{"id":2952,"date":"2018-05-18T18:46:05","date_gmt":"2018-05-18T21:46:05","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/?page_id=2952"},"modified":"2018-05-18T18:46:05","modified_gmt":"2018-05-18T21:46:05","slug":"2952-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/2952-2\/","title":{"rendered":"Mesmo no s\u00e9culo XXI, ainda \u00e9 a partir da fala que a psican\u00e1lise opera"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2923 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Teresinha-3-300x221.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"221\" \/><\/p>\n<h4><strong>Mesmo no s\u00e9culo XXI, ainda \u00e9 a partir da fala que a psican\u00e1lise opera<\/strong><\/h4>\n<h4 style=\"text-align: right;\"><strong>Teresinha N. Meirelles do Prado (EBP\/AMP)<\/strong><\/h4>\n<h4><em>\u00a0<\/em><\/h4>\n<h4>\u201cSeus meios s\u00e3o os da fala, na medida em que ela confere um sentido \u00e0s fun\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo; seu campo \u00e9 o do discurso concreto, como campo da realidade transindividual do sujeito; suas opera\u00e7\u00f5es s\u00e3o as da hist\u00f3ria, no que ela constitui a emerg\u00eancia da verdade no real\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h4>\n<h4><\/h4>\n<h4>Para al\u00e9m do contexto em que foi pronunciado h\u00e1 sessenta e cinco anos \u2013 em que Lacan enunciava claramente seu desacordo com a pr\u00e1tica dominante de uma IPA guiada prioritariamente por quest\u00f5es imagin\u00e1rias, a ponto de retirar-se da Sociedade Psicanal\u00edtica de Paris e fundar, naquele mesmo ano, com outros colegas, a Sociedade Francesa de Psican\u00e1lise \u2013 o chamado \u201cDiscurso de Roma\u201d, publicado nos <em>Escritos <\/em>com o t\u00edtulo \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d, continua a ser um texto fundamental na psican\u00e1lise.<\/h4>\n<h4>Ainda que naquela \u00e9poca Lacan postulasse algumas formula\u00e7\u00f5es que mais tarde abandonaria (como a de intersubjetividade), o essencial da discuss\u00e3o por ele empreendida permanece atual: \u201cquer se pretenda agente de cura, de forma\u00e7\u00e3o ou de sondagem, a psican\u00e1lise disp\u00f5e de apenas um meio: a fala do paciente\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. E o cerne da fun\u00e7\u00e3o da fala na an\u00e1lise, destaca Lacan, reside no fato de que n\u00e3o h\u00e1 fala sem resposta, ainda que esta seja o sil\u00eancio. Se um analista ignora esse fundamento, tender\u00e1 a buscar al\u00e9m da fala uma realidade que preencha o vazio que pode se colocar ali. \u00c9 a\u00ed que surge o risco de se equivocar na tentativa de analisar o que estaria para al\u00e9m da fala, um suposto comportamento elucidativo daquilo que o analisante n\u00e3o diz. Nesse escrito, Lacan critica enfaticamente as leituras equivocadas que podem acontecer quando n\u00e3o se leva em conta o cerne da psican\u00e1lise: a fala e sua fun\u00e7\u00e3o.<\/h4>\n<h4>Em sua diverg\u00eancia com a pr\u00e1tica preponderante na IPA, Lacan defendeu o papel crucial do corte da sess\u00e3o, que \u201cindiferente \u00e0 trama do discurso\u201d, desempenha o papel de \u201cuma escans\u00e3o que tem todo o valor de uma interven\u00e7\u00e3o, precipitando os momentos conclusivos\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Sua cr\u00edtica, nesse contexto, \u00e0 iniciativa de visar a um objeto para al\u00e9m da fala, refere-se ao seu estatuto imagin\u00e1rio nesse momento de seu ensino, o que lhe permitiu destacar, ao exemplificar com a ambiguidade da revela\u00e7\u00e3o do passado fornecida pela hist\u00e9rica no relato da cena traum\u00e1tica, que a quest\u00e3o n\u00e3o era de promover uma vacila\u00e7\u00e3o de conte\u00fado entre o imagin\u00e1rio e uma realidade, mas evidenciar nesse ato o \u2018nascimento da verdade na fala\u2019; algo que n\u00e3o \u00e9 verdadeiro nem falso (vemos aqui o germe do que ele chamou mais tarde de \u2018verdade mentirosa\u2019, ao se referir \u00e0 fantasia), mas cujo poder a fala atualiza. Nesse sentido, a rememora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mera evoca\u00e7\u00e3o. Da\u00ed o efeito do que nesse momento Lacan denomina \u201cfala plena\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, cuja a\u00e7\u00e3o \u00e9 de \u201creordenar as conting\u00eancias passadas, dando-lhes o sentido das necessidades por vir, tais como as constitui a escassa liberdade pela qual o sujeito as faz presentes\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Ou seja, se a fala (plena) cria uma verdade ao reordenar as conting\u00eancias passadas, \u00e9 porque a experi\u00eancia em quest\u00e3o n\u00e3o pode prescindir da fala, na qual ela se d\u00e1.<\/h4>\n<h4>Essa dimens\u00e3o da fala passar\u00e1 por diversas reformula\u00e7\u00f5es, inclusive com rela\u00e7\u00e3o ao que se pode chamar de comunica\u00e7\u00e3o, que nos \u00faltimos anos do ensino de Lacan converte-se em mal-entendido fundamental, e vai expondo cada vez mais seu car\u00e1ter de \u2018parasita\u2019, mas n\u00e3o deixa de ser o \u00fanico instrumento por meio do qual se d\u00e1 uma an\u00e1lise: \u201c(&#8230;) o Real s\u00f3 aparece por meio de um artif\u00edcio ligado ao fato de que h\u00e1 fala e mesmo dizer. E o dizer concerne ao que chamamos de verdade. Exatamente por isso digo que a verdade, n\u00e3o podemos diz\u00ea-la\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/h4>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. \u201c\u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d. In: <em>Escritos.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> ________ <em>Ibid<\/em>. p. 248.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> ________ <em>Ibid<\/em>. p. 254.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> N.A.: Quase 10 anos depois, Lacan volta a esse termo no <em>Semin\u00e1rio 18<\/em>, para destacar que a fala plena \u201cexerce a fun\u00e7\u00e3o da <em>acoisa<\/em>\u201d, aquilo que \u201cest\u00e1 ausente ali onde ocupa seu lugar\u201d, tal como o objeto <em>a<\/em>, que, sendo aquilo que de real se pode apreender no simb\u00f3lico, ocupa esse lugar e, desde modo, exp\u00f5e o furo. LACAN, J.<em> O semin\u00e1rio, livro 18, de um discurso que n\u00e3o fosse semblante. <\/em>Jorge Zahar: Rio de Janeiro, 2009. p. 71-72. Ver tamb\u00e9m: MILLER, J.-A. [23\/05\/07]. \u201cCurso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana\u201d, in\u00e9dito.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J.,<em> Op. Cit.<\/em>, p. 257.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> ________. [10\/01\/78]. \u201cMomento de Concluir\u201d. In\u00e9dito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo no s\u00e9culo XXI, ainda \u00e9 a partir da fala que a psican\u00e1lise opera Teresinha N. Meirelles do Prado (EBP\/AMP) \u00a0 \u201cSeus meios s\u00e3o os da fala, na medida em que ela confere um sentido \u00e0s fun\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo; seu campo \u00e9 o do discurso concreto, como campo da realidade transindividual do sujeito; suas opera\u00e7\u00f5es&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-2952","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}