{"id":12283,"date":"2022-07-02T19:52:39","date_gmt":"2022-07-02T22:52:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12283"},"modified":"2022-07-02T19:52:39","modified_gmt":"2022-07-02T22:52:39","slug":"o-acontecimento-de-corpo-e-a-sexuacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/o-acontecimento-de-corpo-e-a-sexuacao\/","title":{"rendered":"O acontecimento de corpo e a sexua\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Ana Paula Fernandes Rezende<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12284\" aria-describedby=\"caption-attachment-12284\" style=\"width: 391px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12284 size-full\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/boletim006-003.png\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"258\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12284\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: shutterstock.com;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Este trabalho foi uma breve pesquisa sobre uma quest\u00e3o: como o acontecimento de corpo pode nos ajudar a entender sobre a quest\u00e3o da sexua\u00e7\u00e3o e seu \u201cmist\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>Roy (2019) aponta quatro perspectivas sobre a diferen\u00e7a sexual. A primeira: que o fator sexual \u00e9 algo que n\u00e3o pode ser universal e a posi\u00e7\u00e3o que o sujeito assume, desde a inf\u00e2ncia, frente a esse fator, introduz o \u201cgerme da diferen\u00e7a absoluta\u201d. H\u00e1 uma diferen\u00e7a que n\u00e3o passa por nenhum c\u00f3digo que permite decifrar o que lhe acontece e \u00e9 diante desse enigma que ir\u00e3o se construir as teorias sexuais infantis e as identifica\u00e7\u00f5es. Portanto, o sexual faz a diferen\u00e7a. A segunda: a rela\u00e7\u00e3o com o falo tem sua import\u00e2ncia para os dois sexos. O modo como sujeito atravessa o \u00c9dipo e a castra\u00e7\u00e3o convoca cada um a fazer uma elei\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o a seu valor de uso. A terceira perspectiva: \u00e9 o falo como significante, significante do desejo do Outro. Diante da castra\u00e7\u00e3o materna, percebe que ela n\u00e3o o tem e faz a pergunta: o que o Outro quer de mim? A quarta perspectiva: \u00e9 como o sujeito se inscreve no discurso sexual, j\u00e1 que ao nascer a crian\u00e7a \u00e9 distribu\u00edda em um significante, homem ou mulher, como puro efeito de semblantes, produzindo uma identifica\u00e7\u00e3o sexual. Roy interroga sobre a identifica\u00e7\u00e3o sexual (homem\/mulher, menino\/menina) e questiona se a mesma n\u00e3o se encontra em crise, j\u00e1 que ela \u00e9 inst\u00e1vel, opera sob uma perda, sem garantia, \u00e9 atual e sempre sintom\u00e1tica. A quest\u00e3o que se coloca \u00e9 que os semblantes n\u00e3o apontam para o gozo em jogo.<\/p>\n<p>Seguimos a indica\u00e7\u00e3o de Fajnwaks (2021) em que afirma que a sexua\u00e7\u00e3o implica uma dimens\u00e3o real em jogo, enigm\u00e1tica, o que significa que o ser sexuado \u2013 o ser-para-o sexo, pode at\u00e9 se apoiar nas identifica\u00e7\u00f5es e significantes que v\u00eam do Outro, se autorizando por si mesmo, mas isso apenas recobre parcialmente o furo fundamental que a sexualidade implica. Ele afirma que, para a psican\u00e1lise, se trata de uma escolha sempre for\u00e7ada, que n\u00e3o \u00e9 livre. \u00c9 muito comum, no discurso de alguns pacientes, eles dizerem que, se fosse uma escolha livre, eles escolheriam o tradicional, para n\u00e3o enfrentar o preconceito da fam\u00edlia, da sociedade e at\u00e9 a viol\u00eancia. Dessa forma, a escolha n\u00e3o passa pela anatomia, pela cultura, mas por uma escolha for\u00e7ada pelo gozo.<\/p>\n<p>A sexua\u00e7\u00e3o se endere\u00e7a \u00e0s rela\u00e7\u00f5es dos sujeitos com seu modo de gozo, em que se encontra na l\u00f3gica do Um. Nessa l\u00f3gica, estamos sem o Outro, sem normas pr\u00e9-estabelecidas, mas na orienta\u00e7\u00e3o do singular. Miller (2012) afirma que, no \u00faltimo paradigma do gozo, o conceito de linguagem passa a ser considerado como algo derivado, secund\u00e1rio e n\u00e3o origin\u00e1rio, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inven\u00e7\u00e3o lacaniana de al\u00edngua. Segundo Miller, al\u00edngua \u00e9 a fala como disjunta da estrutura de linguagem, separada da comunica\u00e7\u00e3o. Esse paradigma \u00e9 fundado sobre a disjun\u00e7\u00e3o do significante e do significado, a disjun\u00e7\u00e3o do gozo e do Outro, a disjun\u00e7\u00e3o do homem e da mulher sob o aforisma \u201ca rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe\u201d.\u00a0 O Um n\u00e3o faz dois, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de complementariedade e o ser falante tem que se haver com sua falha estrutural. O real da diferen\u00e7a se localiza nesse ponto, diferente dos g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Para pensar na elei\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o sexuada, temos que entender o corpo a partir do mal-entendido. Lacan (2016) nos adverte que nascemos de dois seres falantes que n\u00e3o se entendem, n\u00e3o falam a mesma l\u00edngua, mas que o corpo do ser falante vai carregar as marcas desse desencontro e dos significantes que o afetaram. Na psican\u00e1lise o verbo \u00e9 inconsciente, ou seja, o mal-entendido. O interesse da psican\u00e1lise \u00e9 o que se pode construir a partir dessas marcas? Somos falados antes mesmo de nascer, somos afetados pelas palavras ressoam e produz sintoma.<\/p>\n<p>\u00c1lvarez (2020) prop\u00f5e entendermos dois tempos l\u00f3gicos em Lacan. O primeiro \u00e9 anterior \u00e0 linguagem, onde a mesma n\u00e3o forma um sistema, \u00e9 o gozo prim\u00e1rio de al\u00edngua. Este \u00e9 sem o Outro, pois al\u00edngua \u00e9 definida como um enxame de S1 sozinhos, que marcam o corpo e injetam excesso de gozo, fora da cadeia significante (S1-S2), como uma subst\u00e2ncia, constituindo o acontecimento de corpo. O gozo do falasser ocorre a partir do gozo de al\u00edngua. No primeiro tempo, o inconsciente \u00e9 real, sem sentido.\u00a0 O segundo tempo, seria o nascimento do Outro da linguagem, como uma fun\u00e7\u00e3o de saber, j\u00e1 que al\u00edngua precisa de um tratamento, um saber-fazer com a elucubra\u00e7\u00e3o sobre al\u00edngua. A partir do saber (S2) se constitui o inconsciente estruturado como uma linguagem (S1-S2). Dessa forma, a linguagem \u00e9, ent\u00e3o, apresentada como uma superestrutura de leis que capturam al\u00edngua. A posi\u00e7\u00e3o sexuada passa por esses dois tempos l\u00f3gicos em que o ser falante vai lidar com essa primeira impress\u00e3o do significante no corpo.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o \u00e9 justamente onde a palavra n\u00e3o alcan\u00e7a, onde nenhuma identifica\u00e7\u00e3o ou tra\u00e7o familiar permite nomear. \u00c9 preciso pensar na sexualidade como efeitos desse acontecimento de corpo que determina suas satisfa\u00e7\u00f5es, mais al\u00e9m da biologia. A escolha convoca a rela\u00e7\u00e3o de cada um com suas marcas.<\/p>\n<p>A sexua\u00e7\u00e3o se refere \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do sexo, segundo Stiglitz (2019), onde cada um se autoriza por si mesmo, j\u00e1 que no in\u00edcio somos todos indeterminados. N\u00e3o se nasce homem ou mulher, n\u00e3o se trata de g\u00eanero, mas de uma posi\u00e7\u00e3o, \u201cuma elei\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao gozo, ao desejo e ao amor\u201d. Ele ressalta que, na elei\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um tempo de compreender. Assim, a letra se inscreve no choque do significante com o corpo, faz furo que convoca uma escolha, constru\u00e7\u00f5es. Ele ressalta tr\u00eas consequ\u00eancias: 1- as palavras equivocam os corpos, 2- o equ\u00edvoco abre um espa\u00e7o, que \u00e9 o gozo mais \u00edntimo e conduz \u00e0s fic\u00e7\u00f5es, \u00e0s identidades sexuais, em que a identifica\u00e7\u00e3o funciona como um remendo do furo que \u00e9 vazio, 3- A sexua\u00e7\u00e3o seria a aceita\u00e7\u00e3o ou consentimento a seu modo de gozar e a elei\u00e7\u00e3o de objeto de satisfa\u00e7\u00e3o, seu parceiro. A escolha come\u00e7a na inf\u00e2ncia, onde o corpo \u00e9 marcado por acontecimentos e experi\u00eancias. Na puberdade coloca-se \u00e0 prova o encontro dessas marcas com outros corpos, o encontro com o real do sexo, que nada se sabe e que cabe a inven\u00e7\u00e3o e o arranjo sintom\u00e1tico de cada um.<\/p>\n<p>Para concluir, Brousse (2018) afirma que a identidade e o g\u00eanero s\u00e3o documentos emitidos pelo Outro. A categoria simb\u00f3lica d\u00e1 o lugar do sujeito ao ser falante, ou seja, a identifica\u00e7\u00e3o surge, n\u00e3o do Outro, mas de Um-corpo. No lugar do amor ao Pai, do Outro, a presen\u00e7a do corpo, misto de imagin\u00e1rio e real, d\u00e1 lugar ao corpo gozante. Brousse enfatiza que a \u00fanica identidade que se sustenta \u00e9 a identidade sintomal, que n\u00e3o \u00e9 do sujeito, mas do corpo do qual n\u00e3o se escapa, de seus furos que a conting\u00eancia dos significantes colocou em funcionamento nas experi\u00eancias singulares de cada um.<\/p>\n<p>A cl\u00ednica da sexua\u00e7\u00e3o aponta um modo de gozar, uma elei\u00e7\u00e3o do gozo onde cada um vai ter que se haver com ele. O que expressa o singular, os dois modos de gozar e as posi\u00e7\u00f5es subjetivas, quando entra no campo da diferen\u00e7a sexual tornam-se inalcan\u00e7\u00e1veis, pois, algo dessa diferen\u00e7a escapa, um real imposs\u00edvel de simbolizar. \u00c9 diante do imposs\u00edvel de dizer, da conting\u00eancia e do singular que o falasser vai construir a sua fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Referencias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>Bay\u00f3n, P.A. El autismo, entre la lengua y la letra. 1\u00ba ed.- Olivos: Grama Ediciones, 2020.<\/h6>\n<h6>Brousse, M-H. As identidades, uma pol\u00edtica: a identifica\u00e7\u00e3o, um processo, a identidade, um sintoma. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online, n\u00ba 25\/26, 2018. Dispon\u00edvel em: <u>http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_25\/As_Identidades_uma_politica_a_identificacao.pdf<\/u><\/h6>\n<h6>Fajnwaks, F. A escolha do sexo \u2013 A experi\u00eancia enigm\u00e1tica da sexua\u00e7\u00e3o. 1\u00aa Jornada da Se\u00e7\u00e3o Nordeste: O enigma da sexua\u00e7\u00e3o. julho, 2021. Dispon\u00edvel em: <u>https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2021\/a-escolha-do-sexo-a-experiencia-enigmatica-da-sexuacao1\/<\/u><\/h6>\n<h6>Lacan, J. O mal-entendido. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n \u00ba 72, mar\u00e7o de 2016.<\/h6>\n<h6>Miller, J-A. Os seis paradigmas do gozo. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online ano 3 , n\u00ba 7, mar\u00e7o de 2012. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_7\/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf\">http:\/\/opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_7\/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf<\/a><\/h6>\n<h6>Roy. D. Quatro perspectivas sobre a diferen\u00e7a sexual. Ciendigital, n\u00ba 23, 2019. Dispon\u00edvel em: <u>https:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/quatro-perspectivas-sobre-a-diferenca-sexual\/<\/u><\/h6>\n<h6>Stiglitz, G. Sexo. Identificaciones, g\u00e9nero y sexuaci\u00f3n. La sexualidad en el siglo XXI: la elecci\u00f3n del sexo, 1ed. Olivos: Grama Ediciones, 2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Paula Fernandes Rezende Este trabalho foi uma breve pesquisa sobre uma quest\u00e3o: como o acontecimento de corpo pode nos ajudar a entender sobre a quest\u00e3o da sexua\u00e7\u00e3o e seu \u201cmist\u00e9rio\u201d. Roy (2019) aponta quatro perspectivas sobre a diferen\u00e7a sexual. A primeira: que o fator sexual \u00e9 algo que n\u00e3o pode ser universal e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-12283","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-arranjos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12283\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12283"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=12283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}