{"id":12251,"date":"2022-06-11T10:36:59","date_gmt":"2022-06-11T13:36:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12251"},"modified":"2022-06-11T10:36:59","modified_gmt":"2022-06-11T13:36:59","slug":"editorial-boletim-arranjos-05","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/editorial-boletim-arranjos-05\/","title":{"rendered":"Editorial Boletim Arranjos #05"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-12224\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/001.jpg\" alt=\"\" width=\"341\" height=\"253\" \/><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Por Rosangela Ribeiro<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote><p><em>[&#8230;] d\u00e1-me uma compara\u00e7\u00e3o exata e po\u00e9tica para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. N\u00e3o me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? V\u00e1, de ressaca. \u00c9 o que me d\u00e1 ideia daquela fei\u00e7\u00e3o nova. Traziam n\u00e3o sei que fluido misterioso e en\u00e9rgico, uma for\u00e7a que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.<\/em> (Assis, Machado. <em>Dom Casmurro<\/em>, 1984, p. 842)<\/p><\/blockquote>\n<p>Convidados por R\u00f4mulo Ferreira \u00e0 pesquisa do terceiro Eixo Tem\u00e1tico das IIIs Jornadas da Se\u00e7\u00e3o Leste Oeste,\u00a0cuja reflex\u00e3o \u00e9 <strong>Sexo na psicose<\/strong>, somos conduzidos \u00e0s quest\u00f5es:<em> \u00c9 poss\u00edvel localizar o psic\u00f3tico no quadro da sexua\u00e7\u00e3o de Lacan? Como o sexo adv\u00e9m nas psicoses? <\/em><\/p>\n<p>Essas perguntas lembram-nos Nora Bernacle, esposa de James Joyce, que recebia as cartas de seu amado, cujo teor n\u00e3o permeava o corpo a corpo, mas eram cartas de um erotismo escatol\u00f3gico e masturbat\u00f3rio. As cartas desencadeavam o <em>pathos<\/em> do corpo, mas quando chegava \u00e0 sua casa, tudo se esvaia. Conforme elucida Jacques Lacan (1988), \u201cpara o psic\u00f3tico, uma rela\u00e7\u00e3o amorosa \u00e9 poss\u00edvel abolindo-o como sujeito, ela [a diferen\u00e7a<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>] admite uma heterogeneidade radical do Outro. Mas esse amor \u00e9 tamb\u00e9m um amor morto.\u201d (p. 287). Sabe-se, assim, que o brilho f\u00e1lico n\u00e3o comparece, deixando o sujeito na escurid\u00e3o, sem defesa frente ao gozo infinito do Outro.<\/p>\n<p>Nessa proposi\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se que, no amor morto, ocorre a aus\u00eancia de um brilho f\u00e1lico, e essa extin\u00e7\u00e3o do brilho f\u00e1lico da imagem p\u00f5e em manifesto o que o amor vela, comparecendo o sujeito como objeto\/dejeto. Nesse sentido, o sexual vem como traum\u00e1tico, sempre em excesso e sem o limite f\u00e1lico, pois \u00e9 ele que faz a pontua\u00e7\u00e3o, que fecha a frase. O que d\u00e1 esse sentido de amor morto, seria, ent\u00e3o, a morte do sujeito, na medida em que ele est\u00e1 sempre \u00e0s voltas com um Outro real. Isso se d\u00e1, pois, o sujeito passa a ser o que responde ao desejo do Outro n\u00e3o simbolizado, realizando o objeto do Outro, sendo objeto de gozo, real, do Outro, n\u00e3o s\u00f3 objeto imagin\u00e1rio do del\u00edrio, mas objeto real do Outro. Entendemos, assim, que fazer amor n\u00e3o se refere ao ato sexual, uma vez que nem todos o praticam, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja v\u00e1rios que o fazem. O amor sem o ato sexual, \u00e9 uma das formas que Lacan diz sobre a estabiliza\u00e7\u00e3o de Schreber. Recorde-se que Schreber se uniu \u00e0 sua esposa, uma <em>philia<\/em> matrimonial, uma rela\u00e7\u00e3o fora do eixo com o Outro, e essa rela\u00e7\u00e3o se fez poss\u00edvel ao pre\u00e7o de uma ren\u00fancia ao sexual.<\/p>\n<p>Nota-se, assim, que Lacan, na teoria do <em>sinthome<\/em>, apresenta em <em>O semin\u00e1rio, livro 23<\/em>, um novo modo de pensar a cl\u00ednica psicanal\u00edtica, o que n\u00e3o quer dizer, renunciar \u00e0 primeira. No entanto, v\u00ea-se a\u00ed um avan\u00e7o, pois Lacan recusa a fixa\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos padronizados. Ele contata-se a uma mudan\u00e7a de perspectiva sobre o la\u00e7o social.<\/p>\n<p>O Nome-do-Pai se torna, dessa forma, apenas uma forma, entre outras, de tentar obturar a falha estrutural do Outro. Sob essa perspectiva, a dire\u00e7\u00e3o do tratamento ganha uma nova roupagem a partir do Um do gozo, e n\u00e3o mais a partir do Outro simb\u00f3lico. Nessa nova roupagem, veremos no texto de M\u00e1rio Neto, \u201c<em>Bates Motel<\/em> \u2013 um sexo sem a regulamenta\u00e7\u00e3o f\u00e1lica\u201d, inven\u00e7\u00f5es singulares para al\u00e9m dos limites f\u00e1licos.<\/p>\n<p>Veremos que o empuxo-\u00e0-mulher, em alguns casos, pode funcionar como vers\u00e3o do Pai, Pai-vers\u00e3o ou <em>sinthome<\/em>, isto \u00e9, solu\u00e7\u00f5es estabilizadoras de um gozo desesperador. Sob esse aspecto, Ant\u00f4nio Teixeira, em seu texto \u201cO que significa fazer existir <em>A Mulher<\/em> que n\u00e3o existe na psicose(?)\u201d, elucida que \u201ca mulher, na experi\u00eancia psic\u00f3tica, como resposta \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o de Um-pai sem raz\u00e3o, [realiza] em si mesma essa <em>estranhexist\u00eancia<\/em> que demanda, talvez, um neologismo para escrev\u00ea-la, radicalmente distinta da exist\u00eancia regrada no interior do semblante de um discurso com a qual podemos nos familiarizar.\u201d<\/p>\n<p>Sob sua pena, F\u00e1bio Paes Barreto traz em \u201cAs psicoses e seus sexos\u201d, um ponto importante sobre a feminiza\u00e7\u00e3o na psicose, demonstrando uma cl\u00ednica da estabiliza\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica, uma cl\u00ednica de <em>enodamentos<\/em>, <em>desenodamentos<\/em> e de manipula\u00e7\u00e3o dos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Em \u201cA \u00e9tica <em>hors-sexe<\/em>\u201d e a partir de <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>, Juliana Melo apresenta a ideia que Lacan traz sobre o conto \u201cO Horla\u201d, de Guy Maupassant, escrito em 1887. Na ideia proposta, Lacan toma <em>Horla<\/em> em sua homofonia com <em>hors<\/em> em franc\u00eas, para cunhar o neologismo acerca da \u00e9tica <em>hors-sexe<\/em> (<em>fora-sexo<\/em>), a saber, algo que permanece fora, mas tamb\u00e9m perto. Para exemplificar o <em>hors-sexe<\/em>, coteja-se ainda a arte de Moacir Arte Bruta.<\/p>\n<p>Juliana Bressanelli aponta-nos, em \u201cO sexo e psicose: amor e gozo\u201d, a falha quando n\u00e3o h\u00e1 regula\u00e7\u00e3o pela norma f\u00e1lica, ou seja, na psicose quando o sujeito \u00e9 convocado a responder a partir de seu lugar como sexuado, frequentemente um embara\u00e7o se manifesta, que por vezes d\u00e1 lugar ao del\u00edrio. A autora levanta quest\u00f5es como a diferen\u00e7a sexual, a posi\u00e7\u00e3o do sujeito psic\u00f3tico na partilha entre os sexos e, por \u00faltimo, quais seriam os ordenamentos do psic\u00f3tico frente ao amor e ao gozo.<\/p>\n<p>A partir de exemplos como Salvador Dali e Gala, James Joyce e Nora, Geanine Lucas debru\u00e7a-se sobre a coloca\u00e7\u00e3o de J-A Miller que aponta que \u201ca sexualidade n\u00e3o \u00e9 t\u00edpica\u201d.<\/p>\n<p>Em <em>Per-Versos<\/em>, Simone Vieira nos presenteia com o poema de<em> SUNAMITAGFF<\/em>. Sunamita \u00e9 usu\u00e1ria do Caps Cidade, munic\u00edpio de Cariacica, Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Deleitamo-nos, em <em>Pitadas<\/em>, com uma charge da Laerte e com um fragmento do filme <em>Nise: o cora\u00e7\u00e3o da loucura<\/em>.<\/p>\n<p>Diante de t\u00e3o prof\u00edcuas reflex\u00f5es, resta-nos apenas dizer: &#8211; Sejam todos bem-vindos ao trabalho!<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>ASSIS, Machado de. <em>Dom Casmurro<\/em> In.: __________. <em>Obras completas<\/em>. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 3:<\/em> as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.<\/h6>\n<h6>FERREIRA, Joaquim da Rocha.<em> Capitu<\/em> (1936). Dispon\u00edvel em: https:\/\/artsandculture.google.com\/asset\/capitu-joaquim-da-rocha-ferreira\/hwEWH_w0Au_rbA?hl=pt-br<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Neste trecho do Semin\u00e1rio 3, Lacan faz a seguinte pergunta: \u201cA que se deve a diferen\u00e7a entre algu\u00e9m que \u00e9 psic\u00f3tico e algu\u00e9m que n\u00e3o o \u00e9?\u201d (p.287).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rosangela Ribeiro\u00a0 [&#8230;] d\u00e1-me uma compara\u00e7\u00e3o exata e po\u00e9tica para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. N\u00e3o me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? V\u00e1, de ressaca. \u00c9 o que me d\u00e1 ideia daquela fei\u00e7\u00e3o nova. 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