{"id":12043,"date":"2022-04-24T08:28:48","date_gmt":"2022-04-24T11:28:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12043"},"modified":"2022-04-24T08:28:48","modified_gmt":"2022-04-24T11:28:48","slug":"libido-nao-tem-genero1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/libido-nao-tem-genero1\/","title":{"rendered":"Libido n\u00e3o tem g\u00eanero<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Gilson Ianini (EBP\/AMP)<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12054\" aria-describedby=\"caption-attachment-12054\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12054 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/arranjos_003_006-300x122.jpeg\" alt=\"Fonte pixabay\" width=\"300\" height=\"122\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12054\" class=\"wp-caption-text\">Fonte pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cMenino nasce menino, menina nasce menina.\u201d Para gosto de uns, desgosto de outros, a an\u00e1lise l\u00f3gica dessas senten\u00e7as \u2013 rec\u00e9m-re-lan\u00e7adas como plataforma de governo \u2013 mostra-nos que elas s\u00e3o sempre verdadeiras, porque s\u00e3o tautol\u00f3gicas. O que \u00e9 uma tautologia? Tautologia \u00e9 uma senten\u00e7a que, independentemente dos fatos, \u00e9 sempre verdadeira. Mas que, por outro lado, n\u00e3o informa absolutamente nada sobre o real, assim como \u201cuma mesa \u00e9 uma mesa\u201d ou \u201cA = A\u201d. A vida, contudo, tem a mania inconveniente de complicar a l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Estamos agora nos confins do simb\u00f3lico, ali onde as coisas ganham nomes. Mas as nomea\u00e7\u00f5es precedem o nascimento dos corpos. Na sala de ultrassom, a partir da evid\u00eancia da aus\u00eancia ou presen\u00e7a de um pedacinho de carne, o m\u00e9dico sentencia: \u201c\u00e9 menino!\u201d, \u201c\u00e9 menina!\u201d Nomea\u00e7\u00f5es encadeiam afetos, que encadeiam novas nomea\u00e7\u00f5es: Jos\u00e9 ou Maria. Ou Jos\u00e9 Maria ou Maria Jos\u00e9. Ou ainda Dilma,\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/damares-alves\/\">Damares<\/a>, Djalma, Dagmar etc. Uns mais amb\u00edguos, outros menos. Sabemos o sexo do beb\u00ea, podemos marcar \u201cx\u201d nas fichas e nos cadastros, trata-se de uma primeira inscri\u00e7\u00e3o social. Temos, portanto, at\u00e9 agora, uma constata\u00e7\u00e3o da autoridade m\u00e9dica e a inscri\u00e7\u00e3o dessa constata\u00e7\u00e3o no dispositivo jur\u00eddico, que a fixa no registro civil. Mas, al\u00e9m disso, temos afetos agitando as expectativas, os medos, os desejos, os fantasmas dos pais, da fam\u00edlia, da sociedade. Esses afetos tamb\u00e9m s\u00e3o registrados de alguma maneira, mas em outro lugar, mais precisamente naquilo que\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/sigmund-freud\/\">Freud<\/a>\u00a0chamou de inconsciente.<\/p>\n<p>Quando dizemos \u201c\u00e9 menino\u201d, \u201c\u00e9 menina\u201d, dever\u00edamos nos interrogar n\u00e3o apenas sobre o significado dos termos \u201cmenino\u201d ou \u201cmenina\u201d, j\u00e1 que o conte\u00fado sem\u00e2ntico de uma palavra varia hist\u00f3rica e geograficamente, mas tamb\u00e9m sobre a for\u00e7a performativa do verbo \u201cser\u201d: o que quer dizer \u201c\u00e9\u201d? Esse \u00e9 o problema fundamental, pelo menos desde o debate Parm\u00eanides versus Her\u00e1clito. Quando dizemos que A \u201c\u00e9\u201d B, estabelecemos uma identidade fixa, um destino imut\u00e1vel, ou descrevemos um momento de um processo? \u00c9 verdade que \u201cuma mesa \u00e9 uma mesa\u201d, mas ela \u00e9 tamb\u00e9m madeira, vidro, metal, pl\u00e1stico etc., e sa\u00edmos da tautologia.<\/p>\n<p>O que surpreende \u00e9 que, no semipleno s\u00e9culo 21, pelo menos na surreal, fict\u00edcia e long\u00ednqua Rep\u00fablica de Pindorama, uma tautologia daquele tipo possa se elevar \u00e0 pol\u00edtica de governo. Por\u00e9m, a \u201ccom\u00e9dia dell\u2019arte\u201d do n\u00facleo pat\u00e9tico-ideol\u00f3gico do governo central n\u00e3o se contenta com a tautologia, e acrescenta: \u201cmenino veste azul\u201d, \u201cmenina veste rosa\u201d, para os aplausos da claque. O que n\u00e3o surpreende aqui \u00e9 o movimento de fundar a perspectiva\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/categoria\/edicoes\/202\/\">heteronormativa<\/a>\u00a0(a prescri\u00e7\u00e3o dos costumes e dos pap\u00e9is sociais de g\u00eanero metaforizados no rosa e no azul) na tautologia (lingu\u00edstica) e na autoridade m\u00e9dico-jur\u00eddica. Temos o conjunto homog\u00eaneo do que chamamos de matriz heteronormativa. O conjunto \u00e9 consistente e, num certo sentido, apaziguador. Tudo faz sentido, e tudo que \u201cfoge \u00e0 regra\u201d \u00e9 mera exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 patologia, numa palavra: n\u00e3o conta, n\u00e3o precisa contar, n\u00e3o pode contar. N\u00e3o surpreende que no segundo dia de governo, a men\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/lgbt\/\">LGBT<\/a>\u00a0tenha sido sumariamente exclu\u00edda das pol\u00edticas e diretrizes destinadas \u00e0 promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, por meio da Medida Provis\u00f3ria 870\/19.<\/p>\n<p>E, ent\u00e3o, a crian\u00e7a nasce. J\u00e1 tem um nome, um registro civil, uma anatomia. J\u00e1 sabemos seu sexo. Mas o que sabemos quando \u201csabemos o sexo do beb\u00ea?\u201d At\u00e9 agora, tudo o que sabemos \u00e9 uma particularidade anat\u00f4mica \u00e0 qual damos um nome. Mas, como diz a sabedoria popular, o futuro a deus pertence\u2026 o que quer dizer que nada sabemos sobre ele. Eis que aquele corpo ainda desamparado, incapaz de garantir at\u00e9 mesmo a pr\u00f3pria vida por suas pr\u00f3prias for\u00e7as, j\u00e1 \u00e9 capaz de experimentar prazeres e desprazeres, de afetar e de ser afetado pelo Outro, de satisfazer-se sem se submeter a finalidades ou a significados. A subst\u00e2ncia viva goza de uma maneira mais ou menos desordenada, causando espanto e deleite nos adultos: o rostinho de satisfa\u00e7\u00e3o quase m\u00edstica quando mama, a gargalhada deliciosa quando faz xixi no sof\u00e1 logo depois de trocar a fralda, o al\u00edvio beat\u00edfico quando faz um cocozinho, a cumplicidade er\u00f3tica dos olhares e o gozo sem sentido dos barulhos inarticulados, que fazem o adulto mais brutamontes emitir interjei\u00e7\u00f5es sem sentido naquela l\u00edngua antes da l\u00edngua que os beb\u00eas falam, e que o psicanalista<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/jacques-lacan\/\">\u00a0Jacques Lacan<\/a>\u00a0chamou de \u201clalangue\u201d. Os corpos gozam, afetam, experimentam, rejeitam, expelem, desejam. E querem mais. Repetem \u00e0 exaust\u00e3o. E ainda n\u00e3o falam, s\u00f3 balbuciam. O beb\u00ea humano n\u00e3o se contenta com a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades biol\u00f3gicas, quer mais. Esse a mais, chamamos de puls\u00e3o. O que nos impulsiona em dire\u00e7\u00e3o a um objeto qualquer n\u00e3o se reduz \u00e0 necessidade biol\u00f3gica, nem \u00e0 norma social. Por um lado, nossa fome se curva ao hor\u00e1rio do almo\u00e7o, nossas necessidades fisiol\u00f3gicas aos hor\u00e1rios do recreio ou do intervalo, nossas energias psicossexuais se ajustam aos calend\u00e1rios, \u00e0s geografias e paisagens urbanas. Nossa \u201cnatureza\u201d, nosso corpo biol\u00f3gico, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o natural assim. Por outro lado, nosso corpo pulsional \u201cfura\u201d as normas desde antes de podermos dizer \u201chelic\u00f3ptero\u201d: criamos nossas pr\u00f3prias geografias, paisagens e calend\u00e1rios, irredut\u00edveis que somos \u00e0s injun\u00e7\u00f5es do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que a sexualidade come\u00e7a a desestabilizar o arranjo m\u00e9dico-jur\u00eddico descrito acima. O processo de subjetiva\u00e7\u00e3o da sexualidade ou, numa palavra, a sexua\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo complexo que combina, em arranjos radicalmente singulares e contingentes, elementos heterog\u00eaneos e frequentemente discordantes: componentes biol\u00f3gicos (anat\u00f4micos, cromoss\u00f4micos, hormonais etc.); nomea\u00e7\u00f5es, prescri\u00e7\u00f5es e normas sociais (jur\u00eddicas, m\u00edtico-religiosas); conte\u00fados inconscientes vindos do Outro e experi\u00eancias subjetivas de gozo, prazer, desprazer etc. Isso sem falar nas crescentes possibilidades de interven\u00e7\u00e3o em nossos corpos que a ci\u00eancia e a tecnologia m\u00e9dica oferecem. Talvez essa seja a vari\u00e1vel mais espetacular do s\u00e9culo 20 no que tange \u00e0 sexualidade: tratamentos hormonais, cirurgias de redesigna\u00e7\u00e3o, tudo isso n\u00e3o seria poss\u00edvel sem o avan\u00e7o das tecnologias m\u00e9dicas que, diga-se de passagem, n\u00e3o s\u00e3o nem de esquerda, nem de direita. O problema \u00e9 que o real da ci\u00eancia \u00e9 radicalmente sem sentido, n\u00e3o se submete a um telos normativo ou moral, o que incomoda muita gente e faz fremir aqueles que suspiram pela unidade do sentido. O real da ci\u00eancia \u00e9 dif\u00edcil de suportar. N\u00e3o por acaso, Jacques Lacan percebia, como um efeito colateral do avan\u00e7o sem sentido da ci\u00eancia, nada mais nada menos que o triunfo da religi\u00e3o, guardi\u00e3 do sentido. As religi\u00f5es secretam sentido. A ci\u00eancia extrai sentido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a crian\u00e7a come\u00e7a a crescer, e a ser outra coisa que aquilo que era. Mas ela n\u00e3o \u00e9 uma m\u00f4nada: seu contato, seu atrito com o Outro recortam seu corpo. Para dar um exemplo simples, a crian\u00e7a tem necessidades fisiol\u00f3gicas, certamente, de fome, de sede, de expelir excrementos, de amor etc. Mas o Outro tem pressa, a m\u00e3e, ou o pai, ou algu\u00e9m diz: \u201cs\u00f3 mais uma colher!\u201d, \u201cest\u00e1 na hora de almo\u00e7ar!\u201d, \u201ctem que fazer xixi antes de sair!\u201d, \u201crespira fundo, for\u00e7a!\u201d. E, ent\u00e3o, a fonte pulsional se confunde com a demanda do Outro: o ritmo end\u00f3geno do corpo se deixa recortar, de bom ou de mau grado, por uma temporalidade ex\u00f3gena. No cerne do sujeito, um precipitado da demanda do Outro se confunde com minhas pr\u00f3prias necessidades, ativando processos fisiol\u00f3gicos: a puls\u00e3o se situa na fronteira entre o som\u00e1tico e o ps\u00edquico, o ps\u00edquico na fronteira da linguagem, a linguagem na fronteira do social, formando redes sutis e complexas, em camadas e linhas de fuga.<\/p>\n<p>A \u201cevid\u00eancia\u201d de que o menino nasce menino e a menina nasce menina se complica ainda mais quando percebemos que ambos, meninos e meninas, amam a m\u00e3e. O primeiro objeto de amor \u00e9 quase sempre a m\u00e3e (ou, mais precisamente, aquele que encarna a fun\u00e7\u00e3o materna). Uma distin\u00e7\u00e3o importante come\u00e7a a se estabelecer: uma coisa \u00e9 o sexo designado no nascimento, outra coisa \u00e9 o objeto de amor, ou aquilo que desejamos possuir (\u201ca mam\u00e3e \u00e9 s\u00f3 minha!\u201d). Uma primeira clivagem se estabelece: alguma suposta harmonia natural de atra\u00e7\u00e3o heterossexual rui imediatamente. Daqui em diante, diversas clivagens e antagonismos se inscrevem para o ser falante. Desde que fala, tem que dizer seu nome, tem que construir sua identidade. Estamos, portanto, diante de v\u00e1rios n\u00edveis e camadas diferentes de um longo processo de constitui\u00e7\u00e3o e de assun\u00e7\u00e3o da sexualidade.<\/p>\n<p>O que continua sendo inquietante \u2013 e que tem implica\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e ontol\u00f3gicas maiores \u2013 \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de que o sexo \u00e9 algo intrinsecamente err\u00e1tico e opaco, algo problem\u00e1tico e disruptivo para nossas identidades, mais do que uma mat\u00e9ria lisa e macia pronta a ser esculpida sem resist\u00eancia por nossa imagina\u00e7\u00e3o e arb\u00edtrio (sonho da ci\u00eancia), mais do que um espelho que reflita uma harmonia natural de atra\u00e7\u00e3o heterossexual pr\u00e9-estabelecida (del\u00edrio da religi\u00e3o).<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1930, Freud escreveu que \u201ca maioria dos homens tamb\u00e9m est\u00e1 muito aqu\u00e9m do ideal masculino, e que todos os indiv\u00edduos humanos, em raz\u00e3o de sua constitui\u00e7\u00e3o bissexual e da heran\u00e7a cruzada, re\u00fanem em si caracter\u00edsticas masculinas e femininas, de maneira que a pura masculinidade e a pura feminilidade s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de conte\u00fado incerto\u201d. Para a psican\u00e1lise, o processo de assun\u00e7\u00e3o da sexualidade envolve a disposi\u00e7\u00e3o bissexual constitutiva, a polimorfia pulsional, o car\u00e1ter neutro em termos de g\u00eanero da libido e a incid\u00eancia singular da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica para a organiza\u00e7\u00e3o genital infantil. A combina\u00e7\u00e3o desses elementos heterog\u00eaneos culminaria na inexist\u00eancia de g\u00eaneros masculino ou feminino puros. Al\u00e9m disso, o \u201cpatriarcal\u201d Freud representava o interesse m\u00fatuo entre homens e mulheres como o resultado complexo de acontecimentos contingentes, de arranjos prec\u00e1rios e de transi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Nesse sentido, para a psican\u00e1lise, no fundo de cada um de n\u00f3s, antes de nos decidirmos e construirmos nossas identidades e nossas escolhas objetais, a disposi\u00e7\u00e3o bissexual constitutiva do ser humano deixa suas marcas. Antes que cada um possa dizer algo acerca de seu lugar nas coordenadas de que dispomos, antes que possamos dizer \u201ceu sou\u201d, todos experimentamos prazeres e sensa\u00e7\u00f5es estritamente gender-free, que marcam nossos corpos indelevelmente. N\u00e3o \u00e9 isso o que Freud quer dizer quando diz que o inconsciente \u00e9 sexual?<\/p>\n<p>Freud insistiu teimosamente durante quase tr\u00eas d\u00e9cadas acerca do car\u00e1ter masculino da libido. Mas, ao fim e ao cabo, e muito provavelmente como efeito do trabalho das psicanalistas mulheres, cedeu quanto a esse ponto, chegando a falar de uma libido neutra em termo de g\u00eanero. Com efeito, na confer\u00eancia de 1933, \u201cA feminilidade\u201d, lemos: \u201cS\u00f3 existe uma libido, que est\u00e1 a servi\u00e7o tanto da fun\u00e7\u00e3o sexual masculina quanto da feminina. A ela pr\u00f3pria n\u00e3o podemos atribuir nenhum sexo\u201d.<\/p>\n<p>Aquela disposi\u00e7\u00e3o bissexual origin\u00e1ria dos seres falantes deixa res\u00edduos inconscientes, na medida em que uma das correntes \u00e9, com maior ou menor intensidade, recalcada em favor da corrente oposta. At\u00e9 certo ponto, em sociedades orientadas pelo falicismo, esse recalcado feminino de alguma forma se encontra \u201cassentado\u201d, depositado numa superf\u00edcie supostamente firme, mas que se quebra como a superf\u00edcie de um lago gelado. Avan\u00e7os vertiginosos da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica, assim como conquistas jur\u00eddicas, pol\u00edticas e sociais de grupos n\u00e3o hegem\u00f4nicos n\u00e3o raro culminam em trincas e rachaduras, que alguns se apressam em querer soldar. O que havia sido recalcado retorna, de uma maneira ou de outra, vestido de impulsos regressivos e obscurantistas. Ou, de outro modo, como explicar que homens h\u00e9teros, que ostentam todas as ins\u00edgnias da virilidade e gozam de todos os privil\u00e9gios, possam se sentir \u201coprimidos\u201d por minorias que lhes imp\u00f5e uma \u201cagenda gayzista\u201d ou pela \u201ctirania feminazi\u201d? Mas n\u00e3o apenas isso. O real insuport\u00e1vel que permanece desmentido tamb\u00e9m regressa, sob forma fetichizada, n\u00e3o simbolizada, de mitos redentores, dando ensejo a refluxo de matiz conservador. A quest\u00e3o estrutural da insufici\u00eancia de nosso saber para dar conta do gozo sem sentido do corpo (ningu\u00e9m, por raz\u00f5es estruturais, sabe o que fazer com o excedente pulsional) \u00e9, em calculada estultice, lida como circunst\u00e2ncia contingente, hist\u00f3rica, localiz\u00e1vel e, portanto, remedi\u00e1vel. A boa e velha pol\u00edtica do avestruz.<\/p>\n<p>Se a modernidade come\u00e7a com o desencanto e a liquida\u00e7\u00e3o de mitos, nossa era se desencanta do desencanto e desmistifica a pr\u00f3pria desmistifica\u00e7\u00e3o. Mas o pre\u00e7o disso n\u00e3o \u00e9 o decl\u00ednio das cren\u00e7as e das ilus\u00f5es. Ao contr\u00e1rio, o que caracteriza esse particular obscurantismo redivivo \u00e9 a aus\u00eancia de metaforiza\u00e7\u00e3o, a literalidade de cren\u00e7as. O fil\u00f3sofo esloveno\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/z-de-zizek\/\">Slavoj \u017di\u017eek<\/a>\u00a0faz uma observa\u00e7\u00e3o precisa a esse respeito. Quando os talib\u00e3s destru\u00edram monumentos milenares de Buda nas montanhas do Afeganist\u00e3o, o que choca n\u00e3o \u00e9 o desrespeito ao patrim\u00f4nio hist\u00f3rico mundial, mas a maneira pela qual a religi\u00e3o \u00e9 levada \u201ct\u00e3o a s\u00e9rio\u201d, sem nenhum tipo de media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica m\u00ednima. N\u00e3o por acaso, um suposto kit gay e uma delirante mamadeira faliforme tenham sido determinantes no autoengano de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que ainda acredita em fantasmas messi\u00e2nicos orientados pelo falo. Aprisionados por uma verdade que se sabe fake, fascinados por um mito que se sabe fal\u00e1cia, os desencantados pelo desencanto acabam oprimidos por sua pr\u00f3pria opress\u00e3o.<\/p>\n<h6><strong>Gilson Iannini<\/strong>\u00a0\u00e9 doutor em Filosofia pela USP, professor do Departamento de Psicologia da UFMG, editor da cole\u00e7\u00e3o\u00a0Obras incompletas de Sigmund Freud\u00a0(Aut\u00eantica).<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto publicado originalmente na Revista Cult. <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/libido-nao-tem-genero\/\">https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/libido-nao-tem-genero\/<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gilson Ianini (EBP\/AMP) \u201cMenino nasce menino, menina nasce menina.\u201d Para gosto de uns, desgosto de outros, a an\u00e1lise l\u00f3gica dessas senten\u00e7as \u2013 rec\u00e9m-re-lan\u00e7adas como plataforma de governo \u2013 mostra-nos que elas s\u00e3o sempre verdadeiras, porque s\u00e3o tautol\u00f3gicas. 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