{"id":13064,"date":"2024-06-03T06:27:09","date_gmt":"2024-06-03T09:27:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?p=13064"},"modified":"2024-06-03T06:27:09","modified_gmt":"2024-06-03T09:27:09","slug":"psicanalise-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/psicanalise-e-politica\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise e Pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<h6>Carla Serles (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>O brocardo lacaniano \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d requer dos psicanalistas um constante <em>aggiornamento<\/em>, considerando-se que tanto o inconsciente como a pol\u00edtica, s\u00e3o campos sens\u00edveis \u00e0s transmuta\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias, sobretudo na \u00e9poca em que o Outro n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>A priori, esbo\u00e7am-se ao menos duas quest\u00f5es: Qual ou quais concep\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica tem relev\u00e2ncia para a psican\u00e1lise? Quais as formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas concernentes ao inconsciente s\u00e3o poss\u00edveis a partir desse<\/p>\n<p>pressuposto lacaniano?<\/p>\n<p>Miller diz que esse axioma \u00e9 derivativo de outro preceito de Lacan: \u201cO inconsciente \u00e9 o discurso do Outro\u201d\u00b2. Nesse ensejo, o inconsciente \u00e9 transindividual, faz \u201cla\u00e7o com o Outro, seja atrav\u00e9s do jogo significante, seja atrav\u00e9s do jogo com a letra\u201d \u00b3, o que exige do analista, em sua \u00e9tica, um decidido interesse pela civiliza\u00e7\u00e3o e seus inerentes efeitos de mal-estar, bem como pela pol\u00edtica, ainda que seja pela via do horror.<\/p>\n<p>Logo, faz-se necess\u00e1rio n\u00e3o apenas estar \u00e0 altura da subjetividade de sua \u00e9poca, como tamb\u00e9m saber orientar-se nela.<\/p>\n<p>Aqui delineia-se mais uma interrogante: a partir de que vi\u00e9s o analista pode ser subversivo e, desse modo, contribuir com o futuro da psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>\u00c9ric Laurent alerta para os riscos aos quais se precipita um analista fechado em sua reserva e insens\u00edvel \u00e0s formas de segrega\u00e7\u00e3o. Ele diz que se um analista n\u00e3o ultrapassar essa posi\u00e7\u00e3o de suposta neutralidade, provavelmente, invalidar\u00e1 o seu papel hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Segundo Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, a neutralidade do analista deve se restringir \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o eu e seu sonho de adapta\u00e7\u00e3o social e, com o supereu e seu imperativo de gozo.<\/p>\n<p>Assim sendo, a pol\u00edtica da psican\u00e1lise pode ser pensada como a pol\u00edtica do sintoma, principalmente naquilo que o sintoma apresenta de desarranjo, disfun\u00e7\u00e3o e\/ou refra\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias do mestre contempor\u00e2neo. Esse mestre apresenta-se aparelhado com sua irredut\u00edvel engrenagem de manipula\u00e7\u00e3o dos semblantes, engendrando o sequestro e o ofuscamento do sujeito. Ademais, produz-se uma homogeneiza\u00e7\u00e3o dos modos de gozo, em decorr\u00eancia da incessante oferta do objeto <em>a<\/em> apenas como mais-de-gozar, desconectado de sua face de causa de desejo.<\/p>\n<p>Outrossim, com o advento dos discursos das tecnoci\u00eancias e do capitalismo, a <em>p\u00f3lis<\/em> se transforma, j\u00e1 que as redes se convertem no habitat predileto dos corpos falantes.<\/p>\n<p>Esses processos determinam a anula\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o subjetiva e do \u201cpequeno detalhe que faz a singularidade onde se aloja o sintoma\u201d. \u2074<\/p>\n<p>Sob a perspectiva da distin\u00e7\u00e3o do discurso anal\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o aos outros discursos, a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise busca modificar a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com os significantes-mestres, modificar a posi\u00e7\u00e3o do sujeito a<\/p>\n<p>partir do lugar que ele ocupa no discurso do mestre\u201d. \u2075 Dessa forma, \u201c\u00e9 isso que d\u00e1 ao analista o dever de pol\u00edtica: devolver ao sujeito a escolha decidida dessa rela\u00e7\u00e3o com o significante-mestre\u201d. \u2076<\/p>\n<p>As \u00faltimas formula\u00e7\u00f5es sobre esse tema, no \u00e2mbito do Campo Freudiano, indicam que, a partir do ultim\u00edssimo ensino de Lacan reputa-se uma pol\u00edtica orientada para o real, em que se consideram \u201cos elementos contingenciais inst\u00e1veis e quase sempre contr\u00e1rios as normas dominantes\u201d. \u2077<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da psican\u00e1lise orientada para o real, permite\u00a0entrever\u00a0que \u201co trabalho\u00a0da\u00a0asson\u00e2ncia,\u00a0quer dizer\u00a0da materialidade sonora\u00a0fora da tirania do sentido,\u00a0pode\u00a0promover a descoberta de\u00a0novas\u00a0formas de la\u00e7o\u00a0como guia\u201d. \u2078<\/p>\n<p>Tendo em vista os aspectos abordados, poder-se-ia propor a pol\u00edtica do sinthoma ou do acontecimento de corpo? Esses s\u00e3o alguns dos in\u00fameros aspectos pass\u00edveis de serem abordados no tocante a esse eixo.<\/p>\n<p>Esperamos acolher trabalhos que nos permitam avan\u00e7ar nessa discuss\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>1 LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 14<\/em>: A l\u00f3gica do fantasma (1966-1967). In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>2 MILLER, Jacques-Alain. Intui\u00e7\u00f5es Milanesas II. 1. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>. Ano 2, N\u00famero 6, novembro, 2011.<\/h6>\n<h6>Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_5\/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf.<\/h6>\n<h6>3 GUARDADO, C\u00e1ssia Maria Rumenos\u00a0et al. Introdu\u00e7\u00e3o.\u00a0In: BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne.\u00a0<em>O<\/em><\/h6>\n<h6><em>inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2018. p. 22.<\/h6>\n<h6>4 VERAS, Marcelo. Coment\u00e1rio sobre as Intui\u00e7\u00f5es de Jacques-Allain Miller.\u00a0Um por um \u2013 Boletim Eletr\u00f4nico do Conselho de Deliberativo da EBP: Psican\u00e1lise: os fins, os princ\u00edpios os meios\u2026, [s. l.], ed.409, 4 dez. 2020.<\/h6>\n<h6>5 BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne.\u00a0<em>O inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2018, p. 34.<\/h6>\n<h6>6 Ibidem, p. 35.<\/h6>\n<h6>7 SANTIAGO, J\u00e9sus. Acontecimentos pol\u00edticos de corpo.\u00a0In: <em>Correio<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, ano 2023, n. 90, ed. 90, p. 100, abril 2023, p. 100.<\/h6>\n<h6>8 BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. Las Memorias y El Olvido huellas y marcas. In: <em>Enlaces<\/em>, n.27, p. 15.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carla Serles (EBP\/AMP) O brocardo lacaniano \u201co inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica\u201d requer dos psicanalistas um constante aggiornamento, considerando-se que tanto o inconsciente como a pol\u00edtica, s\u00e3o campos sens\u00edveis \u00e0s transmuta\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias, sobretudo na \u00e9poca em que o Outro n\u00e3o existe. 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