{"id":12471,"date":"2022-08-23T07:26:21","date_gmt":"2022-08-23T10:26:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12471"},"modified":"2022-08-23T07:26:21","modified_gmt":"2022-08-23T10:26:21","slug":"entrevista-com-romulo-ferreira-da-silva-sobre-o-eixo-tematico-3-sexo-nas-psicoses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/entrevista-com-romulo-ferreira-da-silva-sobre-o-eixo-tematico-3-sexo-nas-psicoses\/","title":{"rendered":"Entrevista com R\u00f4mulo Ferreira da Silva sobre o Eixo tem\u00e1tico 3 \u2013 Sexo nas Psicoses"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-12453\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/arranjos008_002.jpg\" alt=\"\" width=\"307\" height=\"208\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Gabriel Caixeta: Qual a import\u00e2ncia dessa formula\u00e7\u00e3o de Lacan sobre a sexua\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R\u00f4mulo Ferreira:<\/strong> Essa pergunta nos interessa. E eu come\u00e7aria abordando a quest\u00e3o da \u201crela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe\u201d. Se pegarmos desde os prim\u00f3rdios da psican\u00e1lise, o sexo est\u00e1 posto em quest\u00e3o. Podemos retomar inclusive a discuss\u00e3o de Freud com o Fliess sobre a bissexualidade, que foi um tema que colaborou com a ruptura da amizade entre eles, porque Fliess entendeu que Freud o plagiou. Os dois abordaram esse tema, mas cada um a seu modo. Ent\u00e3o, desde os prim\u00f3rdios mesmo, quando Freud inventava ou descobria a psican\u00e1lise, o sexo estava ali, a quest\u00e3o da sexualidade estava posta. Quer dizer, o sexo, ent\u00e3o, tomado como um fato biol\u00f3gico anat\u00f4mico, ele tomado dessa forma para a psican\u00e1lise, fica distante do que \u00e9 essa abordagem. Ent\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio avan\u00e7ar, eu diria isso, quer dizer, qual que \u00e9 a import\u00e2ncia da formula\u00e7\u00e3o de Lacan sobre a sexua\u00e7\u00e3o, como est\u00e1 colocado na pergunta? \u00c9 preciso avan\u00e7ar, avan\u00e7ar, inclusive, na cria\u00e7\u00e3o de novos termos, temos que podem transmitir melhor o que nos interessa na psican\u00e1lise. Ent\u00e3o, quando Lacan usa esse termo, ele est\u00e1 abordando alguma coisa para al\u00e9m do que \u00e9 a sexualidade. N\u00f3s poder\u00edamos dizer tamb\u00e9m, para aqu\u00e9m do que \u00e9 a sexualidade, pois n\u00e3o se trata de abordar como \u00e9 que cada um busca fazer a parceria no campo do sexual. Em termos de sexua\u00e7\u00e3o, trata-se mais de uma escolha, uma escolha de posicionamento frente ao modo de gozo. E eu entendo que, justamente com o uso desse termo, Lacan aponta para a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>Gabriel Caixeta: Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre a diferen\u00e7a entre sexualidade e sexua\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R\u00f4mulo Ferreira:<\/strong> A sexualidade n\u00e3o \u00e9 determinada pelo sexo. O sexo tomado como anatomia ou fisiologia. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 sem o sexo, mas ela n\u00e3o \u00e9 determinada pelo sexo. A sexualidade \u00e9 o que se constr\u00f3i no corpo a partir da rela\u00e7\u00e3o com o outro. Nessa rela\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, entra em jogo o amor e o desejo do outro. Esse outro que toma esse corpo como objeto. Ent\u00e3o, tem um corpo em jogo, tem um outro jogo nas rela\u00e7\u00f5es de amor e desejo, e \u00e9 nessa tomada desse corpo como objeto do outro <span style=\"text-decoration: line-through;\">\u00e9<\/span> que n\u00f3s podemos dizer que se constr\u00f3i, que se constitui a sexualidade. Ent\u00e3o, nesses termos, estar\u00edamos no campo de uma esperan\u00e7a, de haver uma complementariedade entre os dois sexos, entre esse outro que toma o corpo do sujeito como objeto, ent\u00e3o estar\u00edamos nessa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A sexua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se baseia na divis\u00e3o, nessa divis\u00e3o, nesse par bin\u00e1rio homem-mulher, nessa complementariedade. A sexua\u00e7\u00e3o diz respeito mais a tomada de posi\u00e7\u00e3o frente aos dois modos de gozo: o gozo f\u00e1lico e o gozo n\u00e3o-todo f\u00e1lico, que n\u00e3o se complementam. Importante essa dimens\u00e3o. Essa escolha que o sujeito faz, vamos dizer, quando ocorre a sexua\u00e7\u00e3o, essa escolha leva muito mais a uma rela\u00e7\u00e3o de suplementa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se d\u00e1 entre aqueles que escolheram um lado do quadro da sexua\u00e7\u00e3o do Lacan, com aqueles que escolheram o outro lado do quadro de sexua\u00e7\u00e3o do Lacan. Essa \u00e9 uma ilus\u00e3o que muitas vezes tamb\u00e9m ocorre de pensar que a rela\u00e7\u00e3o pode ocorrer entre o lado homem e o lado mulher. Justamente quanto \u00e0 sexua\u00e7\u00e3o, o que o Lacan mostra \u00e9 que se d\u00e1 pela satisfa\u00e7\u00e3o com o outro gozo. Ent\u00e3o, \u00e9 assim que um encontro pode ocorrer, mas \u00e9 da ordem da conting\u00eancia, \u00e9 da ordem do real, assim como o amor. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 complementa\u00e7\u00e3o, complementariedade, mas, sim, suplementa\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o se trata de relacionar um com o outro, fazendo existir a rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p><strong>Gabriel Caixeta: Como o eixo tem\u00e1tico escrito por voc\u00ea toca no mist\u00e9rio da sexua\u00e7\u00e3o, tema das nossas jornadas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>R\u00f4mulo Ferreira: <\/strong>Ent\u00e3o, eu gostei dessa pergunta, porque ela pode ser respondida, assim de cara, de uma maneira muito simples. O eixo tr\u00eas toca no mist\u00e9rio da n\u00e3o-sexua\u00e7\u00e3o. Digo isso porque, se n\u00f3s estamos abordando a sexua\u00e7\u00e3o como uma escolha, n\u00f3s podemos retomar, de alguma maneira, a insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser. No sentido de perguntar o porqu\u00ea que um sujeito decide por acolher o Nome-do-Pai ou foraclu\u00ed-lo. Talvez em termos da sexua\u00e7\u00e3o, essa escolha estaria tamb\u00e9m nessa ordem da insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser. Ent\u00e3o, a escolha de n\u00e3o se posicionar frente aos modos de gozo, o gozo f\u00e1lico ou o gozo n\u00e3o-todo f\u00e1lico, tamb\u00e9m se apresenta como um mist\u00e9rio. \u00c9 nesse sentido, que n\u00f3s podemos discutir nas Jornadas esse tema do sexo na psicose. Na psicose n\u00f3s podemos falar, talvez, de sexo, de sexualidade, mas de sexua\u00e7\u00e3o acho que as coisas ficam mais confusas. Acho que n\u00e3o foi \u00e0 toa que Lacan abordou, em Schreber, o empuxo \u00e0 mulher, porque ele n\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o com o falo no sentido de fazer valer a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 do lado homem, no sentido do gozo f\u00e1lico, nem do lado mulher, no sentido do gozo n\u00e3o-todo f\u00e1lico. \u00c9 uma n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o com o falo e, portanto, um gozo que se encontra sem limites. Eu colocaria a\u00ed dessa forma para gente pensar a import\u00e2ncia que tem a quest\u00e3o do Eixo tr\u00eas, por tocar exatamente a n\u00e3o escolha, o mist\u00e9rio da n\u00e3o-sexua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gabriel Caixeta: Qual a import\u00e2ncia dessa formula\u00e7\u00e3o de Lacan sobre a sexua\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana? R\u00f4mulo Ferreira: Essa pergunta nos interessa. E eu come\u00e7aria abordando a quest\u00e3o da \u201crela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe\u201d. Se pegarmos desde os prim\u00f3rdios da psican\u00e1lise, o sexo est\u00e1 posto em quest\u00e3o. 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