{"id":12035,"date":"2022-04-24T08:43:09","date_gmt":"2022-04-24T11:43:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=12035"},"modified":"2022-04-24T08:43:09","modified_gmt":"2022-04-24T11:43:09","slug":"sexualidade-feminina-do-registro-da-falta-ao-nao-todo-falico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/sexualidade-feminina-do-registro-da-falta-ao-nao-todo-falico\/","title":{"rendered":"Sexualidade feminina: do registro da falta ao n\u00e3o-todo f\u00e1lico."},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>Por Ana Paula F. Rezende e <\/em><\/strong><strong><em>Jaqueline Coelho<\/em><\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_12056\" aria-describedby=\"caption-attachment-12056\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12056 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/arranjos_003_002-300x225.jpeg\" alt=\"Foto de Ana Paula F. Rezende\" width=\"300\" height=\"225\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12056\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Ana Paula F. Rezende<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em entrevista \u00e0 <em>RUA<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> (Rede Universit\u00e1ria Americana)<\/em>, por ocasi\u00e3o do <em>X ENAPOL<\/em>, quando perguntado sobre como lidar com o ativismo de alguns movimentos atuais que questionam a psican\u00e1lise e chegam a reivindicar a interrup\u00e7\u00e3o de seu ensino nas Universidades, Laurent orientou rumo a um <em>\u201cenfrentamento \u00e0 boa maneira\u201d.<\/em> Conforme sustentou, para n\u00f3s, o ponto reside em consentir que h\u00e1 algo de faloc\u00eantrico em Freud, sem deixar de insistir no quanto isso \u00e9 superado pelos avan\u00e7os promovidos por Lacan.<\/p>\n<p><em>\u201cLacan reordenou a obra de Freud, passando do acento freudiano da libido masculina ao gozo feminino como o mais real do assunto\u201d <\/em>(E. Laurent, 2021)<em>.<\/em><\/p>\n<p>Em 1905, nos <em>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>, Freud afirmou que a crian\u00e7a tem uma puls\u00e3o de saber e come\u00e7a sua investiga\u00e7\u00e3o sexual. A cren\u00e7a na universalidade do p\u00eanis, ou seja, a suposi\u00e7\u00e3o de que todos os seres humanos possuem esse \u00f3rg\u00e3o, est\u00e1 posta tanto para o menino quanto para a menina. Por meio da compara\u00e7\u00e3o, na rela\u00e7\u00e3o com seu pr\u00f3prio corpo e com o corpo do outro, ambos entram na dial\u00e9tica do ter ou n\u00e3o ter, mediada tamb\u00e9m pela palavra.<\/p>\n<p>Para a menina, o clit\u00f3ris \u00e9 an\u00e1logo ao p\u00eanis, um substituto que confere \u00e0 sua atividade sexual um car\u00e1ter masculino. Inicialmente, ela confia que ele ir\u00e1 crescer. Posteriormente, por\u00e9m, a distin\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica entre os sexos acaba por impor suas consequ\u00eancias ps\u00edquicas, pois a percep\u00e7\u00e3o irremedi\u00e1vel da falta, diante da castra\u00e7\u00e3o materna, opera como uma <em>\u201cferida narc\u00edsica\u201d<\/em> e resulta num sentimento de inferioridade, tamb\u00e9m abordado como <em>\u201cinveja do p\u00eanis\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, o artigo <em>Sexualidade feminina<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a><\/em> aponta tr\u00eas possibilidades para o desenvolvimento sexual feminino:<\/p>\n<ul>\n<li>a inibi\u00e7\u00e3o sexual como resultado da insatisfa\u00e7\u00e3o com o clit\u00f3ris, que leva ao abandono da atividade f\u00e1lica e, com ela, da sexualidade em geral;<\/li>\n<li>a sa\u00edda pela masculinidade, \u00e0 qual a menina se aferra, na esperan\u00e7a de ainda conseguir o p\u00eanis; e<\/li>\n<li>a aposta na maternidade, que vai afrouxar sua rela\u00e7\u00e3o terna com a m\u00e3e, dirigi-la ao pai como objeto e afast\u00e1-la da masculinidade, encaminhando-a para a sexualidade feminina. Assim, ela muda a atividade sexual do clit\u00f3ris para a vagina (zona er\u00f3gena), cessa a masturba\u00e7\u00e3o e substitui o desejo pelo \u00f3rg\u00e3o pelo anseio de ter um filho, promovendo uma equival\u00eancia simb\u00f3lica entre <em>p\u00eanis<\/em> e <em>beb\u00ea<\/em>.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Aqui, ficam claros a aposta no falo e o acento na falta como leituras da subjetividade feminina. Entretanto, vale destacar que isso n\u00e3o responde a todas as quest\u00f5es de Freud sobre o assunto, j\u00e1 que ele mant\u00e9m o car\u00e1ter enigm\u00e1tico da sexualidade feminina, qualificando-a como um <em>\u201ccontinente negro\u201d<\/em>. Na <em>Confer\u00eancia XXIII<\/em>, <em>Feminilidade<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em>, ele admite a complexidade do assunto, reafirmando sobre a tend\u00eancia \u00e0 bissexualidade, inerente a todos os sujeitos. Segundo elabora: <em>\u201caquilo que constitui a masculinidade ou a feminilidade \u00e9 uma caracter\u00edstica desconhecida que foge ao alcance da anatomia\u201d<\/em> (p. 115). Portanto, j\u00e1 em Freud, a biologia n\u00e3o consegue responder sobre o real do sexo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Freud, no Semin\u00e1rio, livro 10, <em>A ang\u00fastia<\/em>, Lacan<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> (2005) articulou a f\u00f3rmula segundo a qual \u201c\u00e0 mulher n\u00e3o falta nada\u201d. Em um cap\u00edtulo intitulado <em>A mulher, mais verdadeira e mais <\/em>real, ele afirmou que <em>\u201ca falta, o sinal menos com que \u00e9 marcada a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica no homem, [&#8230;] n\u00e3o constitui para a mulher um n\u00f3 necess\u00e1rio\u201d<\/em> (p. 202). No Semin\u00e1rio, livro 20, <em>Mais, ainda<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a>, <\/em>Lacan avan\u00e7ou na discuss\u00e3o sobre a sexualidade feminina quando, a partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, bipartiu o gozo feminino, situando-o de um lado em rela\u00e7\u00e3o ao gozo f\u00e1lico e, de outro lado, em rela\u00e7\u00e3o a um gozo ilimitado, opaco, suplementar, que n\u00e3o se deixa apreender pelas vias do significante.<\/p>\n<p>Brousse (2012), no artigo <em>O que \u00e9 uma mulher?<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a><\/em>, afirma que, ao dizer que a mulher \u00e9 n\u00e3o toda, Lacan n\u00e3o a inferioriza. Diferentemente, complementa que ela possui uma extens\u00e3o de gozo \u2013 <em>n\u00e3o-toda f\u00e1lica \u2013<\/em>, ou seja, um Outro gozo, sem que possa ser concebida como toda apreendida na l\u00f3gica da castra\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 <em>\u201cassim\u00e9trica\u201d<\/em>, pois o gozo deixa de ser comparado ao masculino f\u00e1lico, para ser entendido como um gozo suplementar. Lacan avan\u00e7a ainda generalizando esse gozo em seus semin\u00e1rios ulteriores.<\/p>\n<p>O permanente enfrentamento \u00e0 boa maneira proposto por Laurent nos concerne a todos e os desafios sobre como faz\u00ea-lo se imp\u00f5em in\u00fameros. O pr\u00f3prio psicanalista aponta alguns, na referida entrevista, assinalando que, por exemplo, h\u00e1 correntes, especialmente na Am\u00e9rica Latina, que sustentam que Freud e Lacan s\u00e3o a mesma coisa, ou, ainda, que h\u00e1 pretensos lacanianos se propondo a empreender uma psican\u00e1lise trans, supostamente ajustando a psican\u00e1lise \u00e0s discuss\u00f5es de g\u00eanero. Nossa principal pergunta parece ser: como manter e sustentar a l\u00e2mina cortante da verdade psicanal\u00edtica nos tempos atuais?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LAURENT, E. (2021). Entrevista \u00e0 Rede Universit\u00e1ria Americana. Em: <strong>ENAPOL.<\/strong> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SKKsaJupVw0&amp;t=328s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SKKsaJupVw0&amp;t=328s<\/a>\u00a0 Acesso em 18\/03\/2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> FREUD, S. (1905) Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. Em:<strong> Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/strong>, V. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p.171-331.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> ______. (1931) Sexualidade feminina. Em:<strong> Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/strong>, V. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 231-254.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> ______. (1933(1932)) Feminilidade. Em:<strong> Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/strong>, V. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p.113-134..<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. <strong>O semin\u00e1rio, livro 10<\/strong>: a ang\u00fastia (1901-1981). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> ______. <strong>O semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais ainda (1972-1973). 3 edi\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> BROUSSE, M.-H. O que \u00e9 uma mulher? Entrevista com Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse. Em: <strong>Latusa Digital<\/strong>. Ano 9, n\u00ba 49, junho de 2012. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/livrozilla.com\/doc\/1358096\/latusa-digital-ano-9-\u2013-n.-49-\u2013-junho-de-2012.-o-que-\u00e9-uma...\">https:\/\/livrozilla.com\/doc\/1358096\/latusa-digital-ano-9-%E2%80%93-n.-49-%E2%80%93-junho-de-2012.-o-que-%C3%A9-uma\u2026<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Paula F. 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