{"id":12039,"date":"2022-04-24T08:43:09","date_gmt":"2022-04-24T11:43:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12039"},"modified":"2022-04-24T08:43:09","modified_gmt":"2022-04-24T11:43:09","slug":"incesto-e-rivalidade-nas-telas-da-tv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/incesto-e-rivalidade-nas-telas-da-tv\/","title":{"rendered":"Incesto e rivalidade nas telas da TV"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Juliana Bressanelli L\u00f3ra e <\/em><\/strong><strong><em>Tiago Barbosa<\/em><\/strong><\/h6>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12060 size-medium alignnone\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/arranjos_003_004-300x182.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"182\" \/><\/strong>Jocasta Silveira e \u00c9dipo Junqueira foram personagens da telenovela brasileira <em>Mandala<\/em>, exibida pela TV Globo em 1988, contracenada por Vera Fischer e Felipe Camargo nos papeis de m\u00e3e e filho. Trama inspirada na trag\u00e9dia grega de \u00c9dipo Rei, escrita por S\u00f3focles, na qual o \u00c9dipo, rei de Tebas, \u201csem sab\u00ea-lo\u201d, mata seu pai e desposa sua pr\u00f3pria m\u00e3e. Mas afinal, por que a trag\u00e9dia grega de mais de 400 anos antes de Cristo ainda figura um tabu na sociedade brasileira, a ponto de virar um chamariz para atrair a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico para o hor\u00e1rio nobre da televis\u00e3o?<\/p>\n<p>O mito de \u00c9dipo, tal como mencionado nas obras de Homero e na pe\u00e7a de S\u00f3focles, denuncia como muitas vezes a mitologia se confunde com fen\u00f4menos de realidade na hist\u00f3ria humana. A trag\u00e9dia, uma parte da celebra\u00e7\u00e3o a Dion\u00edsio, evidencia como a constata\u00e7\u00e3o da fragilidade humana suscita todo tipo de sentimento. Efeito de <em>catarsis<\/em>, de purga\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es, que o pr\u00f3prio Freud j\u00e1 havia posto \u00e0 prova, em seu uso do m\u00e9todo cat\u00e1rtico por meio da hipnose.<\/p>\n<p>Ainda no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Sigmund Freud, judeu, m\u00e9dico e neurologista, recorreu ao mito do \u00c9dipo para delinear a forma\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica incutida no desenvolvimento psicossocial dos seres humanos. Trata-se de um processo na constru\u00e7\u00e3o da personalidade com origem nas emo\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia em que os conflitos psicossexuais oral, anal e f\u00e1lico s\u00e3o cruciais.<\/p>\n<p>Foi a partir da observa\u00e7\u00e3o de seus pacientes hist\u00e9ricos, que Freud pode descrever uma fixa\u00e7\u00e3o libidinal, amorosa e agressiva, por interm\u00e9dio da puls\u00e3o, da crian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s figuras parentais. Elemento central no desenvolvimento da teoria psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>O conflito ed\u00edpico deriva da pe\u00e7a de S\u00f3focles que exprime o desejo sexual do menino pela m\u00e3e e a rivalidade com o pai, e comparece no desenvolvimento infantil, na medida em que ele teme que, se o seu pai souber o que ele deseja, ser\u00e1 punido com a castra\u00e7\u00e3o e talvez a morte. Numa resolu\u00e7\u00e3o \u201csaud\u00e1vel\u201d, a ang\u00fastia da castra\u00e7\u00e3o toma a forma de uma inst\u00e2ncia chamada superego, interditando seu acesso ao objeto desejado (a m\u00e3e), possibilitando a identifica\u00e7\u00e3o do menino ao pai, e a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade masculina. Diferentemente, para Freud, a menina resolve o conflito ed\u00edpico percebendo-se castrada e desloca o v\u00ednculo er\u00f3tico com a m\u00e3e (o primeiro objeto de desejo para ambos os sexos), para o pai.<\/p>\n<p>Recobrando o que acessamos por meio da pe\u00e7a grega, \u00e9 na busca por escapar a seu destino que \u00c9dipo se v\u00ea frente a frente com a Esfinge \u00e0s portas de Tebas. Ao tentar salvar a popula\u00e7\u00e3o tebana de um horr\u00edvel obst\u00e1culo, \u00c9dipo \u00e9 impelido a decifrar o enigma imposto pela terr\u00edvel criatura: que animal caminha pela manh\u00e3 em quatro patas, \u00e0 tarde em duas e \u00e0 noite em tr\u00eas? Ao que o jovem pr\u00edncipe responde: o homem. Livra, assim, a cidade e seu povo da destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi uma interroga\u00e7\u00e3o qualquer, trata-se de uma pergunta cuja resposta tem efeito de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois bem, ao se referir \u00e0 inf\u00e2ncia em sua obra paradigm\u00e1tica \u201cOs tr\u00eas ensaios para a teoria da sexualidade\u201d (1905), Freud aponta para o fato de que a curiosidade t\u00edpica deste per\u00edodo n\u00e3o acontece sem os questionamentos referentes \u00e0 origem da vida e \u00e0 pr\u00f3pria morte. A puls\u00e3o de saber (<em>Der wiesstrieb<\/em>), caminho desviado dos objetivos sexuais, impele a crian\u00e7a \u00e0 pesquisa sobre o mundo. Essa atividade de investiga\u00e7\u00e3o, correlata \u00e0 inibi\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es sexuais, estimula a crian\u00e7a na aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimentos e desenvolvimento do intelecto. Sendo assim, tudo come\u00e7a com a sexualidade (e seus caminhos). Assim como o enigma da esfinge provoca, a crian\u00e7a se pergunta sobre o que \u00e9 ser gente, de onde vem, onde estava antes de estar ali, o que \u00e9 ser homem ou mulher.<\/p>\n<p>O complexo de \u00c9dipo, articulado ao complexo da castra\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que trilha o acesso \u00e0 cultura pela submiss\u00e3o e pela identifica\u00e7\u00e3o com o pai, portador da Lei. Refor\u00e7ado pelos estudos antropol\u00f3gicos de Freud, em Totem e Tabu (1912-1913), representam o princ\u00edpio da civiliza\u00e7\u00e3o caracterizado pela interdi\u00e7\u00e3o do incesto e a instaura\u00e7\u00e3o da Lei que regula o jogo do desejo humano.<\/p>\n<p>Oras! A teoria freudiana trouxe um novo cismo para a humanidade. Nem Cop\u00e9rnico, que desalojou o ser humano do centro do universo, nem Darwin, que destituiu o homem da cria\u00e7\u00e3o divina, apunhalou t\u00e3o profundamente a humanidade quanto Freud, que a destituiu de uma consci\u00eancia plena sobre seus atos. A descoberta do complexo de \u00c9dipo est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0 do inconsciente, pois \u00e9 pelo complexo de \u00c9dipo que se cristalizam as inst\u00e2ncias do consciente, inconsciente e do superego.<\/p>\n<p>\u00c9dipo Rei \u00e9 talvez a primeira trag\u00e9dia policial de que se tem conhecimento. Mais de dois mil anos depois, aparece reescrita em uma telenovela pol\u00eamica que abordou outros temas fortes al\u00e9m do incesto, como bissexualidade, drogas, alcoolismo, racismo, repress\u00e3o e pol\u00edtica, tanto que, pelo teor de sua sinopse, chegou a ser vetada pela terminal, por\u00e9m ainda ativa, Censura Federal do governo Jos\u00e9 Sarney.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, isso j\u00e1 \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/h6>\n<h6>CLOONINGER, S. C. <strong>Teorias da Personalidade<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Claudia Berliner. S\u00e3o Paulo \u2013 SP: Martins Fontes, 1999.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. <strong>Um caso de histeria, Tr\u00eas ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos<\/strong>. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund. Rio de Janeiro: Imago, 1999.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. <strong>Obras Incompletas de Sigmund Freud: Neurose, Psicose, Pervers\u00e3o<\/strong> \u2013 Neurose e Psicose (1924). Belo Horizonte: Editora Aut\u00eantica, 2016.<\/h6>\n<h6>S\u00d3FOCLES.<strong> \u00c9dipo Rei<\/strong> (Cole\u00e7\u00e3o Obra Prima de Cada Autor). Tradu\u00e7\u00e3o: Sir Richard Jebbs. S\u00e3o Paulo: Editora Martin Claret, 2002.<\/h6>\n<h6>KAUFMANN, P. <strong>Dicion\u00e1rio enciclop\u00e9dico de psican\u00e1lise \u2013 O legado de Freud a Lacan<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1996.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juliana Bressanelli L\u00f3ra e Tiago Barbosa Jocasta Silveira e \u00c9dipo Junqueira foram personagens da telenovela brasileira Mandala, exibida pela TV Globo em 1988, contracenada por Vera Fischer e Felipe Camargo nos papeis de m\u00e3e e filho. 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