{"id":11726,"date":"2021-08-03T15:57:44","date_gmt":"2021-08-03T18:57:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11726"},"modified":"2021-08-03T15:57:44","modified_gmt":"2021-08-03T18:57:44","slug":"a-transferencia-e-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-transferencia-e-amor\/","title":{"rendered":"A transfer\u00eancia \u00e9 amor"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Denizye Aleksandra Zacharias (EBP\/AMP)<\/strong><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cA singularidade da an\u00e1lise \u00e9 evidentemente o la\u00e7o que une uma proposi\u00e7\u00e3o a outra, que, na matem\u00e1tica de Pappus, \u00e9 da ordem do poss\u00edvel, e que, no campo anal\u00edtico, toca alguma coisa que \u00e9 da ordem do imposs\u00edvel.\u201d (REGNAULT, 2001, p.53).<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_11727\" aria-describedby=\"caption-attachment-11727\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-11727\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/amurados_005_textos_002-300x200.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11727\" class=\"wp-caption-text\">Twins I and II por Jaume Plensa. Fonte: phillips.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cA transfer\u00eancia \u00e9 amor\u201d quer dizer que, na experi\u00eancia anal\u00edtica, falamos de amor, e isso se deve \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do analista e do analisante. Este, diante do que n\u00e3o h\u00e1, aliena-se no sujeito suposto saber e articula-se a um discurso amoroso no dispositivo, o qual, na cad\u00eancia dessa vereda, vai deixando marcas, restos e gozo. Portanto, por se tratar de uma estrutura l\u00f3gica, \u00e9 preciso deslind\u00e1-la, para detalhar suas implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A met\u00e1fora do amor<\/strong><\/p>\n<p>No <em>Semin\u00e1rio VIII<\/em>, vamos encontrar um trabalho exaustivo de Lacan (1992) no que se refere \u00e0 transfer\u00eancia como amor, e dedicar\u00e1 um ano de estudos para formalizar uma conceitualiza\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m localizar o que h\u00e1 de real no amor de transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Desse modo, ele apresenta as duas dimens\u00f5es da met\u00e1fora do amor. A primeira refere-se \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do sujeito quando inicia uma an\u00e1lise e logo se v\u00ea levado a construir outra posi\u00e7\u00e3o. E a segunda dimens\u00e3o da met\u00e1fora do amor \u00e9 a mudan\u00e7a que ocorre com rela\u00e7\u00e3o ao amor, ou seja, o sujeito busca no analista, no amor de transfer\u00eancia, uma coisa e acaba encontrando outra. Cito Lacan:<\/p>\n<p>O amor como significante \u2013 pois, para n\u00f3s, ele \u00e9 um e n\u00e3o mais que isso \u2013 o amor \u00e9 uma met\u00e1fora \u2013 na medida em que aprendemos a met\u00e1fora como substitui\u00e7\u00e3o [&#8230;] \u00c9 na medida em que a fun\u00e7\u00e3o do <em>\u00e9rat\u00e9s<\/em>, do amante, na medida em que \u00e9 ele o sujeito da falta, vem no lugar, substitui a fun\u00e7\u00e3o do <em>er\u00f4m\u00e9nos<\/em>, o objeto amado, que se produz a significa\u00e7\u00e3o do amor (LACAN, 1992, p. 47).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, aqui, a transfer\u00eancia \u00e9 apontada para o amor ligado \u00e0 falta e ao desejo que se articula com o desejo do Outro, a transfer\u00eancia simb\u00f3lica. Contudo, ao avan\u00e7ar na leitura do <em>Semin\u00e1rio<\/em> e no discurso sobre o amor, ele localiza na transfer\u00eancia sua dimens\u00e3o do amor real a partir da quest\u00e3o: O que se perdeu no amor?<\/p>\n<p>Aqui, nesse ponto, ser\u00e1 introduzida a dimens\u00e3o do ser no outro, e o interesse de Lacan avan\u00e7a para a topologia do <em>objeto a<\/em>, que entra no jogo na dimens\u00e3o da transfer\u00eancia como elemento real no outro.<\/p>\n<p>Laurent elucida, dizendo que<\/p>\n<blockquote><p>a decifra\u00e7\u00e3o do sentido n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coisa que est\u00e1 em jogo. H\u00e1 a visada daquele que diz. Trata-se de recuperar alguma coisa de perdido diante desse interlocutor. Essa recupera\u00e7\u00e3o de objeto se d\u00e1 a chave do mito freudiano da puls\u00e3o. Ela funda a transfer\u00eancia que amarra os dois parceiros (LAURENT, 2007, p.212).<\/p><\/blockquote>\n<p>Por isso, no in\u00edcio de uma an\u00e1lise, o sujeito est\u00e1 no lugar do amado, porque \u00e9 o analista que tem que buscar esse ser que est\u00e1 escondido e do qual o sujeito nada sabe.<\/p>\n<p>A primeira forma de busc\u00e1-lo \u00e9 a de colocar o sujeito nessa dimens\u00e3o que Lacan chamou de formaliza\u00e7\u00e3o do sintoma, quer dizer, a busca de algo que est\u00e1 escondido no sujeito e a respeito do que ele nada sabe. \u00c9 nesse n\u00e3o saber que o sujeito construiu sua verdade, a qual o levou a ter todos os problemas com os quais se orientou na vida. Desse modo, o analista se dirige a esse objeto, e se o perde, se isso se perde de vista, se produzir\u00e1 o fracasso amoroso na an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Miller (2002) afirma que a vida amorosa do sujeito \u00e9 um labirinto, pois o objeto encontra-se situado no desejo, na demanda e na puls\u00e3o, de modo que ele aparece, \u00e0s vezes, reunido, \u00e0s vezes, separado, ora permanente, ora transit\u00f3rio, ou puro, ou misturado.<\/p>\n<p>Assim, o sujeito suposto saber vela e dificulta o acesso \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de objeto que ali se encontra, pois \u00e9 com o objeto <em>a<\/em> que o sujeito alimenta seus fantasmas, seus sintomas, suas sublima\u00e7\u00f5es, suas inibi\u00e7\u00f5es, e \u00e9 ele que aparece na ang\u00fastia, por\u00e9m o mais radical \u00e9 que esse objeto<em> a<\/em> permite ao sujeito esquecer que o Outro n\u00e3o existe, porque \u00e9 com esse objeto que o sujeito alimenta o outro, ama o outro, sofre pelo Outro, se ama com o Outro, enfim, o faz existir (BRODSKY, 2011).<\/p>\n<p><strong>O amor no final da an\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>O que ocorre com a liquida\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia no final de uma an\u00e1lise? O que acontece com o amor de transfer\u00eancia?<\/p>\n<p>Recorto aqui dois testemunhos de passe para exemplificar como uma an\u00e1lise, ao ser levada at\u00e9 o fim, ao desabonar o inconsciente, uma experi\u00eancia de vazio acontece no momento em que se solta do Outro, e, ent\u00e3o, cada um, em sua enuncia\u00e7\u00e3o, nomeia o novo.<\/p>\n<p>Raquel Cors (2021), em sua transmiss\u00e3o sobre o amor, no final da an\u00e1lise, fala da solid\u00e3o da enuncia\u00e7\u00e3o, uma vez que liquida a transfer\u00eancia, ou seja, quando ela se soltou do que foi para o Outro, surgiu um gozo, um gozo para a vida, que ela nomeou de o novo no amor.<\/p>\n<p>Silvia Salman, em \u201cO avesso do amor\u201d, relata o significante novo \u201cencarnada\u201d, que concentra, no corpo, o vivo e o feminino, e enuncia:<\/p>\n<blockquote><p>Se o sinthoma \u00e9 o que vem a se escrever no lugar da rela\u00e7\u00e3o sexual imposs\u00edvel de ser escrita, o que no fundo se ama em algu\u00e9m \u00e9 seu sinthoma, ou seja, os sinais que este envia e que refletem a maneira como cada um trata a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. E isso \u2013 por sorte, \u00e0s vezes, acontece \u2013 pode desencadear o amor (SALMAN, 2011, p.35).<\/p><\/blockquote>\n<p>Nos relatos das duas analistas-analisantes, podemos dizer que o novo no amor pode estar no sinthoma, na vida, pois, ao final de uma an\u00e1lise, h\u00e1 pura poesia, ao falar de amor real.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>BRODSKY, Gacriela. Los envolt\u00f3rios de la extimidad. <em>In<\/em>: COLOQUIO de la Extimidad: em referencia al libro <em>Extimidad<\/em> del curso de Jacques Alain Miller. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2011. p.17-21.<\/h6>\n<h6>CORS, Raquel. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/x-enapol.org\/blog\/portfolio-items\/entrevista-a-raquel%20cors\/?fbclid=IwAR0zhp1zagUlUOAmhILiEZi0N9CqjGIJqkDD_TmHb6Z98nJajQ5XyQrloR0\">http:\/\/x-enapol.org\/blog\/portfolio-items\/entrevista-a-raquel cors\/?fbclid=IwAR0zhp1zagUlUOAmhILiEZi0N9CqjGIJqkDD_TmHb6Z98nJajQ5XyQrloR0<\/a>. Acesso dia 22 de julho de 2021.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio VIII<\/em>: a transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9ric. Princ\u00edpios diretores do ato psicanal\u00edtico. In: A SOCIEDADE do sintoma. A psican\u00e1lise, hoje. Rio de Janeiro: Contra-Capa, 2007. p. 215-220.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. <em>El lugar y el lazo<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013a.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. <em>El ultim\u00edssimo Lacan<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013b.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. Os labirintos do amor. <em>Correio<\/em>: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n. 56, p.14-19, 2002.<\/h6>\n<h6>REGNAULT, Fran\u00e7ois. <em>Em torno do vazio<\/em>: a arte \u00e0 luz da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2001. p. 45-56<\/h6>\n<h6>SALMAN, Silvia. O avesso do amor. <em>Correio<\/em>: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n. 68, p.29-36, 2011.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Denizye Aleksandra Zacharias (EBP\/AMP) \u201cA singularidade da an\u00e1lise \u00e9 evidentemente o la\u00e7o que une uma proposi\u00e7\u00e3o a outra, que, na matem\u00e1tica de Pappus, \u00e9 da ordem do poss\u00edvel, e que, no campo anal\u00edtico, toca alguma coisa que \u00e9 da ordem do imposs\u00edvel.\u201d (REGNAULT, 2001, p.53). \u201cA transfer\u00eancia \u00e9 amor\u201d quer dizer que, na experi\u00eancia anal\u00edtica,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11738,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,12],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-11726","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-boletim-amurados-textos","category-textos","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11726"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11726\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11726"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=11726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}