{"id":12280,"date":"2022-07-02T19:51:26","date_gmt":"2022-07-02T22:51:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12280"},"modified":"2022-07-02T19:51:26","modified_gmt":"2022-07-02T22:51:26","slug":"o-real-do-sexo-na-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/o-real-do-sexo-na-adolescencia\/","title":{"rendered":"O real do sexo na adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Por Luciana da Silva Pedron<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12281\" aria-describedby=\"caption-attachment-12281\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12281 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/boletim006-004-300x229.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"229\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12281\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: shutterstock.com;<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u201cHoje me sinto menino, pode me chamar pelo pronome neutro, Elu?\u201d<\/em> Assim, mais uma sess\u00e3o de an\u00e1lise de uma adolescente de 13 anos, se inicia. Essa \u00e9 uma das muitas frases ditas no contexto das an\u00e1lises (e fora dela) de adolescentes na cl\u00ednica atual. \u201cSou fluido, gosto de pessoas\u201d, \u201cMe identifico com os Pansexuais\u201d, <em>\u201cPenso que sou assexuada\u201d<\/em>, <em>\u201csou neutro<\/em>\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Observa-se, na cl\u00ednica, que muitos adolescentes n\u00e3o se nomeiam como menino ou menina, como homem ou mulher. Dizer-se menino ou menina parece desrespeitoso diante das diferentes formas de \u201cser\u201d adolescente hoje. Recusam com veem\u00eancia a l\u00f3gica bin\u00e1ria. Interessante notar que muitos desses adolescentes ainda n\u00e3o tiveram a oportunidade de terem seus corpos em contato com outros corpos, especialmente os adolescentes cujo despertar sexual e o encontro com o Outro sexo se deram em plena pandemia da COVID-19.<\/p>\n<p>Certamente, ainda iremos recolher, na cl\u00ednica, as \u201cadolesc\u00eancias\u201d da pandemia. Por enquanto, restam-nos as perguntas: como cada adolescente vivenciou a irrup\u00e7\u00e3o sexual no confinamento e num tempo de pandemia que s\u00f3 faz dilatar? Como se deu o tempo de conquista, de sedu\u00e7\u00e3o e do \u201cencontro\u201d com o sexual no momento de isolamento obrigat\u00f3rio?<\/p>\n<p>Estamos na era da conectividade, do capitalismo generalizado, da ci\u00eancia fagocitada pelo discurso capitalista, em uma sociedade esc\u00f3pica, instagram\u00e1vel e imag\u00e9tica. Soma-se tudo isso ao imperativo do sucesso, das \u201cf\u00f3rmulas\u201d de como ser bem-sucedido no amor, na carreira e na cria\u00e7\u00e3o dos filhos.<\/p>\n<p>Os adolescentes \u201ce seus corpos\u201d est\u00e3o a\u00ed, imersos nessa cultura permeada de paradoxos, ao mesmo tempo que existe liberdade em realizar \u201ctodas as possibilidades\u201d, a dificuldade em estar diante de tantas possibilidades tamb\u00e9m os angustia. \u00c0s vezes, a escolha de objeto \u00e9 adiada, pois ela implica abrir m\u00e3o de todas as outras possibilidades.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe mais um \u00fanico significante pelo qual um falasser se orienta, pode haver v\u00e1rios e para cada um, diferente para outro. Por outro lado, tamb\u00e9m se faz presente, o discurso daqueles que pretendem restaurar a \u201cordem\u201d perdida, com moralidades e repress\u00f5es, causando cada vez mais segrega\u00e7\u00e3o ao tentar exterminar as diferen\u00e7as.\u00a0 Cabe a cada falasser, inventar novas solu\u00e7\u00f5es e se responsabilizar diante delas.<\/p>\n<p>Como sabemos, n\u00e3o h\u00e1 naturalidade na sexualidade humana, uma vez que ela \u00e9 da ordem da puls\u00e3o, diferentemente do mundo animal em que h\u00e1 instinto. A sexualidade humana \u00e9 atravessada pela linguagem, pelo inconsciente e justamente por isso n\u00e3o falamos em sexualidade \u201cnormal ou patol\u00f3gica\u201d. Segundo Brousse (2019), algo da diferen\u00e7a sexual escapa, constituindo-se em um real imposs\u00edvel de simbolizar e diante desse imposs\u00edvel de dizer que cada um ir\u00e1 construir sua fantasia, sua fic\u00e7\u00e3o. Logo, n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o anat\u00f4mica, de ser XX ou XY, s\u00e3o diversas as combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas, como escolher seu lugar mediante as mais diversas op\u00e7\u00f5es? Sou homem? Sou mulher? Sou trans, cis? A lista \u00e9 infinita&#8230; O mercado tamb\u00e9m est\u00e1 atento a esta tend\u00eancia e hoje, as roupas \u201csem g\u00eanero\u201d ganham espa\u00e7o, roupas \u201cneutras\u201d, que n\u00e3o indiquem de forma pr\u00e9-determinada qual o g\u00eanero de quem as usa.<\/p>\n<p>Mais que \u201cescolher\u201d ou que se identificar a uma nomea\u00e7\u00e3o, \u201csou isso ou aquilo\u201d, \u201csou isso e aquilo\u201d, seriam essas as novas formas de recobrir o encontro com o real do sexo? Uma busca por significantizar o inomin\u00e1vel?\u00a0 Todos esses nomes poss\u00edveis parecem indicar uma resposta ao encontro com um imposs\u00edvel: o real do sexo.<\/p>\n<p>As diversas nomea\u00e7\u00f5es que os adolescentes veem lan\u00e7ando m\u00e3o, seriam formas contempor\u00e2neas de adiamento do encontro com o real do sexo, para n\u00e3o lidarem com a diferen\u00e7a sexual? Com isso que faz furo na linguagem?<\/p>\n<p>Ainda cabe aos adolescentes de hoje, na \u201cmais delicada das transi\u00e7\u00f5es\u201d, a tarefa de abandonar a posi\u00e7\u00e3o infantil, elaborar a perda dos pais imagin\u00e1rios e encontrar um novo objeto de amor e novos modos de gozo?<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as quest\u00f5es envolvendo a tem\u00e1tica da adolesc\u00eancia, da sexualidade e o encontro com o real do sexo. As f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o de Lacan (1972-1973), contudo, nos deixam um aperitivo para essa investiga\u00e7\u00e3o. Segundo Brousse (2019):<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cA diferen\u00e7a sexual, classicamente bin\u00e1ria, passa por uma desordem in\u00e9dita. Um certo n\u00famero de movimentos de opini\u00e3o tenta arranc\u00e1-la do bin\u00e1rio S<\/em><em><sub>1<\/sub><\/em><em>\u00a0\u2013 S<\/em><em><sub>2<\/sub><\/em><em>\u00a0para pluraliz\u00e1-la \u2013 LGBT \u2013 ou apag\u00e1-la: recusa do g\u00eanero ou exig\u00eancia do neutro. Uma das tend\u00eancias da \u00e9poca consiste em privilegiar o\u00a0<\/em><em>ou<\/em><em>\u00a0inclusivo \u2013 ou a, ou b, ou os dois \u2013 em detrimento do\u00a0<\/em><em>ou\u00a0<\/em><em>excludente \u2013 ou a, ou b, mas n\u00e3o os dois\u201d. (Brousse, 2019)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A diferen\u00e7a sexual, portanto, n\u00e3o est\u00e1 restrita \u00e0 diferen\u00e7a anat\u00f4mica.\u00a0 Ainda com Brousse (2019):<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00a0\u201cTodo o ensino de Lacan aborda a quest\u00e3o da diferen\u00e7a sexual nos seres falantes, n\u00e3o a partir da natureza, mas da linguagem e do sujeito. Essa mudan\u00e7a radical de ponto de vista diferencia o falo do p\u00eanis, logo, o significante do \u00f3rg\u00e3o, e culmina no Semin\u00e1rio 20,\u00a0<\/em><em>Mais, ainda<\/em><em>. Passagem do sujeito ao corpo falante, a diferen\u00e7a cessa de ser organizada pela ordem bin\u00e1ria e cede lugar a uma oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o bin\u00e1ria entre o Todo, incluindo todos os seres falantes de qualquer g\u00eanero que sejam, e o\u00a0<\/em><em>n\u00e3o-todo<\/em><em>, que precisamente n\u00e3o permite mais \u00e0 diferen\u00e7a bin\u00e1ria consistir\u201d (Brousse, 2019)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Parece-me importante investigar, com quais recursos os adolescentes atualmente contam para auxili\u00e1-los nesta tarefa.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>BROUSSE, M-H. O buraco negro da diferen\u00e7a sexual. Cien Digital, n.23, Nov. 2019. Dispon\u00edvel em:http:\/\/ciendigital.com.br\/index.php\/2019\/11\/17\/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual\/. Acesso em: 12\/06\/2022.<\/p>\n<p>Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar. 2008.<\/p>\n<p>MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana n\u00ba. 72. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2016, p. 20-30.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luciana da Silva Pedron \u201cHoje me sinto menino, pode me chamar pelo pronome neutro, Elu?\u201d Assim, mais uma sess\u00e3o de an\u00e1lise de uma adolescente de 13 anos, se inicia. 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