{"id":11684,"date":"2021-07-09T07:08:30","date_gmt":"2021-07-09T10:08:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11684"},"modified":"2021-07-09T07:08:30","modified_gmt":"2021-07-09T10:08:30","slug":"atualidade-do-odio-uma-perspectiva-psicanalitica1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/atualidade-do-odio-uma-perspectiva-psicanalitica1\/","title":{"rendered":"Atualidade do \u00f3dio, uma perspectiva psicanal\u00edtica<sup>1<\/sup>\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Ana\u00eblle Lebovits-Quenehen ( ECF\/AMP )<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_11685\" aria-describedby=\"caption-attachment-11685\" style=\"width: 198px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-11685\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/boletim_004_002-198x300.png\" alt=\"Jon Foster - Cole\u00e7\u00e3o \u201cComics\u201d\/Behance\" width=\"198\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11685\" class=\"wp-caption-text\">Jon Foster &#8211; Cole\u00e7\u00e3o \u201cComics\u201d\/Behance<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Atualidade do \u00f3dio. Uma perspectiva psicanal\u00edtica <\/em>parte de uma constata\u00e7\u00e3o: o \u00f3dio volta a assombrar o mundo com for\u00e7a. N\u00e3o que esse afeto seja novo, ele \u00e9 t\u00e3o velho quanto o mundo. Mas, dependendo do tempo e do lugar, o \u00f3dio muda de cara, toma novos rumos e se exprime mais ou menos fortemente. No contexto do mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s o vemos hoje no comando de certas administra\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m presente nas ruas, nas m\u00eddias ou nas redes sociais. No entanto, que o \u00f3dio ganhe terreno n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancias, e especialmente quando consegue ascender aos mais altos escal\u00f5es de um Estado. Este ensaio se engaja resolutamente contra a besta imunda, questionando as condi\u00e7\u00f5es sob as quais este \u00f3dio emerge, ressalta suas fontes e explora o que est\u00e1 em jogo, antes de entregar, por fim, um ant\u00eddoto.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode se perguntar, talvez, por que um psicanalista se envolve nesses assuntos. Temos tr\u00eas motivos, pelo menos. Em primeiro lugar, o exerc\u00edcio da psican\u00e1lise requer um Estado de direito, onde a fala se enuncie livremente. Mas o \u00f3dio ambiente nos tempos de hoje o coloca potencialmente em perigo. Em segundo lugar, o discurso anal\u00edtico, especialmente o de Freud e o de Lacan, lan\u00e7a uma nova luz sobre o \u00f3dio e \u00e9 muito mais eficiente que os tantos discursos que pretendem dissolv\u00ea-lo denunciando-o, mas que, na realidade, apenas o refor\u00e7am.<\/p>\n<p>Por fim, aqueles que se levantam hoje contra o discurso do \u00f3dio, especialmente da extrema direita, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o numerosos a ponto de os psicanalistas poderem se abster de se oporem a esses discursos sem inconsequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Lacan viu chegar o retorno do \u00f3dio em uma \u00e9poca em que se acreditava haver dele se livrado para sempre e mais um pouco. O fim da hist\u00f3ria havia chegado. Hoje em dia, parece a todos \u2013 ou quase \u2013 que essa profecia de Lacan est\u00e1 correta: a paz universal n\u00e3o \u00e9 para hoje, nem para amanh\u00e3, ao que parece, e agora isso \u00e9 especialmente percept\u00edvel. Imp\u00f5e-se, doravante, um certo n\u00famero de quest\u00f5es: por que o \u00f3dio se expande, se intensifica, ganha cada dia mais espa\u00e7o? Como explicar seu couro t\u00e3o duro? Qual \u00e9, verdadeiramente, seu objeto? A que ele satisfaz naquele que o experimenta e o mant\u00e9m? E naquele a quem ele visa? A psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana permite elaborar respostas t\u00e3o surpreendentes quanto precisas a essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><em>Atualidade do \u00f3dio. Uma perspectiva psicanal\u00edtica<\/em> toma diversos caminhos para responder a isso, come\u00e7ando pela an\u00e1lise dos efeitos dos discursos da ci\u00eancia e do capitalismo sobre nossa \u00e9poca. Isso pode parecer t\u00e9cnico, mas n\u00e3o \u00e9, e somente uma passagem por esses discursos e seus efeitos que nos permitir\u00e3o apreender sua tend\u00eancia a reconduzir todas as coisas do mundo ao id\u00eantico, inclusive os <em>corpos falantes<\/em>, o que tem como efeito paradoxal difratar o \u00f3dio. Abordando esses discursos, descrevemos sua l\u00f3gica para darmos conta das faces do \u00f3dio mais recentes, pois seus efeitos t\u00eam data, certamente, mas, apesar disso, eles continuam correndo \u2013 e r\u00e1pido. Precisemos que mostrar de que forma o \u00f3dio se renova ou se amplia nos dias de hoje n\u00e3o equivale a acusar a \u00e9poca em si, que, por outro lado, tem seus m\u00e9ritos. \u00c9 somente a tentativa de apreender o que constitui a especificidade do eterno retorno do \u00f3dio, tal como ele se manifesta sob as formas mais atuais, aqui e agora. Esta \u00e9 tamb\u00e9m a ocasi\u00e3o de abordar algumas quest\u00f5es cruciais: podemos acreditar no progresso? E, se n\u00e3o h\u00e1 progresso, \u00e9 mais conveniente olhar o passado como nosso \u00fanico futuro poss\u00edvel? Alguma outra via poderia ser ainda proposta?<\/p>\n<p>A segunda parte deste livro nos leva a mudar de escala para nos interrogarmos sobre um fator recente de \u00f3dio, que se conjuga com o anterior, aquele pelo qual a mem\u00f3ria coletiva parece s\u00e9ria e maldosamente vacilar. Na verdade, essa abras\u00e3o da mem\u00f3ria concede ao \u00f3dio difratado que evocamos uma intensidade que n\u00e3o era sentida h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas. Um recurso \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre o recalque e a foraclus\u00e3o nos permite apreender o poder do esquecimento que est\u00e1 em jogo e, mais ainda, seus efeitos em forma de retorno no real do que est\u00e1 esquecido, melhor dizendo, do que n\u00e3o est\u00e1 inscrito. Pois esses efeitos se fazem sentir inclusive na l\u00edngua, n\u00e3o sem maiores efeitos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Dessas reflex\u00f5es sobre o momento, passamos, em seguida, \u00e0s considera\u00e7\u00f5es que tocam o \u00edntimo, a fim de cernir o que est\u00e1 em jogo para quem odeia, quando ele visa ao outro com sua raiva. \u00c9 a ocasi\u00e3o de examinar a particularidade de dois objetos privilegiados do \u00f3dio (entre outros): os judeus e as mulheres. Esses dois alvos, que o \u00f3dio p\u00f5e de bom grado em sua mira, nos ensinam muito sobre eles, em especial, sobre o que o \u00f3dio procura precisamente alcan\u00e7ar em cada um deles.<\/p>\n<p>Por fim, um retrato de Lacan e de sua singularidade levada \u00e0 incandesc\u00eancia nos oferece o \u00fanico ant\u00eddoto para o \u00f3dio que conhecemos. Dedicamos, pois, a \u00faltima parte deste livro a ele.<\/p>\n<p>Ao longo do caminho, um fio se estende entre o Outro (odioso ou objeto de \u00f3dio) e a \u00edntima Alteridade que habita os corpos falantes. O \u00f3dio \u00e9 apreendido na \u00e9poca como localizado na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida, aos peda\u00e7os, tais como as m\u00faltiplas facetas de um cristal onde a luz se difrata.<\/p>\n<p>Por que este livro agora? Bem, porque apesar de sabermos que o \u00f3dio se anuncia sempre mais feroz, n\u00e3o podemos, entretanto, consider\u00e1-lo sem nos sentirmos a um s\u00f3 tempo cada vez mais abalados e fortalecidos. Por menos que o \u00f3dio nos atinja, de fato, somos cada vez mais convocados a responder a ele, cada um \u00e0 sua medida e na mais absoluta solid\u00e3o, mas n\u00e3o sem alguns outros \u2013 n\u00e3o menos solit\u00e1rios, sem d\u00favida, uma vez que eles tamb\u00e9m se sentem abalados por essas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nisso tamb\u00e9m, seguimos Freud e Lacan que, certamente, n\u00e3o eram otimistas, mas n\u00e3o ficaram , nenhum dos dois, congelados em uma posi\u00e7\u00e3o de retirada: seja aquela da bela alma que deplora as desordens do mundo para melhor lavar suas m\u00e3os, ou aquela do avestruz cuja pol\u00edtica consiste em enfiar a cabe\u00e7a na terra, enquanto lhe depenam o traseiro. Ambos sustentavam firmemente o seguinte: queiramos ou n\u00e3o, somos respons\u00e1veis pelas consequ\u00eancias de nossos atos \u2013 inclusive quando estes faltam. Assim, habitar o mundo, mesmo quando a humanidade n\u00e3o caminha rumo ao progresso (mesmo que nada leve a antecipar que ela corre cada vez mais, com certeza, para sua perda), \u00e9 ir at\u00e9 ele, sem esperan\u00e7a, por certo, mas ir at\u00e9 ele mesmo assim. \u00c9, portanto, levar em conta um imposs\u00edvel sem afundar na inibi\u00e7\u00e3o. Da mesma forma que a proposi\u00e7\u00e3o lacaniana, segundo a qual a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe n\u00e3o \u00e9 um convite \u00e0 solid\u00e3o social, mas um apelo \u00e0 inven\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para tornar o amor algo \u201cmais digno\u201d , assim tamb\u00e9m o \u00f3dio que rosna e que nos parece imposs\u00edvel frear requer nossa inventividade. Jacques-Alain Miller nos mostrou \u2013 mais de uma vez &#8211; que o imposs\u00edvel n\u00e3o \u00e9, e jamais ser\u00e1, uma desculpa. Ele poderia at\u00e9 ser, por fim, uma ocasi\u00e3o a se aproveitar, um convite ao ato. De fato, quando uma escolha for\u00e7ada se apresenta (quer dizer, uma escolha que implica uma grande perda), ter\u00edamos n\u00f3s de fato outras op\u00e7\u00f5es que n\u00e3o o ato, no qual nos experimentamos sempre, de algum jeito, louco (n\u00e3o louco de todo)?<\/p>\n<p>Temos outras op\u00e7\u00f5es al\u00e9m desse ato, do qual somos advertidos de que seu \u00fanico sucesso \u00e9 falhar?<\/p>\n<p>Portanto, se este ensaio n\u00e3o apresenta nem programa, nem caminho a seguir, ele convida, de bom grado, ao ato como rem\u00e9dio contra a eternidade que nos espreita muito frequentemente. Ele nos convida, assim, \u00e0 alegria.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Bartyra Ribeiro de Castro<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Vera Avellar Ribeiro<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Gentilmente cedido pela autora para publica\u00e7\u00e3o em <em>a<\/em>murados. Publicado originalmente em: <a href=\"http:\/\/uqbarwapol.com\/actualite-de-la-haine-une-perspective-psychanalytique-anaelle-lebovits-quenehen\/\">http:\/\/uqbarwapol.com\/actualite-de-la-haine-une-perspective-psychanalytique-anaelle-lebovits-quenehen\/<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana\u00eblle Lebovits-Quenehen ( ECF\/AMP ) Atualidade do \u00f3dio. Uma perspectiva psicanal\u00edtica parte de uma constata\u00e7\u00e3o: o \u00f3dio volta a assombrar o mundo com for\u00e7a. N\u00e3o que esse afeto seja novo, ele \u00e9 t\u00e3o velho quanto o mundo. 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