{"id":13066,"date":"2024-06-03T06:28:18","date_gmt":"2024-06-03T09:28:18","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?p=13066"},"modified":"2024-06-03T06:28:18","modified_gmt":"2024-06-03T09:28:18","slug":"psicanalise-e-politica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/psicanalise-e-politica-2\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise e Pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<h6>Rosangela Ribeiro (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p style=\"padding-left: 160px;\"><em>\u00d3 tempos! \u00d3 costumes!<br \/>\n<\/em><em>O mundo est\u00e1 virado!<br \/>\n<\/em>Machado de Assis<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o digo mesmo \u2018a pol\u00edtica \u00e9 o inconsciente\u2019, mas simplesmente \u2018o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica!\u2019\u201d (LACAN, s\/p, 1967). Sob essa perspectiva, Lacan abre um disperso ponto em seu ensino, a saber, o analista e a psican\u00e1lise est\u00e3o inseridos com o la\u00e7o social, ou seja, com o que faz la\u00e7o com o Outro e com os outros, comprometidos com a cidade, com a subjetividade e com o <em>Zeintgeist<\/em>. Como prop\u00f5e \u00c9ric Laurent, \u201ch\u00e1 que se passar do analista fechado em sua reserva, cr\u00edtico, a um analista que participa; um analista sens\u00edvel \u00e0s formas de segrega\u00e7\u00e3o; um analista capaz de entender qual foi sua fun\u00e7\u00e3o e qual lhe corresponde agora\u201d (1999, p. 8).<\/p>\n<p>Freud, em 1932, escreve a Einstein questionando \u201cPor que a guerra?\u201d. Lacan n\u00e3o passou inc\u00f3lume ao maio de 1968, a saber, cada um em sua \u00e9poca, elucidou que novos cap\u00edtulos s\u00e3o, em cada \u00e9poca, incorporados ao inconsciente, uma vez que ele \u201cse produz na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro, [e] \u00e9 o efeito das rela\u00e7\u00f5es de linguagem nas quais somos capturados. Nesse sentido, a psican\u00e1lise \u00e9 um la\u00e7o social e um saber. E \u00e9 justamente porque a psican\u00e1lise \u00e9 um la\u00e7o social, ou seja, um tratamento do gozo, que ela est\u00e1 necessariamente misturada na quest\u00e3o do pol\u00edtico, pois o discurso \u00e9 o la\u00e7o social que implica um freio sobre o gozo\u201d (BROUSSE, 2003, p. 28).<\/p>\n<p>Sabe-se que a experi\u00eancia cl\u00ednica est\u00e1 centrada no sujeito, por isso Lacan nos mostra que a dial\u00e9tica do desejo n\u00e3o \u00e9 individual, e que o individual n\u00e3o est\u00e1 separado do coletivo. Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, por sua vez, explica que a separa\u00e7\u00e3o entre o individual e o coletivo, em psican\u00e1lise, deixa de existir como oposi\u00e7\u00e3o. Uma vez que, n\u00e3o h\u00e1 indiv\u00edduo em uma an\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 a pol\u00edtica do indiv\u00edduo, \u00e9 a pol\u00edtica do sujeito que se interessa em uma an\u00e1lise. Desde <em>Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise<\/em> (1953) e <em>A inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud<\/em> (1957), Lacan afirma que apenas um significante sozinho n\u00e3o tem nenhum sentido. Isso quer dizer que o significante n\u00e3o pode significar a si mesmo, porque a sua significa\u00e7\u00e3o \u00e9 correlata ao deslizamento dos significantes na cadeia ou rede significante. Mas o que se coloca em jogo aqui? Ora, o significante apenas passa ao significado por haver um sujeito que lhe confere significa\u00e7\u00e3o. Um sujeito que, menos ou mais, possui elos com o Outro e com outros. Assim, a pol\u00edtica \u00e9 uma pol\u00edtica do sujeito. Isso \u00e9 a pol\u00edtica do <em>Um<\/em>, digamos, inspirada no que Lacan ensina sobre o significante <em>Um<\/em>. Cumpre notar o que Lacan diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\">Trata-se do que, em outros termos, somos obrigados a levar em considera\u00e7\u00e3o, quando, na pol\u00edtica, estamos diante do que temos como o que conv\u00e9m, isto \u00e9, diante de um tipo de informa\u00e7\u00e3o na qual o sentido n\u00e3o possui outro alcance sen\u00e3o o imperativo, a saber, o significante <em>Um? \u00c9 para nos comandar ou, dito de outro modo, para que n\u00e3o sigamos sen\u00e3o a ponta do nosso nariz, que qualquer informa\u00e7\u00e3o, em nossa \u00e9poca, seja esvaziada como tal<\/em> (LACAN, 1973-1974, p. 97. Grifos nossos).<\/p>\n<p>Assim, ao afirmar que \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d, Lacan parece coadunar v\u00e1rios elementos, pois n\u00e3o podemos, nesse aforisma, negligenciar o <em>corpo<\/em>, visto que h\u00e1 uma interconex\u00e3o entre ele e o contexto social, evidenciando como ele \u00e9 moldado e influenciado por for\u00e7as coletivas desde o seu surgimento. Ele n\u00e3o \u00e9 propriedade exclusiva do sujeito, pois est\u00e1 imerso em um ambiente social e cultural que o influencia profundamente, embora seja, o sujeito, seu porta-voz. Portanto, o corpo n\u00e3o \u00e9 apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o individual, mas tamb\u00e9m reflete e incorpora aspectos do ambiente social em que est\u00e1 inserido. Um corpo pol\u00edtico? Sim, pois se reconhece que o corpo \u00e9 atravessado por emo\u00e7\u00f5es e paix\u00f5es coletivas, como ang\u00fastia, \u00f3dio, ignor\u00e2ncia e entusiasmo, o que aponta sua natureza pol\u00edtica. Essas emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o experi\u00eancias puramente individuais, mas s\u00e3o influenciadas e moldadas por din\u00e2micas sociais mais amplas que incidem sobre o desejo. Portanto, qualquer an\u00e1lise do corpo e das experi\u00eancias corporais deve levar em considera\u00e7\u00e3o o contexto social e pol\u00edtico no qual essas emo\u00e7\u00f5es surgem e s\u00e3o vivenciadas. Munidos desse saber e da escuta do desejo do sujeito, n\u00e3o nos conduziremos \u00e0 deriva da <em>ponta do nosso nariz.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6>ASSIS, Joaquim Maria Machado de. <em>Obras Completas<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, Vol. IV.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, Marie-Hel\u00e8ne. <em>O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2018.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 14:<\/em> a l\u00f3gica do fantasma (1966-1967). Sess\u00e3o de 10 de maio de 1967. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques<em>. Le S\u00e9minaire<\/em>: les non-dupes errent (1973-1974), p. 97. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9ric. \u201cO analista cidad\u00e3o.\u201d <em>Curinga \u2013 Psican\u00e1lise e sa\u00fade mental<\/em>, n.13, 1999, p. 7-13.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. Intui\u00e7\u00f5es Milanesas II. 1. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>. Ano 2, N\u00famero 6, novembro, 2011.<\/h6>\n<h6>Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf.\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf.<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosangela Ribeiro (EBP\/AMP) \u00d3 tempos! \u00d3 costumes! O mundo est\u00e1 virado! Machado de Assis \u201cEu n\u00e3o digo mesmo \u2018a pol\u00edtica \u00e9 o inconsciente\u2019, mas simplesmente \u2018o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica!\u2019\u201d (LACAN, s\/p, 1967). 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