{"id":12498,"date":"2022-09-01T07:11:10","date_gmt":"2022-09-01T10:11:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12498"},"modified":"2022-09-01T07:11:10","modified_gmt":"2022-09-01T10:11:10","slug":"o-misterio-da-sexuacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/o-misterio-da-sexuacao\/","title":{"rendered":"O MIST\u00c9RIO DA SEXUA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_12515\" aria-describedby=\"caption-attachment-12515\" style=\"width: 594px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12515 size-full\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/arranjos_extra_002_003_002.png\" alt=\"Fonte pixabay\" width=\"594\" height=\"412\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12515\" class=\"wp-caption-text\">Fonte pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por H\u00edtala Gomes<\/p>\n<h6><strong>Cristina Drummond (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p><strong>O QUE CHAMAMOS DE SEXUA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7o pelos termos que voc\u00eas escolheram para nomear o caminho de investiga\u00e7\u00e3o que levar\u00e1 \u00e0 jornada de trabalho da SLO. O termo mist\u00e9rio \u00e9 encontrado no primeiro semin\u00e1rio de Lacan, quando ele fala do mist\u00e9rio da presen\u00e7a do analista. Mas ele toma um valor maior em rela\u00e7\u00e3o ao tema da sexua\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio 20, quando Lacan diz que \u201co real \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante, \u00e9 o mist\u00e9rio do inconsciente\u201d. Mist\u00e9rio desatrelado da sacralidade religiosa, e que coloca o corpo no cerne da experi\u00eancia anal\u00edtica. Mist\u00e9rio \u00e9 o termo que Miller destaca em sua confer\u00eancia \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e que aponta o trabalho de Lacan para dar uma resposta distinta da que Freud deu a respeito da puls\u00e3o, entre o ps\u00edquico e o som\u00e1tico, que tem um lado de representa\u00e7\u00e3o de palavra e um lado de libido. Lacan buscou incessantemente dar conta desse mist\u00e9rio, que \u00e9 a maneira como o gozo e o sistema do Outro podem se manter juntos.<\/p>\n<p>J\u00e1 o termo sexua\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontra presente no dicion\u00e1rio de l\u00edngua portuguesa, mas foi trazido por Lacan com um uso, que podemos dizer que \u00e9 pr\u00f3ximo do neologismo, para introduzir algo que a psican\u00e1lise tem a dizer de maneira distinta, mas bastante precisa e espec\u00edfica, em rela\u00e7\u00e3o ao termo de sexualidade que est\u00e1 presente em muitos outros discursos.<\/p>\n<p>Miquel Bassols nos diz que a palavra sexua\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> (<em>sexuation<\/em>) come\u00e7ou a ser usada na l\u00edngua francesa no final do s\u00e9culo 21 como forma substantiva do verbo <em>sexuer, <\/em>que tinha o significado de adotar ou determinar nos seres vivos um car\u00e1ter sexual espec\u00edfico, feminino ou masculino. A palavra foi importada para outras l\u00ednguas se apoiando por um lado no campo da biologia, a chamada sexua\u00e7\u00e3o f\u00edsica, e por outro no campo da sociologia e psicologia, a sexua\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e traz em si a marca do bin\u00e1rio macho\/f\u00eamea.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo 20, o termo se funde com o enigma do real e se torna mais dif\u00edcil <span style=\"text-decoration: line-through;\">se<\/span> de situar a diferen\u00e7a que est\u00e1 em jogo, e o que Lacan vai deixar claro \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 maneira de definir a diferen\u00e7a sexual, nem a partir do real do organismo vivo, nem a partir da cultura ou como sistema cognitivo. Lacan diz que n\u00e3o se sabe como se reparte o par homo\/hetero em cada esp\u00e9cie, na esp\u00e9cie humana h\u00e1 um x, mas n\u00e3o h\u00e1 uma correspond\u00eancia exata entre o simb\u00f3lico da linguagem e o real a partir da sexua\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>H\u00e1 vinte anos ocorreu um congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise no qual os grupos do Cereda se reuniram em torno do tema<em> Como o sexo chega \u00e0s crian\u00e7as.<\/em> T\u00ednhamos no semin\u00e1rio <em>As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em>, a tradi\u00e7\u00e3o e o falo como pontos de refer\u00eancia para nossa leitura. Na etapa f\u00e1lica primitiva, a crian\u00e7a investida de valor f\u00e1lico para a m\u00e3e, \u00e9 o signo de sua tomada no simb\u00f3lico. A passagem do ser ao ter o falo, onde o pai priva a m\u00e3e daquilo que ela n\u00e3o tem, \u00e9 decisiva para a posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a na sexua\u00e7\u00e3o. E a sa\u00edda do \u00c9dipo \u00e9 demarcada pelas provas que um pai d\u00e1 daquilo que tem, qual seja, o falo, dando in\u00edcio ao que decorre da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. O complexo de castra\u00e7\u00e3o permite, assim, segundo Lacan, a instala\u00e7\u00e3o, no sujeito, de uma posi\u00e7\u00e3o inconsciente sem a qual ele n\u00e3o saberia se identificar ao tipo ideal de seu sexo.<\/p>\n<p>No entanto, em <em>O avesso da psican\u00e1lise<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a>, <\/em>Lacan aponta o car\u00e1ter estritamente inutiliz\u00e1vel do complexo de \u00c9dipo e, em 1970, anuncia um al\u00e9m do \u00c9dipo. Este semin\u00e1rio abre o caminho para as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, a partir de uma releitura do \u00e9dipo feminino no caso Dora. Nessa leitura ele questiona o pai idealizado freudiano, e situa a castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o como uma fantasia, mas como a opera\u00e7\u00e3o real da linguagem sobre o corpo. Entramos no campo do gozo e da fun\u00e7\u00e3o paterna encarnada e transmitida, refer\u00eancias fundadas tamb\u00e9m na releitura do falo na experi\u00eancia de Hans e das solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas como resposta ao sexual, tomado como algo que vem de fora, hetero, e que faz furo no saber, tal como podemos ler tamb\u00e9m na <em>Confer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Mais vinte anos se passaram e ainda nos servimos dessas refer\u00eancias para pensarmos o encontro com o sexual, e o centrarmos em torno do acontecimento, refor\u00e7ando a ideia de que o de que se trata \u00e9 de um encontro com um real diante do qual o sujeito se coloca a trabalho para se arranjar. O enfoque muda da solu\u00e7\u00e3o a um complexo, para dar lugar \u00e0 leitura da resposta singular, que surge diante desse encontro com o gozo e com a falta de um saber que o acolha. Hoje colocar\u00edamos o tema de modo distinto: que sexua\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para um ser falante? Tomamos as elabora\u00e7\u00f5es de Lacan a partir do semin\u00e1rio <em>&#8230;ou pior<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> onde ele j\u00e1 n\u00e3o pensa a sexualidade como a identifica\u00e7\u00e3o aos ideais da masculinidade e da feminilidade, mas como a sexua\u00e7\u00e3o, que se faz a partir de uma escolha de gozo, uma decis\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p>O que ocorreu nesse espa\u00e7o de tempo, diz respeito \u00e0s mudan\u00e7as no simb\u00f3lico, que nos trazem novas configura\u00e7\u00f5es subjetivas e novas respostas sintom\u00e1ticas. O mundo dessimbolizado destitui a lei e o interdito, e os substitui pelas normas e suas pluralidades. S\u00e3o novas maneiras de distribui\u00e7\u00e3o do gozo, a partir da disjun\u00e7\u00e3o entre sexo e g\u00eanero. A muta\u00e7\u00e3o do discurso do mestre para uma l\u00f3gica capitalista se imp\u00f5e no campo discursivo, e elimina a barra que marcava um imposs\u00edvel. Em consequ\u00eancia, surgem novos arranjos sintom\u00e1ticos e fantasm\u00e1ticos sem o aux\u00edlio da ancoragem ed\u00edpica, e eles chegam mesmo \u00e0 utopia de afirmar uma possibilidade de uma posi\u00e7\u00e3o sexuada que dispensaria o Outro. S\u00e3o novas amarra\u00e7\u00f5es sem refer\u00eancia ao nome do pai, evapora\u00e7\u00e3o ou inexist\u00eancia do nome, ao inv\u00e9s de foraclus\u00e3o ou ades\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Trata-se de um novo regime de funcionamento do Outro, onde esse Outro passa a ser o corpo. Lacan ao desmistificar o pai, faz do sexo n\u00e3o uma identifica\u00e7\u00e3o decorrente da solu\u00e7\u00e3o ed\u00edpica, mas <span style=\"text-decoration: line-through;\">uma<\/span>\u00a0 um processo de subjetiva\u00e7\u00e3o em nome da sexua\u00e7\u00e3o dos corpos. H\u00e1 uma inadequa\u00e7\u00e3o do significante para nomear o gozo e, por outro lado, uma dificuldade para sintomatizar a posi\u00e7\u00e3o sexuada. A prolifera\u00e7\u00e3o de significantes deixa muitas vezes em suspenso a amarra\u00e7\u00e3o identificat\u00f3ria, que anteriormente era um recurso mais presente para localizar uma posi\u00e7\u00e3o sexuada ou mesmo produzir um sintoma.<\/p>\n<p>A subjetividade de nossa \u00e9poca, segundo Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, \u00e9 marcada por um decl\u00ednio da dimens\u00e3o da met\u00e1fora, o que faz com que a dist\u00e2ncia entre a fala e o real diminua. A dimens\u00e3o do \u201ctodo mundo delira\u201d passou para o real, implicando uma perda do lado dos semblantes. H\u00e1 ao mesmo tempo os g\u00eaneros e um real, que tende a se libertar dos semblantes. Ela resume essa mudan\u00e7a dizendo que se apresenta o corte entre o corpo e o falante. A psican\u00e1lise considera a diferen\u00e7a radical entre os sexos, mas ensina que h\u00e1 distintas maneiras de eles se repartirem. Se h\u00e1 homens e mulheres, eles n\u00e3o se referem a nenhuma ess\u00eancia, e n\u00e3o h\u00e1 nada que inscreva a diferen\u00e7a deles fora do discurso. Esta s\u00f3 permite represent\u00e1-los por um par de significantes, divis\u00e3o bin\u00e1ria da qual teremos que fazer uso para representar o n\u00e3o bin\u00e1rio, isto \u00e9, o gozo Um. A perspectiva da psican\u00e1lise \u00e9 a de manter ligado o corpo com o falante, sem que haja qualquer norma para um bom arranjo, ou um bom modo de responder a seus impasses.<\/p>\n<p><strong>CORPO E SEXUA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Assim, a maneira traum\u00e1tica como cada um teve a experi\u00eancia de ter seu corpo tocado pela palavra ser\u00e1 retomada em seu processo de sexua\u00e7\u00e3o, a partir de um novo encontro traum\u00e1tico com o real do sexual. Daniel Roy<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> nos fala de uma maneira bastante esclarecedora do que ele chama de experi\u00eancias do corpo e que <span style=\"text-decoration: line-through;\">tornam-se<\/span> se tornam o fundamento da rela\u00e7\u00e3o entre corpo e fala para cada um.<\/p>\n<p>Essas experi\u00eancias do corpo s\u00e3o de tr\u00eas ordens e se distribuem nos efeitos sobre o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real. A primeira \u00e9 a que diz respeito \u00e0 experi\u00eancia especular do corpo como imagem. Ele localiza dois efeitos da l\u00edngua sobre o corpo imagin\u00e1rio: a adora\u00e7\u00e3o do corpo e a falta sob todas as suas formas imagin\u00e1rias. Aquilo que faz falta, defeito, n\u00e3o se registra unicamente como um \u00ab\u00a0a menos\u00a0\u00bb, mas eventualmente como um \u00ab\u00a0em excesso\u00a0\u00bb. A esses dois, Roy acrescenta um terceiro efeito: aquilo que faz mancha, mancha f\u00edsica ou mancha moral.<\/p>\n<p>Quanto aos efeitos da l\u00edngua sobre o corpo mortificado pela l\u00edngua e representado pelo significante, ele traz a marca do falo simb\u00f3lico que designa o efeito sobre o corpo da incorpora\u00e7\u00e3o do corpo do simb\u00f3lico. \u00c9 ao mesmo tempo uma negativa\u00e7\u00e3o e uma localiza\u00e7\u00e3o de gozo, ao mesmo tempo um \u00ab\u00a0n\u00e3o\u00a0\u00bb ao gozo \u2013 o efeito de castra\u00e7\u00e3o &#8211; e um \u00ab\u00a0nome\u00a0\u00bb &#8211; o tra\u00e7o un\u00e1rio. Mas h\u00e1 no corpo vivo alguma coisa que n\u00e3o se deixa negativar, e que, por isso, cria um furo no simb\u00f3lico, um furo no saber, o sexual. Os efeitos sobre o simb\u00f3lico s\u00e3o ent\u00e3o a marca que pode fazer nomea\u00e7\u00e3o e um efeito de furo, que se registra subjetivamente como enigma, fundamentalmente enigma do sexual<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Mas Miller nos ensinou a reconhecer o efeito de impacto sobre o corpo vivo do significante sozinho, que se isola num regime da palavra que privilegia o fora-do-sentido, disjunto do Outro. N\u00e3o se trata a\u00ed dos efeitos corporais do significante, mas efeitos de gozo do significante, da lal\u00edngua, do conjunto de equ\u00edvocos que a hist\u00f3ria de cada um deixou permanecer. A lal\u00edngua n\u00e3o cont\u00e9m fic\u00e7\u00f5es, ela repercute no corpo transformando-o numa c\u00e2mara de ecos, nele depositando tra\u00e7os dos quais ele se goza. H\u00e1, portanto, um terceiro efeito corporal da l\u00edngua, o afeto, essencial para tomar a cl\u00ednica atual.<\/p>\n<p>Por isso a experi\u00eancia da psican\u00e1lise traz cada vez mais em seu cerne a quest\u00e3o, o mist\u00e9rio como voc\u00eas escolheram nomear, o como a diferen\u00e7a introduzida pela linguagem toca o gozo de cada falasser, um por um, sem ter uma norma estabelecida e posteriormente como esse gozo pode ou n\u00e3o ser tratado pelo simb\u00f3lico, pelo campo do saber. A posi\u00e7\u00e3o que o sujeito toma desde sua inf\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao fator sexual constitui o g\u00e9rmen de sua diferen\u00e7a absoluta, a qual n\u00e3o se enra\u00edza na segrega\u00e7\u00e3o. Nem hetero, nem homo, nem trans, todo falasser experimenta em seu corpo que n\u00e3o h\u00e1 objeto adequado para a puls\u00e3o e que n\u00e3o existe nem complementaridade nem harmonia sexual entre os seres infectados pela linguagem.<\/p>\n<p>Nos deparamos cada vez mais com casos em que o que est\u00e1 em quest\u00e3o na resposta do ser falante n\u00e3o tem nada a ver nem com o falo nem com a diferen\u00e7a sexual. Assim, diante de uma esp\u00e9cie de epidemia identit\u00e1ria na atualidade, diante do n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual h\u00e1 arranjos mais ou menos contingentes e sintom\u00e1ticos, que s\u00e3o sustentados mais por uma amarra\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica do que por uma solu\u00e7\u00e3o de sexua\u00e7\u00e3o. Nessa prolifera\u00e7\u00e3o de auto assigna\u00e7\u00e3o do sexo, Silvia Baudini nos interroga se at\u00e9 mesmo a fantasia ainda serve para os sujeitos tratarem de sua sexualidade. Ela se pergunta se a frase \u201cuma crian\u00e7a se auto-percebe\u201d substituiria a frase freudiana que localiza a fun\u00e7\u00e3o da fantasia, \u201cbate-se numa crian\u00e7a\u201d. Nessas embrulhadas da sexua\u00e7\u00e3o que decorrem do discurso, mas tamb\u00e9m da maneira como cada sujeito se posicionou, como ele acolheu uma marca de gozo que n\u00e3o vai variar, muito al\u00e9m da labilidade das identifica\u00e7\u00f5es, encontramos infinitos g\u00eaneros, sob o comando de uma l\u00f3gica do supereu, que apresenta um gozo que n\u00e3o encontra nem o limite f\u00e1lico, nem o limite feminino do n\u00e3o-todo.<\/p>\n<p>Lacan acaba dizendo no semin\u00e1rio 21 que \u201co ser sexuado s\u00f3 se autoriza por si mesmo&#8230; e por alguns outros\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. E precisamos completar que se autoriza tamb\u00e9m com o apoio dos significantes de uma \u00e9poca e de suas comunidades. N\u00f3s queremos nos valer das refer\u00eancias de Lacan para ler em nossa pr\u00e1tica a solu\u00e7\u00e3o que cada um pode encontrar diante desse mist\u00e9rio, como cada um aprendeu a fazer com o que tocou t\u00e3o cedo seu corpo falante. Queremos tamb\u00e9m nos orientar na discuss\u00e3o atual dos discursos de g\u00eanero, dos impasses para dar lugar na l\u00edngua para o que as novas respostas parecem interrogar.<\/p>\n<p>H\u00e1 o sintoma como acontecimento de corpo decorrente do encontro com o significante sem sentido estabelecido, e h\u00e1 o encontro com o gozo sexual, que se apoia sobre essa maneira singular pela qual cada ser falante foi tocado pela palavra. Se tom\u00e1vamos o encontro com o sexual como algo que faz furo e que aciona uma busca de saber, agora nos deparamos com situa\u00e7\u00f5es em que esse encontro n\u00e3o localiza qualquer furo, provoca um desarranjo e o sujeito, como diz Miquel Miss\u00e9<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, \u201ctransita porque tem alguma coisa que tem que reordenar\u201d.<\/p>\n<p><strong>DA CASTRA\u00c7\u00c3O MATERNA \u00c0 INEXIST\u00caNCIA DA MULHER<\/strong><\/p>\n<p>Desde seu texto <em>A significa\u00e7\u00e3o do falo<\/em> Lacan isola o encontro com a castra\u00e7\u00e3o materna como ponto estrutural fundamental para a crian\u00e7a. Entre a crian\u00e7a e a m\u00e3e h\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o que esta tem com o significante do seu desejo, o falo, isto \u00e9, para onde ela como mulher endere\u00e7a seu desejo, como ela trata a falta: castra\u00e7\u00e3o, priva\u00e7\u00e3o ou frustra\u00e7\u00e3o. Diante da descoberta da castra\u00e7\u00e3o da m\u00e3e h\u00e1 uma mudan\u00e7a na subjetividade da crian\u00e7a da qual a ang\u00fastia testemunha. A crian\u00e7a tem uma urg\u00eancia, uma press\u00e3o para responder a este encontro, para elaborar uma solu\u00e7\u00e3o diante da castra\u00e7\u00e3o materna e assegurar seu passo na sexua\u00e7\u00e3o. O golfo da castra\u00e7\u00e3o a impulsiona a inventar uma solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica ou a uma passagem ao ato como vemos na cl\u00ednica das psicoses. A quest\u00e3o \u00e9 que hoje a crian\u00e7a tem muitos problemas para responder a quest\u00e3o da sexua\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3 lan\u00e7a m\u00e3o dos semblantes, mas nos encontramos diante de uma sexualidade fluida. Penso que podemos tomar mais uma vez os casos que s\u00e3o conhecidos por todos, j\u00e1 que decorrem da cl\u00ednica de Freud e tamb\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o de Lacan para pensar a rela\u00e7\u00e3o sempre traum\u00e1tica do falasser com o sexual e nos orientarmos diante dessa fluidez.<\/p>\n<p>Hans e o Homem dos Ratos nos ensinam a respeito dos casos em que o sujeito pode fazer recurso a um sintoma a partir do encontro com o sexual que lhe faz enigma. O caso Hans \u00e9 paradigm\u00e1tico no que se refere aos impasses da crian\u00e7a para metaforizar o encontro com o real do sexo enquanto gozo do \u00f3rg\u00e3o. O sujeito encontra um drama que o divide: o gozo provoca nele o que Lacan chamou de um \u201cesquartejamento pluralizante\u201d que fraciona a unidade de seu corpo que at\u00e9 ent\u00e3o se organizara numa unidade especular a partir da identifica\u00e7\u00e3o com o falo imagin\u00e1rio (i(a)). \u00c9 a introdu\u00e7\u00e3o do real no imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>A realidade sexual \u00e9 descoberta por Hans inicialmente sobre seu pr\u00f3prio corpo e o <em>Wiwimacher<\/em>, assim nomeado por ele, lhe traz com suas primeiras ere\u00e7\u00f5es um encontro com o gozo. Num primeiro tempo, Hans interpreta esse gozo do \u00f3rg\u00e3o com os significantes que lhe s\u00e3o dispon\u00edveis em seu mundo e busca encarn\u00e1-lo nos objetos externos, no cavalo que bate as patas, que cai, que relincha. Assim, ele diz que seu pipi pula e morde como um cavalo. A crian\u00e7a tenta relacionar a realidade sexual estranha, fora de sentido, com a linguagem. Vemos, no entanto, que esses significantes s\u00e3o sempre insuficientes para dar sentido a esse gozo que Lacan chama de hetero, isto \u00e9, estranho, de fora. \u00c9 um novo gozo que surge e vem se associar ao corpo do sujeito.<\/p>\n<p>A sa\u00edda do sujeito \u00e9 pelo sintoma que \u00e9 a express\u00e3o da rejei\u00e7\u00e3o de um gozo do qual o sujeito n\u00e3o compreende nada e o qual ele tem a tarefa de encarnar. Vemos que Hans tem muitas dificuldades para inscrever seu gozo sob o significante f\u00e1lico. Ele come\u00e7a um trabalho for\u00e7ado e intenso de elabora\u00e7\u00e3o para domar esse gozo com palavras e ao mesmo tempo cifr\u00e1-lo e \u00e9 esse trabalho que sua fobia nos mostra. Seu sintoma testemunha a sua inven\u00e7\u00e3o para organizar sua experi\u00eancia. No momento em que Hans deixou de acreditar no falo materno ele perde sua identifica\u00e7\u00e3o com essa posi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o coloca o pai como agente dessa priva\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma \u201ccar\u00eancia paterna\u201d, para a qual ele convoca como um outro agente castrador, o cavalo, que se torna uma met\u00e1fora do pai.<\/p>\n<p>E Lacan vai acompanhando todas as fantasias de que ele faz uso para ir se situando do lado homem das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, um homem que n\u00e3o deixa de ter tra\u00e7os de feminiliza\u00e7\u00e3o. No caso de Hans a subjetiva\u00e7\u00e3o de sua inscri\u00e7\u00e3o do lado homem \u00e9 uma consequ\u00eancia do fato de que a efic\u00e1cia do Nome-do-pai depende mais da av\u00f3 paterna do que se seu pai real, resultando da\u00ed uma identifica\u00e7\u00e3o com o ideal do eu materno. Por isso Lacan fala que ele ser\u00e1 um cavalheiro diante das mulheres, capaz de se satisfazer com filhos imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>No caso do Homem dos Ratos, o encontro com o gozo se deu em sua experi\u00eancia de aos 4-5 anos ao entrar debaixo da saia de sua governanta e tocar seus genitais e seu ventre. A partir de ent\u00e3o ele n\u00e3o deixou de ficar atormentado por uma curiosidade intensa de olhar os corpos das mulheres. Diante do furo do corpo Outro, diz Esthela Solano<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> o olhar, pela via da fantasia, vem se inscrever neste lugar hetero um sentido gozado. Os sintomas obsessivos de d\u00favida e pensamentos recobrem o objeto olhar que est\u00e1 no centro da neurose obsessiva.<\/p>\n<p>Aprendemos a partir desses casos de Freud que a assun\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o sexuada \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o, ou mesmo uma defesa diante do real sexual que faz intrus\u00e3o de maneira traum\u00e1tica quando do encontro da crian\u00e7a com a realidade sexual.<\/p>\n<p>Nestes dois casos, os sujeitos puderam fazer uso do sintoma e da diferen\u00e7a sexual como recursos para localizar o gozo.<\/p>\n<p>Distintos s\u00e3o os casos do Homem dos Lobos e de Gide, tamb\u00e9m trabalhados por Lacan e que me parecem introduzir solu\u00e7\u00f5es distintas. O Homem dos Lobos tamb\u00e9m teve um encontro com o real sexual na inf\u00e2ncia, mas sua produ\u00e7\u00e3o de uma diversidade de sintomas nos fala de sua dificuldade para fazer borda a esse gozo.<\/p>\n<p>Serguei tinha um car\u00e1ter d\u00f3cil, mas apresentou uma anorexia aos dois anos e seu car\u00e1ter teve uma mudan\u00e7a aos tr\u00eas anos e meio. Ele se torna irrit\u00e1vel e violento. O sonho dos lobos ocorre na v\u00e9spera dos seus quatro anos e ele passa a ter medo de ser devorado por lobos. Sua m\u00e3e lhe conta hist\u00f3rias religiosas que, se acalmam sua ang\u00fastia, lhe provocam rumina\u00e7\u00f5es e d\u00favidas sobre a pessoa do Cristo e o levam a proferir inj\u00farias. Os sintomas intestinais s\u00e3o contempor\u00e2neos dos sintomas obsessivos e surge o fen\u00f4meno do v\u00e9u, sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel de estar separado do mundo por um v\u00e9u que s\u00f3 se levantava no momento da defeca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde seu primeiro sintoma, a anorexia, diz Agn\u00e8s Aflalo<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, a posi\u00e7\u00e3o sexuada do sujeito \u00e9 feminina e a ang\u00fastia de morte marca uma recusa de cess\u00e3o de gozo. A mudan\u00e7a de car\u00e1ter decorre de uma tentativa de sedu\u00e7\u00e3o da irm\u00e3, ocasi\u00e3o em que ele tem suas primeiras excita\u00e7\u00f5es sexuais, experi\u00eancia que causa enigma ao sujeito. Mas s\u00f3 depois, com o sonho do lobo \u00e9 que o trauma e o enigma do gozo do olhar s\u00e3o introduzidos. A insist\u00eancia da ang\u00fastia mostra que nem o objeto oral nem o objeto esc\u00f3pico s\u00e3o suficientes para fazer borda ao gozo que invade o sujeito. Gozo ilimitado de um Outro mau, o lobo de p\u00e9, que o quer devorar, pre\u00e7o que ele paga por querer fazer a rela\u00e7\u00e3o sexual existir.<\/p>\n<p>Essa recusa da castra\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m desdobrada pelo neo-fetiche que o sonho traz, o rabo do lobo, que faz com que o bin\u00e1rio homem\/mulher seja substitu\u00eddo pela pluralidade dos lobos. A mulher recoberta por esse fetiche, o traseiro da mulher, pode ser suportada como parceira sem que ele aceite a castra\u00e7\u00e3o materna. Ele constr\u00f3i uma supl\u00eancia sob a forma de uma sexua\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passa pelo \u00f3rg\u00e3o peniano. Assim, sua solu\u00e7\u00e3o \u00e0 sexua\u00e7\u00e3o implica a exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e ele fica \u00e0 merc\u00ea de um gozo feminino ilimitado.<\/p>\n<p>Freud dizia que \u201ca natureza e a qualidade das rela\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a com as pessoas do seu pr\u00f3prio sexo e do sexo oposto, j\u00e1 foi firmada nos primeiros seis anos de sua vida. Ela pode posteriormente desenvolv\u00ea-las e transform\u00e1-las em certas dire\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o pode mais livrar-se delas\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Essa ideia de a estrutura estar constitu\u00edda precocemente para a crian\u00e7a segue presente nos p\u00f3s-freudianos. Mas Lacan nos ensina, a partir de sua leitura de Gide, que n\u00e3o podemos considerar que tudo est\u00e1 decidido aos cinco anos de idade, e que o trabalho de constru\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es do sujeito com o desejo e com o outro prossegue em sua adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Gide nos ensina muito sobre os impasses da crian\u00e7a para se situar a partir dos elementos simb\u00f3licos e imagin\u00e1rios que recebeu de seu Outro como orientadores para a constru\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o sexuada e Lacan nos diz que ele s\u00f3 conclui uma solu\u00e7\u00e3o para sua posi\u00e7\u00e3o aos 25 anos. A solu\u00e7\u00e3o de sua identifica\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a desejada permanece comprometida em sua depend\u00eancia do objeto feminino e ele precisou encontrar apoio na escrita e nos ideais de Goethe, para al\u00e9m do que recebeu de seu Outro familiar, para estabilizar-se numa posi\u00e7\u00e3o sexuada.<\/p>\n<p>Lacan se refere a Gide como uma \u201ccrian\u00e7a dividida\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> e que o fen\u00f4meno espec\u00edfico que se refere \u00e0 sua experi\u00eancia \u00e9 a <em>Spaltung,<\/em> isto \u00e9, nele coexistem dois elementos diferentes. Ele diz: \u201co menino Gide, entre a morte e o erotismo masturbat\u00f3rio, s\u00f3 tem do amor a fala que protege e a que interdita; a morte levou com seu pai aquela que humaniza o desejo. Por isso \u00e9 que o desejo fica, para ele, confinado no clandestino\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a><\/p>\n<p>Temos nessa frase de seu escrito os pontos fundamentais que Lacan indica como estruturantes nessa crian\u00e7a: a rela\u00e7\u00e3o com a morte, a falta da fala que humaniza o desejo que fica ent\u00e3o confinado ao clandestino e a presen\u00e7a da fala que protege e que interdita. Essa <em>Spaltung<\/em> \u00e9 lida por Lacan como um efeito da presen\u00e7a de duas m\u00e3es. Gide teve uma m\u00e3e que deu forma a um amor morto por uma figura ang\u00e9lica e outra que encarnou para ele um outro desejo positivo, mas clandestino. No Semin\u00e1rio 5 Lacan chega a uma f\u00f3rmula que Miller chama de quase matem\u00e1tica dizendo que \u00e9 no mesmo lugar que se produz ou o Ideal do eu ou a pervers\u00e3o. Ele mostra que o que \u00e9 determinante na posi\u00e7\u00e3o de Gide \u00e9 sua identifica\u00e7\u00e3o com a crian\u00e7a n\u00e3o desejada. Quando pode identificar-se ao seu ser desejado, ele vai desejar os menininhos.<\/p>\n<p>Para Lacan, n\u00e3o \u00e9 por desejar meninos que Gide \u00e9 perverso, mas por n\u00e3o poder prescindir de sua mulher a quem d\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o exclusiva que s\u00f3 consegue escrever para ela ou conversar com ela. O que \u00e9 perverso \u00e9 am\u00e1-la sem desej\u00e1-la. O que \u00e9 perverso consiste no fato de que ele somente pode ser aquele que se imp\u00f5e no lugar ocupado pela prima, aquele cujos pensamentos giram em torno dela. Lacan situa sua pervers\u00e3o no n\u00edvel dessa depend\u00eancia absoluta em rela\u00e7\u00e3o ao objeto feminino.<\/p>\n<p>A partir desses casos podemos ver que quando h\u00e1 uma falta, o saber pode ser acionado porque, por defini\u00e7\u00e3o, a falta est\u00e1 localizada no simb\u00f3lico. J\u00e1 quando a falta n\u00e3o est\u00e1 bem localizada, o furo que a dispers\u00e3o que o encontro sexual provoca n\u00e3o se localiza nem no corpo nem no simb\u00f3lico. Estamos ent\u00e3o no campo em que a topologia, da qual Lacan se serviu, nos ajuda a pensar em como fazer uma borda ao furo que n\u00e3o existe e poder fazer operar uma amarra\u00e7\u00e3o a partir desse processo. A amarra\u00e7\u00e3o do gozo com a lal\u00edngua e o corpo ter\u00e1 que ser feita por cada um, um por um, como solu\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como diz Daniel Roy<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>, o psicanalista ensina que o sexual \u00e9 o nome da diferen\u00e7a e da alteridade que cada ser falante. Sobre essa posi\u00e7\u00e3o radical ele pode se apoiar para o estilo de sua a\u00e7\u00e3o: preservar esta singularidade, fazer borda a esta novidade quando ela provoca um excesso de viol\u00eancia. A diferen\u00e7a sexual s\u00f3 se atinge pela via l\u00f3gica<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> e nos cabe n\u00e3o apenas saber ler essa l\u00f3gica como acompanhar suas consequ\u00eancias. Se iniciamos a quest\u00e3o da sexua\u00e7\u00e3o com os efeitos do encontro com a castra\u00e7\u00e3o materna, no estudo da sexua\u00e7\u00e3o na atualidade tomamos a inexist\u00eancia da mulher como ponto estrutural que torna poss\u00edvel o vivificante do sexo para cada um.<\/p>\n<p>Por cada vez mais os sujeitos n\u00e3o poderem fazer recurso ao simb\u00f3lico, al\u00e9m da refer\u00eancia ao um sozinho, ao n\u00e3o bin\u00e1rio, nos baseamos sobre o mal-entendido, que nos faz tomar o inconsciente como instrumento a partir dos equ\u00edvocos de lalingua e do furo que abre a possibilidade das inven\u00e7\u00f5es de cada um. O inconsciente que \u00e9 uma resposta do real \u00e9 o que se p\u00f5e a trabalho na transfer\u00eancia. As bricolagens que sustentam os corpos exigem uma pr\u00e1tica do furo, tal como os Lefort nos introduziram, distinta da pr\u00e1tica do continente, tal como foi tomada pelos kleinianos. Temos muito a aprender com as crian\u00e7as autistas e psic\u00f3ticas em seu trabalho enlouquecido sobre superf\u00edcies n\u00e3o orient\u00e1veis e no trabalho anal\u00edtico com elas para criar uma articula\u00e7\u00e3o entre uma superf\u00edcie e uma borda. Aqui n\u00e3o h\u00e1 recurso aos discursos estabelecidos, o que n\u00e3o impede que, em alguns tratamentos, os sujeitos acabem encontrando maneiras de se articular a eles, ainda que de modo imagin\u00e1rio. \u00c9 com esses recursos que aprendemos no \u00faltimo ensino de Lacan e nas inven\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as, sobretudo daquelas que menos uso fazem do par significante, que nos armamos para abordar em nossa pr\u00e1tica o mist\u00e9rio da sexua\u00e7\u00e3o. Dessa maneira continuamos a apostar na psican\u00e1lise como tratamento do real.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller J-A., L\u2019inconscient et le corps parlant\u00a0 em: La cause du d\u00e9sir, n.88, 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Bassols M., \u201cPr\u00f3logo\u201d, em: <em>Invenciones en la sexuaci\u00f3n, <\/em>Bs. As.: Grama Ed., 2021, p.12.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan J., O Semin\u00e1rio, Livro\u00a0 6, As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente(1956-1957\/1999)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan J., O Semin\u00e1rio, Livro17, O avesso da psican\u00e1lise(1969-1970\/1992)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan J., Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma in: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> n.23, dezembro 1998, p. 6-16<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan J., O Semin\u00e1rio, Livro19, <em>&#8230;ou pior, (<\/em>1971-1972)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Brousse M-H, \u201cOs modos do sexo\u201d, em: <em>Correio 86, A Passagem do real, <\/em>SP:EBP, Outubro 2021, p.19.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Roy D., \u201cO que chamamos de acontecimento de corpo\u201d, em:<em>Curinga <\/em>n.52, EBP-MG, jul\/dez 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Lacan J., O Semin\u00e1rio, livro 21, <em>Les non-dupes errent. <\/em>In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Miss\u00e9 M., Nascido em um corpo equivocado, 2021<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Solano E., Par la grace du sympt\u00f4me, em: <em>La sexuation des enfants, <\/em>Paris: Navarin, 2021, p. 103.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Aflalo A., L\u2019homme aux loups et la question du genre, em: <em>La sexuation des enfants, <\/em>Paris: Navarin, 2021, p. 109.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Freud S., \u201cAlgumas reflex\u00f5es sobre a psicologia do escolar\u201d ( 1914), RJ: Imago, vol. XIII, 1974, p. 287.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> JG, p. 763<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> JG, p. 764<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Roy D., Diff\u00e9rence sexuelle et alt\u00e9rit\u00e9, em: <em>La sexuation des enfants, <\/em>Paris: Navarin, 2021, p. 99.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Majoub L., LQ 924<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por H\u00edtala Gomes Cristina Drummond (EBP\/AMP) O QUE CHAMAMOS DE SEXUA\u00c7\u00c3O Come\u00e7o pelos termos que voc\u00eas escolheram para nomear o caminho de investiga\u00e7\u00e3o que levar\u00e1 \u00e0 jornada de trabalho da SLO. O termo mist\u00e9rio \u00e9 encontrado no primeiro semin\u00e1rio de Lacan, quando ele fala do mist\u00e9rio da presen\u00e7a do analista. 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