{"id":12286,"date":"2022-07-02T19:54:30","date_gmt":"2022-07-02T22:54:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12286"},"modified":"2022-07-02T19:54:30","modified_gmt":"2022-07-02T22:54:30","slug":"sexuacao-e-mistica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/sexuacao-e-mistica\/","title":{"rendered":"Sexua\u00e7\u00e3o e m\u00edstica"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Claudia Murta (EBP\/AMP)<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12287\" aria-describedby=\"caption-attachment-12287\" style=\"width: 219px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12287\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/boletim006-002.png\" alt=\"\" width=\"219\" height=\"316\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12287\" class=\"wp-caption-text\">O \u00eaxtase de Santa Teresa, Benini, 1652<\/figcaption><\/figure>\n<p>Jacques Lacan em seu \u201cSemin\u00e1rio XX\u201d prop\u00f5e dois tipos de gozo: um gozo f\u00e1lico e um gozo feminino. Para ele, o gozo f\u00e1lico, o \u00fanico ao qual temos acesso, existe porque habitamos o campo da linguagem. Sendo assim, o gozo f\u00e1lico pode estar em qualquer atividade, pois mant\u00e9m o princ\u00edpio de prazer. J\u00e1 o gozo feminino n\u00e3o entra no campo da linguagem e, dessa forma, n\u00e3o tem representa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. O seu acesso passa a ser poss\u00edvel pela via da experi\u00eancia, podendo ser percebido atrav\u00e9s do \u00eaxtase. No texto do \u201cSemin\u00e1rio XX\u201d, Lacan indica a literatura dos m\u00edsticos como fonte de acesso para o entendimento de sua proposi\u00e7\u00e3o sobre o gozo feminino. O \u00eaxtase m\u00edstico oferece, para Lacan, a mesma disposi\u00e7\u00e3o do gozo feminino.<\/p>\n<p>A impossibilidade de rela\u00e7\u00e3o sexual ou rela\u00e7\u00e3o entre os sexos manifesta-se de tal modo que, para um lado, o masculino, a estrutura\u00e7\u00e3o da linguagem se fazem poss\u00edveis pela via do significante; enquanto que, para o outro lado, o feminino, n\u00e3o tem uma estrutura\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para uma linguagem propriamente feminina, fato este que atesta os limites do pr\u00f3prio campo da linguagem<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> e, assim sendo, do campo do Outro.<\/p>\n<p>Contudo, Lacan n\u00e3o prop\u00f5e uma separa\u00e7\u00e3o fixa entre os dois lados da sexua\u00e7\u00e3o, pois, se assim fosse, o feminino estaria completamente tolhido da possibilidade de entrada no campo da linguagem e, desse modo, reduzido ao sil\u00eancio absoluto. Para Lacan, a mulher que n\u00e3o existe pode ter acesso ao significante f\u00e1lico masculino, pois dentro da constru\u00e7\u00e3o lacaniana, a natureza do feminino \u00e9 de proporcionar uma incompletude ao campo do Outro, da linguagem. Assim, a mulher pode ou n\u00e3o utilizar o significante; o que \u00e9 diferente de estar completamente fora do discurso.<\/p>\n<p>A partir desse esclarecimento, pode-se perceber melhor a liga\u00e7\u00e3o entre os dois lados da sexua\u00e7\u00e3o. O lado homem n\u00e3o \u00e9 o lado onde tudo existe, onde o discurso se articula perfeitamente sem falhas<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>; enquanto o lado feminino n\u00e3o \u00e9 exatamente o lado onde nada existe e, por conseguinte, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de discurso. Os dois lados n\u00e3o podem ser pensados em separado. O la\u00e7o entre os dois lados disjuntos da sexua\u00e7\u00e3o \u00e9 apontado por Lacan como sendo da ordem da ex-sist\u00eancia. Segundo Jacques-Alain Miller, ao comentar o termo utilizado por Lacan, <em>a express\u00e3o ex-sist\u00eancia \u00e9 sempre correlativa a uma sa\u00edda para fora de <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup><strong>[3]<\/strong><\/sup><\/a><\/em>. Se, de um lado n\u00e3o podemos falar de um Outro completo, garantidor do discurso; do outro lado n\u00e3o podemos falar de uma aus\u00eancia absoluta do Outro. Contudo, algumas manifesta\u00e7\u00f5es discursivas ou pr\u00e9-discursivas se situam mais de um lado ou do outro; desse modo, alguns discursos podem fazer mais ilus\u00e3o de sentido do que outros, tornando-se mais ou menos aceit\u00e1veis dependendo do fato de manifestarem, mais ou menos, algo da ordem do feminino.<\/p>\n<p>No \u00eaxtase, o modo de gozo se manifesta enquanto desaparecimento do corpo pr\u00f3prio. A sensa\u00e7\u00e3o de desaparecimento do corpo no \u00eaxtase \u00e9 relatada nos poemas m\u00edsticos, tais como \u201cVivo sem viver em mim\u201d de santa Tereza D\u2019\u00c1vila, do qual citamos um fragmento:<\/p>\n<blockquote><p>Vivo j\u00e1 fora de mim,<br \/>\ndepois que morro de amor,<br \/>\nporque vivo no Senhor,<br \/>\nque me quis s\u00f3 para si.<br \/>\nmeu cora\u00e7\u00e3o lhe ofereci<br \/>\npondo nele este dizer:<br \/>\nQue morro por n\u00e3o morrer.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Os \u00eaxtases m\u00edsticos s\u00e3o cantados atrav\u00e9s de poemas que, segundo os pr\u00f3prios m\u00edsticos, n\u00e3o traduzem de modo algum a experi\u00eancia vivida. Os m\u00edsticos proclamam a inefabilidade da experi\u00eancia. Apresentam a impossibilidade de express\u00e1-la adequadamente e, por outro lado, est\u00e3o sempre cantando ou falando, mesmo para dizer que sua experi\u00eancia \u00e9 indiz\u00edvel. Os m\u00edsticos afirmam a inefabilidade da experi\u00eancia at\u00e9 mesmo depois de terem-na dito. No pr\u00f3logo do poema, \u201cOh chama de amor viva!\u201d, s\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz anuncia \u00e0 destinat\u00e1ria dos versos:<\/p>\n<blockquote><p>alguma repugn\u00e2ncia tenho tido, mui nobre e devota senhora, em declarar estas quatro can\u00e7\u00f5es que vossa merc\u00ea me pediu, porque, s\u00e3o de coisas t\u00e3o interiores e espirituais, para as quais falta linguagem \u2013 porque o espiritual excede ao sentido &#8211; , com dificuldade se diz algo da subst\u00e2ncia; porque tamb\u00e9m, se fala mal das entranhas do esp\u00edrito, se n\u00e3o \u00e9 com o entranh\u00e1vel esp\u00edrito<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> .<\/p><\/blockquote>\n<p>A linguagem n\u00e3o \u00e9 suficiente para expressar a experi\u00eancia de desapropria\u00e7\u00e3o do corpo vivida pelos m\u00edsticos e nomeada por eles como uni\u00e3o de amor da alma com Deus. No momento de uni\u00e3o de amor m\u00edstica, n\u00e3o h\u00e1 mais a viv\u00eancia de corpo, sendo a alma tomada por Deus. A queixa dos m\u00edsticos \u00e9 que a poesia n\u00e3o traduz fielmente tal experi\u00eancia. Pois, como anuncia s\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, <em>falta linguagem<\/em> que sustente essa experi\u00eancia espiritual. A experi\u00eancia m\u00edstica n\u00e3o entra no campo da linguagem e, a causa dessa enfermidade da linguagem situa-se no fato, como aponta s\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, do espiritual exceder ao sentido. Ao fazer exce\u00e7\u00e3o ao sentido, a experi\u00eancia m\u00edstica escapa a qualquer refer\u00eancia, at\u00e9 mesmo corporal. Pois, na experi\u00eancia m\u00edstica, h\u00e1 uma desfaliciza\u00e7\u00e3o total que produz o arroubamento do corpo.<\/p>\n<p>A desfaliciza\u00e7\u00e3o \u00e9 proposta por santa Tereza D\u2019\u00c1vila como um caminho a ser seguido. Em meio a um s\u00e9culo turbulento pelas reformas religiosas, descobertas de novos mundos e inquisi\u00e7\u00f5es, santa Tereza D\u2019\u00c1vila viabiliza a reforma na Ordem das Carmelitas. Ela n\u00e3o quer que os mosteiros sejam submetidos \u00e0 ordem masculina e dedica sua vida \u00e0 luta pela reforma e funda\u00e7\u00e3o de conventos. Ela funda dezoito conventos na Espanha reformados e reconhecidos como Ordem das Carmelitas Descal\u00e7as. A sua proposta para a reforma se baseia no despojamento de todos os la\u00e7os materiais em busca de uma vida de recolhimento estabelecida na ora\u00e7\u00e3o e na mortifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A marca dessa reforma inicia-se pela mudan\u00e7a de h\u00e1bito. O passo inicial de santa Teresa foi mudar o h\u00e1bito refinado das Carmelitas com o objetivo de livrar-se dos apegos corporais que denotam o falicismo que n\u00e3o cabia em sua proposta. O charme das botinas de couro cal\u00e7adas pelas Carmelitas \u00e9 liquidado pelas alpercatas de c\u00e2nhamo que exp\u00f5em \u00e0 rudeza do contato com a natureza assumidas por Teresa em sua reforma. As Carmelitas s\u00e3o descal\u00e7as de qualquer artif\u00edcio e qualquer prote\u00e7\u00e3o contra a vida dura e de \u00ednfima subsist\u00eancia que ela pretende levar e guiar \u2013 eis a nomea\u00e7\u00e3o para esse modo de condu\u00e7\u00e3o de gozo. Quando Lacan, no texto do \u201cAturdido\u201d, nomeia o significante como cal\u00e7ador, ele observa que as mulheres podem se servir do mesmo, utilizando-o com certa liberdade. Com isso, queremos dizer que Lacan nos reenvia a certas refer\u00eancias que s\u00e3o as <em>Descal\u00e7as<\/em>. \u00c9 a ordem das <em>Descal\u00e7as<\/em> do falo, do corpo, de tudo.<\/p>\n<p>E, como o pr\u00f3prio Lacan aponta em seu \u201cSemin\u00e1rio XX\u201d, n\u00e3o se esque\u00e7am de colocar nas indica\u00e7\u00f5es de leituras m\u00edsticas os &#8220;Escritos&#8221;, de Jacques Lacan, que, a seu ver s\u00e3o da mesma ordem.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Como se a mulher tivesse oferecido os limites ao sonho de linguagem universal anunciado por G. Frege em sua <em>Begriffsshrift <\/em>e partilhado com toda a modernidade.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Os atos falhos foram apontados por Freud como manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, J.A. \u201cA ex-sist\u00eancia\u201d. In. <strong>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/strong>, E\u00f3lia, S\u00e3o Paulo,\u00a0 n. 33, jun.\u00a0 2002, p. 10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> D\u2019AVILA, T. \u201cVivo sem viver em mim\u201d. In: <strong>Seta de Fogo<\/strong>. Trad. Jos\u00e9 Bento, Lisboa: Ass\u00edrio e Alvin, 1989, p. 5.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> DE LA CRUZ, J. <strong>Obras Completas<\/strong>. 5\u00aa ed. Madrid: Espiritualidad, 1993, p. 784.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Claudia Murta (EBP\/AMP) Jacques Lacan em seu \u201cSemin\u00e1rio XX\u201d prop\u00f5e dois tipos de gozo: um gozo f\u00e1lico e um gozo feminino. Para ele, o gozo f\u00e1lico, o \u00fanico ao qual temos acesso, existe porque habitamos o campo da linguagem. 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