{"id":11855,"date":"2021-09-15T07:07:58","date_gmt":"2021-09-15T10:07:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11855"},"modified":"2021-09-15T07:07:58","modified_gmt":"2021-09-15T10:07:58","slug":"erotomania-um-modo-de-amor-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/erotomania-um-modo-de-amor-feminino\/","title":{"rendered":"Erotomania: Um modo de amor feminino"},"content":{"rendered":"<h6>Por Frederico Feu de Carvalho (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_11856\" aria-describedby=\"caption-attachment-11856\" style=\"width: 791px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-11856\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/amurados_008_002.jpg\" alt=\"Imagem: adorocinema.com.\" width=\"791\" height=\"465\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11856\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: adorocinema.com.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A erotomania \u00e9 uma exig\u00eancia pulsional derivada do postulado erot\u00f4mano, isolado por De Cl\u00e9rambault, de que o Outro me ama. Pode ser tomada como um del\u00edrio de interpreta\u00e7\u00e3o a partir de um signo de amor supostamente emitido pelo Outro<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Em termos lacanianos, o postulado erot\u00f4mano descreve o fato de estrutura fundamental do ser falante que podemos resumir como \u201ca hip\u00f3tese do Outro\u201d (por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 hip\u00f3tese do mental). Podemos deduzir essa hip\u00f3tese do fato de que, para todo ser falante, o gozo constitui um problema, o problema libidinal por excel\u00eancia, por n\u00e3o ser nem program\u00e1vel por uma determina\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, nem socialmente constru\u00eddo, pela via das identifica\u00e7\u00f5es ideais.<\/p>\n<p>O gozo \u00e9, nesse sentido, um excesso, por extrapolar as possibilidades de subjetiva\u00e7\u00e3o. A hip\u00f3tese do Outro implica que o problema libidinal que afeta o ser falante \u00e9 endere\u00e7ado a esse Outro sob a forma da demanda, estabelecendo um trajeto de idas e vindas que comportam um resto, uma perda, uma entropia. Em outros termos, o gozo n\u00e3o faz la\u00e7o com o Outro e retorna ao ser falante como Um, como se expressa Lacan para designar o limite autoer\u00f3tico do gozo. Podemos explorar algumas consequ\u00eancias desse fato, sendo uma delas a deslocaliza\u00e7\u00e3o e a falta de bordas do gozo erot\u00f4mano, o que faz dele uma forma que tem parentesco com a loucura em sentido amplo, assumindo, muitas vezes, a forma de uma devasta\u00e7\u00e3o. A devasta\u00e7\u00e3o pode ser definida, justamente, como a marca da presen\u00e7a do gozo no amor. \u201cMulheres que amam demais\u201d, por exemplo, sempre s\u00e3o devastadas por esse \u201ca mais\u201d que a elas retornam.<\/p>\n<p>A erotomania seria, portanto, o gozo do amor do qual prov\u00e9m a tens\u00e3o entre o Um e o Dois. Ela \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o nascida da exig\u00eancia pulsional do Um, em rela\u00e7\u00e3o ao parceiro, ao existir-a-dois. O Real pr\u00f3prio \u00e0 erotomania \u00e9 o amor como imposs\u00edvel. A erotomania pode ser pensada, ent\u00e3o, como um empuxo em dire\u00e7\u00e3o ao Dois que n\u00e3o existe, em contraste com o \u201cempuxo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher que n\u00e3o existe\u201d do Presidente Schreber. Esse empuxo em dire\u00e7\u00e3o ao Dois, \u00e0 exist\u00eancia de um par, assume a forma da exig\u00eancia de reconhecimento de si como o objeto que falta a esse existir-a-dois. O gozo erot\u00f4mano n\u00e3o visa, portanto, a fazer A Mulher existir, como em Schreber, mas ao reconhecimento de ser aquela <em>uma<\/em> mulher que conv\u00e9m <em>\u00e0quele<\/em> homem. A erotomania demonstra, assim, a b\u00e1scula do sujeito barrado em rela\u00e7\u00e3o ao objeto.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa exig\u00eancia amorosa que Lacan descreve como a condi\u00e7\u00e3o erot\u00f4mana do amor do lado da mulher, em disson\u00e2ncia com a condi\u00e7\u00e3o fetichista do amor do lado homem. Se, do lado homem, revela-se, segundo Freud, a divis\u00e3o entre o objeto da puls\u00e3o e o objeto amoroso, a erotomania feminina visa unificar o amor e o gozo, seja ao tomar o desejo fetichista como um signo de amor, seja ao sobrepor ao objeto do desejo fetichista, ao qual ela se identifica, a condi\u00e7\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p><strong>A erotomania na psicose e na histeria<\/strong><\/p>\n<p>Podemos apontar na erotomania uma hipertrofia do Imagin\u00e1rio (a-a\u2019) que tem como efeito a especulariza\u00e7\u00e3o do amor e a exig\u00eancia de reciprocidade e reconhecimento. \u00c9 essa tens\u00e3o entre o objeto e o dejeto que coloca o sujeito erot\u00f4mano sempre \u00e0 beira da morte. De fato, o sujeito erot\u00f4mano trata sua exig\u00eancia como uma quest\u00e3o de vida ou morte. A qualquer momento, a simples negativa dessa exig\u00eancia precipita o sujeito na dire\u00e7\u00e3o da morte, \u00e0 sua queda como dejeto do Outro. A erotomania parece mostrar da maneira mais pungente a \u00edntima associa\u00e7\u00e3o entre amor e \u00f3dio. Tudo est\u00e1 suspenso \u00e0 resposta do Outro \u00e0 demanda de amor erot\u00f4mano.<\/p>\n<p>O que distingue a erotomania na psicose talvez seja o grau de certeza da cren\u00e7a subjetiva no amor do Outro, o que faz com que, diante de uma negativa, o sujeito possa responder com a passagem ao ato ou de uma forma assint\u00f3tica: \u201cele diz que n\u00e3o me ama, mas \u00e9 porque ele ainda n\u00e3o reconheceu esse amor nele mesmo, ou n\u00e3o reconheceu em mim o objeto perdido pelo qual ele anseia\u201d.<\/p>\n<p>De uma maneira geral, a forma erot\u00f4mana de gozo sup\u00f5e que o sujeito se identifique ao objeto que falta ao Outro. Na histeria, em especial, como demonstrou Freud, isso sup\u00f5e o pai impotente, o pai em falta em rela\u00e7\u00e3o ao Falo, o pai castrado. O que caracteriza a erotomania hist\u00e9rica, portanto, \u00e9 o dom\u00ednio da fantasia pela qual o sujeito erot\u00f4mano pode se oferecer ao Outro como esse objeto e redimir sua falta. Nesse sentido, podemos nos referir \u00e0 fantasia erot\u00f4mana como um vislumbre de conjun\u00e7\u00e3o entre o sujeito barrado e o objeto mais-de-gozar. Mas esse objeto, na histeria, est\u00e1 determinado como objeto causa de desejo, como falta, cumprindo assim uma fun\u00e7\u00e3o mediadora, nem que seja na forma de um amor devotado ou enlouquecido. A separa\u00e7\u00e3o entre sujeito e Outro est\u00e1 dada como condi\u00e7\u00e3o do amor erot\u00f4mano na histeria. Na psicose, o sujeito <em>\u00e9<\/em> o objeto. Ele est\u00e1 certo disso. Portanto, n\u00e3o se trata aqui das conting\u00eancias do amor, mas de uma necessidade, de uma copula\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto que desmente a barra colocada sobre o Outro.<\/p>\n<p>De fato, podemos dizer que, em uma psicose, o sujeito erot\u00f4mano localiza o objeto com o qual ele se identifica <em>no<\/em> Outro, de forma especular, da mesma forma que o paranoico localiza o gozo <em>no<\/em> Outro. \u00c9 o que d\u00e1 sentido \u00e0 forma reivindicativa do amor erot\u00f4mano, desde que o Outro lhe revelou o signo de amor. \u00c9 preciso, ent\u00e3o, que o Outro reconhe\u00e7a no sujeito erot\u00f4mano a forma desse objeto que completaria esse Outro, na aus\u00eancia do que, dir\u00e1 o erot\u00f4mano, a vida se reduz a nada.<\/p>\n<p>A forma erot\u00f4mana se liga, portanto, a uma recusa da feminilidade, isto \u00e9, uma recusa do n\u00e3o-todo que a caracteriza e que corresponde, no Outro, ao S(\u023a). A hist\u00e9rica, por sua vez, mant\u00e9m o interesse pela feminilidade, embora de uma forma velada, passando por uma outra mulher, como uma corrente paralela, como Freud mostrou no caso Dora, em rela\u00e7\u00e3o ao interesse de Dora pela Sra. K. Na psicose, podemos dizer,esseinteresse pela feminilidade, por aquilo que pode vir a causar o desejo do Outro pela via de um atributo, se encontra obstru\u00eddo pela certeza delirante.<\/p>\n<p><strong><em>Um instante de amor (\u201cMal de Pierres\u201d, 2016)<\/em><\/strong><strong>: recalque ou forclus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>No filme de Nicole Garcia, o estatuto cl\u00ednico da erotomania, entre psicose e neurose, pode parecer, a princ\u00edpio, n\u00e3o muito claro. Por um lado, h\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es para conjecturar que a realidade \u00e9 radicalmente alterada devido ao amor erot\u00f4mano de Gabrielle, uma vez que a nega\u00e7\u00e3o, que caracteriza a opera\u00e7\u00e3o fundamental do inconsciente, incide mais sobre a realidade do que sobre o desejo. Mas, aos poucos, vemos que a personagem de Marion Cotillard, Gabrielle, evoca em muitos aspectos uma histeria cl\u00e1ssica, onde n\u00e3o faltariam os elementos alucinat\u00f3rios ligados \u00e0 remodela\u00e7\u00e3o da realidade pela fantasia, que mant\u00e9m vivo o desejo erot\u00f4mano. De fato, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar, nos primeiros textos de Freud, refer\u00eancias ao esquecimento hipn\u00f3tico e \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es como um complemento do recalque, ou seja, como uma manifesta\u00e7\u00e3o da fantasia inconsciente \u00e0 qual o sujeito se encontra aderido em detrimento da realidade da falta que o sujeito erot\u00f4mano n\u00e3o pode reconhecer.<\/p>\n<p>Como afirma Freud (1924\/1969), a nega\u00e7\u00e3o que incide sobre o elemento pulsional do desejo afeta o campo da realidade, sendo uma demonstra\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter dominante do <em>Isso<\/em> sobre a realidade. Essa ades\u00e3o \u00e0 fantasia parece se justificar, no caso da erotomania, por uma decis\u00e3o, uma devo\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o se tenha que renunciar ao amor, isto \u00e9, \u00e0quilo que Gabrielle chama de \u201ca coisa mais importante\u201d, na falta da qual a vida n\u00e3o vale a pena. Vimos que o que caracteriza a forma erot\u00f4mana \u00e9 a ades\u00e3o incondicional ao desejo, uma impossibilidade subjetiva de renunciar a esse desejo. \u00c9 essa impossibilidade que lhe confere o aspecto de uma loucura. O recalque n\u00e3o incide, portanto, sobre o representante do desejo; ao contr\u00e1rio, o sujeito erot\u00f4mano adere obstinadamente ao desejo e nada quer saber da falta que o caracteriza.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos perder de vista que o filme de Nicole Garcia \u00e9 ambientado nos anos 40, embora seu transcurso se d\u00ea em torno de 15 anos ou mais, em um per\u00edodo, portanto, que antecede as grandes transforma\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-guerra. Al\u00e9m disso, o roteiro (baseado no romance italiano, \u201cMal di Pietre\u201d, de Milena Agus) nos permite abordar uma modula\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel ao poss\u00edvel mais pr\u00f3xima de uma muta\u00e7\u00e3o subjetiva do que da certeza psic\u00f3tica.<\/p>\n<p>De fato, podemos dizer que a fantasia assume aqui uma forma delirante, onde a realidade \u00e9 negada para a perpetua\u00e7\u00e3o da fantasia. A trama se desenvolveria em tr\u00eas tempos: 1- a vig\u00eancia do amor erot\u00f4mano; 2- tempo de recusa e nega\u00e7\u00e3o, que corresponde ao longo per\u00edodo em que Gabrielle alimenta o del\u00edrio de retorno de Sauvage (Louis Garrel), a quem ela dedica seu amor durante o tratamento de seu \u201cmal de pierre\u201d; 3- momento de retifica\u00e7\u00e3o da realidade e reconhecimento da fantasia,que torna poss\u00edvel a abertura a um novo amor. A modula\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel ao poss\u00edvel, que vemos realizar-se no desfecho da trama, descreve, segundo essa leitura, uma forma de travessia da fantasia erot\u00f4mana na dire\u00e7\u00e3o desse novo amor. Veremos se essa hip\u00f3tese pode ser sustentada.<\/p>\n<p>Esse desfecho parece esclarecer, <em>a posteriori<\/em>, sobre o qu\u00ea incide a recusa de Gabrielle no segundo tempo da trama: recalque ou forclus\u00e3o? Ao optar pela fantasia, estamos tomando partido do recalque, na forma de uma erotomania hist\u00e9rica cl\u00e1ssica, em que a realidade \u00e9 negada e remodelada pela fantasia em nome da preserva\u00e7\u00e3o do gozo erot\u00f4mano do amor. Isso mostra que o recalque tamb\u00e9m pode ter como destino um amor louco.Proponho nomear esse segundo tempo como uma solu\u00e7\u00e3o de compromisso no qual a fantasia acede ao lugar do sintoma (cuja forma \u00e9 uma convers\u00e3o corporal, uma dor diagnosticada como \u201cmal de pierre\u201d ou, simplesmente, c\u00f3lica renal).<\/p>\n<p>O fragmento de realidade que \u00e9 negado corresponde \u00e0 castra\u00e7\u00e3o:<em> n\u00e3o existe um x que n\u00e3o seja castrado<\/em>, conforme a premissa universal do lado feminino do quadro da sexua\u00e7\u00e3o desenvolvido por Lacan em <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>. A erotomania \u00e9 uma esp\u00e9cie de devo\u00e7\u00e3o \u00e0 falta do Outro, ao S(\u023a), na medida em que a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 localizada no campo do Outro n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a devo\u00e7\u00e3o de Gabrielle encontra seu objeto em um oficial do ex\u00e9rcito que foi ferido na guerra da Indochina e que se encontra agora \u00e0 beira da morte.<\/p>\n<p>A remodela\u00e7\u00e3o da realidade pela fantasia, sem d\u00favida delirante, poderia ser descrita nesses termos: ele n\u00e3o est\u00e1 morto; ele se encontra apenas ausente; sua aus\u00eancia cava em mim um buraco; mas quando ele retornar, esse buraco ser\u00e1 sanado pelo amor. A erotomania pode ser definida, nesse sentido, como um falso buraco, um erro de localiza\u00e7\u00e3o, como se esse buraco pudesse ser suprido pela fantasia. \u201cO verdadeiro furo est\u00e1 aqui, diz Lacan onde se revela que n\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro\u201d(LACAN 1975-1976 \/ 2007). Ou seja, ao contr\u00e1rio do que assevera a forma erot\u00f4mana do amor, \u2018n\u00e3o h\u00e1 um Outro que, em lugar de exce\u00e7\u00e3o, possa ter sua falta suprida\u2019. O gozo erot\u00f4mano do amor corresponde, justamente, \u00e0 fantasia de que o amor possa <em>suprir<\/em> uma falta-a-ser e assim fazer a rela\u00e7\u00e3o sexual existir. O que Lacan diz \u00e9 o contr\u00e1rio: o amor vem em <em>supl\u00eancia<\/em> da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>O que permite a passagem do segundo tempo ao desfecho da trama passa, portanto, por uma retifica\u00e7\u00e3o do axioma erot\u00f4mano que permite a Gabrielle localizar o furo para al\u00e9m da castra\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do gozo f\u00e1lico inerente \u00e0 erotomania. A trama do filme termina como uma abertura \u00e0 dimens\u00e3o propriamente feminina que corresponde ao segundo termo do quadro da sexua\u00e7\u00e3o, o n\u00e3o-todo f\u00e1lico. A partir do momento em que Gabrielle desce do carro em Lyon, no caminho para acompanhar o exame do filho pianista no conservat\u00f3rio da cidade, ainda sob a reg\u00eancia da fantasia que ela parece manter como uma <em>reserva<\/em> de gozo erot\u00f4mano, inicia-se o p\u00e9riplo que ir\u00e1 verificar e circunscrever esse furo. Passaram-se anos, seu filho j\u00e1 \u00e9 um adolescente; ela se manteve ao lado de Jos\u00e9, em quem reconhece um bom marido. Mas ela permaneceu atrelada \u00e0 sua fantasia, mesmo que possa, de um modo geral, manter-se de p\u00e9, desde que interrompeu o envio de suas cartas a Sauvage.<\/p>\n<p>Esse p\u00e9riplo se d\u00e1 em torno da constata\u00e7\u00e3o da morte de Sauvage, esse n\u00facleo do real que a fantasia emoldurava, cujo ponto culminante, o verdadeiro atestado, \u00e9 uma foto guardada e mantida na mesma mala desde a sua sa\u00edda da cl\u00ednica, onde, ao contr\u00e1rio do que supunha a sua remodela\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica da realidade, no lugar em que deveria estar Sauvage, h\u00e1 uma cadeira vazia.<\/p>\n<p>O verdadeiro furo, se acompanhamos Lacan, \u00e9 irremedi\u00e1vel e n\u00e3o pode ser objeto de nenhuma supress\u00e3o, seja na forma de uma fantasia, seja na forma de um del\u00edrio. N\u00e3o por acaso sua figura soberba \u00e9 a morte, o \u201csenhor absoluto\u201d. A forma\u00e7\u00e3o de compromisso que garante a vig\u00eancia da fantasia, segundo Freud, obedece a essa dupla condi\u00e7\u00e3o: o fragmento de realidade, no caso, a morte de Sauvage, \u00e9 ao mesmo tempo admitido e negado. N\u00e3o poderia ser negado se n\u00e3o fosse admitido. Mas o sujeito erot\u00f4mano n\u00e3o consente com o real. Ali\u00e1s, ela diz ao m\u00e9dico que a acolhe na cl\u00ednica de tratamento, lhe explica os procedimentos e tenta tranquiliz\u00e1-la: \u201ce se eu n\u00e3o quiser me curar?\u201d. Ela parece decidida a encontrar ali o seu objeto, mantendo-se afastada da rotina do casamento, e cada vez mais se interessa pelo trabalho das enfermeiras, com as quais faz amizade e se identifica.<\/p>\n<p><strong>A trama<\/strong><\/p>\n<p>Essa verifica\u00e7\u00e3o do verdadeiro furo merece ser escandida, e abre uma discuss\u00e3o interessante sobre a posi\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 (Alex Brendem\u00fchl), o oper\u00e1rio, o art\u00edfice, e sua parceria com Gabrielle. A personagem de Jos\u00e9 passa, a meu ver, de uma posi\u00e7\u00e3o coadjuvante, subalterna, para uma posi\u00e7\u00e3o central na trama, por assim dizer.<\/p>\n<p>Recordemos o essencial dessa trama: Gabrielle \u00e9 uma adolescente problem\u00e1tica, que vive com o pai, a m\u00e3e e uma irm\u00e3 em um ambiente rural no qual Jos\u00e9 trabalha. Ela se apaixona por um professor que lhe empresta um livro, \u201cum livro de amor\u201d, que Gabrielle interpreta como um signo de amor do professor. Ela ent\u00e3o se apresenta a ele em uma festa da colheita, com sua certeza erot\u00f4mana. Ele a recusa, diz que ela \u00e9 louca, que aquilo era s\u00f3 um livro, o que de nada adianta. Ela se desespera na frente de todos, para o constrangimento da m\u00e3e, que sempre a acompanha com um olhar severo e pouco afetuoso. Gabrielle sai correndo e desfalece em algum lugar no meio da planta\u00e7\u00e3o, sendo recolhida no outro dia. Na sequ\u00eancia, a m\u00e3e de Gabrielle surpreende Jos\u00e9 olhando para sua filha ao piano, como um bom fetichista. Ela ent\u00e3o lhe prop\u00f5e casar-se com a filha em troca de um apoio financeiro. Jos\u00e9 hesita, mas a proposta de casar-se com uma bela mulher, deixando o duro trabalho rural, para viver \u00e0 beira mar, lhe parece sedutora. Gabrielle n\u00e3o tem alternativas: ou aceita esse trato, ou ser\u00e1 internada em um hosp\u00edcio. Mas ela logo o adverte: \u201cn\u00e3o vou dormir com voc\u00ea, nunca vou te amar\u201d. \u201cEu tamb\u00e9m n\u00e3o te amo\u201d, responde Jos\u00e9. O contrato est\u00e1 firmado.<\/p>\n<p>O casamento segue, em meio \u00e0s dores renais de Gabrielle que \u00e0s vezes se retira para passar at\u00e9 uma semana de cama. Ela observa os movimentos de Jos\u00e9 nos finais de semana para ir a bord\u00e9is. Ela ent\u00e3o consente em ocupar esse lugar, mesmo que isso n\u00e3o resulte em prazer para ela, ao menos nas primeiras rela\u00e7\u00f5es sexuais. Enquanto isso, Jos\u00e9 se ocupa da constru\u00e7\u00e3o de uma casa para eles e deseja um filho. Um aborto espont\u00e2neo interrompe uma primeira gravidez e o m\u00e9dico sugere que ela v\u00e1 se tratar de sua doen\u00e7a renal em uma cl\u00ednica, por seis meses. \u201cVoc\u00ea vai ficar feliz por estar sozinha\u201d, diz Jos\u00e9 ao deix\u00e1-la nessa cl\u00ednica. Ele vai visit\u00e1-la algumas vezes, o que parece aborrec\u00ea-la: \u201ctoda vez que voc\u00ea vem, chove\u201d, ela diz, o que Jos\u00e9 interpreta como uma \u201ccrueldade\u201d de Gabrielle, levantando-se da mesa de refei\u00e7\u00e3o durante uma dessas visitas.<\/p>\n<p>\u00c9 por ocasi\u00e3o dessa visita que Jos\u00e9 ir\u00e1 conhecer Sauvage, com quem tem um breve di\u00e1logo sobre a guerra dos homens. Sem saber que Jos\u00e9 \u00e9 o marido de Gabrielle, Sauvage lhe d\u00e1 a entender que poderia ter ficado com Gabrielle se n\u00e3o estivesse t\u00e3o mal e impotente. Jos\u00e9 retorna ent\u00e3o \u00e0 noite e a procura na cama. Gabrielle n\u00e3o s\u00f3 consente com a rela\u00e7\u00e3o sexual, como tamb\u00e9m parece desfrutar dela. No dia seguinte, ele assiste \u00e0 cena da partida de Sauvage em uma ambul\u00e2ncia para Lyon, cujo destino, como j\u00e1 fora antecipado a Gabrielle, \u00e9 a morte. Ele observa como, ao se dar conta dessa partida, Gabrielle corre atr\u00e1s da ambul\u00e2ncia, sem poder alcan\u00e7\u00e1-la, caindo ent\u00e3o desfalecida, como ocorrera durante aquela festa da colheita, ap\u00f3s abordar o professor.<\/p>\n<p>Toda essa cena, da qual s\u00f3 saberemos no final do filme, como se fosse um trabalho de rememora\u00e7\u00e3o, \u00e9 apagada por Gabrielle e substitu\u00edda pela fantasia de que Sauvage retorna, declara seu amor, mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es sexuais com ela, para logo partir, no mesmo dia de sua alta cl\u00ednica, prometendo voltar e lev\u00e1-la com ele.<\/p>\n<p>Essa \u201crealiza\u00e7\u00e3o assint\u00f3tica\u201d da fantasia, por assim dizer, torna mais poss\u00edvel o contrato de casamento que ela tem com seu marido, Jos\u00e9, que parece participar e consentir, a partir de determinado momento, com essa \u201cforma\u00e7\u00e3o de compromisso ampliada\u201d. Jos\u00e9 sabe o que ocorrera na cl\u00ednica, mas se manter\u00e1 em sil\u00eancio sobre isso. Seria poss\u00edvel aproximar essa \u201cforma\u00e7\u00e3o de compromisso ampliada\u201d de uma parceria sintom\u00e1tica que, em um certo sentido, inclui o gozo do parceiro? Qual o papel que o sil\u00eancio de Jos\u00e9 desempenha na trama?<\/p>\n<p>Podemos formular a hip\u00f3tese de que esse sil\u00eancio cumpre na trama a fun\u00e7\u00e3o de um tratamento da erotomania ou, pelo menos, de uma condi\u00e7\u00e3o para que Gabrielle possa consentir, aos poucos, com o verdadeiro furo, aquele que Lacan localiza entre Imagin\u00e1rio e Real, para al\u00e9m da castra\u00e7\u00e3o. O sil\u00eancio de Jos\u00e9 preserva vazio o lugar do objeto. Ele sabe que Sauvage perdeu a derradeira das guerras e n\u00e3o retornar\u00e1. Mas isso n\u00e3o pode ainda ser admitido por Gabrielle, o que s\u00f3 se torna poss\u00edvel quando ela passa a consentir coma realidade das coisas, verificando o verdadeiro furo por ela mesma.<\/p>\n<p>Isso pode ser mais bem escandido. Gabrielle retorna da cl\u00ednica totalmente imersa na fantasia. Ela escreve cartas a Sauvage nas quais fala de amor e se define como estando reduzida a uma \u201cespera\u201d: \u201cAinda n\u00e3o desfiz as malas, apenas espero, sou apenas a espera. Seu corpo entrou em mim, fa\u00e7o parte de voc\u00ea. Onde voc\u00ea est\u00e1? Pode estar ferido. Fale comigo\u201d. Nesse \u00ednterim, ela se engravida, e pede a Jos\u00e9 que ele n\u00e3o tenha esperan\u00e7as: ela conheceu um homem na cl\u00ednica; cedo ou tarde ela ir\u00e1 partir. Jos\u00e9 se enfurece, talvez devido \u00e0 perspectiva da gravidez. Em outro momento, com as malas j\u00e1 prontas para partir, Jos\u00e9 a interpela: \u201cOnde voc\u00ea vai?\u201d. \u201cVoc\u00ea sabe\u201d, diz Gabrielle. \u201cMas ele n\u00e3o responde\u201d, acrescenta Jos\u00e9. \u201cTem raz\u00e3o\u201d, consente Gabrielle.<\/p>\n<p>As cartas retornam, pois elas n\u00e3o podem encontrar o destinat\u00e1rio. Elas retornam, tal como o circuito pulsional, ao remetente, ao Um. Mas Jos\u00e9 intercepta o retorno das cartas, compactuando dessa forma, em seu sil\u00eancio, com a fantasia de Gabrielle. At\u00e9 que Gabrielle o surpreende, certa vez, com essas cartas nas m\u00e3os e se precipita para o mar em mais uma crise de loucura, sendo contida por Jos\u00e9. Isso pareceprovocar em Gabrielle uma primeira muta\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva. De fato, uma carta n\u00e3o respondida, sobre a qual ainda se podem tecer conjecturas fantasiosas, \u00e9 diferente de uma carta que n\u00e3o encontra o destinat\u00e1rio. Em outros termos: dizer que o Outro n\u00e3o responde, \u00e9 diferente de constatar que o Outro n\u00e3o existe. Em seguida, Gabrielle interrompe a escrita das cartas: \u201c\u00c9 a \u00faltima vez que lhe escrevo. Estou gr\u00e1vida. Se voc\u00ea n\u00e3o responder, \u00e9 o fim\u201d.<\/p>\n<p><strong>Para al\u00e9m da fantasia erot\u00f4mana<\/strong><\/p>\n<p>A se contar pelo crescimento do filho, passaram-se em torno de 15 anos. Jos\u00e9 se dedica a esse filho de uma forma amorosa, enquanto Gabrielle se mant\u00e9m afetivamente distante, embora ocupada com a rotina da casa e da maternidade. Um breve di\u00e1logo entre Jos\u00e9 ea m\u00e3e de Gabrielle, que vem visit\u00e1-los, nos ajuda a entender essa dist\u00e2ncia afetiva. A m\u00e3e observa que Gabrielle parece pouco afetuosa com o filho. \u201cTalvez tenha sido ensinada assim\u201d, responde Jos\u00e9. O filho estuda piano (objeto que desempenha na trama uma fun\u00e7\u00e3o de la\u00e7o entre Gabrielle, o filho e Sauvage) e parece se destacar. Gabrielle quer que o professor lhe ensine a pe\u00e7a \u201cBacarolle\u201d, de Tchaikovsky, tocada certa vez por Sauvage na cl\u00ednica, que ela sempre escuta, para alimentar sua nostalgia. Como j\u00e1 foi dito, a fantasia \u00e9 uma esp\u00e9cie de reserva libidinal da qual ela parece disposta a n\u00e3o abrir m\u00e3o. Gabrielle escuta as not\u00edcias da guerra, sempre imaginando onde pode estar o seu amor.<\/p>\n<p>A cena final se d\u00e1 em Lyon, quando o casal acompanha o filho para um exame no conservat\u00f3rio. Ela observa a paisagem pela janela do carro e se depara, ent\u00e3o, com a placa de rua que corresponde ao endere\u00e7o para onde remetia suas cartas. Ela se precipita para fora do carro. Jos\u00e9 sabe que n\u00e3o pode det\u00ea-la. No referido endere\u00e7o, ela reencontra o ajudante de ordens de Sauvage. \u201cEle voltou \u00e0 cl\u00ednica depois de sua partida para Lyon\u201d, dir\u00e1 Gabrielle, de acordo com sua fantasia delirante. \u201cN\u00e3o\u201d, dir\u00e1 o interlocutor. Sim! N\u00e3o! Sim! N\u00e3o! Uma verdadeira batalha de vida ou morte se trava entre o \u201csim\u201d e o \u201cn\u00e3o\u201d, entre a <em>Verleugnung<\/em> e o Real. No fim dessa batalha, \u00e0s margens de um rio, descal\u00e7a, ela parece experimentar o solo firme e imut\u00e1vel do real. Corre em dire\u00e7\u00e3o ao teatro, no qual o filho faria sua apresenta\u00e7\u00e3o, mas encontra o vazio da sala. Seu lugar no Outro est\u00e1 vazio.<\/p>\n<p>Ela ent\u00e3o interpela Jos\u00e9, que lhe rememora o que ela s\u00f3 agora est\u00e1 pronta para ouvir, contando-lhe a cena de sua ida \u00e0 cl\u00ednica, sua breve conversa com Sauvage, seu retorno \u00e0 noite dormir com ela e a manh\u00e3 em que Sauvage \u00e9 levado para morrer em Lyon. Ao chegar em casa, ela desmonta pela primeira vez a mala que mantinha fechada desde sua sa\u00edda da cl\u00ednica e verifica, na foto que guardava, o vazio da presen\u00e7a de Sauvage, lugar esvaziado de gozo, esse buraco central e intranspon\u00edvel que a fantasia recobria.<\/p>\n<p>Gabrielle pergunta a Jos\u00e9 por que, afinal, ele n\u00e3o lhe havia dito nada sobre isso, guardando sil\u00eancio ao longo de todos esses anos. \u201cQueria que vivesse\u201d, responde o lac\u00f4nico Jos\u00e9, homem de poucas palavras. Mas Gabrielle parece ler nelas o signo de um novo amor, como uma carta que s\u00f3 agora ela pode abrir. Na cena final, Gabrielle pode finalmente se endere\u00e7ar a Jos\u00e9. Eles est\u00e3o apreciando de longe a paisagem onde desponta a pequena vila onde Jos\u00e9 nasceu. \u201cQual \u00e9 a sua casa?\u201d, ela pergunta. O filme se interrompe a\u00ed, nesse \u201cinstante de amor\u201d, feliz tradu\u00e7\u00e3o para o intraduz\u00edvel \u201cMal de pierres\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>Transcri\u00e7\u00e3o do coment\u00e1rio do filme \u201cUm Instante de Amor\u201d (\u201cMal de Pierres\u201d: Nicole Garcia, 2016), apresentado no N\u00facleo de Psicose do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade mental de Minas Gerais em 09\/10\/2020. Publicado originalmente na Revista Curinga, n\u00ba 50, jun.\/dez. 2020, Belo Horizonte: EBP-MG, p. 92 \u2013 102.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. A Perda da realidade na neurose e na psicose (1924). In: ___ Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1969. p. 227 -236.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma <\/em>(1975-1976<em>)<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2007.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Frederico Feu de Carvalho (EBP\/AMP) A erotomania \u00e9 uma exig\u00eancia pulsional derivada do postulado erot\u00f4mano, isolado por De Cl\u00e9rambault, de que o Outro me ama. Pode ser tomada como um del\u00edrio de interpreta\u00e7\u00e3o a partir de um signo de amor supostamente emitido pelo Outro[1]. 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