{"id":11723,"date":"2021-08-03T15:54:46","date_gmt":"2021-08-03T18:54:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11723"},"modified":"2021-08-03T15:54:46","modified_gmt":"2021-08-03T18:54:46","slug":"a-inversao-da-funcao-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/a-inversao-da-funcao-do-amor\/","title":{"rendered":"A invers\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o do amor"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Cristina de Bocca (EOL\/AMP)<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/strong><\/h6>\n<p><strong>O sujeito suposto saber, piv\u00f4 da transfer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_11724\" aria-describedby=\"caption-attachment-11724\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-11724\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/amurados_005_textos_003-300x198.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"198\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11724\" class=\"wp-caption-text\">A casa do conhecimento, JaumePlensa. Fonte: Pinterest.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em <em>O semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>, Lacan aborda o conceito freudiano de transfer\u00eancia a partir do sujeito suposto saber como seu piv\u00f4.<\/p>\n<p>\u00c9 a vertente epist\u00eamica da transfer\u00eancia, a \u201ctransfer\u00eancia de aliena\u00e7\u00e3o\u201d, cujo fulgor p\u00f4s um v\u00e9u sobre a vertente libidinal, a \u201ctransfer\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o\u201d. Esses dois modos de nomear a transfer\u00eancia fazem refer\u00eancia \u00e0s duas opera\u00e7\u00f5es de causa\u00e7\u00e3o do sujeito elaboradas por Lacan no semin\u00e1rio citado: a opera\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o, da qual se desprende o S1 e a opera\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o cujo efeito \u00e9 o objeto a, que vem preencher o vazio do sujeito.<\/p>\n<p>Podemos localizar o Semin\u00e1rio 11 no quarto paradigma do gozo, desenvolvido por Jacques-Alain Miller<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan se dedica \u00e0 articula\u00e7\u00e3o estreita entre o simb\u00f3lico e o gozo e as duas opera\u00e7\u00f5es d\u00e3o conta dessa elabora\u00e7\u00e3o. Sustenta que desde que haja sujeito suposto saber, h\u00e1 transfer\u00eancia e que essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de uma an\u00e1lise: tanto o sujeito como o analista est\u00e3o concernidos, o analista em posi\u00e7\u00e3o de semblante de saber e de causa de desejo do analisante.<\/p>\n<p>Embora o objeto<em> a<\/em>, elaborado nesse semin\u00e1rio, fique velado pela suposi\u00e7\u00e3o de saber no analista, sua fun\u00e7\u00e3o no n\u00edvel da transfer\u00eancia \u00e9 fundamental, j\u00e1 que \u00e9 em \u00faltima inst\u00e2ncia o que comanda a an\u00e1lise. O efeito que se produz \u00e9 a cren\u00e7a no inconsciente, um inconsciente que se abre e se fecha, sua abertura favorece o deciframento, enquanto o objeto interv\u00e9m no fechamento do inconsciente e o amor fica do lado do engano.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia \u00e9 concebida ent\u00e3o como um fen\u00f4meno ligado ao desejo: \u201cDe cada vez que esta fun\u00e7\u00e3o pode ser, para o sujeito, encarnada em quem quer que seja, analista ou n\u00e3o, [&#8230;] a transfer\u00eancia j\u00e1 est\u00e1 ent\u00e3o fundada\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Ou seja, podemos ver surgir a transfer\u00eancia fora da an\u00e1lise, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a an\u00e1lise sem a transfer\u00eancia. A transfer\u00eancia anal\u00edtica estabelece a rela\u00e7\u00e3o entre S1 e S2 e permite mobilizar e ler o inconsciente.<\/p>\n<p>Sup\u00f5e-se saber ao analista e tamb\u00e9m que ele saia ao encontro do desejo inconsciente do sujeito. O desejo \u00e9 o eixo fundamental que sustenta o fato de considerar que \u00e9 o sujeito suposto saber o piv\u00f4 da transfer\u00eancia. Seja o desejo do analisante que, incompat\u00edvel com a palavra, ser\u00e1 lido entrelinhas, ser\u00e1 cingido, seja a fun\u00e7\u00e3o desejo do analista a partir da qual conduzir\u00e1 essa an\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u00c9 no n\u00edvel do desejo do Outro que o sujeito reconhecer\u00e1 seu desejo, tratando-se do encontro do desejo do analisante com o desejo do analista. Nesse n\u00edvel, h\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o ao Outro e Lacan pensa o inconsciente a partir da histeria, a partir da incid\u00eancia do desejo do Outro. Dali surge o conceito de histeriza\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u00c9 no final do Semin\u00e1rio 11, no cap\u00edtulo \u201cEm ti mais do que tu\u201d, que surgir\u00e1 com intensidade o objeto alojado no analista e que estava velado pelo sujeito suposto saber.<\/p>\n<p><strong>A transfer\u00eancia, suporte do sujeito suposto saber <\/strong><\/p>\n<p>Se levarmos em conta o \u00faltimo ensino de Lacan, diremos que a transfer\u00eancia \u00e9 o suporte do sujeito suposto saber<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Por que se produz essa invers\u00e3o?<\/p>\n<p>A partir dos anos setenta, h\u00e1 uma mudan\u00e7a de paradigma, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre sentido e real, mas o eixo \u00e9 a exclus\u00e3o do sentido e o real: n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o. O inconsciente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pensado a partir da histeria, mas da psicose: S1 sozinho, o inconsciente vinculado a <em>lal\u00edngua<\/em> definida como \u201ca palavra antes de seu ordenamento gramatical e lexicogr\u00e1fico\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. Estamos no inconsciente quando n\u00e3o h\u00e1 sentido. O inconsciente n\u00e3o est\u00e1 no lugar do sujeito suposto saber e sim no n\u00edvel dos efeitos traum\u00e1ticos de <em>lal\u00edngua<\/em> sobre o <em>falasser<\/em>: o inconsciente como embrulhada do sujeito com o real.<\/p>\n<p>A palavra, inelimin\u00e1vel em uma an\u00e1lise, n\u00e3o serve \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o de gozo, para o qual Lacan inventa o neologismo <em>apalavra<\/em>. Dizer ent\u00e3o que a transfer\u00eancia \u00e9 o suporte, o sustent\u00e1culo do sujeito suposto saber, \u00e9 pensar o amor como o que pode fazer \u201ccondescender o gozo ao desejo\u201d, o que pode suprir a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e fazer media\u00e7\u00e3o entre os Uns sozinhos, colocando em evid\u00eancia a oposi\u00e7\u00e3o entre o enquistamento do gozo autoer\u00f3tico e o amor que mostra sua abertura ao Outro.<\/p>\n<p>No campo da transfer\u00eancia, ser\u00e1 preciso que o analisante ame seu inconsciente para que possa surgir o inconsciente transferencial, o que implica a articula\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre S1 e S2, a cren\u00e7a de que o sintoma pode ser lido, j\u00e1 que apenas pela transfer\u00eancia o sintoma pode enodar-se ao inconsciente. O amor ser\u00e1 o que tornar\u00e1 poss\u00edvel que o inconsciente exista como saber.<\/p>\n<p>Resta ao analista responder a esse amor com o objeto da puls\u00e3o, para que elaborar o inconsciente seja produzir seu furo.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Ang\u00e9lica Cantarella Tironi<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto cedido gentilmente pela autora para publica\u00e7\u00e3o Boletim <em>a<\/em>murados.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Miller, J-A. (2000[1987]). El lenguaje, aparato del goce. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, p. 154.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, J. (1998[1964]). O semin\u00e1rio, livro 11\u00a0: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro\u00a0: Jorge Zahar Editor. p. 220.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. (2005[2004]). \u201cUma fantasia\u201d. In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia, (42), pp. 7-18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Idem. (2000[1987]). Op. cit., p. 172.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristina de Bocca (EOL\/AMP)[1] O sujeito suposto saber, piv\u00f4 da transfer\u00eancia Em O semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise, Lacan aborda o conceito freudiano de transfer\u00eancia a partir do sujeito suposto saber como seu piv\u00f4. \u00c9 a vertente epist\u00eamica da transfer\u00eancia, a \u201ctransfer\u00eancia de aliena\u00e7\u00e3o\u201d, cujo fulgor p\u00f4s um v\u00e9u sobre a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11739,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,12],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-11723","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-boletim-amurados-textos","category-textos","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11723"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11723\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11723"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=11723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}