{"id":11761,"date":"2021-08-31T05:40:27","date_gmt":"2021-08-31T08:40:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11761"},"modified":"2021-08-31T05:40:27","modified_gmt":"2021-08-31T08:40:27","slug":"bordas-para-o-indizivel-da-maldita-ao-bem-dito1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/bordas-para-o-indizivel-da-maldita-ao-bem-dito1\/","title":{"rendered":"Bordas para o indiz\u00edvel: da maldita ao bem-dito[1]"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Relatoras: Cl\u00e1udia Reis (EBP\/AMP) e Cristina Pinelli (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<h6>Este texto foi apresentado no IV Encontro TyA Brasil cujo t\u00edtulo foi: <em>O que diz o indiz\u00edvel do toxic\u00f4mano na era das adi\u00e7\u00f5es generalizadas <\/em>que aconteceu no dia 11 de mar\u00e7o de 2021. Ele passou por adapta\u00e7\u00f5es para sua publica\u00e7\u00e3o neste Boletim. Recolhemos algum conte\u00fado da autobiografia de Rita Lee<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> que, ao longo do texto, nos ajudou nas articula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas.<\/h6>\n<h6>Cont\u00e9m elabora\u00e7\u00f5es advindas do trabalho de diversos N\u00facleos de Investiga\u00e7\u00e3o TyA no Brasil, atrav\u00e9s dos seguintes participantes: Andr\u00e9a Eul\u00e1lio (EBP\/AMP), Al\u00e9ssia Fontenelle (EBP\/AMP), Cl\u00e1udia Reis (EBP\/AMP), Cristina Pinelli (EBP\/AMP), Daniela Dinardi (TyA-MG), Fernanda Turbat (TyA-SC), Giovanna Quaglia (EBP\/AMP), Lu\u00eds Couto (TyA-MG), Marcelo Quint\u00e3o (TyA-MG), Maria Wilma S. de Faria.(EBP\/AMP).<\/h6>\n<p><strong>Entre o dito e o n\u00e3o-dito<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_11762\" aria-describedby=\"caption-attachment-11762\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11762\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/amurados_006_004.jpg\" alt=\"Gerhard Haderer\u00a0.Culturainquieta.com\" width=\"400\" height=\"510\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11762\" class=\"wp-caption-text\">Gerhard Haderer\u00a0.Culturainquieta.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, por Freud, se deu a partir de uma articula\u00e7\u00e3o entre o dito e o n\u00e3o-dito. \u00c9 o que Freud aprendeu com o caso Elizabeth von R. quando constata que a paciente apresentava no corpo o afeto ligado \u00e0 representa\u00e7\u00e3o pulsional recalcada. O afeto desvinculado de um dizer poderia ser localizado no corpo, como uma excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No primeiro ensino de Lacan, a passagem de um indiz\u00edvel para a articula\u00e7\u00e3o significante se d\u00e1 a partir da interven\u00e7\u00e3o de um Outro, de onde o sujeito retira os significantes que poderiam desaloj\u00e1-lo de um real pleno.<\/p>\n<p>Temos a cena traum\u00e1tica infantil associada a um imperativo de n\u00e3o dizer, <em>nunca contaria nem para ela mesma<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><strong>[3]<\/strong><\/a>. <\/em>Esta cena nos permite interrogar sobre o ponto de real indiz\u00edvel para o sujeito.<\/p>\n<p>A partir do seu \u00faltimo ensino, temos o encontro da l\u00edngua com o corpo deixando um resto n\u00e3o assimil\u00e1vel, algo de um gozo se fixa. Disso resulta o mal entendido, o que nos leva a pensar o trauma como fixa\u00e7\u00e3o desse encontro, momento de suspens\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o, corte inapreens\u00edvel pela aparelhagem simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Segundo Ansermet<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, o traumatismo se produz quando a crian\u00e7a, confrontada com o gozo do Outro, depara-se com a evid\u00eancia inevit\u00e1vel de sua pr\u00f3pria sexualidade, com o real sexual, sempre faltoso que se revela traum\u00e1tico. Temos ent\u00e3o, as constru\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas dos sujeitos contra o furo do traumatismo que podem revelar suas rela\u00e7\u00f5es com o sexo e com a morte que s\u00e3o, para todo sujeito, duas quest\u00f5es fundamentais sem resposta.<\/p>\n<p>Assim, nos intrigou nesta pesquisa, investigar quais as solu\u00e7\u00f5es que um sujeito feminino inventa para lidar com o que escapa ao discurso? A voz, o amor, a letra, seriam poss\u00edveis conectores do sujeito <em>n\u00e3o-todo<\/em> com seu corpo? Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s drogas, cumpririam a fun\u00e7\u00e3o de conex\u00e3o, mas ao mesmo tempo de desconex\u00e3o?<\/p>\n<p><strong><em>Com<\/em><\/strong><strong> seu corpo<\/strong><\/p>\n<p><em>Com<\/em> \u00e9 uma preposi\u00e7\u00e3o cara a Lacan, \u00e0 qual ele d\u00e1 seu sentido precioso \u2013 a instrumenta\u00e7\u00e3o, nos diz Miller<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. O homem se serve do corpo para falar. O corpo \u00e9 o seu instrumento para falar. \u201cN\u00e3o \u00e9 o corpo que fala por iniciativa pr\u00f3pria, \u00e9 sempre o homem que fala <em>com<\/em> seu corpo\u201d <a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan constroi o termo \u201cfalasser\u201d, condensando \u201cdizer\u201d e \u201cser\u201d de uma s\u00f3 vez, para que algo seja pelo fato mesmo de dizer<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Nesta perspectiva, o falasser \u00e9 sempre um ato de cria\u00e7\u00e3o. O que poderia o falasser criar quando o que emerge como desejo do Outro \u00e9 um imperativo de n\u00e3o dizer? Mal-dito? <em>Maldito<\/em>!<\/p>\n<p>Para Lacan, o corpo inclui elementos incorporais: a voz e o olhar. No campo do olhar temos a imagem que denota uma desarmonia e se sustenta por meio dos restos de gozo no corpo.<\/p>\n<p><em>A vozinha micra<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><strong>[8]<\/strong><\/a><\/em> nos traz a possibilidade de investigar se a reconex\u00e3o do sujeito com o corpo, descrito como <em>t\u00e1bua despelada e masculinizada<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><strong>[9]<\/strong><\/a><\/em>, se deu a partir de algo que veio do Outro; nesse caso, n\u00e3o um significante, mas o objeto voz. De certa maneira, n\u00e3o sem v\u00e1rios impasses e trope\u00e7os, ser\u00e1 com sua <em>vozinha micra<\/em>, como a descreve, que ela prosseguir\u00e1 e construir\u00e1 algumas sa\u00eddas.<\/p>\n<p>Diante do irrepresent\u00e1vel, cada sujeito elege sua forma singular de dar corpo ao seu dizer, ao imposs\u00edvel de suportar.<\/p>\n<p><em>Debochar de mim mesma \u00e9 uma estrat\u00e9gia que sempre d\u00e1 resultado positivo<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\"><strong>[10]<\/strong><\/a><\/em>. Estar\u00edamos aqui diante de um ato de cria\u00e7\u00e3o do falasser ao nos depararmos com a ironia, a irrever\u00eancia, o chiste?<\/p>\n<p><strong>O recurso \u00e0s drogas <\/strong><\/p>\n<p>Desde Freud<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>, temos que a intoxica\u00e7\u00e3o pelo uso das drogas surge como uma maneira eficaz de lidar com o mal-estar, vindo de circunst\u00e2ncias da vida que causam sofrimento.<\/p>\n<p><em>A sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estar dentro de seu pr\u00f3prio corpo em alguns momentos, ou de precisar de um extra para se sentir viva e confort\u00e1vel dentro do corpo<\/em>, nos leva a indagar se o recurso \u00e0s drogas seria uma forma de tratar o intrat\u00e1vel do gozo no corpo que reitera?<\/p>\n<p>Encontramos sujeitos anestesiados diante dos efeitos das subst\u00e2ncias e tamb\u00e9m sobre os efeitos da linguagem. Anestesia-se a dor de existir, frente ao insuport\u00e1vel: <em>Quero tomar o que h\u00e1 para n\u00e3o ver o que h\u00e1<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><strong>[12]<\/strong><\/a><\/em>. Este estado anestesiante parece manter o sujeito desconectado da vida e a subst\u00e2ncia possibilita que ele assim permane\u00e7a, para nada saber da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual: <em>Com LSD o imposs\u00edvel n\u00e3o existe<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\"><strong>[13]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>Trata-se da itera\u00e7\u00e3o do gozo do Um. Um sozinho, S1, sem fazer s\u00e9rie, representante da completude imagin\u00e1ria, o Um da satisfa\u00e7\u00e3o aut\u00edstica que Lacan introduz na \u00faltima parte de seu ensino. Em seu curso O Ser e o Um<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>, Miller nos diz que n\u00e3o se trata da repeti\u00e7\u00e3o \u2013 esta \u00e9 sempre a repeti\u00e7\u00e3o do diferente. Trata-se, de fato, do mesmo, nomeado por ele de itera\u00e7\u00e3o. O que itera \u00e9 um gozo que n\u00e3o est\u00e1 relacionado \u00e0 palavra, nem ao sentido, e, sim, ao corpo propriamente dito. O Um se instala no corpo e faz dele esse aparelho de gozo. Apresenta um car\u00e1ter compulsivo, excessivo, pr\u00f3prio da busca de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional incontorn\u00e1vel que muitas vezes pode arrastar o sujeito \u00e0 pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O uso desenfreado de \u00e1lcool e de subst\u00e2ncias diversas engendra um gozo deslocalizado, at\u00e9 o ponto de uma quase dissolu\u00e7\u00e3o do corpo, de uma perda de seus contornos. A err\u00e2ncia tamb\u00e9m pode ser considerada uma itera\u00e7\u00e3o, reitera\u00e7\u00e3o do significante Um em sua pura materialidade, a ecoar no corpo: <em>O defeito de Ritinha \u00e9 n\u00e3o saber quando parar<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\"><strong>[15]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de pensar a droga como forma de tratar o ilimitado do gozo, nos aproximou do gozo <em>n\u00e3o-todo<\/em> e, consequentemente, do feminino enquanto algo que transcende os limites das palavras. A singularidade presente na forma de tratar o feminino, tamb\u00e9m se aplica \u00e0 toxicomania que, igualmente, resiste ao saber universalizante.<\/p>\n<p><strong>\u201cSagrado Feminino\u201d <\/strong><\/p>\n<p><em>Me refiro ao sagrado feminino, de n\u00f3s meninas que temos um buraco a mais no corpo para administrar, do nosso universo complexo demais para machos, religiosos e pol\u00edticos meterem o bico&#8230;<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\"><strong>[16]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>A partir das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o, presentes no Semin\u00e1rio XX de Lacan, temos a l\u00f3gica do <em>n\u00e3o-todo<\/em> que nos apresenta a inexist\u00eancia do significante d\u2019A mulher, ou seja, um significante que daria conta do todo. Temos, do lado feminino, um conjunto marcado por um menos, um gozo infinito, no sentido de ser n\u00e3o-localiz\u00e1vel. Segundo Elisa Alvarenga<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a>, do lado feminino temos um supereu tir\u00e2nico que funciona como imperativo de gozo para todos. A parceria aqui se daria pela via de que a droga nos introduz a um modo de ruptura com o gozo f\u00e1lico e, assim, o gozo da droga afetaria o corpo ao modo do gozo feminino, n\u00e3o localizado?<\/p>\n<p>O <em>n\u00e3o-todo<\/em> feminino introduz um outro ponto que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com a exce\u00e7\u00e3o. A condi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o, atribu\u00edda \u00e0 posi\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e representada pela posi\u00e7\u00e3o masculina que diz de um gozo finito e localiz\u00e1vel, tamb\u00e9m \u00e9 tratada pela cantora com a forma de chiste, utilizando-se da ironia. <em>Bendita sois v\u00f3s entre os planetas, bendito \u00e9 o fruto de vossa semente <\/em>\u00e9 refr\u00e3o da m\u00fasica Nave Terra. Este refr\u00e3o faz alus\u00e3o \u00e0 express\u00e3o \u201cbendito \u00e9 o fruto\u201d da ora\u00e7\u00e3o Ave Maria. A express\u00e3o \u201cbendito fruto\u201d \u00e9 utilizada na l\u00edngua portuguesa, com origem naquela ora\u00e7\u00e3o, para designar o \u00fanico homem no recinto, designa a exce\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma passagem na biografia em que comenta esta condi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o \u00e0s avessas nos Mutantes, onde era a \u00fanica integrante mulher e, depois de um percurso, convidada a deixar a banda.<\/p>\n<p>Sabemos que Lacan \u201cdesnaturaliza\u201d ou \u201cdesubstancializa\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a> a diferen\u00e7a homem e mulher. Para todo o ser falante h\u00e1 um gozo mudo que ele descobre a partir da sexualidade feminina que faz \u201co regime do gozo como tal\u201d. Para a leitura da psican\u00e1lise este gozo escapa aos ditos e s\u00f3 pode ser tocado no n\u00edvel do que veste o imposs\u00edvel, ou seja, para Miller um \u201cbem-dizer\u201d <a href=\"#_edn19\" name=\"_ednref19\">[19]<\/a>. O bem-dizer seria ent\u00e3o uma forma de fazer com o significante um ponto de borda ao imposs\u00edvel de dizer. Como possibilitar a constru\u00e7\u00e3o de um contorno diante desse ilimitado?<\/p>\n<p>Fazendo refer\u00eancia a Laurent, Elisa<a href=\"#_edn20\" name=\"_ednref20\">[20]<\/a> nos aponta que o imperativo de gozo pode encontrar seus limites pela via do amor.<\/p>\n<p><strong>O amor como sa\u00edda?<\/strong><\/p>\n<p>A conting\u00eancia de um encontro se apresenta. Enquanto conting\u00eancia, pode vir pela escuta de um ouvido afiado: <em>de quem era aquela guitarra bacana que pontuava a m\u00fasica?<a href=\"#_edn21\" name=\"_ednref21\"><strong>[21]<\/strong><\/a><\/em><\/p>\n<p>O feminino passa pelo enigma do amor e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o feminina cabe a alteridade necess\u00e1ria para alcan\u00e7ar a singularidade. O amor \u00e9 da ordem da poesia: <em>Eu e meu gato; Mania de voc\u00ea; Doce vampiro.<\/em><\/p>\n<p><em>Alguma coisa acontecia no meu cora\u00e7\u00e3o, corpo e alma, fazendo com que me sentisse a mais santa das criaturas e la mas caliente de las mujeres. Da bandeira sexo, drogas e rock\u2018n\u2019roll sobrou apenas sexo e rock\u2018n\u2019roll. Entrei numa fase in\u00e9dita da vida e disse bem alto para quem quisesse ouvir: Afasta de mim esse c\u00e1lice! N\u00e3o precisava nenhum extra, para me sentir viva e confort\u00e1vel dentro do corpo, eu me sentia plena<a href=\"#_edn22\" name=\"_ednref22\"><strong>[22]<\/strong><\/a><\/em>.<\/p>\n<p>O imperativo de gozo parece encontrar algum limite. O amor introduz uma hi\u00e2ncia, um vazio, e situa no Outro o objeto que falta. Temos uma permiss\u00e3o de algum intervalo de cess\u00e3o de gozo.<\/p>\n<p>Buscando uma articula\u00e7\u00e3o entre o campo do feminino e do indiz\u00edvel, poder\u00edamos pensar no amor como via que possibilita a esse sujeito n\u00e3o sucumbir \u00e0s drogas e \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o? Pode o amor funcionar como certo anteparo \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o mort\u00edfera do gozo toxic\u00f4mano? Na experi\u00eancia do singular, poderia o amor fazer fronteira ou limite para o ilimitado do gozo feminino? Como na posi\u00e7\u00e3o feminina o gozo est\u00e1 al\u00e9m do falo, ela lan\u00e7a m\u00e3o, ou conta, com o amor como forma de localizar esse gozo?<\/p>\n<p>O feminino se situa em um espa\u00e7o muito singular. Um espa\u00e7o sem bordas onde \u201cse h\u00e1 centro, a borda \u00e9 uma aus\u00eancia; e se h\u00e1 borda j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 centro poss\u00edvel\u201d<a href=\"#_edn23\" name=\"_ednref23\">[23]<\/a>. H\u00e1 algo a\u00ed que transborda, que ultrapassa os limites onde n\u00e3o h\u00e1 uma fronteira definida como que um empuxo a um ilimitado que escapa \u00e0 linguagem.<\/p>\n<p>O que escapa \u00e0 linguagem e fica fora da l\u00f3gica significante toma uma dimens\u00e3o de real, inapreens\u00edvel pelo simb\u00f3lico e neste sentido, indiz\u00edvel. Para Lacan, \u201co feminino \u00e9 puro gozo do corpo que fala e que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever\u201d <a href=\"#_edn24\" name=\"_ednref24\">[24]<\/a>.<\/p>\n<p>Oscar Ventura<a href=\"#_edn25\" name=\"_ednref25\">[25]<\/a> diz que \u201ca quest\u00e3o in\u00e9dita do amor formulada por Lacan subverte a l\u00f3gica do amor como repeti\u00e7\u00e3o. Para Lacan, o amor \u00e9 inven\u00e7\u00e3o, em primeira inst\u00e2ncia \u00e9 uma elabora\u00e7\u00e3o de saber, mas de um saber muito singular, um saber que diz respeito ao objeto, o amor \u00e9 um modo de dirigir-se ao objeto pequeno <em>a<\/em> partir do outro do significante\u201d. Podemos dizer que o amor est\u00e1 constitu\u00eddo no n\u00edvel em que o gozo se articula com o Outro do significante. Temos, com Lacan<a href=\"#_edn26\" name=\"_ednref26\">[26]<\/a> que \u201co homem serve de conector para que a mulher se torne essa Outra para ela mesma, como o \u00e9 para ele\u201d.\u00a0 Pela via do amor, o homem ao fazer da mulher objeto causa de seu desejo, poder\u00e1 permitir-lhe ser Outra para ela mesma.<\/p>\n<p><strong>A escrita <\/strong><\/p>\n<p>O amor, sendo da ordem do encontro, \u00e9 sempre faltoso e sendo o Real aquilo que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se inscrever, o sujeito pode tentar evitar este encontro faltoso agarrando-se a um objeto mais-de-gozar<a href=\"#_edn27\" name=\"_ednref27\">[27]<\/a>.<\/p>\n<p>Como colocar em palavras o que \u00e9 o imposs\u00edvel de suportar? Como dar corpo ao dizer? Segundo a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, tem que haver certa ren\u00fancia ao gozo para se recuperar algo no campo do Outro.<\/p>\n<p>A escrita, enquanto um tra\u00e7o deste sujeito se conectar com o mundo, sempre esteve presente. Poder\u00edamos pens\u00e1-la enquanto um recurso que daria um contorno ao real do trauma, ao n\u00e3o-dito?<\/p>\n<p>Se, por um lado, temos o traum\u00e1tico inicial que n\u00e3o podemos apreender em termos de representa\u00e7\u00e3o ou significados, por outro, temos o furo iterado pelo encontro com um real sem retorno. H\u00e1 aqui um v\u00e1cuo de representa\u00e7\u00e3o que funciona como res\u00edduo, como dejeto de um tra\u00e7o indel\u00e9vel deixado pelo encontro da linguagem com o corpo. No \u00faltimo ensino de Lacan, o que est\u00e1 em relevo n\u00e3o \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, mas as distintas maneiras de se inscrever o campo do gozo. Ou seja, as montagens, nas inven\u00e7\u00f5es poss\u00edveis a cada um, para lidar com esse inassimil\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, Miller<a href=\"#_edn28\" name=\"_ednref28\">[28]<\/a> nos esclarece que o Surrealismo prometia a salva\u00e7\u00e3o pela via dos dejetos e ressalta que a investiga\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica tamb\u00e9m se dirige aos dejetos da vida ps\u00edquica, aos pequenos e aparentemente insignificantes detalhes que desfazem a inten\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o. Assim, o dejeto pode ser tomado como uma pe\u00e7a avulsa, uma pe\u00e7a sem uso, um sem sentido de uso que n\u00e3o tem outra fun\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o a de disfuncionar<a href=\"#_edn29\" name=\"_ednref29\">[29]<\/a>. Contudo, ele tamb\u00e9m se presta a outros usos, e entre as m\u00faltiplas possibilidades, dele se pode gozar, j\u00e1 que se goza com o que \u201cn\u00e3o serve para nada\u201d<a href=\"#_edn30\" name=\"_ednref30\">[30]<\/a>.Recorremos a estas indica\u00e7\u00f5es para pensar o que aprendemos com o ato de cria\u00e7\u00e3o das letras musicais de Rita Lee. Sua escrita nos remete \u00e0s amarra\u00e7\u00f5es poss\u00edveis frente \u00e0 puls\u00e3o de morte. A via da estetiza\u00e7\u00e3o do objeto, a arte, permite a um sujeito romper com a identifica\u00e7\u00e3o ao dejeto.<\/p>\n<p>Rita nos entrega sua autobiografia. \u00c0s crian\u00e7as, deliciosos livros infantis. Uma inven\u00e7\u00e3o na forma de nos lan\u00e7ar seu perfume?<\/p>\n<p>M.H.Brousse, em debate organizado pela diretoria de Biblioteca da EBP, sobre seu livro \u201cMulheres e Discursos\u201d, nos elucida que o livro \u00e9 um objeto, um corpo material que possui as tr\u00eas dimens\u00f5es: imagin\u00e1rio, simb\u00f3lico e real. Acrescenta que o livro interpreta seu autor. E ainda&#8230; Que o livro interpreta seu leitor!<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto cedido gentilmente pelo N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o TyA para <em>a<\/em>murados.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Lee, R. <em>Rita Lee: uma autobiografia.<\/em> Rio de Janeiro: Ed.Globo, 2016<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 14<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>Ansermet, F.: Traumatismo ps\u00edquico, in Cl\u00ednica da Origem, a crian\u00e7a entre a medicina e a psican\u00e1lise, Contra Capa, RJ, 2003<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Miller,J-A. Habeas Corpus. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento do X Congresso da AMP, 2016<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio. Livro 20: mais, ainda, p 127<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Bassols, M. Abertura Scilicet, O Corpo Falante, p 9. EBP, 2016<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Lee, R. <em>Rita Lee<\/em>: uma autobiografia. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2016<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 51<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 269<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Freud, S. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. 1929 Obras Completas Vol XXI p. 81<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 196<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 119<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Miller. J-A. apud Berkoff, M. A crian\u00e7a e a sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente real. Rayuela \u2013 Publica\u00e7\u00e3o virtual da Nova Rede Cereda Am\u00e9rica, n. 1, julho 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.revistarayuela.com\/pt\/001\/template.php?file=Notas\/El-nino-y-su-relacion-con-el-inconsciente-real.html\">http:\/\/www.revistarayuela.com\/pt\/001\/template.php?file=Notas\/El-nino-y-su-relacion-con-el-inconsciente-real.html<\/a> (Acesso em: 9 nov. 2020).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 42<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a><em> Ibdem<\/em>, p 165<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Alvarenga,E. N\u00e3o-todo adictos! Boletim 15 da XVIIJornada da EBPMG, 2012<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> Poblome, G. Tenir le fil du bien- dire\/#_ftn9<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref19\" name=\"_edn19\">[19]<\/a> Miller J.-A., \u00ab Est-ce passe ? \u00bb, La Cause freudienne, n\u00b075, juillet 2010, p 86<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref20\" name=\"_edn20\">[20]<\/a> <em>Ibdem<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref21\" name=\"_edn21\">[21]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 142<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref22\" name=\"_edn22\">[22]<\/a> <em>Ibdem<\/em>, p 142<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref23\" name=\"_edn23\">[23]<\/a> Bassols, M. \u201cO feminino entre centro e aus\u00eancia\u201d. OpLaconline, 23<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref24\" name=\"_edn24\">[24]<\/a> Lacan, J. O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. R.J: Jorge Zahar<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref25\" name=\"_edn25\">[25]<\/a> Ventura, O. O Amor.Sempre Outro. Boletim 6 da XXIV Jornada EBPMG<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref26\" name=\"_edn26\">[26]<\/a> Lacan, J. Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina. In: Escritos. RJ. Zahar<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref27\" name=\"_edn27\">[27]<\/a> <em>Ibdem <\/em>Alvarenga, E<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref28\" name=\"_edn28\">[28]<\/a> Miller, J.-A. A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos. In C. F. do Brasil (Ed.), <em>Perspectivas dos escritos e outros escritos de Lacan <\/em>p 233. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref29\" name=\"_edn29\">[29]<\/a> Miller, J.-A. <em>Piezas sueltas<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref30\" name=\"_edn30\">[30]<\/a> Lacan, J. (1972-73). (1985). <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em> (2<sup>a<\/sup> ed.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relatoras: Cl\u00e1udia Reis (EBP\/AMP) e Cristina Pinelli (EBP\/AMP) Este texto foi apresentado no IV Encontro TyA Brasil cujo t\u00edtulo foi: O que diz o indiz\u00edvel do toxic\u00f4mano na era das adi\u00e7\u00f5es generalizadas que aconteceu no dia 11 de mar\u00e7o de 2021. 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