{"id":12388,"date":"2022-07-25T16:45:03","date_gmt":"2022-07-25T19:45:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12388"},"modified":"2022-07-25T16:45:03","modified_gmt":"2022-07-25T19:45:03","slug":"o-encontro-com-o-sexual-no-caso-do-pequeno-hans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/o-encontro-com-o-sexual-no-caso-do-pequeno-hans\/","title":{"rendered":"O encontro com o sexual no caso do Pequeno Hans."},"content":{"rendered":"<h6><strong>\u00a0<\/strong><strong><em>Por T\u00e2nia Martins (EBP\/AMP)<\/em><\/strong><\/h6>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-12379\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/arranjos007-004.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" \/><\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 o encontro de cada falasser com o sexual?<\/p>\n<p>Podemos pensar sobre isso a partir de diferentes pontos de vista, proponho abord\u00e1-lo aqui, com o caso Hans, publicado por Freud, a partir de um aspecto assinalado por Freud e destacado por Lacan em diferentes momentos de seu ensino. O encontro misterioso\/ traum\u00e1tico de Hans com sua primeira ere\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Freud<\/p>\n<p><em>\u201cAs primeiras comunica\u00e7\u00f5es sobre ele datam de quando tinha tr\u00eas anos de idade. Expressou ent\u00e3o, em diversos coment\u00e1rios e perguntas, um interesse bastante vivo pela parte do seu corpo que chamava faz-pipi (wiwimacher), Assim, uma vez dirigiu \u00e0 sua m\u00e3e esta pergunta:<\/em><\/p>\n<p><em>Hans: \u2018Mam\u00e3e, voc\u00ea tamb\u00e9m tem um faz-pipi?\u2019<\/em><\/p>\n<p><em>M\u00e3e: \u2018Claro que tenho. Por qu\u00ea?\u2019<\/em><\/p>\n<p><em>Hans: \u2018Nada, s\u00f3 estava pensando.<\/em>\u2019 <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<p><em>\u201cSeu interesse pelo faz-pipi n\u00e3o era somente te\u00f3rico, no entanto; como \u00e9 de imaginar, tamb\u00e9m o levou a tocar o membro. Aos tr\u00eas anos e meio, sua m\u00e3e o viu pegando no p\u00eanis. Ela o amea\u00e7ou\\; \u2018Se voc\u00ea fizer isso, chamarei o Dr A. e ele cortar\u00e1 seu faz-pipi. Com o que voc\u00ea vai fazer pipi ent\u00e3o?\u2019<\/em><\/p>\n<p><em>Hans: \u2018Com o bumbum\u2019.<\/em><\/p>\n<p><em>Ele responde sem consci\u00eancia de culpa, mas adquire, nessa ocasi\u00e3o, o complexo de castra\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>A partir dos textos freudianos que tratam sobre o encontro da crian\u00e7a com a sexualidade e com a distin\u00e7\u00e3o entre os sexos, vemos que, para Freud, s\u00f3 h\u00e1 um significante para dizer o sexo, o falo.<\/p>\n<p>Na discuss\u00e3o do caso Freud desenvolve alguns aspectos do que est\u00e1 em torno de Hans. Fala da rela\u00e7\u00e3o de Hans com sua m\u00e3e, dos excessos que permeavam esta rela\u00e7\u00e3o; e do seu pai dedicado e complacente. Al\u00e9m disto, ele observa qu\u00e3o pouca era a aten\u00e7\u00e3o que a m\u00e3e de Hans dava \u00e0 palavra do pai, assim como, do pai de Hans em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mulher.<\/p>\n<p>Em Lacan:<\/p>\n<p>Encontramos no ensino de Lacan alguns momentos em que ele comenta o caso Hans. Destaco aqui dois momentos em que podemos observar uma certa continuidade e uma mudan\u00e7a de olhar.<\/p>\n<p>S\u00e3o eles um extenso coment\u00e1rio, de v\u00e1rios cap\u00edtulos dedicados a este caso, no Semin\u00e1rio \u201cA rela\u00e7\u00e3o de Objeto\u201d (1956\/1957), <span style=\"text-decoration: line-through;\">e<\/span> em 1975 na Confer\u00eancia de Genebra sobre o sintoma e no Semin\u00e1rio RSI. Entre 1957 e 1975 a mudan\u00e7a de perspectiva trazida no ensino de Lacan, ocorreu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora paterna e ao conceito de gozo.<\/p>\n<p><em>No Semin\u00e1rio IV<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cO que muda, \u00e9 que o seu pr\u00f3prio p\u00eanis come\u00e7a a tornar-se alguma coisa completamente real. Seu p\u00eanis come\u00e7a a agitar, e a crian\u00e7a come\u00e7a a se masturbar. O elemento importante n\u00e3o \u00e9 tanto que a m\u00e3e intervenha neste momento, mas que o p\u00eanis se tenha tornado real. Este \u00e9 o fato da observa\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, devemos nos perguntar se n\u00e3o existe uma rela\u00e7\u00e3o entre este fato e o que aparece, isto \u00e9, a ang\u00fastia.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>No Semin\u00e1rio RSI<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA ang\u00fastia \u00e9 isso que, do interior do corpo, ex-siste quando h\u00e1 alguma coisa que o desperta, que o atormenta, vejam o pequeno Hans, quando se d\u00e1 conta de ser sens\u00edvel \u00e0 associa\u00e7\u00e3o com um corpo, ali, explicitamente macho, definido como macho, associa\u00e7\u00e3o a um corpo de um gozo f\u00e1lico. Se Hans se lan\u00e7a na fobia, \u00e9 evidentemente para dar corpo, como demonstrei durante um ano inteiro, ao embara\u00e7o que h\u00e1 nesse falo, e para o qual ele se inventa toda uma s\u00e9rie de equivalentes diversamente escoiceantes, sob a forma da fobia de cavalos\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Na Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u201cS\u00f3 h\u00e1 necessidade de saber que, em certos seres, assim chamados, o encontro com a pr\u00f3pria ere\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absolutamente autoer\u00f3tico. \u00c9 o que h\u00e1 de mais h\u00e9tero. &#8230; que esse pobre pequeno Hans s\u00f3 pensa nisso &#8211; encarn\u00e1-la em objetos que s\u00e3o o que h\u00e1 de mais externo, isto \u00e9, naquele cavalo que relincha, que d\u00e1 coices, que salta, que cai no ch\u00e3o. Esse cavalo que vai e vem, que tem um certo modo de deslizar ao longo do cais, arrastando sua charrete, \u00e9 o que h\u00e1 de mais exemplar para ele daquilo que tem que enfrentar e sobre o qual n\u00e3o entende exatamente nada, gra\u00e7as ao fato, sem d\u00favida, de que ele tem um certo tipo de m\u00e3e e um certo tipo de pai. Seu sintoma \u00e9 a express\u00e3o, a significa\u00e7\u00e3o, dessa recusa\u201d. <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>Em 1957, Lacan demonstrou, a partir dos detalhes do caso relatado por Freud, a opera\u00e7\u00e3o significante que permitiu a constru\u00e7\u00e3o do sintoma e as transforma\u00e7\u00f5es que Hans operou servindo-se de substitui\u00e7\u00f5es para construir uma supl\u00eancia da car\u00eancia paterna. Freud e Lacan trabalharam com este conceito. Freud e Lacan se referem \u00e0s dificuldades de Hans por n\u00e3o contar com elementos simb\u00f3licos para lidar com a intrus\u00e3o de seu gozo f\u00e1lico, referem-se a sua rela\u00e7\u00e3o familiar. Lacan contava com a met\u00e1fora paterna, como foi concebida nesta \u00e9poca, o Nome do Pai e o Desejo da m\u00e3e.<\/p>\n<p>No semin\u00e1rio RSI, Lacan j\u00e1 falou de um ser que tem que se haver com o gozo que ex-siste, e vemos que Lacan fala de um corpo, a dificuldade na associa\u00e7\u00e3o a um corpo de um gozo f\u00e1lico.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a fica mais evidente na Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma, onde Lacan fala de um gozo h\u00e9tero e de recusa. Apesar da refer\u00eancia a um certo tipo de pai e a um certo tipo de m\u00e3e, isso n\u00e3o parece uma solu\u00e7\u00e3o que prioriza o simb\u00f3lico, mas nos ajuda a pensar a singularidade desta conting\u00eancia e do mal-entendido dos gozos. Falar de gozo h\u00e9tero aponta \u00e0 n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o. Neste texto, o termo h\u00e9tero surge como uma diverg\u00eancia de Freud, em rela\u00e7\u00e3o a concep\u00e7\u00e3o freudiana de gozo autoer\u00f3tico no sintoma. O sintoma como express\u00e3o de uma recusa explicita a impossibilidade, algo de real do sintoma.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Freud, Obras Completas, volume 8, An\u00e1lise da Fobia de um garoto de cinco anos, Companhia das Letras, p\u00e1g126.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem p\u00e1g 127.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan Jacques, O Semin\u00e1rio, livro IV, A rela\u00e7\u00e3o de objeto, Jorge Zahar Ed, 1995, p\u00e1g. 231.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan Jaques, O semin\u00e1rio, RSI, 1974-1975, in\u00e9dito, aula 10 de dezembro de 1974.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan Jacques, Conferencia em Genebra sobre o sintoma, em Op\u00e7\u00e3o Lacaniana23, p\u00e1g 10<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Por T\u00e2nia Martins (EBP\/AMP) Como \u00e9 o encontro de cada falasser com o sexual? 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