{"id":11758,"date":"2021-08-31T05:37:21","date_gmt":"2021-08-31T08:37:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11758"},"modified":"2021-08-31T05:37:21","modified_gmt":"2021-08-31T08:37:21","slug":"a-feminizacao-como-fetiche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-feminizacao-como-fetiche\/","title":{"rendered":"A feminiza\u00e7\u00e3o como fetiche\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Claudia Murta (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_11759\" aria-describedby=\"caption-attachment-11759\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-11759\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/amurados_006_005.jpg\" alt=\"clubedecineaoutubro.wordpress.com\" width=\"400\" height=\"216\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11759\" class=\"wp-caption-text\">clubedecineaoutubro.wordpress.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>O fetiche, segundo Freud, no texto fundamental sobre o \u201cFetichismo,\u201d <sup>1<\/sup> e\u0301 um s\u00edmbolo do p\u00eanis, um p\u00eanis muito especial, o p\u00eanis da m\u00e3e que a crian\u00e7a outrora acreditava existir, contudo a crian\u00e7a, mesmo sabendo que n\u00e3o existe, se recusa a acreditar que n\u00e3o existe e, desse modo, elege um fetiche, algo que substitui o p\u00eanis da m\u00e3e t\u00e3o especialmente adorado.<\/p>\n<p>A recusa da crian\u00e7a em aceitar que a m\u00e3e e\u0301 castrada acontece diante da possibilidade de vir a ser, por sua vez, castrada tamb\u00e9m. E\u0301 um medo que afeta o narcisismo pr\u00f3prio infantil e na vida adulta se repete quando o trono esta\u0301 em risco, enuncia Freud. Sendo assim, a mulher f\u00e1lica e\u0301 o maior s\u00edmbolo de fetiche, pois o falicismo faz do pr\u00f3prio corpo um grande falo. As roupas e acess\u00f3rios de fetiche encobrem, substituem e valorizam esse p\u00eanis especial idealizado na mulher para quem \u00e9 transferida a ideia da m\u00e3e f\u00e1lica.<\/p>\n<p>Segundo Freud, uma avers\u00e3o aos \u00f3rg\u00e3os genitais femininos reais se apresenta no fetichista e, portanto, o fetiche eleito e\u0301 praticamente um triunfo sobre a amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o, dotando as mulheres de caracter\u00edsticas mais suport\u00e1veis como objetos sexuais. Um substituto, eis o que, nessa perspectiva, o fetiche e\u0301; um substituto do \u00f3rg\u00e3o real com o qual se pode gozar plenamente.<\/p>\n<p>Na perspectiva lacaniana disposta no Semin\u00e1rio \u201cA Ang\u00fastia\u201d <sup>2<\/sup>, o fetiche desvela a dimens\u00e3o do objeto como causa do desejo.\u00a0 Assim, por um lado, o fetiche se apresenta como um substituto, um significante, por outro, se apresenta como um objeto, o pr\u00f3prio objeto causa de desejo e base da fantasia. Sendo o fetiche o estranho objeto sexual, monumento ao horror da castra\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 o instrumento que permite encenar a fantasia sendo o objeto causa de desejo.<\/p>\n<p>A feminiza\u00e7\u00e3o \u00e9 trabalhada no contexto da comunidade fetichista, entre outros fetiches, por meio da <em>Crossdresser<\/em>. Em sua defini\u00e7\u00e3o, <em>Crossdresser<\/em> \u00e9 quem se veste com roupas do sexo oposto e tenta se aproximar o mais perfeitamente poss\u00edvel do modo de ser desse sexo. Por isso uma <em>Crossdresser<\/em> sempre tem uma mulher ao seu lado que a inspira e com a qual ela busca aprender o que \u00e9 ser uma mulher. Uma maneira poss\u00edvel para o homem entender uma mulher, por um lado, sentindo como uma mulher, por outro, um meio para tornar suport\u00e1vel o reencontro com o <em>infamiliar<\/em> do sexo feminino.<\/p>\n<p>Acompanhando melhor esse processo, trago a entrevista de Ana Cross<sup>3<\/sup>, <em>Crossdresser<\/em> fetichista, oferecida \u00e0 Rainha Regis, coordenadora do Grupo \u201cUniverso\u201d, na qual explica um pouco sobre o que \u00e9 ser <em>Crossdresser<\/em> ou CD e, em um de seus primeiros esclarecimentos, enuncia:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cas pessoas do meu conv\u00edvio n\u00e3o t\u00eam a menor ideia do meu fetiche ou de minhas pr\u00e1ticas, j\u00e1 que \u00e9 uma caracter\u00edstica de uma CD viver em dois mundos totalmente divididos. Como eu vivo duas realidades totalmente separadas, quando me apresento como homem sou 100% a figura masculina esperada e n\u00e3o h\u00e1 essa confus\u00e3o. E, quando estou como Ana, sou a mulher das fotos, e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas do que eu seja.\u2019\u2019<\/p><\/blockquote>\n<p>A CD vivencia seu fetiche sem que isso atinja a sua vida privada. Ali\u00e1s, segundo Freud, esse \u00e9 um dos fundamentos do fetiche por se tratar de algo t\u00e3o \u00edntimo e privado que s\u00f3 vem a p\u00fablico se o fetichista quiser. Quando Ana Cross diz que \u00e9 uma caracter\u00edstica da CD viver em dois mundos distintos, ela revela uma caracter\u00edstica primordial do fetiche distanciando-a de uma problem\u00e1tica de g\u00eanero. A CD n\u00e3o quer ser uma mulher e nem tem quest\u00f5es quanto a isso. Ela tem um fetiche secreto que, gra\u00e7as \u00e0 comunidade fetichista, pode compartilh\u00e1-lo de algum modo. Fetiche que se configura na fantasia da mulher f\u00e1lica ou \u201cmulher perfeita\u201d como expressou uma CD minha amiga, Dayla Kross. Eu demorei a entender que \u201ca mulher perfeita\u201d a qual elas fazem refer\u00eancia \u00e9 a fantasia da mulher f\u00e1lica por elas fetichizada. Continua Ana:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cUma <em>Crossdresser<\/em> venera o feminino a ponto de querer se transformar nele. Isso \u00e9 muito al\u00e9m de sexual. Por exemplo, o menino que gosta de se ver usando vestidos \u00e9 estranho, eu sabia, mas sempre tive muita atra\u00e7\u00e3o pela figura feminina. Nunca me senti atra\u00edda por homens, sempre me senti vidrada pela beleza feminina. Acho que at\u00e9 excessivamente&#8230; \u2019\u2019<\/p><\/blockquote>\n<p>Muito atraente essa exposi\u00e7\u00e3o do amor da <em>Cross<\/em> pelo feminino. Na defini\u00e7\u00e3o sobre heterossexual proposta em \u201cO Aturdito\u201d <sup>4<\/sup>, Lacan lembra que \u201cheterossexual \u00e9 aquele que ama as mulheres n\u00e3o importa qual seja seu sexo pr\u00f3prio\u201d. Assim, \u00e9 poss\u00edvel ser heterossexual ao amar as mulheres independentemente da posi\u00e7\u00e3o a partir da qual se assume esse amor. Ana Cross \u00e9 heterossexual e o fato de se vestir de mulher n\u00e3o a faz menos <em>heteros<\/em>. Contudo, h\u00e1 certa flexibiliza\u00e7\u00e3o nisso, pois de acordo com suas pr\u00f3prias palavras: \u201cCD 100% heterossexual, um homem 100% masculino \u00e9 imposs\u00edvel, porque a CD tenta se fazer feminina o m\u00e1ximo poss\u00edvel, desse modo, s\u00e3o coisas excludentes, pois n\u00e3o se \u00e9 100% masculino de pernas depiladas e cinturinha definida&#8230;\u201d. H\u00e1 algo no fetiche que vai al\u00e9m do jogo e da <em>performance<\/em> e esse algo mais \u00e9 aquilo que captura o sujeito, isto \u00e9, a posi\u00e7\u00e3o de objeto causa de desejo que o fetiche desenvolve. A CD, ao encenar a fantasia da mulher f\u00e1lica, \u201cmulher perfeita\u201d, ama a mulher que ela produz. Assim, o fetiche \u00e9 a pr\u00f3pria maravilha das maravilhas que causa o desejo e as faz amar a \u201cmulher perfeita\u201d que produziram.<\/p>\n<p>A <em>Crossdresser<\/em> \u00e9 o fetiche que representa a fantasia da m\u00e3e f\u00e1lica permitindo ao fetichista suportar se relacionar com uma mulher por meio da \u201cmulher perfeita\u201d que produz. Seja como homem, seja como mulher, seu interesse sexual \u00e9 sempre a mulher, tal como enuncia Ana Cross. Pensando o tema da feminiza\u00e7\u00e3o a partir do fetiche da <em>Crossdresser<\/em>, podemos entender que a CD exibe a mulher f\u00e1lica que permite uma rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel com uma mulher para o homem que ela, <em>Crossdresser<\/em>, tamb\u00e9m \u00e9.<\/p>\n<p>Tendo em vista a proposi\u00e7\u00e3o lacaniana de que o amor faz supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o h\u00e1, me pergunto se o fetiche da <em>Crossdresser<\/em>, com a produ\u00e7\u00e3o da fantasia da \u201cmulher perfeita\u201d faz do amor \u00e0 mulher f\u00e1lica papel de supl\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel entre os dois lados distintos da sexua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu trouxe uma an\u00e1lise externa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da CD, pois s\u00f3 consigo ser algu\u00e9m que assiste do lado de fora seu processo. A arte trata a quest\u00e3o de modo mais intenso e dram\u00e1tico. Para perseguirem a problem\u00e1tica, uma indica\u00e7\u00e3o do nosso cartel \u00e9 o filme do renomado diretor Fran\u00e7ois Ozon \u2013 Une Nouvelle Amie<sup>5<\/sup> \u2013, no <em>youtube<\/em> pode-se encontrar um extrato muito interessante para quem quiser assistir.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>1- FREUD, Sigmund. Fetichismo (1927). In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996, v. XXI, pp. 151-160.<\/h6>\n<h6>2 &#8211; LACAN, Jacques. O semin\u00e1rio \u2013 Livro 10:a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 368 p.<\/h6>\n<h6>3 &#8211; CROSS, Ana. Entrevista concedida a REGIS, Rainha. Grupo \u201cUniverso\u201d. S\u00e3o Paulo. 2020. Acesso restrito aos membros do grupo.<\/h6>\n<h6>4 &#8211; Lacan, J. (2003). O aturdido. In: Outros escritos (pp. 448-497). Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Trabalho original publicado em 1972).<\/h6>\n<h6>5 &#8211; UMA NOVA AMIGA. Diretor: Fran\u00e7ois Ozon\/Produtores: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer. Paris: 2015. Extrato dispon\u00edvel na plataforma Youtube Filmes: <a href=\"https:\/\/youtu.be\/piFQ4AZHosI\">https:\/\/youtu.be\/piFQ4AZHosI<\/a> . Acesso em:19\/05\/2021<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudia Murta (EBP\/AMP) O fetiche, segundo Freud, no texto fundamental sobre o \u201cFetichismo,\u201d 1 e\u0301 um s\u00edmbolo do p\u00eanis, um p\u00eanis muito especial, o p\u00eanis da m\u00e3e que a crian\u00e7a outrora acreditava existir, contudo a crian\u00e7a, mesmo sabendo que n\u00e3o existe, se recusa a acreditar que n\u00e3o existe e, desse modo, elege um fetiche, algo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11759,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-11758","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-textos","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11758"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11758\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11758"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=11758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}