{"id":11764,"date":"2021-08-31T05:42:33","date_gmt":"2021-08-31T08:42:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11764"},"modified":"2021-08-31T05:42:33","modified_gmt":"2021-08-31T08:42:33","slug":"amor-e-anti-amor-em-amy-winehouse1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/amor-e-anti-amor-em-amy-winehouse1\/","title":{"rendered":"Amor e anti-amor em Amy Winehouse[1]"},"content":{"rendered":"<h6><strong>J\u00e9sus Santiago (AME \u2013 EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_11765\" aria-describedby=\"caption-attachment-11765\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-11765\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/amurados_006_003-300x169.jpg\" alt=\"Fonte: aventurasnahistoria.uol.com.br\" width=\"300\" height=\"169\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11765\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: aventurasnahistoria.uol.com.br<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que Amy seja um caso de exce\u00e7\u00e3o \u00e0 tese de que a toxicomania seja uma tend\u00eancia contr\u00e1ria ao amor que, como prop\u00f5e Miller, \u201c\u00e9 um anti-amor, pois prescinde do parceiro sexual e se concentra no parceiro (a)sexuado do mais gozar\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> . Ao tratar do caso de Amy, escolheu-se colocar o foco no questionamento do modo singular em que a ruptura f\u00e1lica pr\u00f3pria da drogadi\u00e7\u00e3o acontece na sexua\u00e7\u00e3o feminina. Assim, a ruptura f\u00e1lica e o amor-devasta\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o coisas que andam juntas em sujeitos nos quais prevalece o\u00a0<em>n\u00e3o-todo<\/em>\u00a0f\u00e1lico? Vejamos como essa conjun\u00e7\u00e3o entre a ruptura f\u00e1lica e o amor-devasta\u00e7\u00e3o aparece em uma das primeiras m\u00fasicas,\u00a0<em>Fuck me pumps<\/em>. A impress\u00e3o \u00e9 que a letra apresenta uma narrativa em que a cantora discorre de maneira ir\u00f4nica, para uma outra mulher, sobre o quanto o feminino aparece na fantasia masculina como um objeto depreciado, rebaixado e sem valor.<\/p>\n<p>Se o casamento com o falo numa mulher se exprime, em princ\u00edpio, pelo investimento libidinal e narc\u00edsico no corpo pr\u00f3prio \u2013\u00a0<em>ser o falo<\/em>\u00a0\u2013, n\u00e3o \u00e9 justamente o fracasso disto que est\u00e1 em quest\u00e3o na drogadi\u00e7\u00e3o feminina e que a letra da m\u00fasica visa captar?<\/p>\n<p>Em Amy, h\u00e1 uma certa percep\u00e7\u00e3o niilista do feminino, na medida em que uma mulher se v\u00ea for\u00e7ada a resignar-se em ser a parceira-amor, com a condi\u00e7\u00e3o de tornar-se um objeto depreciado. \u00c9 algo que coincide com o que \u00e9 t\u00edpico do alcoolismo feminino: o desinvestimento narc\u00edsico no corpo pr\u00f3prio. Isso \u00e9 fatal para uma mulher no jogo das intera\u00e7\u00f5es com o parceiro amoroso. Suas letras emitem a mensagem de que \u00e9 inevit\u00e1vel o homem, de posse do gozo f\u00e1lico, tomar uma mulher como um objeto rebaixado. Nenhuma chance para que seja um conector para que a mulher possa se encontrar no amor, cuja condi\u00e7\u00e3o \u00e9 consentir-se em ser Outra para si mesma.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Addicted<\/em>,\u00a0a ruptura f\u00e1lica \u00e9 ainda mais expl\u00edcita, pois Amy se apresenta como radicalmente desinvestida em tornar-se a parceira-amor causa de desejo de um homem. Ela diz o seguinte:\u00a0\u201c<em>Eu sou meu pr\u00f3prio homem. E n\u00e3o faz diferen\u00e7a se vou terminar sozinha\u2026 prefiro estar comigo mesma e fumar a erva que planto. Ela me viciou e faz mais do que qualquer pau de um homem (\u2026)<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Quando ela escreve\u00a0Back to Black,\u00a0o sintoma das adi\u00e7\u00f5es coabita com o seu amor louco por Blake. \u201c<em>Quando nos conhecemos, foi atra\u00e7\u00e3o m\u00fatua instant\u00e2nea e fatal, e isso nunca deixou de ser assim. Sei que Amy e eu vamos ficar juntos. Ela \u00e9 o amor de minha vida\u201d. \u00a0<\/em>Com esse t\u00edtulo sombrio<em> \u2013\u00a0Back to Black<\/em>\u00a0\u2013, ela fala de sua volta para a escurid\u00e3o e do luto concernente ao primeiro t\u00e9rmino e corte com seu parceiro amoroso. Como artista, ela tenta de alguma maneira tirar proveito do drama do amor que a dilacera e a devasta. Acerca disso, ela diz: \u201c<em>Quando me separei daquele cara eu n\u00e3o tinha mais pra onde voltar<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Na m\u00fasica, ela se refere ao fato de que, nesse t\u00e9rmino, Blake n\u00e3o teve nem tempo para se arrepender, j\u00e1 que se mantinha ligado, em sua fantasia, com a antiga namorada.\u00a0Back to Black\u00a0diz mais ou menos o seguinte:\u00a0\u201c<em>Voltou para a mulher que j\u00e1 conhecia e j\u00e1 se esqueceu de tudo\u2026 eu sigo um caminho perigoso\u2026 voc\u00ea volta para ela, e eu para a escurid\u00e3o. Apenas dissemos adeus com palavras, e eu morri uma centena de vezes<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Se o encontro de Amy com Blake se deu, via um amor \u00e0 primeira vista, \u00e9 preciso considerar as duas dimens\u00f5es que se imp\u00f5em para o sujeito. Tanto o\u00a0<em>clar\u00e3o<\/em>\u00a0que adv\u00e9m do impacto do raio, quanto o lado\u00a0<em>foudrayant<\/em>, isto \u00e9, destrutivo e mort\u00edfero do amor. Se o amor pode se tornar um drama, marcado por efeitos devastadores, \u00e9 pelo motivo de que o clar\u00e3o que adv\u00e9m do encontro pode rapidamente se transmutar na for\u00e7a destrutiva do raio. Enquanto parceiro, Blake \u00e9 o alvo dos excessos da demanda dirigida aos deuses obscuros que possam, em seu inconsciente, fazer existir\u00a0A\u00a0mulher. Prevalece nela o amor narc\u00edsico, que traz em si o teor mort\u00edfero da busca da imagem ideal com a qual o sujeito procura o seu triunfo em sua pr\u00f3pria ru\u00edna. Nessa ren\u00fancia radical dirigida \u00e0 vida, o corpo falante, em sua m\u00e1xima mis\u00e9ria, recha\u00e7a todas as ofertas advindas do Outro que nada pode\u2026 e \u00e9 exatamente nisso que encontra o seu ser. \u00c9 o que se enuncia em\u00a0<em>Rehab<\/em>,\u00a0pois o \u201c<em>no, no, no<\/em>\u201d do tratamento \u00e9, no fundo, apenas um detalhe de sua recusa intransigente do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel a autenticidade da arte de Amy, seja como int\u00e9rprete vocal compar\u00e1vel \u00e0s grandes divas do\u00a0<em>jazz<\/em>, seja pela sua capacidade de inventar o novo com o aux\u00edlio do velho. A arte n\u00e3o lhe foi suficiente para fazer a travessia do amor-devasta\u00e7\u00e3o, em que o sujeito n\u00e3o precisa de ningu\u00e9m, encontrando no circuito fechado do gozo aut\u00edstico o seu pr\u00f3prio parceiro. Amy n\u00e3o p\u00f4de fazer de sua arte o seu\u00a0<em>parceiro-sintoma<\/em>.\u00a0N\u00e3o p\u00f4de jogar a sua partida com o seu parceiro-gozo de modo a impor-lhe a lei singular do sintoma, um meio para consentir com o fato de que, diante da opacidade indiz\u00edvel do desejo, n\u00e3o h\u00e1 saber no real sobre o amor.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>Texto gentilmente cedido pelo autor para publica\u00e7\u00e3o em <em>a<\/em>murados #06<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> MILLER, J-A.\u00a0<em>A teoria do parceiro<\/em>. Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise. Contracapa: Rio de Janeiro, 2000, p. 170.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9sus Santiago (AME \u2013 EBP\/AMP) \u00c9 prov\u00e1vel que Amy seja um caso de exce\u00e7\u00e3o \u00e0 tese de que a toxicomania seja uma tend\u00eancia contr\u00e1ria ao amor que, como prop\u00f5e Miller, \u201c\u00e9 um anti-amor, pois prescinde do parceiro sexual e se concentra no parceiro (a)sexuado do mais gozar\u201d[2] . 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