{"id":12386,"date":"2022-07-25T16:40:40","date_gmt":"2022-07-25T19:40:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12386"},"modified":"2022-07-25T16:40:40","modified_gmt":"2022-07-25T19:40:40","slug":"a-que-serve-o-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-que-serve-o-sintoma\/","title":{"rendered":"A QUE SERVE O SINTOMA?"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Por Ceres L\u00eada F F R\u00fabio\u00a0 <\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12378\" aria-describedby=\"caption-attachment-12378\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12378\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/arranjos007-005-300x199.png\" alt=\"Fonte pixabay\" width=\"500\" height=\"332\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12378\" class=\"wp-caption-text\">Fonte pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>O sintoma \u00e9 humano, caracter\u00edstica singular que faz a diferen\u00e7a na natureza entre os animais, pois o desnaturaliza. \u00c9 a confirma\u00e7\u00e3o da imers\u00e3o do humano no simb\u00f3lico e da exist\u00eancia desse, da linguagem, da cultura do Outro, da exist\u00eancia do inconsciente e mais presentemente, do acontecimento de corpo que constr\u00f3i um falasser, resultado do encontro do corpo com a linguagem. \u00c9 pela via do sintoma que se faz la\u00e7o e por onde se goza.<\/p>\n<p>Freud apresentou o sintoma como resultado de uma repress\u00e3o a um prazer, um desvio encontrado pela puls\u00e3o para poder se realizar. Inicialmente bastava a interpreta\u00e7\u00e3o da fantasia ali recalcada para que ele desaparecesse. Entretanto, a resist\u00eancia dos sintomas fez com que ele criasse diversos conceitos para explicar essa obstina\u00e7\u00e3o persistente, como a transfer\u00eancia negativa, o masoquismo primordial, a puls\u00e3o de morte. Lacan segue adiante avan\u00e7ando \u00e0 respeito de um saber sobre o sintoma, o tomando n\u00e3o como aquele que seria uma disfun\u00e7\u00e3o, que promoveria obst\u00e1culos, mas, sim um funcionamento. O sintoma n\u00e3o abdicaria ao funcionamento do saber no real, ele participaria desse funcionamento e por isso, ele seria da ordem do real (2008\/2020, p.26). Ao contr\u00e1rio de uma disfun\u00e7\u00e3o seria aquele que restabeleceria o funcionamento do falasser, ele faria uso dele, dando ao falasser um lugar no mundo, um destino.<\/p>\n<p>Miller no semin\u00e1rio o Parceiro-Sintoma (2008\/2020, p. 12), enfatiza o sintoma como um termo no ensino de Lacan que permanece errante. Destaca quatro lugares que ele ocupa na psican\u00e1lise lacaniana. No \u00faltimo ensino, se apresenta como um quarto elemento, <em>m\u00e1s uno<\/em>, no tern\u00e1rio fundamental para atar de modo borromeano os tr\u00eas registros ou como um elemento substituto, suplementar, diante de uma falha do enodamento entre o imagin\u00e1rio, o simb\u00f3lico e o real. No in\u00edcio do ensino ele \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente e situado na mesma dire\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico. Ele pode ser tamb\u00e9m, aquele que se apresenta alojado no registro do real, e, em uma quarta posi\u00e7\u00e3o, sob a categoria de semblante, reunindo o simb\u00f3lico e o imagin\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao real, nesse ponto, o sintoma, podendo ocupar-se como suplemento, na media\u00e7\u00e3o ao bin\u00e1rio do semblante e do real.<\/p>\n<p>Nesse semin\u00e1rio, inicialmente, o sintoma aparece como a <em>emerg\u00eancia de uma verdade<\/em>, a verdade que <em>revela algo<\/em> e que perturba o saber sobre o real (p.24-26), concordando com Freud que a interpreta\u00e7\u00e3o seria reveladora. Mas, de que verdade se trata? Lacan, no semin\u00e1rio de <em>um discurso que n\u00e3o fosse semblante<\/em> (1971\/2009, p.24-27), aponta que o discurso da psican\u00e1lise que interessa sobre a verdade e a ci\u00eancia diz respeito a um campo da verdade que \u00e9 consequ\u00eancia de nossos discursos, que seria a fantasia, e que ela resiste e n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel a atravessar a todos os sentidos. Aqui o sintoma \u00e9 posto como equivalente \u00e0 fantasia. O sintoma como <em>aparato para emparelhar o sujeito e o pequeno a<\/em>, um mediador entre o sujeito e o gozo por interm\u00e9dio da significa\u00e7\u00e3o do Outro.\u00a0 (MILLER, 1998, p. 16-17).<\/p>\n<p>A partir da teoriza\u00e7\u00e3o de Aun, da constru\u00e7\u00e3o do axioma n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, da concep\u00e7\u00e3o do falasser como um acontecimento de corpo a partir da incid\u00eancia da linguagem no corpo, e desse modo a exist\u00eancia de um inconsciente real. Podemos concluir junto com Miller, acompanhado de Lacan, que o sintoma n\u00e3o se pode atravessar, n\u00e3o se pode deixar cair como se articulava no passado como um final de an\u00e1lise, no atravessamento da fantasia. O sintoma resiste. Seria o termo que agrega dois modos de funcionamento que se op\u00f5e, um da ordem da verdade e o outro, do gozo. Por um lado, como verdade \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, \u00e9 da ordem do simb\u00f3lico, admite-se um inconsciente transferencial e interpret\u00e1vel, e, por outro lado, o sintoma como gozo, da ordem do real, um meio da puls\u00e3o que insiste em satisfazer-se reiteradamente, a repeti\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e confirmando a exist\u00eancia de um real que n\u00e3o cessa de se inscrever, a exist\u00eancia de um inconsciente real. No \u00faltimo ensino de Lacan, n\u00e3o se trata do sintoma como verdade e sim dos efeitos do sintoma como gozo.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que ele est\u00e1 sempre l\u00e1, mas, \u00e9 lido na psican\u00e1lise conforme a teoria vai avan\u00e7ando e acompanhando as muta\u00e7\u00f5es culturais e manifesta\u00e7\u00f5es do humano de acordo com sua \u00e9poca e tempo. Um errante! Um instrumento (MILLER, 2008\/2020, p.14) que se faz uso, a an\u00e1lise seria aquela que daria condi\u00e7\u00e3o ao falasser a um saber fazer com o sintoma, a um <em>savoir y faire. <\/em>Um saber fazer com o gozo.<\/p>\n<p>Quando Miller diz sobre o parceiro-sintoma est\u00e1 indicando a necessidade de uma nova defini\u00e7\u00e3o do Outro como meio de gozo. Esse Outro representado pelo corpo e como lugar do significante (Idem, p.410). Um modo de gozar duplamente, diz ele, gozar do inconsciente e gozar do corpo do Outro, o corpo pr\u00f3prio. Isso confirmando o axioma \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, explicando que os parl\u00eatres, como seres sexuados, formam pares n\u00e3o no n\u00edvel do significante, mas no n\u00edvel do gozo, mas, que esse v\u00ednculo, esse la\u00e7o \u00e9 sempre sintom\u00e1tico. Nessa concep\u00e7\u00e3o de que a simboliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 mant\u00e9m o gozo, mas a produz. E a\u00ed temos uma simetria entre o termo parl\u00eatre e parceiro-sintoma.<\/p>\n<p>O falasser a partir do sinthoma continuaria gozando sintomaticamente e se apresentando em um \u201csoy como gozo\u201d, seguindo na vida a sua maneira, singularmente, em uma parceria de ser e gozo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0 O Semin\u00e1rio, livro 18, de um discurso que n\u00e3o fosse semblante (1971). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 24-27, 2007.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. El Partenaire-S\u00edntoma \u2013 Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller (2008), Buenos Aires, Ed. Paid\u00f3s, 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. O sintoma como aparelho. In.: <u>O Sintoma-Charlat\u00e3o\/textos reunidos pela Funda\u00e7\u00e3o do Campo Freudiano<\/u>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998 (Campo Freudiano no Brasil), p.9-31.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ceres L\u00eada F F R\u00fabio\u00a0 O sintoma \u00e9 humano, caracter\u00edstica singular que faz a diferen\u00e7a na natureza entre os animais, pois o desnaturaliza. \u00c9 a confirma\u00e7\u00e3o da imers\u00e3o do humano no simb\u00f3lico e da exist\u00eancia desse, da linguagem, da cultura do Outro, da exist\u00eancia do inconsciente e mais presentemente, do acontecimento de corpo que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-12386","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-arranjos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12386"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12386\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12386"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=12386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}