\"><strong>EIXO 4: O COGITO LACANIANO E O CORPO QUE SE GOZA<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O mundo n\u00e3o pede licen\u00e7a para mudar, nem por isso o mal-estar deixa de existir, ele \u00e9 travestido de acordo com a \u00e9poca. O psicanalista deve acompanhar, como Lacan orienta, a subjetividade de sua \u00e9poca para melhor conduzir sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A pergunta \u201cQuem eu sou?\u201d \u00e9 da ordem da verdade do sujeito, do sujeito dividido, traz um enigma. A psican\u00e1lise, ao ex-sistir, promoveu uma subvers\u00e3o do cogito cartesiano \u2013 \u201cpenso, logo existo\u201d. Trata-se de uma certeza, enquanto que na psican\u00e1lise a verdade mente. Os analisantes em algum momento se d\u00e3o conta da impot\u00eancia de seus pensamentos quanto ao sofrimento, quando buscam uma sa\u00edda para a ang\u00fastia de viver. As cren\u00e7as fracassam frente ao gozo, frente ao real que n\u00e3o se deixa cativar nem tampouco ser absorvido pelo saber. A verdade \u00e9 \u201cn\u00e3o-toda\u201d, apesar de ser buscada incessantemente, como se ela pudesse livrar o <em>falasser <\/em>do furo estrutural cujo preenchimento \u00e9 v\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan subverteu o cogito cartesiano com a proposi\u00e7\u00e3o \u201cPenso onde n\u00e3o sou, sou onde n\u00e3o penso\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> e com isso p\u00f4de ir em dire\u00e7\u00e3o ao <em>falasser<\/em>, ao corpo falante, acrescentando a subst\u00e2ncia gozosa ao sujeito do inconsciente <strong>$<\/strong>. Trata-se do cogito lacaniano em seu \u00faltimo ensino. \u201cAonde isso fala, isso goza e nada sabe\u201d.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>O <em>falasser <\/em>habita a linguagem e tem um corpo que \u201cse goza\u201d: \u201cN\u00e3o \u00e9 o corpo que fala por iniciativa pr\u00f3pria, \u00e9 sempre o homem que fala <em>com<\/em> seu corpo, [&#8230;] ele se serve de seu corpo para falar. [&#8230;] A fala passa pelo seu corpo e, em retorno, afeta o corpo que \u00e9 seu emissor [&#8230;, assim] inconsciente e puls\u00e3o s\u00e3o equivalentes, t\u00eam uma origem comum, que \u00e9 o efeito da fala sobre o corpo, os afetos som\u00e1ticos da l\u00edngua, da lal\u00edngua\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. O falasser n\u00e3o \u00e9 o corpo, ele <em>tem<\/em> um corpo e pode nele intervir como quiser. A ci\u00eancia favorece o crescimento das interven\u00e7\u00f5es no corpo em nossos tempos: o empuxo ao mais-de-gozar, verificado tamb\u00e9m na oferta de tantos objetos feitos para serem consumidos.<\/p>\n<p>Desde Freud<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, os sintomas t\u00eam duas vertentes: sentido e gozo, que se articulam. Pela produ\u00e7\u00e3o de sentido, os sintomas podem ser interpret\u00e1veis porque s\u00e3o da ordem do retorno do recalcado, no entanto nem tudo pode ser dito pois n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio para o recalque e para a verdade. A <em>\u201cBedeutung<\/em> concerne \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o real\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. Seguindo por esse bin\u00e1rio, a cl\u00ednica psicanal\u00edtica de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana pode promover uma retifica\u00e7\u00e3o, uma mudan\u00e7a no gozo.<\/p>\n<p>O sujeito suposto saber, condi\u00e7\u00e3o da entrada em an\u00e1lise e em sintonia com a busca d\u00b4A verdade, n\u00e3o vai sozinho sem o suposto gozar. H\u00e1 o significante e o corpo que se goza. Nesses tempos de evapora\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tanto o Outro para gozar da castra\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, pois ela incide sobre o gozo fazendo uma alian\u00e7a entre o Outro da verdade e o gozo f\u00e1lico. Quais as consequ\u00eancias para o tratamento dos sintomas e do mal-estar em nossos tempos?<\/p>\n<p>Evidencia-se, pelo dispositivo anal\u00edtico, o gozo imposs\u00edvel de negativar, que est\u00e1 fora do anseio da verdade, do saber, do gozo f\u00e1lico, do gozo que convoca o objeto <em>a <\/em>para acobertar o furo pulsional e do Outro.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 15: o ato psicanal\u00edtico<\/em>. Aula de 17 de janeiro de 1968. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar Ed, 1982, p.142.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. \u201c<em>Habeas corpus\u201d<\/em>, <em>Scilicet As psicoses ordin\u00e1rias e as outras, sob transfer\u00eancia<\/em>, p.16 e 17.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Freud, S. <em>Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise<\/em>, confer\u00eancia 17: o sentido dos sintomas e confer\u00eancia 23: os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas, Obras completas, vol. 13. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. <em>Introducci\u00f3n a la cl\u00ednica lacaniana. Conferencias em Espa\u00f1a. <\/em>Barcelona: RBA Libros, 2005, p.466.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. <em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p.183.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6584&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; add_caption=&#8221;yes&#8221; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text] EIXO 1 \u2013 O AMOR \u00c0 VERDADE E AS ENTREVISTAS PRELIMINARES Freud indicava aos psicanalistas a realiza\u00e7\u00e3o de um tratamento de \u201censaio\u201d[1] com o objetivo de diagn\u00f3stico e \u201csondagem\u201d[2] da atitude transferencial, visando colocar \u00e0 \u201cprova\u201d[3] a possibilidade da oferta do tratamento \u00e0quele que o procurava. Colocar \u00e0 prova as&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":6416,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-6573","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6573","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6573"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6573\/revisions"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/6416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}