{"id":12236,"date":"2022-06-11T10:27:16","date_gmt":"2022-06-11T13:27:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12236"},"modified":"2022-06-11T10:27:16","modified_gmt":"2022-06-11T13:27:16","slug":"o-que-significa-fazer-existir-a-mulher-que-nao-existe-na-psicose-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/o-que-significa-fazer-existir-a-mulher-que-nao-existe-na-psicose-1\/","title":{"rendered":"O que significa fazer existir  A Mulher que n\u00e3o existe na psicose (?)<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><\/a><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_12232\" aria-describedby=\"caption-attachment-12232\" style=\"width: 322px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12232\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/007.png\" alt=\"Fonte: pixabay\" width=\"322\" height=\"215\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12232\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<h6><strong>Por Ant\u00f4nio Teixeira (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<p>Ao reler o t\u00edtulo proposto para minha interven\u00e7\u00e3o, em resposta ao am\u00e1vel convite que me foi feito pela Diretoria da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e pela comiss\u00e3o respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o desse evento, eu percebi, tardiamente, que faltou acrescentar um ponto de interroga\u00e7\u00e3o a seu final. \u00c9 mais como quest\u00e3o do que como resposta que eu gostaria de conduzir essa discuss\u00e3o hoje \u00e0 noite com voc\u00eas, com o intuito de interpelar o que significa fazer existir a mulher, na experi\u00eancia da psicose, em sua aparente contradi\u00e7\u00e3o com a proposi\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia da mulher, enunciada por Lacan no horizonte das f\u00f3rmulas qu\u00e2nticas da sexua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se digo isso, \u00e9 por n\u00e3o ser raro, como voc\u00eas bem sabem, encontrarmos formula\u00e7\u00f5es lacanianas antin\u00f4micas cuja considera\u00e7\u00e3o nos conduz frequentemente a adotar, conforme sugere em v\u00e1rios momentos Jacques-Alain Miller, a ideia de um segundo Lacan contra um primeiro Lacan. Mas quando abordamos a coexist\u00eancia da express\u00e3o \u201cempuxo a \u2018A mulher\u2019 na psicose\u201d, &#8211; tradu\u00e7\u00e3o conceitual proposta por Lacan da <em>Verweiblichung <\/em>descrita por Freud, a respeito da transforma\u00e7\u00e3o corporal delirante vivida pelo presidente Schreber \u2013 com o tema da inexist\u00eancia de A Mulher (a se grafar com A barrado), notamos que elas s\u00e3o formuladas concomitantemente. Voc\u00eas a encontram reunidas tanto no escrito \u201cO Aturdito\u201d quanto no Semin\u00e1rio XX, ambos produzidos nesse prof\u00edcuo ano de 1972. Por isso achei por bem interrogar como se articula essa no\u00e7\u00e3o de empuxo \u00e0 mulher, na psicose, com o tema da inexist\u00eancia da mulher desenvolvido no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>Para abordar essa aparente antinomia, ocorreu-me pensar na diferen\u00e7a sem\u00e2ntica entre o verbo impessoal \u201chaver\u201d e o verbo intransitivo \u201cexistir\u201d. Podemos, efetivamente, dizer que h\u00e1 algo que n\u00e3o existe, quando afirmamos, por exemplo, que h\u00e1 uma jogada que n\u00e3o existe no jogo de xadrez: o movimento horizontal do bispo. Ao considerarmos, por outro lado, que o verbo existir deriva de ex-sistere, que etimologicamente significa \u201cprovir de\u201d, podemos conceber essa ideia de proveni\u00eancia em conformidade com a regra que define o lugar discursivo daquilo que h\u00e1. Existir, nesse sentido, significa, como se diz em franc\u00eas, \u201cavoir lieu\u201d, ter lugar num sistema ordenado de linguagem. Do mesmo modo que o espa\u00e7o curvo n\u00e3o existia para a geometria euclidiana, por n\u00e3o dispor de um lugar de proveni\u00eancia nesse sistema te\u00f3rico, as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente n\u00e3o podiam existir para o pensamento fenomenol\u00f3gico que identificava a psique \u00e0 consci\u00eancia. Como se percebe, a exist\u00eancia normalmente se d\u00e1 nos termos de uma regula\u00e7\u00e3o discursiva da linguagem sobre o \u201chaver\u201d: o \u201cexistir\u201d seria, nesse sentido, um \u201chaver\u201d que poder \u201cter lugar\u201d no universo do discurso.<\/p>\n<p>Afirmar, portanto, como o faz Lacan, que A mulher n\u00e3o existe, significa dizer que h\u00e1 um significante, A mulher, que n\u00e3o pode ter lugar, por raz\u00f5es de estrutura, no universo do discurso, na medida em que n\u00e3o h\u00e1, no lado feminino, o elemento de exce\u00e7\u00e3o sobre o qual o universo, em que se distribuem os lugares, poderia se constituir. A fim de esclarecer, ent\u00e3o, o que vem a ser esse universo no qual o existir pode ou n\u00e3o ter lugar, vale retomar o modo pelo qual Lacan articula a dimens\u00e3o do universal, na forma do \u201c&#8221;\u2200x \u03a6x\u201d, a algo que dele se exclui, na forma de um x que n\u00e3o \u03a6x, e ao mesmo tempo esclarecer por que raz\u00e3o o Universal depende, para se constituir, dessa liga\u00e7\u00e3o ao elemento de exce\u00e7\u00e3o como limite que o nega.<\/p>\n<p>Devo confessar a voc\u00eas que demorei muito tempo para entender essa articula\u00e7\u00e3o do Universal ao elemento que o nega. Era uma articula\u00e7\u00e3o que eu aceitava, por provir de Lacan, mas sem captar a necessidade que a determinava internamente. Ao percorrer o ensino de Lacan, armado com essa pergunta, eu pude notar que a liga\u00e7\u00e3o do \u201cpara todo\u201d com a exce\u00e7\u00e3o, formulada em 1972, j\u00e1 se anunciava em 10 anos antes, em 1962, em seu semin\u00e1rio ainda in\u00e9dito sobre a Identifica\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a \u00e9 que se em 1972 Lacan se vale da l\u00f3gica proposicional de Frege, que se organiza em termos de fun\u00e7\u00e3o e argumento, em 1962 ele ainda se serve da l\u00f3gica de Arist\u00f3teles que distribui seus elementos nos termos gramaticais de sujeito, c\u00f3pula e predicado. De sorte que o universal, que em 72, se formula como &#8220;\u2200x \u03a6x, ainda se escrevia, em 62, na proposi\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica como \u201cTodo S \u00e9 P\u201d.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o me delongar muito, vou resumir uma discuss\u00e3o que tive ocasi\u00e3o de expor mais detalhadamente<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, dizendo que o interesse maior de Lacan, em rela\u00e7\u00e3o a esse ponto, \u00e9 o de subverter a leitura aristot\u00e9lica cl\u00e1ssica, ao contestar a ideia de um Universal previamente dado, do qual a proposi\u00e7\u00e3o particular se encontra naturalmente subordinada<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. O que normalmente aprendemos, nos manuais de l\u00f3gica de predicados, \u00e9 que da proposi\u00e7\u00e3o universal afirmativa do tipo \u201ctodo homem \u00e9 mortal\u201d derivaria, naturalmente, aquela que enuncia que \u201calgum homem \u00e9 mortal\u201d, assim como da Universal negativa \u201cnenhum homem \u00e9 divino\u201d deriva \u201calgum homem n\u00e3o \u00e9 divino\u201d. \u00c9 nesse sentido que a particular se inscreve, no quadrado l\u00f3gico, como subalterna ou subordinada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 universal, como se pode ler visualizar no quadrado l\u00f3gico de Apuleio:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Todo S \u00e9 P\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todo S \u00e9 n\u00e3o P<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12230 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/007-002.png\" alt=\"\" width=\"319\" height=\"238\" \/>Algum S \u00e9 P\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Algum S \u00e9 n\u00e3o P<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para reverter essa leitura, Lacan se vale de um exemplo, aqui por n\u00f3s ligeiramente modificado, que nos permite claramente ver que n\u00e3o h\u00e1 nada de t\u00e3o natural assim nessa rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Se tomarem o slogan \u201ctodo soldado deve morrer pela p\u00e1tria\u201d, proferido pelo chefe da tropa, voc\u00eas percebem que ele \u00e9 admitido facilmente pelos soldados, que fazem no m\u00e1ximo bocejar ao escut\u00e1-lo. Mas no momento em que o comandante afirma que \u201calgum soldado deve morrer pela p\u00e1tria\u201d, notamos na rea\u00e7\u00e3o, agora de espanto e medo, que n\u00e3o se trata de uma deriva\u00e7\u00e3o t\u00e3o natural assim.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 que a proposi\u00e7\u00e3o universal afirmativa \u2013 Todo soldado deve morrer pela p\u00e1tria \u2013 \u00e9 c\u00f4moda por ser da ordem do que Peirce prop\u00f5e chamar de lexis, no sentido em que se trata da pura leitura, da mera constata\u00e7\u00e3o de um enunciado em que n\u00e3o se leva em conta o engajamento do sujeito<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Mas quando se trata de particular afirmativa \u2013 \u201calgum soldado deve morrer pela p\u00e1tria\u201d \u2013, percebemos que ela toca efetivamente no sujeito, na medida em que agora ele se v\u00ea exposto ao risco de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. O essencial se encontra no fato, indicado por Peirce, de que a universal afirmativa n\u00e3o afirma necessariamente nada sobre nenhuma exist\u00eancia, se tomada por si s\u00f3. A proposi\u00e7\u00e3o universal \u201ctodo tra\u00e7o \u00e9 vertical\u201d \u00e9 verdadeira mesmo que n\u00e3o exista nenhum tra\u00e7o, do mesmo modo que a proposi\u00e7\u00e3o \u201ctodo lobisomem \u00e9 mam\u00edfero\u201d \u00e9 v\u00e1lida, mesmo que n\u00e3o exista nenhum lobisomem. Sua comodidade, que se faz notar no bocejo dos soldados tropa, se deve ao fato de que ela diz respeito somente a um puro ju\u00edzo de atribui\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o necessariamente ao ju\u00edzo de exist\u00eancia, conforme se nota no quadrante 4, onde a universal afirmativa e a universal negativa comungam do setor vazio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12231 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/007-003.png\" alt=\"\" width=\"221\" height=\"221\" \/><\/p>\n<p>O que se percebe, ent\u00e3o, no tremor produzido pela segunda senten\u00e7a &#8211; \u201calgum soldado deve morrer pela p\u00e1tria\u201d \u2013 \u00e9 que a proposi\u00e7\u00e3o particular se diferencia da universal por ser necessariamente existencial, por dizer respeito a algo que necessariamente existe na experi\u00eancia concreta sujeito. Por isso Lacan nos indica que a proposi\u00e7\u00e3o universal, para ter efetividade, necessita convocar algo que existe no n\u00edvel concreto da particular e que ao mesmo tempo a nega, que se apresenta como contradit\u00f3rio a ela no n\u00edvel da proposi\u00e7\u00e3o particular negativa, para em seguida recusar que ela seja pertinente. N\u00e3o basta enunciar \u201ctodo tra\u00e7o \u00e9 vertical\u201d. \u00c9 preciso encontrar o tra\u00e7o que contradiz essa proposi\u00e7\u00e3o, na experi\u00eancia particular, e em seguida recusar sua pertin\u00eancia, atrav\u00e9s n\u00e3o mais de uma pura lexis, de uma simples constata\u00e7\u00e3o, mas do que Pierce nomeia de fasis, termo que agora indica a viol\u00eancia de uma declara\u00e7\u00e3o performativa: \u201cnada de tra\u00e7o que n\u00e3o seja vertical\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Para que isso fique menos abstrato, ao tomarmos, a t\u00edtulo de exemplo, o enunciado \u201ctodo analista \u00e9 freudiano\u201d, notamos que ele \u00e9 verdadeiro mesmo que n\u00e3o exista nenhum analista. Por\u00e9m, quando se entra no n\u00edvel da exist\u00eancia concreta, quando queremos, digamos, fundar uma institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, encontramos pessoas que se dizem analistas, dentre as quais algu\u00e9m que se intitula como tal sem se dizer freudiano. Pode ser que haja algu\u00e9m que se apresenta como analista, mas que se diga junguiano, adleriano, reichiano, pouco importa. Mas para que o universal de uma institui\u00e7\u00e3o tenha, ent\u00e3o, efetividade concreta, \u00e9 preciso que se afirme algo como \u201cnada de analista que n\u00e3o seja freudiano\u201d, numa declara\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0quele que se encontrava no frontisp\u00edcio da Academia de Plat\u00e3o: nada de fil\u00f3sofo que n\u00e3o seja ge\u00f4metra. Os junguianos que sejam psicoterapeutas, conselheiros espirituais ou o que bem entenderem, mas \u201cnada de analista que n\u00e3o seja freudiano\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 nesses termos que sugeri pensar, em outro momento, na refer\u00eancia anteriormente citada, a funda\u00e7\u00e3o m\u00edtica da comunidade humana proposta por Freud, em Totem e Tabu. Diante da exist\u00eancia m\u00edtica de um pai primevo, dito gozador, n\u00e3o submetido \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o do incesto, na forma de um x que n\u00e3o \u03a6x, a sociedade dos filhos se engaja, atrav\u00e9s do seu assassinato, no universal declarativo da lei que se funda atrav\u00e9s de sua exclus\u00e3o: nada de x que n\u00e3o \u03a6x. O assassinato do pai primevo aqui representa a pr\u00f3pria viol\u00eancia dessa declara\u00e7\u00e3o performativa \u2013 nada de x que n\u00e3o\u00a0 \u03a6x \u2013 sobre a qual se constr\u00f3i o Universal \u201c&#8221;\u2200x \u03a6x\u201d da interdi\u00e7\u00e3o do incesto. \u00c9 nesse sentido que o sujeito s\u00f3 tem lugar de exist\u00eancia, no Universal da comunidade marcado por essa interdi\u00e7\u00e3o imposta pelo limite do gozo f\u00e1lico, conforme a lei representada pelo pai morto como Nome do Pai.<\/p>\n<p>Mas quando tomamos, distintamente, o lado feminino das f\u00f3rmulas qu\u00e2nticas, notamos que aqui n\u00e3o existe a exce\u00e7\u00e3o sobre cuja exclus\u00e3o se constitui o Universo. \u00c9 importante enfatizar que dizer \u201cnotamos que n\u00e3o existe x que n\u00e3o \u03a6x\u201d, no lado feminino, \u00e9 qualitativamente distinto de afirmar \u201cnada de x que n\u00e3o Fx\u201d sobre o qual se erige o Universal no lado masculino. No primeiro caso, temos o que Peirce chama de <em>lexis<\/em>, uma pura leitura, ou constata\u00e7\u00e3o, no segundo caso, temos o que Peirce agora chama de <em>fasis<\/em>, para se referir ao engajamento de uma declara\u00e7\u00e3o performativa. Queremos, com isso, dizer que a lei simb\u00f3lica, que funda o Universo f\u00e1lico, \u00e9 fruto de uma declara\u00e7\u00e3o, de um engajamento em rela\u00e7\u00e3o ao que se apresenta como contradit\u00f3rio a ela. \u00c9 justamente pelo fato de que a exce\u00e7\u00e3o n\u00e3o se apresenta, no lado feminino, que o Universo ali n\u00e3o pode se constituir na forma da declara\u00e7\u00e3o da lei do discurso que deve valer \u201cpara todos\u201d e assim confere, \u00e0quele que nesse Universo se encontra, o predicado da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tem interesse notar, j\u00e1 que falamos em lei do discurso, que bem antes de formular a inexist\u00eancia de A mulher, Lacan j\u00e1 se referia \u00e0 posi\u00e7\u00e3o feminina, em seu coment\u00e1rio sobre a posi\u00e7\u00e3o da rainha no conto sobre a carta roubada, de Alain Poe, como a de um ser que se funda fora da lei. Mas a ideia que eu gostaria de tentar desenvolver, no tempo que me \u00e9 dado aqui, \u00e9 que se o que d\u00e1 a raz\u00e3o da lei depende da representa\u00e7\u00e3o do pai como puro nome, ou seja, do pai morto, do pai assassinado sobre o qual incidiu a exclus\u00e3o declarativa \u201cnada de x que n\u00e3o \u03a6x\u201d, o que a psicose nos revela, na irrup\u00e7\u00e3o de Um-pai como sem raz\u00e3o, conforme Lacan o formula na p\u00e1gina 466 de \u201cO Aturdito\u201d, diz respeito justamente \u00e0 aus\u00eancia do limite constitu\u00eddo por esse ponto de exclus\u00e3o fundante<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. O Um-pai, como sem raz\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o Pai morto sobre o qual se erige o Nome do Pai. Ele \u00e9 antes express\u00e3o do transbordamento pulsional de um pai vivo, como \u00e9 o caso do Deus de Schreber, que irrompe quando o Nome do Pai deixa de operar como ponto de exclus\u00e3o que d\u00e1 raz\u00e3o ao Universo, for\u00e7ando o sujeito, acrescenta Lacan, para o campo do Outro estranho a qualquer sentido<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Voltando, ent\u00e3o, ao que hav\u00edamos formulado no in\u00edcio, dissemos que se do ponto de vista do Universo fundado numa exclus\u00e3o fundante, o masculino pode existir como figura do que tem lugar, figura do mesmo que se deixa contar segundo a ideia do que significa ser homem em conformidade com a norma f\u00e1lica, a mulher n\u00e3o tem exist\u00eancia \u2013 assim como o movimento horizontal do bispo n\u00e3o existe no jogo de xadrez \u2013 porque no Universo o feminino n\u00e3o tem lugar. Ocupar a posi\u00e7\u00e3o feminina significa, para o sujeito, se colocar fora do limite do Universo, alheio \u00e0 norma do que pode contar como elemento no interior de seu conjunto. Em vista disso, fazer existir A mulher, na experi\u00eancia psic\u00f3tica, como resposta \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o de Um-pai sem raz\u00e3o, \u00e9 realizar em si mesmo essa estranhexist\u00eancia que demanda, talvez, um neologismo para escrev\u00ea-la, radicalmente distinta da exist\u00eancia regrada no interior do semblante de um discurso com a qual podemos nos familiarizar. \u00c9 um existir, enfim, drasticamente diverso daquele que significa ter lugar no interior de uma ordem discursiva, uma vez que se trata, segundo formula E. Laurent, de uma solu\u00e7\u00e3o que consiste em fazer de si mesmo subst\u00e2ncia daquilo que n\u00e3o tem representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ao se colocar como meio de satisfa\u00e7\u00e3o desse pai sem lei<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que diante da irrup\u00e7\u00e3o de Um-pai sem raz\u00e3o, vivido como amea\u00e7a de um deus ignorante que coloca a ordem do Universo em perigo, s\u00f3 resta ao presidente Schreber fazer existir, em si mesmo, A mulher fora da lei, como destinat\u00e1rio de um gozo que n\u00e3o tem lugar no sistema. Ao passo que no contexto regrado da linguagem, cada elemento s\u00f3 vale por sua oposi\u00e7\u00e3o diferencial aos demais elementos de uma estrutura simb\u00f3lica, aqui o sistema n\u00e3o funciona mais. A linguagem, como se nota na l\u00edngua fundamental do del\u00edrio de Schreber, n\u00e3o se desliga do gozo, mas se entrela\u00e7a a ele no n\u00edvel pulsional do qual ela se encontra normalmente separada no discurso regrado. Por se fazer destinat\u00e1rio desse gozo n\u00e3o limitado pela castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, o sujeito se v\u00ea obrigado \u00e0 exaust\u00e3o de um trabalho sem ponto de basta, cujo termo s\u00f3 pode ser atingido assintoticamente.<\/p>\n<p>Dali se explica finalmente porque Lacan se serve do adjetivo sard\u00f4nico \u2013 e n\u00e3o sarc\u00e1stico, como foi traduzido na vers\u00e3o brasileira \u2013 para descrever o que se passa com o sujeito submetido a esse gozo devastador. Pois o riso sard\u00f4nico, referido \u00e0 zombaria atroz desse deus gozador ao qual Schreber se oferece, n\u00e3o deixa de evocar o efeito venenoso provocado pela sardenha, erva extremamente t\u00f3xica conhecida como nabo do diabo, no mediterr\u00e2neo, a qual, antes de matar, imprime um riso assustador sobre o rosto daquele que a ingere.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n<h6>ARIST\u00d3TELES. Tratados de l\u00f3gica: Organon. Madrid: Gredos, 1988.<\/h6>\n<h6>CHATELINEAU, P. Lacan lecteur d\u2019Aristote. Paris: A.F.I., 2001.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Totem e tabu (1913). In: Totem e tabu e outros trabalhos (1913-1914). Rio de Janeiro, Imago, 1996. p. 21-162. (Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud, 13).<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. Trois \u00e9nigmes: le sens, la signification, la jouissance. In: La Cause du d\u00e9sir, n. 23. Paris: Navarin, 1993.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le s\u00e9minaire, livre IX: L\u2019Identification (1961-1962). In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le s\u00e9minaire, livre XV: L\u2019Acte psychanalytique (1967-1968). In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Autres \u00c9crits. Paris: Seuil, 2001.<\/h6>\n<h6>PEIRCE, C. S. Collected papers. Cambridge: Harvard University Press, 1932, v. II.<\/h6>\n<h6>TEIXEIRA, A. \u201cA funda\u00e7\u00e3o violenta do Universal\u201d, dispon\u00edvel on line in: http:\/\/www.revistaderivasanaliticas.com.br\/edicoesanteriores\/index.php\/universal.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Texto originalmente publicado no livro: ANTELO, M.; GURGEL, I. (orgs.). \u201cO feminino infamiliar: dizer o indiz\u00edvel\u201d. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf. A. Teixeira: \u201cA funda\u00e7\u00e3o violenta do Universal\u201d, dispon\u00edvel on line in: http:\/\/www.revistaderivasanaliticas.com.br\/edicoesanteriores\/index.php\/universal.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire, livre IX: L\u2019Identification <\/em>(1961-1962). In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire, livre XV: L\u2019Acte psychanalytique <\/em>(1967-1968). In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> PEIRCE, C. S. <em>Collected papers<\/em>. Cambridge: Harvard University Press, 1932, v. II.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Cf.<\/em>, a esse respeito: CHATELINEAU, P. <em>Lacan lecteur d\u2019Aristote<\/em>. Paris: A.F.I., 2001.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> LACAN, J. \u201cL\u2019\u00c9tourdit\u201d, in <em>Autres \u00c9crits<\/em>. Paris : Seuil, 2001, p. 466.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Vale lembrar que o Deus de Descartes, que Lacan define como o Deus que n\u00e3o engana, no semin\u00e1rio 3, por oposi\u00e7\u00e3o ao Deus que engana do presidente Schreber, somente permite a constitui\u00e7\u00e3o do Universo da ci\u00eancia (Mathesis universalis) por ter seu lugar de exce\u00e7\u00e3o marcado pela declara\u00e7\u00e3o de uma exclus\u00e3o fundante. Todos os fen\u00f4menos da natureza podem ser tratados cientificamente, declara Descartes, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria garantia de Deus sobre a qual a ci\u00eancia se apoia, mas da qual nada tem a dizer. Em l\u00f3gica dos predicados, o Universal \u201cpara todo x ci\u00eancia de x (\uf022x Cx)\u201d se articula assim \u00e0 exce\u00e7\u00e3o \u201cexiste um x que n\u00e3o ci\u00eancia de x (\u018ex ~Cx)\u201d. Dali decorre que as tentativas de explicitar a exce\u00e7\u00e3o, expondo os motivos de Deus, p\u00f5em invariavelmente a perder a consist\u00eancia deste Universo, conduzindo a impasses que dizem respeito justamente ao lado feminino. Isso se d\u00e1 tanto no esfor\u00e7o intermin\u00e1vel de Schreber, que se interroga pelos motivos de Deus, quanto no caso do bispo de Berkeley que, ao justificar a cria\u00e7\u00e3o do Universo pelo desejo que sentia o Todo poderoso em ser admirado pela cria\u00e7\u00e3o, termina por fazer de Deus uma mulher coquette. Indispens\u00e1vel ler, a esse respeito, REGNAULT, F. \u201cDe deux dieux\u201d, in <em>Dieu est inconsciente<\/em>. Paris: Navarin, 1985. <em>Cf. <\/em>igualmente: LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio livro 3: as psicoses <\/em>(1955-56). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pp. 73-85.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LAURENT, E. <em>\u00ab <\/em>Trois \u00e9nigmes : le sens, la signification, la jouissance \u00bb. In : La Cause du d\u00e9sir, 23. Paris : Navarin, 1993, p. 35.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ant\u00f4nio Teixeira (EBP\/AMP) Ao reler o t\u00edtulo proposto para minha interven\u00e7\u00e3o, em resposta ao am\u00e1vel convite que me foi feito pela Diretoria da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e pela comiss\u00e3o respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o desse evento, eu percebi, tardiamente, que faltou acrescentar um ponto de interroga\u00e7\u00e3o a seu final. \u00c9 mais como quest\u00e3o do que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-12236","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-arranjos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12236\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12236"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=12236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}