{"id":12137,"date":"2022-05-18T10:26:18","date_gmt":"2022-05-18T13:26:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12137"},"modified":"2022-05-18T10:26:18","modified_gmt":"2022-05-18T13:26:18","slug":"amor-e-devastacao-nas-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/amor-e-devastacao-nas-mulheres\/","title":{"rendered":"Amor e devasta\u00e7\u00e3o nas mulheres"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Jaqueline Coelho<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12105\" aria-describedby=\"caption-attachment-12105\" style=\"width: 637px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12105\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/boletim_004_002.png\" alt=\"Fonte: pixabay\" width=\"637\" height=\"334\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12105\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<blockquote><p>\u201cO parceiro-sintoma do homem tem a forma <em>fetiche, <\/em>enquanto o parceiro-sintoma do falasser feminino tem a forma <em>erotoman\u00edaca<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Lacan avan\u00e7ou na discuss\u00e3o sobre a sexualidade feminina quando, a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, bipartiu o gozo feminino, situando-o, de um lado em rela\u00e7\u00e3o ao gozo f\u00e1lico e, de outro lado, em rela\u00e7\u00e3o a um gozo ilimitado, opaco, suplementar, que n\u00e3o se deixa apreender pelas vias do significante. A exce\u00e7\u00e3o ao <em>todo homem \u00e9 castrado<\/em>, inscrita sob a f\u00f3rmula <em>existe um que n\u00e3o seja castrado <\/em>entre todos os outros castrados, referente ao mito do pai gozador, situa o homem em uma norma e l\u00f3gica f\u00e1licas, permitindo-lhe se localizar dentro de um conjunto.\u00a0 No caso das mulheres, a aus\u00eancia da exce\u00e7\u00e3o, marcada pela inscri\u00e7\u00e3o segundo a qual <em>n\u00e3o existe uma mulher que n\u00e3o seja submetida \u00e0 castra\u00e7\u00e3o<\/em>, impede a forma\u00e7\u00e3o do conjunto das mulheres. Isso leva a que elas devam ser tomadas uma a uma e justifica a c\u00e9lebre asser\u00e7\u00e3o de Lacan conforme a qual <em>A mulher n\u00e3o existe<\/em>. Esta indica, precisamente, a aus\u00eancia, no campo da linguagem, de um significante que pudesse dizer dA mulher.<\/p>\n<p>Entretanto, de acordo com Lutterbach<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, se n\u00e3o podemos falar dA mulher, \u00e9 poss\u00edvel localizar alguns momentos de ultrapassagem, em que \u201cuma mulher pode abandonar seu la\u00e7o com o falo e sacrificar todo o seu ser (&#8230;), cair inteiramente num Outro Gozo, numa esp\u00e9cie de loucura\u201d (p. 66). Esses fen\u00f4menos s\u00f3 podem se dar em breves e fulgurantes momentos, caracterizados por um desenlace de uma mulher em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 norma f\u00e1lica, onde vemos comparecer o que Lacan chamou de <em>uma verdadeira mulher<\/em>. O lugar de verdadeira mulher n\u00e3o perdura no tempo, o que leva Lutterbach a nos indicar que uma mulher \u201cs\u00f3 pode existir inteiramente de maneira fugaz e devastadora<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u201d (p. 67). Por esse motivo, Miller<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> nos esclarece que \u201cn\u00e3o se trata de construir o conceito de a verdadeira mulher. A verdadeira mulher s\u00f3 se pode dizer uma a uma e numa ocasi\u00e3o, porque n\u00e3o \u00e9 certo que uma mulher possa se manter nessa posi\u00e7\u00e3o\u201d (p. 21).<\/p>\n<p>Sobre o assunto, a mais cl\u00e1ssica representa\u00e7\u00e3o \u00e9 encontrada na figura de Med\u00e9ia, que foi capaz de sacrificar os pr\u00f3prios filhos, uma vez abandonada por Jas\u00e3o. Na mesma via, Madeleine, esposa de Gide, \u00e9 reportada por ter queimado as cartas de amor que ele lhe endere\u00e7ara, ao saber da paix\u00e3o dele por um jovem, com quem viajaria. As cartas de amor, seu bem mais precioso, s\u00e3o sacrificadas, nesse lampejo em que Madeleine abandona as refer\u00eancias f\u00e1licas para se entregar a um gozo louco, ilimitado.<\/p>\n<p>Dominique Miller<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> nos ensina que \u201co amor \u00e9 o registro que privilegia para as mulheres esses estados de absoluto\u201d. A autora lembra que um homem pode ocupar o lugar de exce\u00e7\u00e3o na vida amorosa de uma mulher, tendo sido aquele que \u201cdespertou o que parece ocupar, na estrutura, o papel que deveria ter o significante maior da feminilidade que falta.\u201d Por esse motivo, essa rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o estreita entre a mulher e o amor, sendo comum afirmarmos que algumas mulheres amam o amor, com o qual estabelecem uma parceria mais efetiva do que com o pr\u00f3prio amado. Muito orientadora, Miller arremata ainda que \u201c\u00e0 falta de uma rela\u00e7\u00e3o sexual que existisse, algumas mulheres estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o de amor real onde se disputam a devasta\u00e7\u00e3o e o \u00eaxtase\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que Lacan nos ensina que n\u00e3o h\u00e1 limites ao que uma mulher poder\u00e1 oferecer de si a um homem, podendo sacrificar sua reputa\u00e7\u00e3o, seus filhos, seus bens materiais, etc. Predomina, portanto, na mulher, a forma erotoman\u00edaca de amar, caracterizada pela exig\u00eancia a um amor ilimitado e insaci\u00e1vel, em que vigora uma demanda infinita rumo \u00e0 certeza de ser amada.<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> desliza entre os termos devasta\u00e7\u00e3o (<em>ravage<\/em>), arrebatar (<em>ravir<\/em>), deslumbramento (<em>ravissiment<\/em>), m\u00edstica e \u00eaxtase, situando-os do lado do infinito. Ele sustenta a devasta\u00e7\u00e3o como o outro lado do amor, j\u00e1 que ambos comungam o mesmo princ\u00edpio, a saber, o \u023a (A barrado).<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER, J.-A. (1998) O osso de uma an\u00e1lise. Edi\u00e7\u00e3o especial de agente: revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. P. 109<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LUTTERBACH, A. L. Uma verdadeira mulher em juventude de Gide ou A letra\/ carta e o desejo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 74: Especial 50 anos dos <em>Escritos<\/em>, p. 64-67, nov. 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibid, idem.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J.-A. Os semblantes entre os sexos. Em: Scilicet: A mulher n\u00e3o existe. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, D. As duas margens da feminilidade. <em>Boletim Infamiliar<\/em>, julho de 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/as-duas-margens-da-feminilidade-2\/\">http:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/as-duas-margens-da-feminilidade-2\/<\/a><u>&gt;<\/u>. Acesso em: 12 fev. 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> MILLER, J.-A. Uma partilha sexual. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>, ano 7, n. 20, 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0 &lt; <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_20\/Uma_partilha_sexual.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_20\/Uma_partilha_sexual.pdf<\/a> <u>&gt; <\/u>Acesso em 16\/04\/2022<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jaqueline Coelho \u201cO parceiro-sintoma do homem tem a forma fetiche, enquanto o parceiro-sintoma do falasser feminino tem a forma erotoman\u00edaca\u201d[1] Lacan avan\u00e7ou na discuss\u00e3o sobre a sexualidade feminina quando, a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, bipartiu o gozo feminino, situando-o, de um lado em rela\u00e7\u00e3o ao gozo f\u00e1lico e, de outro lado, em rela\u00e7\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-12137","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-arranjos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12137"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12137\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12137"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=12137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}