{"id":12543,"date":"2022-09-09T09:11:06","date_gmt":"2022-09-09T12:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12543"},"modified":"2022-09-09T09:11:06","modified_gmt":"2022-09-09T12:11:06","slug":"a-ordem-da-corda-e-o-sexo-nas-psicoses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-ordem-da-corda-e-o-sexo-nas-psicoses\/","title":{"rendered":"A \u201cordem da corda\u201d e o sexo nas psicoses"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Regina Cheli Prati<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12536\" aria-describedby=\"caption-attachment-12536\" style=\"width: 949px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12536\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/arranjos09-004.jpg\" alt=\"Foto de Ana Paula Fernandes Resende\" width=\"949\" height=\"710\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12536\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Ana Paula Fernandes Resende<\/figcaption><\/figure>\n<p>No terceiro eixo de trabalho para as III Jornadas da Se\u00e7\u00e3o Leste-Oeste da EBP, cujo tema \u00e9 o sexo nas psicoses, R\u00f4mulo Ferreira da Silva<sup>1<\/sup> interroga a respeito da constitui\u00e7\u00e3o da vida sexual de um psic\u00f3tico. Se o objeto <em>a <\/em>n\u00e3o foi extra\u00eddo e sua sexualidade n\u00e3o conta com a conforma\u00e7\u00e3o da fantasia fundamental, e se o sujeito n\u00e3o possui a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica que pode localiz\u00e1-lo simbolicamente na partilha dos sexos, como pode se constituir a vida sexual para ele?<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o me compeliu ao estudo, e o encontro com o texto de Jacques-Alain Miller <em>Mostrado em Pr\u00e9montr\u00e9<\/em><sup>2<\/sup> foi esclarecedor. Nele o autor explica que \u201c\u00e9 precisamente porque o objeto <em>a<\/em> \u00e9 extra\u00eddo do campo da realidade que ele lhe d\u00e1 seu enquadramento\u201d (p. 152). Para ilustrar isso, Miller recorta de um quadro um pequeno quadrado. Esse recorte produz o enquadramento do furo e como consequ\u00eancia do restante da superf\u00edcie. Diz o autor (ibidem),<\/p>\n<blockquote><p>O objeto <em>a<\/em> \u00e9 como um tal retalho de superf\u00edcie, e \u00e9 a sua subtra\u00e7\u00e3o da realidade que a enquadra. O sujeito como sujeito barrado, \u00e9 esse furo \u2013 quero dizer, como falta-a-ser. Como ser, ele n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m desse peda\u00e7o subtra\u00eddo. Da\u00ed a equival\u00eancia entre o sujeito e o objeto <em>a<\/em>. (&#8230;) Em um sentido, o sujeito n\u00e3o \u00e9 nada \u2013 \u00e9 o que se nota com $ \u2013, mas tamb\u00e9m o sujeito \u00e9 alguma coisa \u2013 e isso \u00e9 o objeto de sua fantasia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como conclus\u00e3o, Miller aponta que a extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a <\/em>\u00e9 equivalente \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Dessa forma, se o objeto <em>a<\/em> n\u00e3o foi extra\u00eddo e a realidade enquanto fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi constitu\u00edda, como fica para o sujeito a sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro?<\/p>\n<p>No texto <em>A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos<\/em><sup>3<\/sup>, Miller nos d\u00e1 uma ideia disso ao dizer que pode ser \u201cque o gozo n\u00e3o se evapore, que n\u00e3o se torne vol\u00e1til e n\u00e3o se confunda com o esplendor vazio da Coisa\u201d (p. 230). Quando isso acontece o Outro social pode se tornar um \u201cOutro mau, que quer gozar de mim, me usar, me fazer servir a seu uso e fins\u201d (ibidem).<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso de Marco, paciente de Antonio di Ciaccia<sup>4<\/sup>, que inventou para si a \u201c<em>ordem da corda<\/em>\u201d, uma l\u00f3gica privada utilizada para justificar situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o justific\u00e1veis pela l\u00f3gica comum. Esse paciente, que na idade de tr\u00eas ou quatro anos foi acometido de ang\u00fastia durante uma excita\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o pode dirigir-se ao pai para cham\u00e1-lo em sua ajuda. Nessa ocasi\u00e3o sentiu-se sozinho, sem meios e sem recursos para lidar com a excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos cinco anos inventou uma solu\u00e7\u00e3o: encarnou o Outro na figura imaginada de sua av\u00f3 e tomou suas palavras como mandamentos que se esfor\u00e7ava para cumprir. Entre os mandamentos havia o de \u201cpraticar corridas\u201d, que se converteu para ele em uma ordem a ser executada como um mandamento b\u00edblico. A outra inven\u00e7\u00e3o foi o ritual de carregar consigo uma corda da mesma maneira como os cat\u00f3licos carregam o ros\u00e1rio. Isso o levou a inventar a \u201c<em>ordem da corda<\/em>\u201d, que o dotou de uma l\u00f3gica que lhe permitiu enfrentar a vida.<\/p>\n<p>Marco atribu\u00eda ao pai a incapacidade de lhe dar uma resposta, e considerava que a palavra que faltou era o que podia ter lhe permitido fazer-se homem e enfrentar a vida. Na an\u00e1lise, formula a seguinte pergunta: \u201c<em>su padre era sordo, o bien era \u00e9l mismo quien lo hab\u00eda ubicado en ese lugar?<\/em>\u201d (p.47). Frente a essa quest\u00e3o o analista passa a encaminhar Marco para seu pai em busca de conselhos pr\u00e1ticos e v\u00e1lidos para a vida, e solicita que traga para as sess\u00f5es as respostas dadas por ele sem tomar nenhuma decis\u00e3o precipitada. Al\u00e9m do pai, o analista passou a remet\u00ea-lo tamb\u00e9m a seu empregador e \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p>Esse m\u00e9todo de dar \u201cvoltas com a palavra\u201d trouxe como consequ\u00eancia a interrup\u00e7\u00e3o das queixas relativas ao pai e permitiu a Marco terminar a universidade, encontrar um trabalho, mudar de emprego, escolher lugares para correr, encontrar uma namorada, deix\u00e1-la, encontrar outra e, finalmente, casar.<\/p>\n<p>O casamento trouxe problemas: como sair para praticar as corridas de todas as tardes seguindo a \u201c<em>ordem da corda<\/em>\u201d e, um problema ainda mais consistente, como fazer para \u201c<em>hacer el amor, para coger<\/em>\u201d? (p. 48).<\/p>\n<p>A sexualidade de Marco era dividida em duas. De um lado estava a sexualidade da \u201c<em>ordem da corda<\/em>\u201d ligada a um tra\u00e7o de pervers\u00e3o e \u00e0 masturba\u00e7\u00e3o. Do outro, a sexualidade com uma mulher. Ela n\u00e3o era da \u201c<em>ordem da corda<\/em>\u201d, mas da ordem do vazio. \u201c<em>Empujo, empujo, y no sale nada<\/em>\u201d (ibidem). N\u00e3o ejaculava. Nesse campo onde encontrar resposta? A quem remet\u00ea-lo?<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o que Di Ciaccia se converte em um terceiro e solicita que Marco lhe explique o problema. Se servindo de Freud, Lacan e Miller, em especial do texto <em>Uma partilha sexual<\/em><sup>5<\/sup>, Di Ciaccia busca com Marco descobrir o mist\u00e9rio que une o homem com a mulher. Essas \u201cvoltas com a palavra\u201d terminam quando Marco deixa de perguntar a respeito e, algum tempo depois, confessa que consegue ejacular e que \u201c<em>hasta siento placer<\/em>\u201d (p. 49).<\/p>\n<p>Marco chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que lhe faltou certo enfoque na vida, que deveria ter sido dado pelo seu pai e se baseado em sua palavra. Na aus\u00eancia disso, a \u201c<em>ordem da corda<\/em>\u201d \u00e9 um sistema que torna essa falta suport\u00e1vel. Foi somente essa \u201c<em>ordem<\/em>\u201d que lhe possibilitou confrontar-se com o perigo imaterial, mas permanente. Marco conclui que a l\u00f3gica da \u201c<em>ordem da corda<\/em>\u201d \u00e9 menos operat\u00f3ria do que a baseada na palavra do pai, que ele define como da ordem do vazio. Sabe que a ordem do vazio d\u00e1 acesso \u00e0 l\u00f3gica e a um saber que permite encarar corretamente as coisas da vida, e pergunta se em algum dia poder\u00e1 \u201c<em>lograr sostenerme en el vac\u00edo, apoyarme en el orden del vac\u00edo?<\/em>\u201d (ibidem).<\/p>\n<p>\u00c9 assim que esse psic\u00f3tico, apoiado pelas suas inven\u00e7\u00f5es e pela an\u00e1lise, constitui sua vida sexual. Que outros exemplos de supl\u00eancias e\/ou compensa\u00e7\u00f5es possam surgir em nossas Jornadas!<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<ol>\n<li>\n<h6>Silva, R\u00f4mulo Ferreira da. <strong><em>O sexo nas psicoses<\/em><\/strong>. In: <strong>Boletim Arranjos<\/strong> n\u00famero 1, de 16 de mar\u00e7o de 2022. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/index.php\/jornadas\/iii-jornadas-ebp-secao-lo-o-misterio-da-sexuacao\/eixos-de-trabalho\/. Acesso em 06\/08\/2022.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Miller, Jacques-Alain. <strong><em>Mostrado em Pr\u00e9montr\u00e9 <\/em><\/strong>(1983)<em>.<\/em> In: Miller, Jacques-Alain. <strong>Matemas I<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Miller, Jacques-Alain. <strong><em>A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos <\/em><\/strong>(2010)<em>.<\/em> In: Miller, Jacques-Alain. <strong>Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Di Ciaccia, Antonio. <strong><em>El muchacho de la cuerda. <\/em><\/strong>In: Miller, Jacques-Alain. <strong>Cuando el Otro es malo<\/strong>. 1\u00aa ed. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Miller, Jacques-Alain. <strong><em>Uma partilha sexual<\/em>. <\/strong>In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online. Ano 7, N\u00famero 20, de julho de 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_20\/Uma_partilha_sexual.pdf.%20Acesso%20em%2014\/08\/2022\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_20\/Uma_partilha_sexual.pdf. Acesso em 14\/08\/2022<\/a>.<\/h6>\n<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Regina Cheli Prati No terceiro eixo de trabalho para as III Jornadas da Se\u00e7\u00e3o Leste-Oeste da EBP, cujo tema \u00e9 o sexo nas psicoses, R\u00f4mulo Ferreira da Silva1 interroga a respeito da constitui\u00e7\u00e3o da vida sexual de um psic\u00f3tico. 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