{"id":12243,"date":"2022-06-11T10:30:05","date_gmt":"2022-06-11T13:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12243"},"modified":"2022-06-11T10:30:05","modified_gmt":"2022-06-11T13:30:05","slug":"a-etica-hor-sexe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-etica-hor-sexe\/","title":{"rendered":"A \u00e9tica hor-sexe"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_12228\" aria-describedby=\"caption-attachment-12228\" style=\"width: 306px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12228\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/005.png\" alt=\"\u00a0Fonte pixabay\" width=\"306\" height=\"172\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12228\" class=\"wp-caption-text\">Fonte pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong><em>Por Juliana Melo<\/em><\/strong><\/h6>\n<p>Vamos puxar a cadeira para uma conversa\u00e7\u00e3o importante, nosso ponto de partida para o Boletim Arranjos 5 \u00e9: O sexo na psicose.<\/p>\n<p>Recordamos, com Lacan, sobre a impossibilidade de um encontro entre um homem e uma mulher onde n\u00e3o acorram equ\u00edvocos, mal-entendidos, pois estes s\u00e3o permeados pela linguagem. Em seu ensino, mais precisamente no Semin\u00e1rio 20, Lacan demonstra, a partir da t\u00e1bua da sexua\u00e7\u00e3o, que h\u00e1 formas do feminino e do masculino para se haver com essa rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1. Pensando a partir dessas considera\u00e7\u00f5es, a psican\u00e1lise tamb\u00e9m nos demonstra como h\u00e1 sujeitos que tomam essa formula\u00e7\u00e3o ao p\u00e9 da letra, o que Lacan nomeia como fora-sexo.<\/p>\n<p>Neste mesmo semin\u00e1rio, Lacan (1982) partir\u00e1 do fant\u00e1stico conto <em>O Horl\u00e1<\/em>, de Guy Maupassant, escrito em 1887, onde o autor se v\u00ea perseguido pela presen\u00e7a invis\u00edvel e enigm\u00e1tica de uma coisa apavorante que ele d\u00e1 o nome de Horla, para cunhar a \u00e9tica \u201chor-sexe\u201d, do fora-sexo, algo que permanece fora, mas tamb\u00e9m por perto. Lacan toma Horla como um neologismo (no franc\u00eas <em>hors<\/em> designa fora), fora de, de fora, uma exterioridade, no exterior de; e o termo <em>\u2018l\u00e1\u2019<\/em> se traduz por l\u00e1, acol\u00e1, ali. Esse termo o fisgou e ele mesmo nomeou como estranho, abrindo vias para evocar o que, ao mesmo tempo, est\u00e1 ali e tamb\u00e9m est\u00e1 fora. Ele assinala \u201cHorsexe, esse \u00e9 o homem sobre o qual a alma especulou\u201d (p. 175)<\/p>\n<p>Um movimento expressivo e atual que podemos tomar como um exemplo do que Lacan nomeia como uma \u00e9tica hor-sexe, s\u00e3o <em>os incel`s<\/em> que representam uma subcultura virtual onde se definem como incapazes de parcerias rom\u00e2nticas ou sexuais, portanto adotam o que chamam de celibat\u00e1rio involunt\u00e1rio. Eles se re\u00fanem em f\u00f3runs virtuais e compartilham entre si de seus mecanismos para o celibat\u00e1rio obedecendo a l\u00f3gica do que podemos aprender, com Lacan, sobre o fora-sexo. N\u00e3o \u00e9 sem import\u00e2ncia mencionar que, h\u00e1 para esses celibat\u00e1rios, uma exorbit\u00e2ncia do tema do sexo para, assim, mant\u00ea-lo fora como uma exterioridade.<\/p>\n<p>Ainda nesse contexto, trago o artista pl\u00e1stico autodidata Macir, que vive em Alto Paraiso, porta de entrada da Chapada dos Veadeiros; \u00e9 apelidado como Nono e vive em isolamento. Sua arte traz uma obsess\u00e3o com o sexo e com as formas femininas exageradas. Em seu document\u00e1rio, \u2018Moacir Arte Bruta\u2019, no canal do youtube, h\u00e1 afirma\u00e7\u00f5es de que o artista nunca teve contato com o sexual, ou mesmo, com o corpo feminino nu e ainda assim os atenua em suas pinturas.<\/p>\n<p>Para abrirmos um pouco mais as vias de elabora\u00e7\u00e3o sobre o sexo na psicose, podemos retomar o que Miller (2008) aponta como \u2018uma desordem no ponto de jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntimo do ato sexual, pois, geralmente, a encontramos\u2019. (p. 426). Ele diz: \u2018a sexualidade n\u00e3o \u00e9 t\u00edpica. N\u00e3o h\u00e1 vida sexual t\u00edpica. Nos homens h\u00e1, \u00e0s vezes, um empuxo-\u00e0-mulher pelo ato sexual. \u00c0s vezes h\u00e1, ao contr\u00e1rio, uma sexualidade que permite se reapropriar do corpo. \u00c0s vezes, o corpo se fragmenta. N\u00e3o h\u00e1 nada espec\u00edfico.\u2019<\/p>\n<p>Miller (2008) aponta para uma quarta externalidade, a do sexual. Usando a mesma l\u00f3gica das outras tr\u00eas externalidades mencionadas neste texto, a social, a corporal e a subjetiva; podemos entender a quest\u00e3o dos extremos como \u00edndices importantes para a escuta cl\u00ednica do sexo na psicose. (p.426)<\/p>\n<p>A Conven\u00e7\u00e3o de Antibes (Miller, 2008) traz algumas ilustra\u00e7\u00f5es. Destaco o t\u00f3pico sobre o encontro com um gozo enigm\u00e1tico de uma mo\u00e7a que fora atendida no momento de sua hospitaliza\u00e7\u00e3o que se seguiu ap\u00f3s um acesso delirante. \u00c9 um caso que nos interessa devido \u00e0s circunst\u00e2ncias particulares de um desencadeamento psic\u00f3tico sem antecedentes psiqui\u00e1tricos. O epis\u00f3dio psic\u00f3tico come\u00e7a logo ap\u00f3s uma primeira rela\u00e7\u00e3o sexual, que ela descreve como uma invas\u00e3o do corpo por uma sensa\u00e7\u00e3o estranha, ela se sentia desde ent\u00e3o, manipulada fisicamente por seus vizinhos. Nota-se, no relato, um encontro com um gozo enigm\u00e1tico com a falta da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, e ent\u00e3o, o desencadeamento como resposta \u00e0 foraclus\u00e3o do Nome-do-pai e ao desprovimento do simb\u00f3lico. (p. 35)<\/p>\n<p>Para concluir, \u00e9 preciso recordar que, cabe ao analista, em exerc\u00edcio cl\u00ednico de recolher e de interpretar, a cada caso, esses que podem ser \u00edndices que apontam para as psicoses, e ainda, destac\u00e1-los das solu\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas para o sexual de cada sujeito em sua singularidade.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0\u00a0(2012[1998]).\u00a0A psicose ordin\u00e1ria: a conven\u00e7\u00e3o de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012, p. 35 e p.426.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juliana Melo Vamos puxar a cadeira para uma conversa\u00e7\u00e3o importante, nosso ponto de partida para o Boletim Arranjos 5 \u00e9: O sexo na psicose. Recordamos, com Lacan, sobre a impossibilidade de um encontro entre um homem e uma mulher onde n\u00e3o acorram equ\u00edvocos, mal-entendidos, pois estes s\u00e3o permeados pela linguagem. Em seu ensino, mais&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-12243","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-arranjos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12243"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12243\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12243"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=12243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}