{"id":11858,"date":"2021-09-15T07:10:23","date_gmt":"2021-09-15T10:10:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11858"},"modified":"2021-09-15T07:10:23","modified_gmt":"2021-09-15T10:10:23","slug":"editorial-boletim-amurados-08","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/editorial-boletim-amurados-08\/","title":{"rendered":"Editorial Boletim amurados #08"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>Aconteceu em tempos de c\u00f3lera e outras epidemias<\/strong><\/span><\/p>\n<h6><strong>Por Rosangela Ribeiro \u2013 Comiss\u00e3o <em>a<\/em>murados<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p><em>\u201cSe entregou sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de alto mar, e sem vest\u00edgios da cerim\u00f4nia sangrenta al\u00e9m da rosa da honra no len\u00e7ol. Ambos o fizeram bem, quase como um milagre, e continuaram a faz\u00ea-lo bem de noite e de dia e cada vez melhor no resto da viagem, e quando chegaram a La Rochelle, se entendiam como amantes antigos.\u201d<\/em><\/p>\n<h6>O amor nos tempos do c\u00f3lera<em>, Gabriel Garcia M\u00e1rquez, p. 198-9.<\/em><\/h6>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_11859\" aria-describedby=\"caption-attachment-11859\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11859 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/amurados_008_001-300x200.jpg\" alt=\"Imagem:Pixabay\" width=\"300\" height=\"200\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11859\" class=\"wp-caption-text\">Imagem:Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n<p>Col\u00e9ricos! Passionais!<\/p>\n<p>Assim, n\u00f3s latinos somos nomeados por aqueles que est\u00e3o de fora, que s\u00e3o estrangeiros ao nosso modo de vivenciar os afetos. A trag\u00e9dia em <em>Romeu e Julieta<\/em> n\u00e3o trata do amor: Romeu inicia essa obra shakespeariana apaixonado por Rosalina. Ele vai \u00e0 uma festa na casa dos Capuleto, na qual encontra Julieta, por quem se apaixona desesperadamente. Logo, h\u00e1 a c\u00e9lebre e c\u00e9lere cena da varanda. Juram o amor eterno. Isso ocorre de domingo para segunda. Casam-se na ter\u00e7a-feira. Amam-se uma \u00fanica vez e morrem na quinta-feira. Se fosse algo sobre o amor, seria extremamente fria. Em contrapartida, no can\u00f4nico romance <em>O amor nos tempos do c\u00f3lera<\/em>, do colombiano Gabriel Garcia M\u00e1rquez, Florentino Ariza sofre a aus\u00eancia da amada, Fermina Daza, por cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias. Para ela, ele escreveu cartas de amor por todo esse tempo. No primeiro encontro com Fermina, Ariza quer oferecer-lhe mais de setenta p\u00e1ginas nas quais descreve seu amor. Decide ler apenas uma, na qual continha o essencial. Arrebatado em gozo, Ariza retorna para casa e, pela sua fei\u00e7\u00e3o e por seus sintomas, sua m\u00e3e sabia o que acontecera, sabia de seu encontro com a amada. No entanto, a m\u00e3e desespera-se, pois\u201cele perdeu a fala e o apetite e passava as noites em claro rolando na cama. Mas quando come\u00e7ou a esperar a resposta \u00e0 sua primeira carta, sua ansiedade se complicou com caganeiras e v\u00f4mitos verdes, perdeu o sentido da orienta\u00e7\u00e3o e passou a sofrer desmaios repentinos, e a m\u00e3e se aterrorizou porque seu estado n\u00e3o se parecia com as desordens do amor e sim com os estragos do c\u00f3lera\u201d (M\u00c1RQUEZ, p. 82).<\/p>\n<p>Eis a\u00ed um amor col\u00e9rico, passional! Por que n\u00e3o dizer <em>latino<\/em>? Latinidade que transborda tamb\u00e9m na adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica do romance, dirigida por Mike Newell, com Fernanda Montenegro, que interpretou Tr\u00e1nsito Ariza, m\u00e3e de Florentino. Para confirmar a virul\u00eancia latina, o diretor ingl\u00eas sugeriu que a trilha sonora da pel\u00edcula fosse feita pelo brasileiro Antonio Pinto e por Shakira, cuja voz contralto\/mezzo-soprano confere uma dramaticidade gutural \u00e0 trilha, sobretudo ao bolero \u201cHay Amores\u201d. Observa-se que, tanto no romance quanto no filme, as muralhas de Cartagena n\u00e3o conseguiram conter o amor col\u00e9rico de Ariza por Fermina. Ele \u00e9 <em>a<\/em>muro que, conforme Jacques Lacan nos ensina, \u201caparece em signos bizarros no corpo. S\u00e3o esses caracteres sexuais que v\u00eam do al\u00e9m, desse local que temos acreditado podermos ocular no microsc\u00f3pio sob a forma de g\u00e9rmen \u2013 a respeito do qual farei voc\u00eas notarem que n\u00e3o se pode dizer que seja a vida, pois aquilo tamb\u00e9m porta a morte, a morte do corpo, por repeti-lo. \u00c9 de l\u00e1 que vem o mais, o <em>em-corpo<\/em> [<em>en corps<\/em>], o <em>A inda<\/em> [<em>encore<\/em>]\u201d (1985.p. 13).<\/p>\n<p>Os gestos e atos col\u00e9ricos, enfim, afetos, no entanto, n\u00e3o se condensam apenas em formas belas do amor. Afetos s\u00e3o dionis\u00edacos; n\u00e3o apol\u00ednios! Nesse sentido, esse \u00faltimo editorial traz contribui\u00e7\u00f5es para refletirmos tanto sobre o amor como c\u00f3lera quanto sobre outras formas col\u00e9ricas de afeto.<\/p>\n<p>Frederico Feu de Carvalho nos apresenta seu texto <em>Erotomania: um modo de amor feminino<\/em>, em que a erotomania\u00e9 \u201cuma reinvindica\u00e7\u00e3o nascida da exig\u00eancia pulsional do Um, em rela\u00e7\u00e3o ao parceiro, ao existir-a-dois. O Real, pr\u00f3prio \u00e0 erotomania, \u00e9 o amor como imposs\u00edvel\u201d.Carvalho trabalha a erotomania a partir do filme \u201cUm Instante de Amor\u201d, de Nicole Garcia(2016), mostrando o amor feminino, na histeria e na psicose.<\/p>\n<p>Adriana Pessoa, Simone Vieira e Wal\u00e9ria Paix\u00e3o adentram no romance de M\u00e1rquez <em>O amor nos tempos do c\u00f3lera<\/em> mostrando que o amor de Florentino Ariza <em>fez <\/em>o amor acontecer, dar certo. Por\u00e9m, a psican\u00e1lise aponta que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe, em nenhum aspecto, n\u00e3o apenas como uma complementaridade entre os sexos. N\u00e3o h\u00e1, para esse saber, nenhuma modalidade de rela\u00e7\u00e3o. A fantasia neur\u00f3tica quer fazer com que, imaginariamente, a rela\u00e7\u00e3o sexual exista no encontro amoroso, por exemplo, mas se trata de uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Na rubrica <strong>Aconteceu em tempos de peste<\/strong>, Regina Cheli Prati apresenta seu texto <em>A gripe espanhola e a pandemia de COVID-19<\/em>, onde traz semelhan\u00e7as entre as duas pandemias. A autora mostra-nos que Freud fora golpeado pela primeira delas, pois, devido a ela, perde sua filha de vinte e seis anos que deixa dois filhos. N\u00e3o bastassem o clima de uma guerra inacabada, as acirradas pr\u00e1ticas antissemitas, a dor \u00e9 ainda ratificada pela perda da filha. A hist\u00f3ria se repete? Que lugar dar \u00e0 morte em nossas reflex\u00f5es? H\u00e1 um fim para o ato de velar? O que Freud pode nos ensinar sobre isso?<\/p>\n<p>Finalmente, a partir do conto <em>Sarapalha<\/em> (<em>Sagarana<\/em>), de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, do texto teatral <em>O Rinoceronte<\/em>, do dramaturgo franco-romeno Eug\u00e8ne Ionesco, de <em>Ensaio sobre a Cegueira<\/em>, de Jos\u00e9 Saramago, e, ao fim, com reflex\u00f5es de Jacques-Alain Miller em <em>El psicoan\u00e1lisis tambi\u00e9n es una epidemia<\/em>, Simone Vieira e Regina Prati convidam-nos a pensar sobre encontros e desencontros inerentes \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>O barco navega e estamos nele. N\u00e3o h\u00e1 aqui, como dissemos, apenas a possibilidade das formas belas e inspiradoras dos afetos passionais. Afetos, insistimos, s\u00e3o dionis\u00edacos! Nesse barco, a bandeira amarela est\u00e1 hasteada, n\u00e3o para garantir a plenitude do amor de Ariza e Fermina. N\u00e3o se trata de uma bandeira colocada propositalmente para fazer um semblante. A bandeira nesse barco em que estamos \u00e9 contingencial! Estamos em tempos col\u00e9ricos: h\u00e1 amores; h\u00e1 \u00f3dio; h\u00e1 mortes! E o barco segue&#8230;<\/p>\n<p>A todos n\u00f3s, boa jornada!!!<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Bibliografia:<\/h6>\n<h6>M\u00c1RQUEZ, Gabriel Garcia. <em>O amor nos tempos do c\u00f3lera.<\/em> Rio de Janeiro: Record, 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aconteceu em tempos de c\u00f3lera e outras epidemias Por Rosangela Ribeiro \u2013 Comiss\u00e3o amurados \u201cSe entregou sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de alto mar, e sem vest\u00edgios da cerim\u00f4nia sangrenta al\u00e9m da rosa da honra no len\u00e7ol. 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