{"id":12547,"date":"2022-09-09T09:13:24","date_gmt":"2022-09-09T12:13:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12547"},"modified":"2022-09-09T09:13:24","modified_gmt":"2022-09-09T12:13:24","slug":"da-mulher-para-a-de-um-outro-ao-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/da-mulher-para-a-de-um-outro-ao-outro\/","title":{"rendered":"D\u2019A mulher para a: de um Outro ao outro"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Alberto Murta<\/em><\/strong><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-12538\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/arranjos09-002.jpg\" alt=\"\" width=\"925\" height=\"612\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 preciso tentar comentar este ponto que diz respeito a uma abordagem te\u00f3rica do gozo feminino e que emerge na aula de 14 de maio de 1969 do <em>Semin\u00e1rio, <\/em>livro 16: <em>de um Outro a outro<\/em>. Eis a passagem: \u201cfoi o gozo feminino que sempre permaneceu, na teoria, como tamb\u00e9m lhes assinalei, em estado de enigma anal\u00edtico\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>De imediato, podemos constatar que aqui, Lacan j\u00e1 sinaliza o lado misterioso, o lado enigm\u00e1tico, do gozo feminino inerente \u00e0 experi\u00eancia de uma an\u00e1lise. Ao menos na teoria, o gozo feminino continua portando algo de indecifr\u00e1vel em 1969. Ora, se seguirmos uma outra orienta\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o lacaniana dessa mesma aula, constatamos a emerg\u00eancia de um outro gozo, agora, gozo absoluto. Esse gozo corresponde ao significante f\u00e1lico. \u201cTudo se reduz a um significante, o falo, que justamente n\u00e3o est\u00e1 no sistema do sujeito, uma vez que n\u00e3o \u00e9 o sujeito que ele representa, e sim, digamos, o gozo sexual como externo ao sistema, ou seja, absoluto\u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Ele isola tamb\u00e9m esta categoria do Falo como simb\u00f3lico na aula de 25 de junho de 1969. Depois de um questionamento, o significante Falo vem \u00e0 superf\u00edcie. \u201cQual \u00e9 o significante S<sub>1<\/sub>, que est\u00e1 na ponta? O <em>Phi<\/em> mai\u00fasculo, \u03a6, o sinal do que seguramente falta \u00e0 mulher nesse neg\u00f3cio, e \u00e9 por isso que \u00e9 preciso que o homem o forne\u00e7a.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que as refer\u00eancias que Lacan utiliza para explicitar o la\u00e7o entre a posi\u00e7\u00e3o subjetiva hist\u00e9rica e a Outra mulher t\u00eam resson\u00e2ncias com o que se passa com a cl\u00ednica cl\u00e1ssica das neuroses. Em primeiro lugar, na aula de 18 de junho de 1969, ele adianta que o sujeito mulher se sustenta pela via f\u00e1lica. \u00c9 assim que a mulher tem o Falo como suporte. Por conseguinte, ela \u00e9 o falo para o homem na medida em que, ele mesmo, o forne\u00e7a para ela.<\/p>\n<p>Lacan nos faz ver que a hist\u00e9rica se define por n\u00e3o se tomar pela mulher. Como assim? Em qu\u00ea ela n\u00e3o se toma pela mulher? A hist\u00e9rica faz do sujeito mulher um suposto saber. Recordando Dora, ele indica: \u201cEm outras palavras, e lembrem-se de Dora, a hist\u00e9rica fica interessada, cativada pela mulher na medida em que acredita que a mulher \u00e9 que sabe o que \u00e9 preciso para o gozo do homem\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Seguindo o coment\u00e1rio lacaniano, ainda nessa aula, encontramos duas passagens onde ele resume o lugar da mulher como sujeito suposto saber para a hist\u00e9rica. A mulher para a hist\u00e9rica \u00e9 aquela \u201cque supostamente sabe, enquanto, no modelo \u00e9 inconscientemente que ela o sabe\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Ou, no que se segue, a hist\u00e9rica \u201cbanca o homem que suporia que a mulher sabe\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Essa pequena constru\u00e7\u00e3o mostra como a mulher \u00e9 refer\u00eancia para a hist\u00e9rica. Como sair dessa l\u00f3gica f\u00e1lica t\u00e3o presente na posi\u00e7\u00e3o subjetiva hist\u00e9rica? Trope\u00e7amos nesta passagem esbo\u00e7ada nesse Semin\u00e1rio. Essa passagem funcionou para n\u00f3s, como um alarme misterioso, na medida em que Lacan nos apresenta o analista como \u201csintoma que resulta de uma certa incid\u00eancia na hist\u00f3ria, que implica a transforma\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do saber, como determinante para a posi\u00e7\u00e3o do sujeito, com o <em>fundo enigm\u00e1tico do gozo<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> O <em>fundo enigm\u00e1tico do gozo<\/em> se encontra aqu\u00e9m ou al\u00e9m do gozo f\u00e1lico? Ser\u00e1 que este pano de fundo gozoso e enigm\u00e1tico n\u00e3o cria condi\u00e7\u00f5es de uma poss\u00edvel sa\u00edda da posi\u00e7\u00e3o subjetiva hist\u00e9rica? Logo, estamos preparando o caminho para uma ca\u00edda d\u2019<em>A <\/em>mulher, t\u00e3o presente na reivindica\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, para uma outra modalidade de gozo, o enigm\u00e1tico, inventado por Lacan como objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>O falo, como tendo o estatuto de um gozo absoluto, traz a marca de um limite, a partir do qual Lacan ser\u00e1 levado a situar o gozo feminino como <em>n\u00e3o-todo<\/em>. No debate entre os cap\u00edtulos desse semin\u00e1rio, \u00e9 poss\u00edvel que se tenha ind\u00edcios de uma disjun\u00e7\u00e3o entre a f\u00f3rmula da sexua\u00e7\u00e3o masculina, como universal, e a da sexua\u00e7\u00e3o feminina, como <em>n\u00e3o-toda<\/em> universal. O universal que brota aqui passa a ser lido como inerente a sexua\u00e7\u00e3o do macho, isto \u00e9: do lado do gozo do macho o universal encontra-se articulado tanto \u00e0 castra\u00e7\u00e3o como \u00e0 linguagem.<\/p>\n<p>No primeiro movimento, tudo girava ao redor do gozo f\u00e1lico, e essa chave f\u00e1lica dava o testemunho de um gozo fora corpo, ou mesmo, fora sistema. Agora, sa\u00edmos do todo universal, e chegamos ao testemunho de uma mulher <em>n\u00e3o-toda<\/em> no que se refere ao gozo f\u00e1lico. Sendo assim, esta uma mulher sendo <em>n\u00e3o-toda<\/em> f\u00e1lica passa a ter seu pr\u00f3prio corpo como local de seu gozo, o gozo feminino.<\/p>\n<p>Entramos na zona dos mist\u00e9rios quando habitamos este gozo feminino. Jacques-Alain Miller constata no seu curso intitulado: \u201cO Um sozinho\u201d, que essa via aberta por Lacan relativa ao gozo feminino cria condi\u00e7\u00f5es de elegermos a\u00ed, <em>o gozo como tal<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 311.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 310.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 381-382.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 373.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 373.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 373.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 45.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alberto Murta \u00c9 preciso tentar comentar este ponto que diz respeito a uma abordagem te\u00f3rica do gozo feminino e que emerge na aula de 14 de maio de 1969 do Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro a outro. 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