{"id":13103,"date":"2024-07-04T07:30:50","date_gmt":"2024-07-04T10:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?p=13103"},"modified":"2024-07-04T07:30:50","modified_gmt":"2024-07-04T10:30:50","slug":"psicanalise-e-ciencia-tem-algo-em-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/psicanalise-e-ciencia-tem-algo-em-comum\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise e ci\u00eancia t\u00eam algo em comum?"},"content":{"rendered":"<h6>Coment\u00e1rio de T\u00e2nia Regina Anchite Martins (EBP\/AMP) sobre o eixo Psican\u00e1lise e Neuroci\u00eancia.<\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>\u201cO inconsciente e o c\u00e9rebro n\u00e3o t\u00eam nada em comum\u201d \u00b9,<\/em> qual a import\u00e2ncia desta frase, que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia e pode nos provocar? Lacan, em seu texto,\u201d O mal-entendido\u201d, publicado em 1980\/1981 diz:<em> \u201cSe voc\u00eas acreditam que tudo pode se revelar, pois bem, metam isso na cabe\u00e7a: tudo n\u00e3o pode. Isso significa que uma parte n\u00e3o se revelar\u00e1 jamais.\u201d \u00b2<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Lacan est\u00e1 retomando o dito, no princ\u00edpio era o verbo. Ele ressalta que n\u00e3o diria que o verbo \u00e9 criador, mas sim que o verbo \u00e9 inconsciente, ou seja, mal-entendido. O corpo, ele diz, <em>\u201cs\u00f3 aparece no real como mal-entendido\u201d \u00b3.<\/em> Ele adv\u00e9m de uma linhagem de falasseres que habitava o mal-entendido. \u00c9 o que se herda, o mal-entendido dos gozos.<\/p>\n<p><em>\u201cO mal-entendido j\u00e1 estava l\u00e1 antes. Pelo fato de que desse belo legado, desde antes, voc\u00eas fazem parte, ou melhor, voc\u00eas participam das algaravias dos seus antecedentes\u201d \u2074. <\/em>O falasser padece do trauma de nascer desejado ou n\u00e3o, tanto faz! Nasce de dois falantes que n\u00e3o falam a mesma l\u00edngua, que n\u00e3o se entendem, mancomunam-se para a reprodu\u00e7\u00e3o por um mal-entendido, o qual seu corpo transmitir\u00e1.<\/p>\n<p>E na psican\u00e1lise trabalhamos com o mal-entendido que nos chega como mal-estar.<\/p>\n<p>Segundo Miller, no Semin\u00e1rio \u201cTodo mundo \u00e9 Louco\u201d, aula X, \u201cDetermina\u00e7\u00e3o e Conting\u00eancia\u201d, a pesquisa cognitivista buscou o lugar cerebral do recalque, e para isso tamb\u00e9m se serviu de Freud. Lacan chamou de sujeito uma fun\u00e7\u00e3o que nada tem a ver com a consci\u00eancia de si, j\u00e1 que os valores de liberdade e autonomia est\u00e3o totalmente ausentes da defini\u00e7\u00e3o lacaniana de sujeito. Para Lacan tratava-se do funcionamento de uma sintaxe significante.<\/p>\n<p><em>\u201cA estrutura da linguagem confere seu estatuto ao inconsciente, mas, n\u00e3o produz um real que seja pr\u00f3prio do inconsciente j\u00e1 que a lingu\u00edstica, a antropologia e as humanidades tamb\u00e9m tomam a\u00ed sua refer\u00eancia e exploram este real da linguagem. O \u00fanico real do inconsciente se encontra esbo\u00e7ado na aus\u00eancia, no que faz furo, no res\u00edduo de toda explica\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> (MILLER, 2013) \u2075.<\/p>\n<p>O in\u00edcio do \u00faltimo ensino de Lacan \u00e9 marcado pelo abandono da categoria de determina\u00e7\u00e3o orientando a pr\u00e1tica anal\u00edtica, em benef\u00edcio da conting\u00eancia. A conting\u00eancia, o acaso, o que pode ou n\u00e3o, se inscrever, o sem lei.<\/p>\n<p>Quando Lacan abandonou o termo sujeito ou o subordinou ao de ser falante, o que aconteceu concomitantemente \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da sintaxe e do simb\u00f3lico, no lugar da sintaxe surgiu a sem\u00e2ntica Lacaniana da fuga do sentido. O conceito de fuga do sentido se conecta com o de furo. Furo n\u00e3o \u00e9 falta de tal ou qual conte\u00fado ou significante.<\/p>\n<p>Na esteira da desvaloriza\u00e7\u00e3o da sintaxe e do simb\u00f3lico veio a desvaloriza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, a qual Lacan disse que \u00e9 f\u00fatil, tampona os furos, fato que a torna sem sentido.<\/p>\n<p>A materialidade que Lacan encontrou ent\u00e3o foi, antes de tudo, a do sintoma. N\u00e3o o sintoma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, estruturado como uma linguagem, mas o <em>sinthoma<\/em> acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>Bassols (2015) em seu texto \u201cN\u00e3o h\u00e1 ci\u00eancia do real\u201d \u2076, distingue o real da psican\u00e1lise do real da ci\u00eancia. Ele diz que: <em>\u201cO real da psican\u00e1lise \u00e9 um real pr\u00f3prio do campo da sexualidade e da linguagem, um real que surge <\/em><\/p>\n<p><em>como uma profunda perturba\u00e7\u00e3o do gozo e do sentido no ser falante\u201d. <\/em>Esse real se diferencia radicalmente do real que a ci\u00eancia cr\u00ea manejar e representar com seus aparelhos, o qual parece conter em si mesmo um saber escrito de antem\u00e3o, seja neur\u00f4nio ou o que se isolou como c\u00f3digo gen\u00e9tico.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>\u00b9 Tradu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo do PIPOL 9 , \u201c <em>L\u2019Inconscient et le cervau, rien em common\u201d<\/em>, por F\u00e1bio Paes Barreto em sua apresenta\u00e7\u00e3o do Eixo psican\u00e1lise e neuroci\u00eancia.<\/h6>\n<h6>\u00b2 LACAN, J. O mal-entendido. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, 72. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2016.p10<\/h6>\n<h6>\u00b3 IDEM<\/h6>\n<h6>\u2074IDEM p.11<\/h6>\n<h6>\u2075 MILLER, J.-A. Todo mundo es loco: cursos psicoanaliticos de Jacques -Alain Miller, aula X. de 13 de fevereiro de 2008. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013. p. 202<\/h6>\n<h6>\u2076 BASSOLS, M. <em>A psican\u00e1lise, a ci\u00eancia, o real<\/em> (2015). Rio de Janeiro: Contra-Capa.P.14<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coment\u00e1rio de T\u00e2nia Regina Anchite Martins (EBP\/AMP) sobre o eixo Psican\u00e1lise e Neuroci\u00eancia. \u00a0\u201cO inconsciente e o c\u00e9rebro n\u00e3o t\u00eam nada em comum\u201d \u00b9, qual a import\u00e2ncia desta frase, que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia e pode nos provocar? 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