{"id":12131,"date":"2022-05-18T10:26:19","date_gmt":"2022-05-18T13:26:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12131"},"modified":"2022-05-18T10:26:19","modified_gmt":"2022-05-18T13:26:19","slug":"nora-e-joyce-a-parceria-que-cai-como-uma-luva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/nora-e-joyce-a-parceria-que-cai-como-uma-luva\/","title":{"rendered":"Nora e Joyce: a parceria que cai como uma luva"},"content":{"rendered":"<h6><em>\u00a0<\/em><strong><em>Por H\u00edtala Gomes e Lucas Fraga Gomes<\/em><\/strong><\/h6>\n<blockquote>\n<figure id=\"attachment_12108\" aria-describedby=\"caption-attachment-12108\" style=\"width: 305px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12108\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/boletim_004_005.png\" alt=\"Fonte: https:\/\/www.theparisreview.org\/blog\/2021\/03\/15\/imagining-nora-barnacles-love-letters-to-james-joyce\/\" width=\"305\" height=\"244\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12108\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: https:\/\/www.theparisreview.org\/blog\/2021\/03\/15\/imagining-nora-barnacles-love-letters-to-james-joyce\/<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m como eu, num momento no alto como as estrelas, no outro mais baixa que os mais baixos patifes? [&#8230;] Dei a outros o meu orgulho e a minha alegria. Para voc\u00ea dou o meu pecado, a minha loucura, a minha fraqueza e a minha tristeza. <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Podemos usar a express\u00e3o \u201ccaiu como uma luva\u201d em diversos contextos. Por exemplo, se estou desempregado e me \u00e9 oferecido uma oportunidade de emprego, posso afirmar que foi uma situa\u00e7\u00e3o que \u201ccaiu como uma luva\u201d, ou seja, que veio no momento prop\u00edcio. Tamb\u00e9m podemos usar a express\u00e3o quando provamos uma roupa e ao vesti-la percebemos que se ajusta perfeitamente ao nosso corpo. Ent\u00e3o, podemos dizer que ela \u201ccaiu como uma luva\u201d. Essa \u00faltima possibilidade \u00e9 a que nos interessa, pois faz men\u00e7\u00e3o ao corpo, a algo que o molda, que o veste, que o cerra.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 curioso que \u00e9 justamente na aula do dia 10 de fevereiro de 1976, ou seja, quando Lacan lan\u00e7a a pergunta \u201cJoyce, era louco?\u201d, que a figura de Nora \u00e9 evocada. Miller (2000) nos convoca a utilizar o termo parceiro justamente como aquilo que comparece como resultado da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Desta forma, conv\u00e9m pensarmos na fun\u00e7\u00e3o de Nora para Joyce, ou melhor, ser\u00e1 Nora um sinthoma joyciano? Lacan chama a aten\u00e7\u00e3o para a especificidade dessa rela\u00e7\u00e3o: \u201c[&#8230;] Direi, coisa singular, que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o sexual, ainda que eu diga que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. Mas \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o sexual bem esquisita [&#8230;]\u201d (LACAN, 2007, p.81).<\/p>\n<p>Lacan remonta a um exemplo kantiano e afirma que \u00e9 poss\u00edvel utilizar a m\u00e3o direita da luva na m\u00e3o esquerda, trata-se apenas de virar a mesma ao avesso. E \u00e9 a\u00ed que entra Nora nessa parceria: \u201c[&#8230;]. A luva virada ao avesso \u00e9 Nora. \u00c9 o jeito de ele considerar que ela lhe cai como uma luva.\u201d (LACAN, 2007, p.81). Isso parece j\u00e1 indicar a fun\u00e7\u00e3o que ela possu\u00eda para o escritor, ou seja, nessa rela\u00e7\u00e3o, era Nora a respons\u00e1vel por dar consist\u00eancia ao corpo de Joyce. Ou seja, \u00e9 evidente a cren\u00e7a de Joyce na exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e seu relacionamento com Nora era um esfor\u00e7o nesse sentido.<\/p>\n<p>A esse respeito conv\u00e9m lembrarmos do conto \u201cUm caso doloroso\u201d, presente na colet\u00e2nea Dublinenses, em que Joyce narra a hist\u00f3ria de James Duffy, um senhor que vive solit\u00e1rio e que n\u00e3o consegue sustentar uma rela\u00e7\u00e3o amorosa com a senhora Emily Sinico, pois: \u201c[&#8230;] O amor entre dois homens \u00e9 imposs\u00edvel, porque n\u00e3o deve haver rela\u00e7\u00e3o sexual e a amizade entre homem e mulher \u00e9 imposs\u00edvel, porque \u00e9 preciso haver rela\u00e7\u00e3o sexual [&#8230;]\u201d (2008, p.110). Esse imperativo sobre a rela\u00e7\u00e3o sexual aparece muito claramente nas cartas de Joyce a Nora, em que o escritor aparece com uma demanda constante que oscila entre o carinho e a degrada\u00e7\u00e3o de sua parceira:<\/p>\n<blockquote>[&#8230;] Para Joyce s\u00f3 h\u00e1 uma mulher. Ela \u00e9 sempre do mesmo modelo, e ele s\u00f3 a enluva com a maior das repugn\u00e2ncias. \u00c9 vis\u00edvel que apenas com a maior das deprecia\u00e7\u00f5es \u00e9 que ele faz de Nora uma mulher eleita. N\u00e3o apenas \u00e9 preciso que ela lhe caia como uma luva, mas que ela o cerre como uma luva. Ela n\u00e3o serve absolutamente para nada. (LACAN, 2007, pp.81-82).<\/p><\/blockquote>\n<p>Dessa maneira, o processo de degrada\u00e7\u00e3o obedece a l\u00f3gica de transformar Nora em um objeto-dejeto como uma forma de localiza\u00e7\u00e3o de seu gozo, tal como nos indica Mattos (2021). Para efetuar esse processo de localiza\u00e7\u00e3o, Joyce deprecia sua parceira amorosa, algo evidenciado em v\u00e1rias cartas tal como quando ele a nomeia de \u201cavezinha fodedora\u201d, nomea\u00e7\u00e3o presente nas cartas de 8 e 9 de dezembro de 1909. Nessa \u00faltima, fica evidente o processo do escritor: a detra\u00e7\u00e3o da companheira, a coloca\u00e7\u00e3o dela como dejeto tem um efeito inebriante para Joyce. Na carta de 6 de dezembro de 1909 ele afirma: \u201cChoquei voc\u00ea com as coisas sujas que te escrevi. Talvez voc\u00ea ache que o meu amor \u00e9 uma coisa obscena. \u00c9, querida, em alguns momentos [&#8230;]\u201d (JOYCE, 2012, p.97). E por fim, na mesma carta, ele escreve sobre o lugar-dejeto que Nora ocupa para ele: Adeus, minha querida, que estou tentando degradar e depravar. <u>Como, em nome de Deus, <\/u>\u00e9 poss\u00edvel voc\u00ea amar uma coisa como eu? (JOYCE, 2012, p.98).<\/p>\n<p>Podemos seguir com Lima (2015) e Dinardi (2020) e afirmarmos que era caro a Joyce a ideia da mulher como uma obra de arte do homem, dessa forma, a degrada\u00e7\u00e3o e a deprava\u00e7\u00e3o de Nora tamb\u00e9m tinha a fun\u00e7\u00e3o de nega\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de sujeito de Nora ao mesmo tempo que eleva\u00e7\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o da \u201cNora-obra\u201d.<\/p>\n<p>Devemos lembrar que Lacan afirma sobre Joyce: \u201c[&#8230;] O que ele escreve \u00e9 a consequ\u00eancia do que ele \u00e9 [&#8230;]\u201d (LACAN, 2007,p.76) Dessa forma podemos sustentar a hip\u00f3tese de que Nora funciona como um elemento fundamental para a estabiliza\u00e7\u00e3o do escritor (DINARDI, 2020), ou seja, \u00e9 a presen\u00e7a de Nora nessa parceria que permite a estabiliza\u00e7\u00e3o do escritor e que traz como consequ\u00eancia a sua pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Esse ponto \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia, pois sabemos que Lacan salienta a fun\u00e7\u00e3o da escrita em Joyce, sendo ela a respons\u00e1vel pelo Ego do escritor, ou seja, uma inven\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica que corrige o n\u00f3 borromeano. Podemos sustentar que essa inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclui a import\u00e2ncia fundamental da parceria com Nora, pois ela \u00e9 justamente a que garante um envelopamento do corpo do escritor e ainda, uma localiza\u00e7\u00e3o de seu gozo. Assim, se a escrita de Joyce \u00e9 o artif\u00edcio que permitiu o enodoamento, \u00e9 justamente Nora que subjaz como a \u201cluva\u201d que garante o sentimento de vida do grande escritor.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>DINARDI, R. <strong>Nora e Joyce: Um amor louco? <\/strong>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/6_Renata_Dinardi.pdf\">https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2020\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/6_Renata_Dinardi.pdf<\/a> . Acesso em: 29 de abr. 2022.<\/h6>\n<h6>JOYCE, J. <strong>Cartas a Nora<\/strong>. 1\u00ba ed. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2012.<\/h6>\n<h6>______.<strong> Dublinenses. <\/strong>12\u00ba ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2008.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <strong>O Semin\u00e1rio, livro 23: <\/strong>o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.<\/h6>\n<h6>LIMA, C. M.<strong> James Joyce e Nora: h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/strong> Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie. Ano 6. N\u00famero 18. Novembro 2015. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_18\/James_Joyce_e_Nora_Ha_relacao_sexual.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_18\/James_Joyce_e_Nora_Ha_relacao_sexual.pdf<\/a> . Acesso em 07 de mai. 2022.<\/h6>\n<h6>MATTOS, S. <strong>Joyce LOM e sua mulher g (Love). <\/strong>Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2021\/joyce-lom-e-sua-mulher-glove\/\">https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2021\/joyce-lom-e-sua-mulher-glove\/<\/a> . Acesso em 09 mai. 2022.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A. A teoria do parceiro. In: <strong>Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise \u2013 <\/strong>Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (orgs.). Contra Capa Livraria, 2000.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Carta de Joyce para Nora datada de 02 de setembro de 1909.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Por H\u00edtala Gomes e Lucas Fraga Gomes Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m como eu, num momento no alto como as estrelas, no outro mais baixa que os mais baixos patifes? [&#8230;] Dei a outros o meu orgulho e a minha alegria. 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