{"id":10107,"date":"2026-04-15T07:15:08","date_gmt":"2026-04-15T10:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?page_id=10107"},"modified":"2026-04-15T07:16:14","modified_gmt":"2026-04-15T10:16:14","slug":"xiv-jornadas-apresentacao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/jornadas\/xiv-jornadas-bem-feito-supereu\/xiv-jornadas-apresentacao\/","title":{"rendered":"XIV JORNADAS &#8211; Apresenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;10108&#8243;][vc_empty_space][vc_column_text]<span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Veridiana Marucio<br \/>\n<\/strong><em>Membro da EBP\/AMP<br \/>\nDiretora Geral da Se\u00e7\u00e3o SP<\/em><\/span><\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o fim das \u00faltimas Jornadas, ao apagar das luzes da festa de encerramento, quando ainda est\u00e1vamos entre o cansa\u00e7o e a alegria do que hav\u00edamos vivido, percebemos que n\u00e3o havia muito tempo para esperar. Era preciso, quase imediatamente, correr para tomar algumas decis\u00f5es. Mal terminava um encontro\u2026 e n\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos construindo outro.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos, ent\u00e3o, a nos perguntar: onde ser\u00e3o as pr\u00f3ximas Jornadas? Vamos mudar de local? Precisamos de um espa\u00e7o maior? Quem vai coordenar? E, sobretudo: qual ser\u00e1 o tema? Antes mesmo de fechar completamente um ciclo, j\u00e1 nos v\u00edamos implicados no seguinte.<\/p>\n<p>Foi nesse movimento que, entre os jogos de amor e as parcerias contempor\u00e2neas, me veio \u00e0 cabe\u00e7a uma frase conhecida: \u201cfa\u00e7a amor, n\u00e3o fa\u00e7a a guerra\u201d. Ela surgiu como um clich\u00ea, mas rapidamente se transformou em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele momento, ainda n\u00e3o est\u00e1vamos atravessados, como agora, por novos epis\u00f3dios de viol\u00eancia no cen\u00e1rio internacional. Poderia isso se tornar um tema para as Jornadas? E como isso se articularia com o tema da diretoria \u2014 ler um sintoma na \u00e9poca em que o Outro n\u00e3o existe? Num mundo em que a guerra muda de escala e de forma, atravessando territ\u00f3rios e redes, o que disso chega at\u00e9 n\u00f3s, na cl\u00ednica?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que me lembrei de uma cena. Durante uma tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, nos vimos, de repente, sem palavras. Havia algo do que ela dizia sobre a guerra que resistia \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o. E ela disse: \u201cvoc\u00eas, brasileiros, n\u00e3o t\u00eam vocabul\u00e1rio sobre a guerra\u201d.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o tenhamos mesmo. E talvez essa n\u00e3o seja a melhor ideia, apesar de sua pertin\u00eancia. Ent\u00e3o, falaremos de qu\u00ea? O que poderia ser um tema atual?<\/p>\n<p>Diante das crises econ\u00f4micas, pol\u00edticas e migrat\u00f3rias, vemos os discursos ideol\u00f3gicos retornarem com for\u00e7a, acompanhados por novas formas de viol\u00eancia e pelo crescimento de movimentos nacionalistas. S\u00e3o discursos que dividem, que organizam identidades r\u00edgidas \u2014 na\u00e7\u00e3o, etnia, ideologia \u2014 e que acabam por alimentar o \u00f3dio. Por que n\u00e3o, ent\u00e3o, falarmos do \u00f3dio?<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise nos permite ler como o sujeito, em grupo, se deixa capturar por identifica\u00e7\u00f5es coletivas e como, nesse movimento, algo do \u00f3dio ganha consist\u00eancia. Podemos estar permanentemente conectados, constantemente informados, cercados de testemunhos e de mem\u00f3ria, e ainda assim isso n\u00e3o basta para conter o \u00f3dio. Passar\u00edamos, assim, do amor ao \u00f3dio \u2014 duas paix\u00f5es trabalhadas por Lacan.<\/p>\n<p>Troquei essa ideia com algumas pessoas, conversei tamb\u00e9m com a nossa convidada, e, a princ\u00edpio, parecia uma via interessante de trabalho. Mas, durante uma supervis\u00e3o com J.A. Miller, ao comentar sobre essa proposta, ele n\u00e3o deixou de observar: \u201cn\u00e3o acho que seja um tema muito cl\u00ednico\u2026 n\u00e3o sou a favor. Voc\u00eas t\u00eam outra coisa em mente?\u201d<\/p>\n<p>Outras possibilidades tamb\u00e9m haviam sido trazidas pelas colegas de diretoria. A transfer\u00eancia negativa havia sido considerada, assim como o supereu. O segundo, no entanto, apontava para algo ainda pouco explorado no campo freudiano e que se articula com o tema da diretoria. Ao final, ap\u00f3s a conclus\u00e3o da supervis\u00e3o, uma \u00faltima orienta\u00e7\u00e3o<em>: les bienfaits et les mal faits du surmoi. <\/em><\/p>\n<p>Como transmitir isso? A express\u00e3o comporta uma ambiguidade dif\u00edcil de traduzir: entre o \u201cbem-feito\u201d e o \u201cmalfeito\u201d, traz tamb\u00e9m uma pluralidade de possibilidades. Ao tentar dizer isso em portugu\u00eas, n\u00e3o sem impasses, fomos levados a uma solu\u00e7\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m um equ\u00edvoco produtivo:\u00a0Bem feito!<\/p>\n<p>Para lan\u00e7ar algo desse paradoxo nesta breve apresenta\u00e7\u00e3o parto de Freud<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Para ele, a civiliza\u00e7\u00e3o cont\u00e9m a agressividade, mas ao pre\u00e7o de instaurar uma inst\u00e2ncia interna que vigia e pune sem cessar. Mais ainda, ele indica que, no inconsciente, desejar equivale a agir, de modo que o sujeito permanece culpado tanto por satisfazer quanto por renunciar.<\/p>\n<p>Vemos ent\u00e3o que essa \u00e9 uma l\u00f3gica sem sa\u00edda e \u00e9 justamente isso que interessa a Lacan. Ao retom\u00e1-la, ele destaca o car\u00e1ter obsceno e insaci\u00e1vel do supereu, que se apresenta menos como um conceito estabilizado e mais como um paradoxo cujos efeitos \u00e9 preciso acompanhar.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, podemos avan\u00e7ar um pouco mais e considerar que o supereu n\u00e3o se reduz \u00e0 sua face tradicionalmente descrita como obscena e feroz, podendo ser compreendido como uma exig\u00eancia que se exerce no campo da linguagem. Ele n\u00e3o est\u00e1 fora da linguagem, mas \u00e9 efeito dela e se manifesta como uma press\u00e3o que incide sobre o sujeito.<\/p>\n<p>Mas como pensar que algo da linguagem se manifesta como press\u00e3o? A via aberta por Lacan permite situar que a entrada na linguagem implica uma perda de gozo, ao mesmo tempo em que produz um resto que insiste. Esse resto, que n\u00e3o se deixa simbolizar completamente, retorna como exig\u00eancia. Nesse sentido, o supereu pode ser pensado como efeito da linguagem, mas articulado a um gozo que ela mesma produz como exterioridade.<\/p>\n<p>Nesse ponto, a distin\u00e7\u00e3o entre ideal do eu e supereu torna-se fundamental. O ideal do eu est\u00e1 ligado \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 consist\u00eancia imagin\u00e1ria, oferecendo ao sujeito um modelo, um ponto de orienta\u00e7\u00e3o a partir do qual ele se reconhece, mas que nunca alcan\u00e7a. Quando o sujeito fala a partir do ideal, ele se inscreve em um discurso j\u00e1 dado, sustentado por significantes que o precedem, e sua fala tende a recobrir a divis\u00e3o subjetiva, produzindo uma certa estabilidade.<\/p>\n<p>O supereu, por sua vez, opera de outra maneira: n\u00e3o organiza o discurso nem oferece um modelo, mas se imp\u00f5e como uma exig\u00eancia, muitas vezes sem media\u00e7\u00e3o.\u00a0Lacan\u00a0o aproxima da voz enquanto objeto e, nesse movimento, indica que o objeto\u00a0a\u00a0pode, em certos momentos, assumir uma fun\u00e7\u00e3o ainda mais radical que a do supereu, o que permite situar sua dimens\u00e3o por vezes mais direta e at\u00e9 mais cruel<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, o supereu n\u00e3o \u00e9 apenas uma inst\u00e2ncia que pro\u00edbe ou idealiza, mas tamb\u00e9m uma for\u00e7a pulsional que empurra o sujeito em dire\u00e7\u00e3o a um gozo imposs\u00edvel de alcan\u00e7ar. Lacan afirma ainda que o supereu n\u00e3o tem nada de natural<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> e, ao mesmo tempo, ele \u00e9 a marca desse imposs\u00edvel, algo de que n\u00e3o h\u00e1 como escapar. Bem feito!<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a an\u00e1lise n\u00e3o se orienta pelo ideal. O analista n\u00e3o ocupa o lugar do ideal do eu, embora o analisante, sobretudo no in\u00edcio, tenda a coloc\u00e1-lo ali \u2014 e o mesmo vale para o lugar do supervisor.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos, ent\u00e3o, ser levados a pensar que o analista ocuparia o lugar do supereu. Mas n\u00e3o \u00e9 disso que se trata. Ainda assim, o supereu se infiltra, se imiscui no dispositivo anal\u00edtico e tamb\u00e9m na pr\u00e1tica de supervis\u00e3o. Como indica\u00a0Lacan<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, nesse movimento, o supereu pode funcionar como aliado, na medida em que tamb\u00e9m desaloja o sujeito de sua economia de prazer.<\/p>\n<p>Por minha parte, eu diria que h\u00e1 um efeito superegoico em estudar o supereu. Lacan\u00a0se pergunta: \u201co que \u00e9 essa for\u00e7a demon\u00edaca que empurra a dizer algo, ou seja, a ensinar?\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> E responde que \u00e9 disso que acaba por se dizer que se trata do supereu.<\/p>\n<p>Lacan nunca\u00a0 deixou de expressar o peso dessa tarefa. Podemos ent\u00e3o nos perguntar se n\u00e3o teria sido necess\u00e1rio manter essa for\u00e7a em funcionamento e se ele n\u00e3o teria se servido dela para responder ao que tinha que fazer, \u00e0 carga que lhe coube? E n\u00f3s, podemos extrair da\u00ed algum ensinamento? Veremos o que nos aguarda nas XIV jornadas da Se\u00e7\u00e3o SP. Bem-feito supereu!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 FREUD,S. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In: ______.\u00a0<em>Obras completas<\/em>, volume 18: o mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise e outros textos (1930-1936). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 LACAN, J.<em>\u00a0<\/em>O Semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia. (1962-1963). Rio de Janeiro: Zahar, 2005. Li\u00e7\u00e3o de 16 de jan<em>.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 24<\/em>: L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre (1976-1977). Tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o oficial. [S.l.: s.n.], [ano].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 LACAN,\u00a0J. Sur le plaisir et la r\u00e8gle fondamentale<strong>.<\/strong> Interven\u00e7\u00e3o (1975).\u00a0Lettres de l\u2019\u00c9cole Freudienne, Paris, n. 24, 1978.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 24<\/em>: L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre (1976-1977). Tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o oficial. [S.l.: s.n.], [ano].<\/span>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;10108&#8243;][vc_empty_space][vc_column_text]Veridiana Marucio Membro da EBP\/AMP Diretora Geral da Se\u00e7\u00e3o SP Logo ap\u00f3s o fim das \u00faltimas Jornadas, ao apagar das luzes da festa de encerramento, quando ainda est\u00e1vamos entre o cansa\u00e7o e a alegria do que hav\u00edamos vivido, percebemos que n\u00e3o havia muito tempo para esperar. 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