{"id":12370,"date":"2022-07-25T16:45:03","date_gmt":"2022-07-25T19:45:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12370"},"modified":"2022-07-25T16:45:03","modified_gmt":"2022-07-25T19:45:03","slug":"abismos-a-meus-pes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/abismos-a-meus-pes\/","title":{"rendered":"Abismos a meus p\u00e9s"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Carla Serles<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12372\" aria-describedby=\"caption-attachment-12372\" style=\"width: 476px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12372\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/arranjos007-011.png\" alt=\"Fonte: Pixabay\" width=\"476\" height=\"298\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12372\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ant\u00f3nio Em\u00edlio Leite Couto, Mia Couto, o escritor mo\u00e7ambicano, que tamb\u00e9m ama o Brasil, gostava das hist\u00f3rias contadas, por sussurros e murm\u00farios, pelas mulheres, na cozinha de sua casa. Diz ele que, do lado do pai, no escrit\u00f3rio, as falas eram cheias de certeza, em voz alta, o que nunca provocou o seu fasc\u00ednio.<\/p>\n<p>Mia considera o universo feminino como uma esp\u00e9cie de g\u00eanese de sua vida de poeta. Conta, no entanto, que teve dificuldades de escrever personagens femininos, sendo filho de uma \u00e9poca em que os homens possu\u00edam \u00a0diretrizes determinadas sobre a posi\u00e7\u00e3o masculina: m\u00e1scula, viril, privada de lam\u00farias \u00a0ou l\u00e1grimas. \u00a0Assim, foi preciso empreender um esfor\u00e7o \u00edntimo para chegar a uma verdade sobre o ser de uma mulher: \u201ceu tinha medo dessa fronteira, de deixar de saber quem eu era, me perder de mim\u201d.<\/p>\n<p>Em uma entrevista recente, diz que quer ser muitas coisas e que n\u00e3o ser escritor e ser escritor, ou seja, essa circularidade espa\u00e7o-temporal, permite que ele n\u00e3o tenha uma identidade \u00fanica: \u201cquero ser muitas coisas. Recha\u00e7o as classifica\u00e7\u00f5es e a mec\u00e2nica de ver o mundo\u201d.<\/p>\n<p>Mia Couto \u00e9 autor de uma extensa obra, para essa ocasi\u00e3o recorto fragmentos de seu livro: Antes de nascer o mundo.<\/p>\n<p>Mwanito, o afinador de sil\u00eancios, viu uma mulher pela primeira vez quando tinha onze anos de idade:<\/p>\n<p>\u201cMe surpreendi subitamente t\u00e3o desarmado que desabei em l\u00e1grimas. Eu vivia num ermo habitado apenas por cinco homens. Meu pai dera um nome ao lugarejo. Simplesmente chamado assim: \u201cJesusal\u00e9m. Aquela era a terra onde Jesus haveria de descruxificar. E pronto, final\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMeu velho, Silvestre Vital\u00edcio, nos explicara que o mundo terminara e n\u00f3s \u00e9ramos os \u00faltimos sobreviventes\u2026 Em poucas palavras, o inteiro planeta se resumia assim: despido de gente, sem estrada e sem pegada de bicho. Nessas long\u00ednquas paragens, at\u00e9 as almas penadas j\u00e1 se haviam extinto\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFoi ent\u00e3o que sucedeu a apari\u00e7\u00e3o: surgida do nada, emergiu a mulher. Uma fenda se abriu a meus p\u00e9s e um rio de fumo me neblinou. A vis\u00e3o da criatura fizera com que, de-repente, o mundo transbordasse das fronteiras que eu t\u00e3o bem conhecia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDe soslaio, olhos semicerrados, enfrentei a intrusa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cApareceu-me fugir, mas as pernas eram ra\u00edzes seculares\u201d.<\/p>\n<p>Transcorridos v\u00e1rios anos Mwanito, de volta a sua cidade natal, conhece Noci, cuja ternura e o afinado sil\u00eancio de seus bra\u00e7os, o conduz a confirma\u00e7\u00e3o de que seu pai estava errado: \u201co mundo n\u00e3o morreu. Afinal, o mundo nunca chegou a nascer\u201d.<\/p>\n<p>Sofrendo de lonjuras subjetivas, aquilo que se chama popularmente de saudades, Mwanito dir\u00e1 que as outras mulheres far\u00e3o ressurgir uma impress\u00e3o oriunda do primeiro encontro com uma mulher: \u201co rasgar de abismos a meus p\u00e9s\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Carla Serles Ant\u00f3nio Em\u00edlio Leite Couto, Mia Couto, o escritor mo\u00e7ambicano, que tamb\u00e9m ama o Brasil, gostava das hist\u00f3rias contadas, por sussurros e murm\u00farios, pelas mulheres, na cozinha de sua casa. 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