{"id":13880,"date":"2025-08-13T10:24:16","date_gmt":"2025-08-13T13:24:16","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?p=13880"},"modified":"2025-08-13T15:51:55","modified_gmt":"2025-08-13T18:51:55","slug":"objetos-em-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/objetos-em-analise\/","title":{"rendered":"\u201cObjetos em an\u00e1lise\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\">MARCUS ANDR\u00c9 VIEIRA<strong>&#8211; (AME-EBP\/AMP):<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Como \u00e9 curiosa uma an\u00e1lise: buscamos o segredo de nossa exist\u00eancia como sujeitos, s\u00f3 que a cada vez que encontramos uma lembran\u00e7a em que vibra a certeza de que ali mais que nunca est\u00e1vamos vivos, estamos em cena como <em>objeto<\/em> \u2013 cuidados, abusados ou desprezados pelos pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Como nada h\u00e1 que n\u00e3o passe pelo Outro, em vez nos guiarmos por ideais de autonomia e separa\u00e7\u00e3o, uma an\u00e1lise pode levar a nos apropriarmos de nossa posi\u00e7\u00e3o viva e concreta de objeto. Para isso, ser\u00e3o fundamentais n\u00e3o apenas os momentos em que fomos objeto, mas igualmente os objetos que pudemos extrair do Outro, tornando-os especiais: um travesseiro sujo, um bichinho de pel\u00facia etc.\u00a0Quanto mais in\u00fateis ou desconsiderados, melhor por parecem escapar do Outro \u2013 a ponto de Lacan delimitar como <em>resto<\/em> a figura\u00e7\u00e3o maior do real dos objetos de uma an\u00e1lise.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>Esses nossos objetos <em>a<\/em> instauram um espa\u00e7o amb\u00edguo, de <em>extimidade<\/em>: nem meu, nem do Outro, seguindo coordenadas fantasm\u00e1ticas definidas pelo modo como s\u00e3o deca\u00eddos. Declinam verdadeiras er\u00f3ticas distintas. \u00c0 er\u00f3tica <em>oral<\/em> (cospe-engole, tudo ou nada) e \u00e0 er\u00f3tica <em>anal<\/em> (do prazer em reter, circunscrever, colecionar), Lacan acrescenta a do <em>olhar<\/em> e a da <em>voz<\/em>. A primeira n\u00e3o \u00e9 a da vis\u00e3o, mas do arrebatamento por um olhar que toma o corpo. J\u00e1 a voz, por n\u00e3o respeitar os limites corporais, delimita uma er\u00f3tica de dissolu\u00e7\u00e3o subjetiva num un\u00edssono sonoro, por exemplo.<\/p>\n<p>Essa lista de er\u00f3ticas era, at\u00e9 ontem, submetida \u00e0 er\u00f3tica <em>f\u00e1lica<\/em>, dita genital \u2013 de dois sexos supostamente complementares. Em tempos de ocaso do pai, os objetos ditos pr\u00e9-genitais se espalham de modo independente e novos objetos v\u00eam ganhar a cena, na qual o falo \u00e9 apenas um entre outros, n\u00e3o mais o significante do desejo e da partilha sexual.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises parecem se mover num campo cl\u00e1ssico delimitado pela estrutura da <em>fantasia<\/em> coordenada ao falo. Ao mesmo tempo, cada an\u00e1lise segue em dire\u00e7\u00e3o ao atravessamento da fantasia \u2013 em nova rela\u00e7\u00e3o que promova a conting\u00eancia por esvaziamento do valor de real do falo e dos objetos <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>Por isso, em contraposi\u00e7\u00e3o ao real da fantasia, podemos falar em <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em>. Neste campo, bem mais geral, n\u00e3o h\u00e1 objetos <em>\u00eaxtimos<\/em> ou de exce\u00e7\u00e3o. Teremos apenas elementos subjetivos dispersos, \u201cmateriais preexistentes\u201d com os quais montam-se arranjos, bricolagens, gambiarras subjetivas para localizar o real com estabilidade e la\u00e7o.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/p>\n<p>O artista, para variar, nos antecede. A <em>arte<\/em>, dita contempor\u00e2nea, promove essa multiplicidade do objeto, assim como a implos\u00e3o do meio, do enquadre. H\u00e1 uma representatividade m\u00faltipla, que se constr\u00f3i durante o processo de cada montagem. Em vez de experi\u00eancias singulares pelo encontro com a obra de arte, <em>bricolagem<\/em>. O artista se esfor\u00e7ou para se libertar dos enquadres da cultura, em busca de um rompimento com o c\u00edrculo fechado da est\u00e9tica representativa. A distin\u00e7\u00e3o entre a obra, como objeto de exposi\u00e7\u00e3o, e o espectador ainda se mant\u00e9m, mas se encontra bastante abalada. O objeto art\u00edstico torna-se mais male\u00e1vel, sofre esvaziamento de seu status de excepcionalidade e estilha\u00e7a-se. Tudo pode ser arte. Muitas produ\u00e7\u00f5es optaram por interven\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas de uma tentativa de construir uma ideia, de produzir uma experi\u00eancia.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a><\/p>\n<p>Se vale destacar, com J. A. Miller, o termo inven\u00e7\u00e3o, tomando-o como <em>gambiarra<\/em> subjetiva, \u00e9 porque com ele nos deslocamos na cl\u00ednica psicanal\u00edtica de maneira an\u00e1loga a este campo mais geral das manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a> Podemos opor, por exemplo, o objeto na fantasia e na bricolagem, como faz E. Laurent ao opor <em>obra<\/em> e <em>instala\u00e7\u00e3o<\/em>.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a> No primeiro caso, destaca-se a produ\u00e7\u00e3o de um objeto \u201cem torno do vazio\u201d, segundo a defini\u00e7\u00e3o de Lacan para a sublima\u00e7\u00e3o da Coisa, que encontra seu exemplo heideggeriano paradigm\u00e1tico no vaso e seu art\u00edfice no oleiro.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a> O segundo \u00e9 o da instala\u00e7\u00e3o. O gozo do sintoma aqui n\u00e3o se localiza do mesmo modo, n\u00e3o h\u00e1 centro e o real \u00e9 o do acontecimento contingente mais que o do encontro.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a><\/p>\n<p>Chamaremos, ent\u00e3o, as inven\u00e7\u00f5es de <em>solu\u00e7\u00f5es sinthom\u00e1ticas<\/em> a partir da ideia de que \u00e9 poss\u00edvel aproximar a inven\u00e7\u00e3o do trabalho de Lacan com Joyce. O modelo aqui \u00e9 o da tran\u00e7a, base do n\u00f3 borromeano.<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>\u00a0Ningu\u00e9m inventa uma solu\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, tece uma trama que cria um sujeito, o que envolve necessariamente a produ\u00e7\u00e3o de um lugar para si, est\u00e1vel, no Outro que talvez possa ser denominada uma pol\u00edtica do <em>sinthoma<\/em>.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Nossos os objetos <em>a<\/em>\u00a0estabelecem todo um jogo de rela\u00e7\u00f5es entre o eu e o Outro em que a dist\u00e2ncia n\u00e3o est\u00e1 definida, mas se define no pr\u00f3prio jogo. S\u00e3o objetos que garantem a dist\u00e2ncia m\u00ednima que permite a algu\u00e9m come\u00e7ar a dizer \u201ceu\u201d e poder importar significados do Outro, que agora vir\u00e3o se instalar no espa\u00e7o do ego (cf. Vieira, M. A. <em>Restos<\/em>, Rio de Janeiro Contra Capa, 2009, p. 35).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Cf. Miller, J.-A. <em>A inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica<\/em>, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n.\u00ba 36, S\u00e3o Paulo, Eolia, 2003, pp. 7 \u2013 16 e Vieira, M. A. Vieira, M. A. <em>Com quantos elementos se faz uma inven\u00e7\u00e3o<\/em>, Latusa, n. 25 \u2013 Imposs\u00edvel tirar o corpo fora: Ex\u00edlios e confinamentos, EBP-Rio \/ Contracapa, Rio de Janeiro, 2021, dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/litura.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Com-quantos-elementos-se-faz-uma-invencao.pdf\">https:\/\/litura.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Com-quantos-elementos-se-faz-uma-invencao.pdf<\/a>).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> A obra \u201cinstala\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 composta de uma disposi\u00e7\u00e3o de elementos no espa\u00e7o em rela\u00e7\u00e3o com aquele que com ela se encontra, seu acontecimento \u00e9 sua voca\u00e7\u00e3o. Para um ensaio preciso sobre o tema, inclusive articulando \u201cinstala\u00e7\u00e3o\u201d e a leitura do conto \u201cA carta roubada\u201d por Lacan, cf. Krauss, R. Under blue cup, Massachusetts, MIT, 2011. Outra obra indispens\u00e1vel: Mammi, L. O que resta \u2013 arte e cr\u00edtica da arte, S\u00e3o Paulo, Cia das Letras, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Cf. Vieira. M. A. art. Cit.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Laurent, E. <em>\u201cInterpretar la psicosis em el cotidiano\u201d<\/em>, Psicoanalisis y salud mental, Buenos Aires, Tres Haches, 2001 e Laurent, E. <em>\u201cInterpretar a psicose no cotidiano\u201d<\/em>. In Revista Entrev\u00e1rios (CLIN-a) n\u00ba 2. S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Cf. Regnault. F. <em>\u201cTr\u00eas confer\u00eancias sobre a arte\u201d<\/em>, Em torno do Vazio. Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> Podemos acrescentar a divis\u00e3o entre finito e infinito. Na cria\u00e7\u00e3o, o fazer \u00e9 finito, j\u00e1 o objeto \u00e9 infinito (no sentido em que ele se presta \u00e0s mais variadas leituras, inesgot\u00e1veis por defini\u00e7\u00e3o). Na inven\u00e7\u00e3o, o fazer \u00e9 que ser\u00e1 infinito, enquanto os materiais-objeto s\u00e3o finitos. Finalmente, na inven\u00e7\u00e3o, a ideia de la\u00e7o \u00e9 intr\u00ednseca, possivelmente pelo fato de ela ser sempre um meio mais que um fim, enquanto o artista t\u00edpico, oleiro, \u00e9 aquele cuja obra \u00e9 o fim. O inventor t\u00edpico \u00e9 justamente aquele que faz para o mundo, seja um mundo delirado ou n\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> Como uma segunda teoria da sublima\u00e7\u00e3o no ensino de Lacan a partir do conceito de \u201cescabelo\u201d (cf. Miller, J. A. Piezas sueltas, Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2013, cap VI). Para a aproxima\u00e7\u00e3o entre sinthoma, Arthur Bispo do Ros\u00e1rio e gambiarra cf. Vieira, M. A. art. cit. E Teixeira, A. <em>\u201cA aura da gambiarra\u201d<\/em>, Mosaico: Estudos em Psicologia, v. 7, n.\u00ba 1. p. 45-60, 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> Cf. Miller, J.-A. <em>La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2003, especialmente as aulas XXI e XXII.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCUS ANDR\u00c9 VIEIRA&#8211; (AME-EBP\/AMP): Como \u00e9 curiosa uma an\u00e1lise: buscamos o segredo de nossa exist\u00eancia como sujeitos, s\u00f3 que a cada vez que encontramos uma lembran\u00e7a em que vibra a certeza de que ali mais que nunca est\u00e1vamos vivos, estamos em cena como objeto \u2013 cuidados, abusados ou desprezados pelos pr\u00f3ximos. 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