{"id":12384,"date":"2022-07-25T16:45:03","date_gmt":"2022-07-25T19:45:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12384"},"modified":"2022-07-25T16:45:03","modified_gmt":"2022-07-25T19:45:03","slug":"a-dificil-tarefa-do-tornar-se-e-a-adolescencia-como-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-dificil-tarefa-do-tornar-se-e-a-adolescencia-como-sintoma\/","title":{"rendered":"A dif\u00edcil tarefa do tornar-se e a adolesc\u00eancia como sintoma"},"content":{"rendered":"<h6><em>Por Gabriel Caixeta<\/em><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12377\" aria-describedby=\"caption-attachment-12377\" style=\"width: 515px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12377\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/arranjos007-006.png\" alt=\"Fonte pixabay\" width=\"515\" height=\"293\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12377\" class=\"wp-caption-text\">Fonte pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Da delicada escrita do escritor Fernando Sabino, em \u201cO grande mentecapto\u201d, poder\u00edamos recortar o momento em que Geraldo Viramundo virou homem de repente e percebeu, minutos mais tarde, que n\u00e3o era mais menino, para discutir aquilo que Lacad\u00e9e (2011) chamou de a mais delicada das transi\u00e7\u00f5es. Esta, que diz respeito justamente \u00e0 passagem da crian\u00e7a para o adulto, ao tornar-se homem ou mulher, e que envolve um \u00e1rduo trabalho ps\u00edquico para o sujeito, uma vez que o que est\u00e1 em jogo a\u00ed \u00e9 o pr\u00f3prio real que surge na puberdade.<\/p>\n<p>Acompanhando os textos freudianos sobre a rela\u00e7\u00e3o do sexual com a etiologia da neurose, fica evidente que o sexual deixa suas marcas ao ser falante. Na inf\u00e2ncia, diante de seu aparecimento, a crian\u00e7a, impossibilitada de acessar um saber sobre isso, formula suas teorias como tentativa de resposta. Na adolesc\u00eancia, com a irrup\u00e7\u00e3o da puberdade, esse novo, n\u00e3o t\u00e3o novo assim, aparece fazendo com que o sujeito precise inventar um modo de se posicionar na partilha sexual, o que n\u00e3o \u00e9 sem embara\u00e7os.<\/p>\n<p>Para Miller (2020), quando se trata de pensar a adolesc\u00eancia, seria importante nos atermos a tr\u00eas quest\u00f5es: a sa\u00edda da inf\u00e2ncia, a diferen\u00e7a dos sexos e a imiscui\u00e7\u00e3o do adulto na crian\u00e7a, o que coloca em quest\u00e3o os semblantes como aqueles que dar\u00e3o consist\u00eancia \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o sexual viril ou feminina (Roy, 2019), quest\u00f5es que s\u00e3o presentificadas na puberdade. Dessa forma, de acordo com Lacad\u00e9e (2011) \u201ca adolesc\u00eancia seria o momento l\u00f3gico em que opera uma desconex\u00e3o para o sujeito entre seu ser de crian\u00e7a e seu ser de homem ou de mulher\u201d (p. 64). Nesse sentido, o termo \u201cadolesc\u00eancia\u201d seria um significante provindo do Outro que buscaria dar contorno a esse tempo que \u00e9 para cada um (Lacad\u00e9e, 2011).<\/p>\n<p>Lacad\u00e9e (2011) retoma a defini\u00e7\u00e3o dada por Freud (1905\/1996) \u201cmetamorfose da puberdade\u201d, esclarecendo que h\u00e1 a\u00ed uma reatualiza\u00e7\u00e3o das escolhas da inf\u00e2ncia concernente aos objetos da puls\u00e3o, sejam eles hetero ou homossexuais, bem como \u00e0 escolha de posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao sexo, o que deixa o sujeito dividido entre situar-se a servi\u00e7o da puls\u00e3o parcial e se p\u00f4r a servi\u00e7o da vontade de gozo (Lacad\u00e9e, 2011, p. 68). Assim, se antes t\u00ednhamos o discurso, representado inclusive pela fun\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, como algo importante e que poderia servir como suporte para o que do gozo agita os adolescentes, o que vemos hoje \u00e9 que esse n\u00e3o consegue ajud\u00e1-los, e eles ficam imersos em seus significantes desconexos (Lacad\u00e9e, 2011).<\/p>\n<p>Aqui, seria poss\u00edvel afirmar que, quando dizemos que na puberdade tratar-se-ia de um despertar, dizemos de um despertar da puls\u00e3o que provoca estranheza ao adolescente, lan\u00e7ando-o ao \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 trabalho de construir alguma coisa que d\u00ea conta disso. Dessa forma, parece pertinente pensar, tal como Miller (2020) prop\u00f5e em seu texto <em>En direcci\u00f3n a la adolescencia<\/em>, que, diante desse novo \u2014 o despertar da puls\u00e3o que convoca o sujeito a se haver com sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva diante da diferen\u00e7a sexual \u2014 \u00e9 escancarado pelo real da puberdade, que a pens\u00e1ssemos como uma constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tais formula\u00e7\u00f5es nos orientam a pensar menos a adolesc\u00eancia como uma fase ligada ao desenvolvimento, como a psicologia nos ensina, e mais como um arranjo, como um sintoma, que cada sujeito ir\u00e1 construir para dar conta da inexist\u00eancia da resposta sobre a quest\u00e3o sexual. Assim, a adolesc\u00eancia seria uma nomea\u00e7\u00e3o livre de significa\u00e7\u00e3o, e cada sujeito ir\u00e1 lhe dar subst\u00e2ncia a seu pr\u00f3prio modo. Diante do n\u00e3o saber sua posi\u00e7\u00e3o sexuada, de n\u00e3o saber a escolha de objeto, a adolesc\u00eancia seria, nessa orienta\u00e7\u00e3o, um sintoma, \u201ca enumera\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de escolhas sintom\u00e1ticas em rela\u00e7\u00e3o a esse imposs\u00edvel encontrado na puberdade . . . Esse imposs\u00edvel \u00e9 uma das f\u00f3rmulas do real; essa aus\u00eancia de saber, no real, quanto ao sexo; \u00e9 a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (Stevens, 1998\/2004, p. 31).<\/p>\n<p>Nesse sentido, caberia menos dizer \u201cA\u201d adolesc\u00eancia, enquanto universal, para pens\u00e1-la no caso a caso, ou seja, enquanto adolesc\u00eancias, constru\u00edda de forma singular por cada sujeito, o que nos leva, segundo Stevens (1998\/2004), a considerar a cl\u00ednica da adolesc\u00eancia mais pr\u00f3xima a uma cl\u00ednica do sintoma por \u201ctratar-se de uma resposta individual como escolha e resposta de um sujeito, levando-se em conta que h\u00e1 diferen\u00e7as, conforme as escolhas j\u00e1 colocadas pelo sujeito, entre neurose e psicose\u201d (p. 32).<\/p>\n<p>Quanto ao real da puberdade, ao qual a adolesc\u00eancia vem como uma tentativa de resposta, Stevens (1998\/2004) nos lembra que, mais do que a quest\u00e3o org\u00e2nica, trata-se do novo para o qual o sujeito n\u00e3o tem uma resposta pronta, ou seja, trata-se da eclos\u00e3o, a qual a fantasia infantil falha em contornar, possibilitando que o sujeito possa construir sentidos e met\u00e1foras. \u00c9 importante destacar que a fantasia, segundo nos ensinou Lacan (1967\/2003, p. 259), seria uma \u201cjanela para o real\u201d, aquilo que enquadraria o real, retirando um pouco da sua consist\u00eancia avassaladora \u2014 na medida em que ele imp\u00f5e o sem sentido e o vazio de significa\u00e7\u00f5es \u2014 e servindo como anteparo para o sujeito, fixando-o no campo da realidade. \u00c9 a fantasia, como o recurso que possibilita ao sujeito construir explica\u00e7\u00f5es para o que lhe acontece, que permitiria certa seguran\u00e7a diante da emerg\u00eancia desse novo.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos localizar esse novo justamente na subjetiva\u00e7\u00e3o do sexo, na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com seu corpo, com o Outro e com o gozo. Esse novo \u201cmais do que o \u00f3rg\u00e3o, \u00e9 o reaparecimento, para o sujeito, de sua falha de saber no real\u201d (Stevens, 1998\/2004, p. 33). E, quanto a esse real sobre o qual o saber falha, h\u00e1 sempre um saber a saber, que se constr\u00f3i, por exemplo, no encontro com um analista. E, quando falamos disso, poder\u00edamos dizer que, frente ao n\u00e3o saber no real, \u00e9 cada um por si, n\u00e3o sem o encontro com um Outro, o analista, por exemplo.<\/p>\n<p>\u00c9 um novo que resiste ao enquadramento da fantasia, que surge da discord\u00e2ncia entre o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico, encarnado na modifica\u00e7\u00e3o da imagem que escancara o fato de que n\u00e3o se \u201c\u00e9 mais uma crian\u00e7a como as outras, mas que se vai tornar-se um homem ou mulher\u201d (p. 34), deixando o sujeito \u00e0 merc\u00ea do n\u00e3o saber \u201ctornar-se\u201d, que faz vacilar tamb\u00e9m as identifica\u00e7\u00f5es sustentadas no la\u00e7o com o Outro.<\/p>\n<p>Lacad\u00e9e (2011) toma a adolesc\u00eancia como uma transi\u00e7\u00e3o, a mais delicada delas, e se serve desse significante \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d para dizer daquilo que j\u00e1 encontramos em Freud 1905\/1996) quanto \u00e0 puberdade. Para Lacad\u00e9e, a transi\u00e7\u00e3o especifica \u201ca mudan\u00e7a que adv\u00e9m na crian\u00e7a a partir de um real, mudan\u00e7a marcada pela dificuldade experimentada pelo sujeito em continuar se situando no discurso que, at\u00e9 ent\u00e3o, dava a ele uma ideia de si mesmo\u201d (p. 33). Tal coment\u00e1rio deixa como norteador o fato de que, quanto ao tornar-se, isso s\u00f3 se d\u00e1 pela via da constru\u00e7\u00e3o, de um lado do sintoma, e, do outro, dos semblantes poss\u00edveis quanto ao ser homem ou mulher, que s\u00e3o apreendidos da cultura e da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o lado do adulto, no qual o gozo sexual se encontra solid\u00e1rio de um semblante (Roy, 2019). O que se evidencia \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 um saber preexistente no qual cada sujeito pode se amparar, que diga inequivocadamente como \u201ctornar-se\u201d \u2014 n\u00e3o h\u00e1 um manual, portanto o que h\u00e1 \u00e9 a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>Sabino, F. (1979). O grande mentecapto. Record.<\/h6>\n<h6>Lacad\u00e9e, P. (2011). O despertar e o ex\u00edlio: ensinamentos psicanal\u00edticos da mais delicada das transi\u00e7\u00f5es, a adolesc\u00eancia (C. R. Guardado, &amp; V. A. Ribeiro, Trad.). Contra Capa Livraria<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. (2020). En direcci\u00f3n a la adolescencia. In J.-A. Miller, De la infancia a la adolescencia. Paid\u00f3s.<\/h6>\n<h6>Freud, S. (1996). Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud, Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (V. 7, pp. 117\u2013217). Imago. (Trabalho original publicado em 1905.)<\/h6>\n<h6>Stevens, A. (2004). Adolesc\u00eancia, sintoma da puberdade. Curinga, 20, 27\u201339. (Confer\u00eancia original feita em 1998.)<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (2003). Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967. In J. Lacan, Outros escritos (pp. 248\u2013264). Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1967.)<\/h6>\n<h6>Roy, D. (2019). Quatro perspectivas sobre a diferen\u00e7a sexual. Cien Digital, 23. https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/quatro-perspectivas-sobre-a-diferenca-sexual\/<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriel Caixeta Da delicada escrita do escritor Fernando Sabino, em \u201cO grande mentecapto\u201d, poder\u00edamos recortar o momento em que Geraldo Viramundo virou homem de repente e percebeu, minutos mais tarde, que n\u00e3o era mais menino, para discutir aquilo que Lacad\u00e9e (2011) chamou de a mais delicada das transi\u00e7\u00f5es. 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