{"id":12037,"date":"2022-04-24T08:43:09","date_gmt":"2022-04-24T11:43:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12037"},"modified":"2022-04-24T08:43:09","modified_gmt":"2022-04-24T11:43:09","slug":"a-subversao-freudiana-a-partir-dos-tres-ensaios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-subversao-freudiana-a-partir-dos-tres-ensaios\/","title":{"rendered":"A Subvers\u00e3o freudiana a partir dos \u201cTr\u00eas ensaios\u201d"},"content":{"rendered":"<h6><em>Por H\u00edtala Gomes e Lucas Fraga Gomes<\/em><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12058\" aria-describedby=\"caption-attachment-12058\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12058 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/arranjos_003_003-300x199.jpeg\" alt=\"Foto de Bira Carvalho (@UbirajaradeCarv)\" width=\"300\" height=\"199\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12058\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Bira Carvalho (@UbirajaradeCarv)<\/figcaption><\/figure>\n<p>O texto freudiano <em>Tr\u00eas ensaios para a teoria da sexualidade <\/em>\u00e9 de fundamental relev\u00e2ncia, pois apresenta o conceito da puls\u00e3o, que tem uma import\u00e2ncia primordial para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Freud demonstra que a puls\u00e3o n\u00e3o tem sua origem apenas na zona genital, ela n\u00e3o se refere ao ato sexual em si ou a uma necessidade de reprodu\u00e7\u00e3o. A origem da puls\u00e3o se d\u00e1 justamente nas zonas er\u00f3genas, que podem ser qualquer parte do corpo. \u00c9 por meio da intromiss\u00e3o da linguagem no corpo da crian\u00e7a que essas zonas se tornam er\u00f3genas. Isso \u00e9 o que permitir\u00e1 Lacan afirmar no Semin\u00e1rio 23 \u201c[&#8230;] as puls\u00f5es s\u00e3o, no corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer [&#8230;]\u201d (LACAN, 1975-1976\/2007, p.18).<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia disto, Freud apresenta uma concep\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia que rompe com a ideia de pureza e inoc\u00eancia: a crian\u00e7a tamb\u00e9m porta uma sexualidade, ou seja, ela busca obter algum tipo de satisfa\u00e7\u00e3o. Desse modo, ocorre uma amplia\u00e7\u00e3o no conceito de sexualidade.<\/p>\n<p>Nesse texto, Freud indica que todos os indiv\u00edduos s\u00e3o perversos polimorfos, uma vez que buscam satisfa\u00e7\u00e3o de diversas formas. O fundamental aqui \u00e9 o prazer, a satisfa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a reprodu\u00e7\u00e3o. Por isso, ele considera que toda pessoa sadia acrescenta algo de perverso ao objeto sexual.<\/p>\n<p>A puls\u00e3o, portanto, \u00e9 entendida como um desvio do instinto. A boca, por exemplo, que teria uma fun\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica na alimenta\u00e7\u00e3o, se torna uma fonte de prazer, na medida em que a crian\u00e7a est\u00e1 apenas sugando o dedo para obter satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensar na amamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma boa forma de pensar a puls\u00e3o. Um beb\u00ea n\u00e3o recorre ao peito da m\u00e3e somente para se alimentar, por fome ou por sede. O peito \u00e9 tamb\u00e9m um conforto para alguma dor, uma necessidade de contato, uma vontade de dormir. Por outro lado, cabe tamb\u00e9m \u00e0 m\u00e3e, tentar chegar nessa medida necess\u00e1ria de cuidado e de afeto. Como n\u00e3o ultrapassar esse limite?<\/p>\n<p>Para Freud, o despertar da puls\u00e3o ocorre a partir dos cuidados maternos, e isso possibilita todo desenvolvimento do sujeito, incluindo as realiza\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e ps\u00edquicas. Se, por um lado, a falta de cuidado e de ternura ter\u00e3o efeitos futuros na vida da crian\u00e7a, o excesso de cuidado \u00e9, tamb\u00e9m, perigoso, uma vez que poder\u00e1 acelerar a maturidade sexual, ou ainda, tornar a crian\u00e7a incapaz de lidar com as frusta\u00e7\u00f5es posteriores, por n\u00e3o conseguir abrir m\u00e3o desse excesso de amor.<\/p>\n<p><strong>A atualidade do texto freudiano<\/strong><\/p>\n<p>As zonas er\u00f3genas realizam um movimento que vai do autoerotismo at\u00e9 uma primazia do genital durante o per\u00edodo da adolesc\u00eancia e, mesmo que esse movimento se apoie no corpo do sujeito, \u00e9 poss\u00edvel entender, com Lacan, que essa organiza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 justamente pela entrada do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dos cuidados do Outro, da l\u00edngua do Outro, que ocorre uma certa tentativa de enquadramento do pulsional. Al\u00e9m disso, a fun\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai encarnada por esse Outro abre a possibilidade de falar sobre o que h\u00e1 de silencioso na puls\u00e3o.<\/p>\n<p>O momento atual \u00e9 marcado por uma queda do Nome-do-Pai, \u00e9poca em que a lei simb\u00f3lica j\u00e1 n\u00e3o tem o mesmo estatuto, ent\u00e3o surgem diversas quest\u00f5es: quais os efeitos desse real desordenado para os sujeitos (em especial para as crian\u00e7as e para os adolescentes)? Ser\u00e1 que essa indica\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a do estatuto do Nome-do-Pai (e consequentemente da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica) permite pensar alguns sintomas que aparecem hoje na cl\u00ednica, tais como o corpo agitado das crian\u00e7as e, tamb\u00e9m os sujeitos adolescentes que se queixam de uma total aus\u00eancia de desejo? Como podemos pensar o pulsional, retomando o texto freudiano de 1905, em pleno s\u00e9culo XXI? Como pode o analista operar em sujeitos que encarnam a pura repeti\u00e7\u00e3o do pulsional, descolados do Outro?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Rio de Janeiro: Imago, 2006. In: <strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/strong>, vol. VII.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Os instintos e suas vicissitudes (1915). Rio de Janeiro: Imago, 2006. In: <strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/strong>, volXIV.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer (1920). Rio de Janeiro: Imago, 2006. In: <strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/strong>, vol. XVIII.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976) <strong>O Semin\u00e1rio, livro 23:<\/strong> o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.<\/h6>\n<h6>MACHADO, O. M.; Ribeiro, V.L.A. (org.). <strong>Um real para o s\u00e9culo XXI. <\/strong>Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por H\u00edtala Gomes e Lucas Fraga Gomes O texto freudiano Tr\u00eas ensaios para a teoria da sexualidade \u00e9 de fundamental relev\u00e2ncia, pois apresenta o conceito da puls\u00e3o, que tem uma import\u00e2ncia primordial para a psican\u00e1lise. 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