{"id":12129,"date":"2022-05-18T10:26:19","date_gmt":"2022-05-18T13:26:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12129"},"modified":"2022-05-18T10:26:19","modified_gmt":"2022-05-18T13:26:19","slug":"devastacao-materna1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/devastacao-materna1\/","title":{"rendered":"Devasta\u00e7\u00e3o Materna<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Sylara Hartung Ara\u00fajo<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12109\" aria-describedby=\"caption-attachment-12109\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-12109\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/boletim_004_006.png\" alt=\"\u00a0A Onda ou As Banhistas, Camille Claudel (1897\/1903) Museu Rodin, Paris\" width=\"290\" height=\"320\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12109\" class=\"wp-caption-text\">A Onda ou As Banhistas, Camille Claudel (1897\/1903) Museu Rodin, Paris<\/figcaption><\/figure>\n<p>Freud, no seu artigo Sexualidade Feminina, dir\u00e1: \u201cDurante a fase do complexo de \u00c9dipo normal, encontramos a crian\u00e7a ternamente ligada ao genitor do sexo oposto, ao passo que seu relacionamento com o do seu pr\u00f3prio sexo \u00e9 predominantemente hostil\u201d. (FREUD, 1931). Segundo Freud, tanto na menina quanto no menino, a m\u00e3e \u00e9 o primeiro objeto de amor. Ele se pergunta, ent\u00e3o, como, quando e por que a menina se desliga da m\u00e3e?<\/p>\n<p>Um dos principais motivos do afastamento da menina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e \u00e9 a decep\u00e7\u00e3o por parte da menina ao perceber que a m\u00e3e n\u00e3o tem p\u00eanis e que essa a fez incompleta. \u201cSeja como for, ao final dessa primeira fase de liga\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e, como motivo mais forte para a menina se afastar dela, a censura por a m\u00e3e n\u00e3o ter lhe dado um p\u00eanis apropriado, isto \u00e9, por t\u00ea-la trazido ao mundo como mulher&#8221; (FREUD, 1931). \u00c9 pela inveja do p\u00eanis, <em>penisneid<\/em>, que a menina se desligar\u00e1 da m\u00e3e e ir\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o ao pai.<\/p>\n<p>Por outro lado, Freud afirma que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil para a menina separar-se da m\u00e3e: \u201cNa verdade, t\u00ednhamos de levar em conta a possibilidade de um certo n\u00famero de mulheres permanecerem detidas em sua liga\u00e7\u00e3o original \u00e0 m\u00e3e e nunca alcan\u00e7arem uma verdadeira mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o aos homens. Assim sendo, a fase pr\u00e9-edipiana nas mulheres obteve uma import\u00e2ncia que at\u00e9 agora n\u00e3o hav\u00edamos atribu\u00eddo\u201d. (FREUD, 1931).<\/p>\n<p>Freud utiliza-se do termo cat\u00e1strofe nos casos em que a menina n\u00e3o consegue se separar da m\u00e3e. \u201cA transi\u00e7\u00e3o para o objeto paterno \u00e9 realizada com o aux\u00edlio das tend\u00eancias passivas, na medida em que escaparam \u00e0 cat\u00e1strofe\u201d. (FREUD, 1931).<\/p>\n<p>Miller, em seu artigo: A Crian\u00e7a entre a Mulher e a M\u00e3e, vai dizer que a crian\u00e7a n\u00e3o deve preencher a m\u00e3e, mas, sim, dividi-la entre m\u00e3e e mulher. \u201cOu a crian\u00e7a preenche ou a crian\u00e7a divide. Quanto mais a crian\u00e7a preenche a m\u00e3e, mais ela a angustia, de acordo com a f\u00f3rmula segundo a qual \u00e9 a falta da falta que angustia. A m\u00e3e angustiada \u00e9 inicialmente, aquela que n\u00e3o deseja, ou deseja pouco, ou mal, enquanto mulher.\u201d (MILLER, 1996, p.8).<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio, livro 17, O avesso da psican\u00e1lise, Lacan refere-se ao desejo da m\u00e3e, dizendo: \u201cO papel da m\u00e3e \u00e9 o desejo da m\u00e3e. \u00c9 capital. O desejo da m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 algo que se possa suportar assim, que lhe seja indiferente. Carreia sempre estragos. Um crocodilo em cuja boca voc\u00eas est\u00e3o \u2014 a m\u00e3e \u00e9 isso. N\u00e3o se sabe o que lhe pode dar na telha, de estalo fechar sua bocarra. O desejo da m\u00e3e \u00e9 isso\u201d. (LACAN, 1969-1970, p 105).<\/p>\n<p>Lacan retoma o termo freudiano cat\u00e1strofe para definir o seu conceito de devasta\u00e7\u00e3o. Para ele, a devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 inerente ao desejo da m\u00e3e. Esse desejo materno pode vir a causar danos.<\/p>\n<p>Pretende-se trabalhar a devasta\u00e7\u00e3o da mulher na sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e. O conceito de devasta\u00e7\u00e3o materna aparece no ensino de Lacan, a partir do seu texto <em>O<\/em> <em>Aturdito<\/em>, no momento em que ele est\u00e1 elaborando suas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o. Mais tarde, em seu Semin\u00e1rio 20, Mais, ainda, ele apresenta as f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o. Do lado masculino dessa f\u00f3rmula, os sujeitos s\u00e3o orientados pelo gozo f\u00e1lico, e do lado feminino, h\u00e1 o gozo f\u00e1lico e um gozo suplementar n\u00e3o regido pela significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Lacan define o feminino como n\u00e3o todo. Podemos pensar que esse gozo a mais, presente no sujeito feminino, enquanto m\u00e3e, \u00e9 que poder\u00e1 vir a causar devasta\u00e7\u00e3o em algumas mulheres na sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Em <em>O Aturdito<\/em>, Lacan utiliza-se do termo <em>ravage<\/em> (devasta\u00e7\u00e3o) para designar a rela\u00e7\u00e3o de uma mulher com sua m\u00e3e, dizendo o seguinte: \u201cPor essa raz\u00e3o, a elucubra\u00e7\u00e3o freudiana do complexo de \u00c9dipo, que faz da mulher um peixe na \u00e1gua, pela castra\u00e7\u00e3o ser nela ponto de partida (Freud dixit), contrasta dolorosamente com a realidade de devasta\u00e7\u00e3o que constitui, na mulher, em sua maioria, a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, de quem, como mulher, ela realmente parece esperar mais subst\u00e2ncia que do pai \u2013 o que n\u00e3o combina com ele ser \u2013 segundo, nesta devasta\u00e7\u00e3o\u201d. (LACAN, 1972, p. 465).<\/p>\n<p>Encontramos o tema da devasta\u00e7\u00e3o materna no romance: Barragem Contra o Pacifico, de Marguerite Duras. Na escrita de Duras, observa-se a \u00eanfase no tema da devasta\u00e7\u00e3o materna. O enredo \u00e9 centrado na personagem m\u00e3e, que ainda jovem deixou a Fran\u00e7a para trabalhar na Indochina Francesa. \u201cA m\u00e3e \u00e9 uma antiga professora do norte da Fran\u00e7a, que outrora fora casada com um professor. A um s\u00f3 tempo, impacientes e seduzidos por cartazes de propaganda e pela leitura de Pierre Loti, ambos tentaram a aventura colonial. Depois de alguns anos relativamente felizes, o pai morre e a m\u00e3e fica sozinha com os filhos Joseph e Suzane\u201d (DURAS, 1950).<\/p>\n<p>Ao ficar sozinha com seus filhos essa m\u00e3e n\u00e3o se casa novamente, exercendo, a partir da\u00ed, somente a fun\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. <em>Barragem contra o Pacifico<\/em> trata-se de um romance cuja m\u00e3e \u00e9 um sujeito que aposta todas as suas economias em um terreno inf\u00e9rtil \u00e0 beira do oceano pac\u00edfico. E ela, ao descobrir que o oceano invadia as suas planta\u00e7\u00f5es de arroz, ir\u00e1 construir in\u00fameras barragens contra essas invas\u00f5es, sendo que nunca obteve \u00eaxito em seu prop\u00f3sito. Ela envolve v\u00e1rios camponeses no seu projeto de constru\u00e7\u00e3o de uma barragem contra o oceano pac\u00edfico. Era uma m\u00e3e que se relacionava com o mar, tentando conter sua f\u00faria, suas invas\u00f5es, tornando-se, tamb\u00e9m, furiosa e devastadora como o mar e nada podia cont\u00ea-la.<\/p>\n<p>Em uma das passagens do texto o irm\u00e3o Joseph diz: \u201cTenho certeza de que todas as noites ela recome\u00e7a suas barragens contra o Pac\u00edfico. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que elas t\u00eam cem metros de altura ou dois metros de altura, depende se ela est\u00e1 bem ou n\u00e3o. Mas, pequenas ou grandes, ela as recome\u00e7a todas as noites. Era uma ideia bonita demais\u201d. (DURAS, 1950).<\/p>\n<p>Esse livro retrata a m\u00e3e como uma mulher obstinada, e exp\u00f5e o amor louco de uma m\u00e3e por seus filhos. Mostra, tamb\u00e9m, a rela\u00e7\u00e3o de amor permeada pelo \u00f3dio entre m\u00e3e e filha. Numa outra passagem do texto, Marguerite descreve a m\u00e3e assim: \u201cA m\u00e3e a fazia pensar em um monstro devastador. Tinha acabado com a paz de centenas de camponeses na plan\u00edcie. Tinha at\u00e9 desejado acabar com o Pac\u00edfico. Tivera tantos infort\u00fanios, que se tornara um monstro com um encanto poderoso, e seus filhos corriam o risco, para consol\u00e1-la de seus infort\u00fanios, de nunca a deixar, de se dobrar \u00e0s suas vontades, de se deixar devorar por ela\u201d (DURAS, 1950).<\/p>\n<p>O romance mostra uma m\u00e3e que foi enlouquecendo, a partir de seus fracassos, e uma filha muito submissa a essa m\u00e3e. A filha Suzanne manifestou-se, em diversos momentos do livro, o seu desejo de separar-se da m\u00e3e, mas algo a impedia. Ficara cuidando da m\u00e3e, e com muito sofrimento, at\u00e9 a morte desta. S\u00f3 ap\u00f3s a sua morte ela conseguir\u00e1 ir embora com seu irm\u00e3o para outra cidade, deixando para tr\u00e1s seu novo amante. Mesmo ocupando o lugar de causa de desejo para um homem, n\u00e3o conseguiu sustentar esse lugar por muito tempo.<\/p>\n<p>Conclui-se que, a devasta\u00e7\u00e3o em algumas mulheres, refere-se \u00e0 maneira como a crian\u00e7a se posicionou em rela\u00e7\u00e3o ao desejo da m\u00e3e. Pode-se pensar, que na maioria dos casos de devasta\u00e7\u00e3o, entre a mulher e sua m\u00e3e, esta m\u00e3e n\u00e3o se encontra dividida entre m\u00e3e e mulher como nos define Miller.<\/p>\n<p>Esse gozo suplementar, presente no sujeito feminino, enquanto m\u00e3e, \u00e9 que poder\u00e1 causar devasta\u00e7\u00e3o em algumas mulheres.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6>DURAS, M. Barragem contra o Pac\u00edfico. Tradu\u00e7\u00e3o da E. A. Ribeiro. S\u00e3o Paulo: Arx, 2003 (Trabalho original publicado em 1950).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Sexualidade feminina. In: Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, v. XXI, Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Texto original publicado em 1931).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Aturdito. In: Outros escritos, p. 369-370. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. (Trabalho original publicado em 1972).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 17: O avesso da psican\u00e1lise, Tradu\u00e7\u00e3o de Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991 (Trabalho original publicado em 1969 \u2014 1970).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio livro 20: Mais, ainda. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008 (Trabalho original publicado em 1972 \u2014 1973).<\/h6>\n<h6>MILLER, J. A Crian\u00e7a entre a Mulher e a M\u00e3e, Tradu\u00e7\u00e3o de Cristiana P. de Mattos, Cristina Vidigal, In\u00eas Seabra e Suzana Barroso (Publicado em 1996).<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto apresentado na Noite de Cart\u00e9is da Delega\u00e7\u00e3o ES.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sylara Hartung Ara\u00fajo Freud, no seu artigo Sexualidade Feminina, dir\u00e1: \u201cDurante a fase do complexo de \u00c9dipo normal, encontramos a crian\u00e7a ternamente ligada ao genitor do sexo oposto, ao passo que seu relacionamento com o do seu pr\u00f3prio sexo \u00e9 predominantemente hostil\u201d. (FREUD, 1931). 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