{"id":12541,"date":"2022-09-09T09:09:43","date_gmt":"2022-09-09T12:09:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12541"},"modified":"2022-09-09T09:09:43","modified_gmt":"2022-09-09T12:09:43","slug":"a-psicanalise-e-os-debates-sobre-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-psicanalise-e-os-debates-sobre-genero\/","title":{"rendered":"A psican\u00e1lise e os debates sobre g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Cristina Alves<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12535\" aria-describedby=\"caption-attachment-12535\" style=\"width: 912px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12535\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/arranjos09-005.jpg\" alt=\"Foto de Ana Paula Fernandes Resende\" width=\"912\" height=\"684\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12535\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Ana Paula Fernandes Resende<\/figcaption><\/figure>\n<p>Chamada por alguns de \u201clinguagem neutra\u201d, mas tecnicamente mais nomeada de \u201clinguagem inclusiva\u201d, as novas formas de nomea\u00e7\u00e3o dos sujeitos no discurso social t\u00eam ganhado for\u00e7a nas redes sociais e movimentado debates nas escolas. Fake News sobre projetos de lei que querem impor \u201ca terr\u00edvel ideologia de g\u00eanero nas escolas\u201d s\u00e3o compartilhadas com toda a for\u00e7a do \u00f3dio \u00e0 diferen\u00e7a, propagado por aqueles que usam o outro como objeto de gozo numa via mais perversa que neur\u00f3tica, talvez.<\/p>\n<p>No entanto, contrariando o temor supostamente leg\u00edtimo de alguns, a linguagem inclusiva, isto \u00e9, n\u00e3o-bin\u00e1ria, est\u00e1 um pouco distante de se tornar norma-padr\u00e3o, adotada em grade curricular e cobrada nos vestibulares, por exemplo. N\u00e3o h\u00e1 sequer consenso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formas de se faz\u00ea-la em cada l\u00edngua. Em portugu\u00eas, por exemplo, uns defendem a troca da desin\u00eancia de g\u00eanero <em>-a<\/em> e <em>-e<\/em> para <em>-u<\/em>, no pronome <em>elu(s)<\/em>; outros defendem que o ideal seria trocar o pronome \u201cele\u201d por \u201c<em>ile<\/em>\u201d, j\u00e1 que o <em>-i<\/em> marcaria o neutro. De todo modo, \u00e9 bom lembrar que, para os estudos lingu\u00edsticos, as l\u00ednguas s\u00e3o din\u00e2micas, posto que mudam conforme as necessidades dos falantes e as conting\u00eancias socioculturais, econ\u00f4micas etc de cada \u00e9poca. O verbo \u201cdeixar\u201d, hoje inconceb\u00edvel de outra forma para a maioria dos falantes, j\u00e1 foi \u201cleixar\u201d at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XV. \u00c9 por essa raz\u00e3o, inclusive, que o linguista Marcos Bagno<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> defende que \u201co purista \u00e9 um personagem tr\u00e1gico\u201d, ou seja, fadado ao fracasso, \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, ser\u00e3o tamb\u00e9m os psicanalistas personagens tr\u00e1gicos no que se refere \u00e0s teorias de g\u00eanero? Sabemos que as acusa\u00e7\u00f5es agressivas de que a psican\u00e1lise \u00e9 mis\u00f3gina e transf\u00f3bica, de Freud a Lacan, s\u00e3o fundadas ou no mais profundo desconhecimento dos textos de Freud e Lacan, ou na tentativa do apagamento da diferen\u00e7a. Como \u00c9ric Laurent disse em sua confer\u00eancia X ENAPOL<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, a psican\u00e1lise freudiana \u00e9 mesmo faloc\u00eantrica, ao que ele interp\u00f5e a contribui\u00e7\u00e3o de Lacan para uma mudan\u00e7a de perspectiva, quando coloca o gozo feminino em evid\u00eancia no <em>falasser<\/em>.<\/p>\n<p>Retomemos que a virada epistemol\u00f3gica no \u00faltimo ensino de Lacan<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> est\u00e1 ligada tamb\u00e9m a uma mudan\u00e7a na significa\u00e7\u00e3o do falo, o qual deixa de ser visto apenas como o significante que d\u00e1 suporte \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e passa a ser inscrito como uma fun\u00e7\u00e3o de gozo (a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica). Nesse momento do ensino, ter o falo ou ser o falo n\u00e3o s\u00e3o mais elementos simb\u00f3licos que distinguem homens e mulheres.<\/p>\n<p>A relev\u00e2ncia dessa mudan\u00e7a est\u00e1 justamente no fato de que a distin\u00e7\u00e3o entre os sexos passa a ser uma distin\u00e7\u00e3o entre os modos de gozo: masculino (f\u00e1lico) e feminino, n\u00e3o-todo f\u00e1lico, isto \u00e9, \u201cn\u00e3o-todo a se situar na fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica\u201d (1972-1973, p. 78-79). Assim, Lacan acaba constatando que o gozo sexual masculino bem como o feminino podem, de certo modo, habitar o mesmo sexo, sobretudo quando afirma que existe \u201ca parte mulher dos seres falantes\u201d e \u201cparte dita homem\u201d (p. 86). \u00c9 uma transi\u00e7\u00e3o entre a sexualidade e a sexua\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, masculino e feminino deixam se ser uma mera oposi\u00e7\u00e3o sexual (ainda que inconsciente) e tornam-se uma diferencia\u00e7\u00e3o de modos de gozo. Para os lacanianos, sujeitos sob transfer\u00eancia com esse saber, o mist\u00e9rio da sexua\u00e7\u00e3o emerge da\u00ed: n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, quer dizer, um ser falante (um sexo) n\u00e3o sabe fazer existir a rela\u00e7\u00e3o com outro ser falante (outro sexo).<\/p>\n<p>Todavia, os ativistas das teorias de g\u00eanero, definitivamente n\u00e3o lacanianos, podem insistir no fato de que a pr\u00f3pria escolha dos significantes \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d j\u00e1 \u00e9 excludente, j\u00e1 que \u00e9 bin\u00e1ria. \u201cPor que Lacan escolheu um lado feminino e outro masculino da tabela da sexua\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o por uma l\u00f3gica patriarcal?\u201d, talvez eles digam. Ora, bin\u00e1ria, uma vez que divide a sexua\u00e7\u00e3o em duas partes, a tabela de Lacan realmente \u00e9. E talvez a escolha dos significantes tamb\u00e9m indique algo que possa ser questionado e atualizado com a subjetividade contempor\u00e2nea. Entretanto, \u00e9 irrefut\u00e1vel que o binarismo dessa tabela n\u00e3o diz respeito aos g\u00eaneros, muito menos ao sexo biol\u00f3gico; trata-se do binarismo entre dois modos de gozo (sendo um deles bipartido, inclusive), intr\u00ednsecos ao psiquismo humano \u2013 ao menos dentro da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Elisa Alvarenga<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, em entrevista \u00e0 comiss\u00e3o das III jornadas da Se\u00e7\u00e3o Leste-Oeste, esclarece a leitura contempor\u00e2nea do mist\u00e9rio que pode ser lido com a sexua\u00e7\u00e3o constru\u00edda no \u00faltimo ensino de Lacan:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c&#8230;ele introduz para cada ser falante a possibilidade de passar pelo falo ou n\u00e3o passar pelo falo. E ainda mais passando pelo falo, de ir al\u00e9m do falo, que seria ent\u00e3o o lado feminino das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, Lacan n\u00e3o faz uma simetria entre o lado masculino e o lado feminino, mas ele abre a possibilidade de pensarmos a sexua\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da marca f\u00e1lica que seria uma significa\u00e7\u00e3o a partir do Nome-do-Pai, a partir da met\u00e1fora paterna. Ent\u00e3o, a import\u00e2ncia da sexua\u00e7\u00e3o e das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o \u00e9 ir al\u00e9m do pai, ir al\u00e9m do patriarcado, ir al\u00e9m da sexualidade pensada a partir da refer\u00eancia masculina, paterna e f\u00e1lica.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Desse modo, n\u00e3o me parece que os psicanalistas s\u00e3o puristas, \u201cfadados ao fracasso\u201d de seu suposto discurso patriarcal ultrapassado. Estamos, sim, atentos \u00e0 subjetividade de nossa \u00e9poca, mas n\u00e3o temos transfer\u00eancia com o \u00f3dio \u00e0 diferen\u00e7a, defendido pelos ditos conservadores, tampouco com o apagamento do que \u00e9 intr\u00ednseco ao inconsciente, o que parece ser defendido pelos ativistas das teorias de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Nessa falta de consenso sobre a sexualidade humana, ser\u00e1 poss\u00edvel algum di\u00e1logo, alguma intersec\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> BAGNO, M. <strong>O purista \u00e9 um personagem tr\u00e1gico<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/brasiliarios.com\/colunas\/66-marcos-bagno\/551-o-purista-e-um-personagem-tragico\">https:\/\/brasiliarios.com\/colunas\/66-marcos-bagno\/551-o-purista-e-um-personagem-tragico<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LAURENT, E. (2021). <strong>Entrevista \u00e0 Rede Universit\u00e1ria Americana<\/strong>. Em: ENAPOL. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SKKsaJupVw0&amp;t=328s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SKKsaJupVw0&amp;t=328s<\/a> \u00a0\u00a0Acesso em 29\/08\/2022.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. (1972\/1973) <strong>O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda.<\/strong> Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; vers\u00e3o brasileira de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> ALVARENGA, ELISA. <strong>Entrevista dos membros do cartel da comiss\u00e3o cient\u00edfica das III Jornadas da Se\u00e7\u00e3o Leste-Oeste.<\/strong> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/index.php\/2022\/08\/23\/entrevista-com-elisa-alvarenga-sobre-o-eixo-tematico-4-as-formulas-da-sexuacao\/\">https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/index.php\/2022\/08\/23\/entrevista-com-elisa-alvarenga-sobre-o-eixo-tematico-4-as-formulas-da-sexuacao\/<\/a> Acesso em 29\/08\/2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristina Alves Chamada por alguns de \u201clinguagem neutra\u201d, mas tecnicamente mais nomeada de \u201clinguagem inclusiva\u201d, as novas formas de nomea\u00e7\u00e3o dos sujeitos no discurso social t\u00eam ganhado for\u00e7a nas redes sociais e movimentado debates nas escolas. 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