{"id":12451,"date":"2022-08-23T07:12:01","date_gmt":"2022-08-23T10:12:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12451"},"modified":"2022-08-23T07:12:01","modified_gmt":"2022-08-23T10:12:01","slug":"das-docuras-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/das-docuras-de-deus\/","title":{"rendered":"\u2026 das do\u00e7uras de Deus"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_12459\" aria-describedby=\"caption-attachment-12459\" style=\"width: 291px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12459 size-full\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/arranjos008_008.jpg\" alt=\"Fonte pixabay\" width=\"291\" height=\"195\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12459\" class=\"wp-caption-text\">Fonte pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Clarice Lispector<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h6>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 se esqueceram de minha empregada Aninha, a mineira calada, a que queria ler um livro meu mesmo que fosse complicado porque n\u00e3o gostava de \u201c\u00e1gua com a\u00e7\u00facar\u201d. E provavelmente j\u00e1 esqueceram que, sem saber por qu\u00ea, eu a chamava de Aparecida, e que ela explicou: \u201c\u00c9 porque eu apareci.\u201d O que eu n\u00e3o disse talvez foi que, para ela existir como pessoa, dependia muito de se gostar dela. Voc\u00eas a esqueceram. Eu nunca a esquecerei. Nem sua voz abafada, nem os dentes que lhe faltavam na frente e que por inst\u00e2ncia nossa botou, \u00e0 toa: n\u00e3o se viam porque ela falava para dentro e seu sorriso tamb\u00e9m era mais para dentro. Esqueci de dizer que Aninha era muito feia. Um dia de manh\u00e3 aconteceu que demorou demais na rua para fazer compras. Afinal apareceu e tinha um sorriso t\u00e3o brando como se s\u00f3 tivesse gengivas. O dinheiro que levara para compras estava amassado na m\u00e3o direita, e do punho da esquerda dependurava-se o saco de compras. Havia uma coisa nova nela. O qu\u00ea, n\u00e3o se adivinhava. Talvez uma do\u00e7ura maior. E estava um pouco mais \u201caparecida\u201d, como se tivesse dado um passo para a frente. Essa alguma coisa nova fez com que pergunt\u00e1ssemos em desconfian\u00e7a: e as compras? Respondeu: eu n\u00e3o tinha dinheiro. Surpreendidas, mostramos-lhe o dinheiro na m\u00e3o. Ela olhou e disse simples: ah. Alguma outra coisa nela fez com que olh\u00e1ssemos para dentro do saco de compras. Estava cheio de tampinhas de garrafa de leite e de outras garrafas, fora peda\u00e7os de papel sujo. Ent\u00e3o ela disse: vou me deitar porque estou com muita dor aqui \u2013 e apontou como uma crian\u00e7a o alto da cabe\u00e7a. N\u00e3o se queixou, s\u00f3 disse. Ali ficou na cama, horas. N\u00e3o falava. Ela que me dissera n\u00e3o gostar de livro \u201cpueril\u201d, estava com uma express\u00e3o pueril e l\u00edmpida. Se fal\u00e1ssemos com ela, respondia que n\u00e3o conseguia se levantar. Quando dei f\u00e9, Jandira, a cozinheira vidente, tinha chamado a ambul\u00e2ncia do Rocha Maia \u201cporque ela est\u00e1 doida\u201d. Fui ver. Estava calada, doida. E do\u00e7ura maior nunca vi. Expliquei \u00e0 cozinheira que a ambul\u00e2ncia a chamar era a do Pronto-Socorro Psiqui\u00e1trico do Instituto Pinel. Um pouco tonta, um pouco automaticamente, telefonei para l\u00e1. Tamb\u00e9m eu sentia uma do\u00e7ura em mim, que n\u00e3o sei explicar. Sei, sim. Era de tanto amor por Aninha. Enquanto isso vinha a ambul\u00e2ncia do Rocha Maia. Foi examinada, j\u00e1 sentada na cama. O m\u00e9dico disse que clinicamente n\u00e3o tinha nada. E come\u00e7ou a fazer perguntas: para que tinha juntado as tampinhas e o papel? Respondeu suave: para enfeitar meu quarto. Fez outras perguntas. Aninha com paci\u00eancia, feia, doida e mansa, dava as respostas certas, como aprendidas. Expliquei ao m\u00e9dico que j\u00e1 havia chamado outra ambul\u00e2ncia, a apropriada. Ele disse: \u00e9 mesmo caso para um colega psiquiatra. Esperamos a outra ambul\u00e2ncia. Enquanto esper\u00e1vamos, est\u00e1vamos pasmas, mudas, pensativas. Veio a ambul\u00e2ncia. O m\u00e9dico n\u00e3o custou a dar o diagn\u00f3stico. S\u00f3 que internada ela n\u00e3o podia ficar, apenas pronto socorro. Mas ela n\u00e3o teria onde ficar. Ent\u00e3o telefonei para um m\u00e9dico amigo meu que falou com o colega do Pinel, e ficou estabelecido que ela ficaria internada at\u00e9 meu amigo examin\u00e1-la. \u201cA senhora \u00e9 escritora?\u201d \u2013 perguntou-me de s\u00fabito aquele que vim a saber ser o acad\u00eamico Artur. Gaguejei: \u201cEu&#8230;\u201d E ele: \u201c\u00c9 porque seu rosto me \u00e9 familiar e seu amigo disse pelo telefone seu primeiro nome.\u201d E naquela situa\u00e7\u00e3o em que eu mal me lembrava de meu nome, ele acrescentou simp\u00e1tico, efusivo, mais emocionado comigo do que com Aninha: \u201cPois tenho muito prazer em conhec\u00ea-la pessoalmente.\u201d E eu, boba e mecanicamente: \u201cTamb\u00e9m tenho.\u201d E l\u00e1 se foi Aninha, suave, mansa, mineira, com seus novos dentes branqu\u00edssimos, brandamente desperta. S\u00f3 um ponto nela dormia: aquele que, acordado, d\u00e1 a dor. Vou encurtar: meu amigo m\u00e9dico examinou-a e o caso era muito grave, internaram-na. Nessa noite passei sentada na sala at\u00e9 de madrugada, fumando. A casa estava toda impregnada de uma do\u00e7ura doida como s\u00f3 a desaparecida podia deixar. Aninha, meu bem, tenho saudade de voc\u00ea, de seu modo gauche de andar. Vou escrever para sua m\u00e3e em Minas para ela vir buscar voc\u00ea. O que lhe acontecer\u00e1, n\u00e3o sei. Sei que voc\u00ea continuar\u00e1 doce e doida para o resto da vida, com intervalos de lucidez. Tampinhas de garrafa de leite s\u00e3o capazes mesmo de enfeitar um quarto. E pap\u00e9is amarrotados, d\u00e1-se um jeito, por que n\u00e3o? Ela n\u00e3o gostava de \u201c\u00e1gua com a\u00e7\u00facar\u201d, e nem o era. O mundo n\u00e3o \u00e9. Fiquei sabendo de novo na noite em que asperamente fumei. Ah! com que aspereza fumei. A c\u00f3lera \u00e0s vezes me tomava, ou ent\u00e3o o espanto, ou a resigna\u00e7\u00e3o. Deus faz do\u00e7uras muito tristes. Ser\u00e1 que deve ser bom ser doce assim? Aninha tinha uma saia vermelha estampada que algu\u00e9m lhe dera, muito mais comprida do que seu tamanho. Nos dias de folga usava a saia com uma blusa marrom. Era mais uma do\u00e7ura sua, a falta de gosto. \u2013 Voc\u00ea precisa arranjar um namorado, Aninha. \u2013 J\u00e1 tive um. Mas como? Quem a quereria, por Deus? A resposta \u00e9: por Deus.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rocco, 1999.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clarice Lispector[1] Voc\u00eas j\u00e1 se esqueceram de minha empregada Aninha, a mineira calada, a que queria ler um livro meu mesmo que fosse complicado porque n\u00e3o gostava de \u201c\u00e1gua com a\u00e7\u00facar\u201d. E provavelmente j\u00e1 esqueceram que, sem saber por qu\u00ea, eu a chamava de Aparecida, e que ela explicou: \u201c\u00c9 porque eu apareci.\u201d O que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-12451","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-arranjos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12451\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12451"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=12451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}