{"id":11678,"date":"2021-07-09T06:48:32","date_gmt":"2021-07-09T09:48:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?p=11678"},"modified":"2021-07-09T06:48:32","modified_gmt":"2021-07-09T09:48:32","slug":"aids-estigma-e-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/aids-estigma-e-odio\/","title":{"rendered":"Aids, estigma e \u00f3dio"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Victor Caetano &#8211; Comiss\u00e3o de Boletim<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_11679\" aria-describedby=\"caption-attachment-11679\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-11679\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/boletim_004_004-300x200.png\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o: Site Plano Cr\u00edtico\" width=\"300\" height=\"200\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11679\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o: Site Plano Cr\u00edtico<\/figcaption><\/figure>\n<p>A pandemia com o segundo maior n\u00famero de v\u00edtimas fatais desde o s\u00e9culo passado, e que continua fazendo \u00f3bitos at\u00e9 a atualidade, \u00e9 a de HIV\/aids. A respeito da dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus e da doen\u00e7a, iniciada nos anos 1980, a rela\u00e7\u00e3o com o \u00f3dio \u00e9 direta.<\/p>\n<p>Nos EUA, em 1981, 41 jovens foram diagnosticados com sarcoma de Kaposi, c\u00e2ncer raro e quase que somente constatado em idosos. Acontece que este grupo de pacientes era composto apenas por homens homossexuais. Antes mesmo de se detectar que um v\u00edrus sexualmente transmiss\u00edvel atacava o sistema imunol\u00f3gico de quaisquer pessoas, independendo de sua orienta\u00e7\u00e3o sexual, levando a quadros como o deste tipo de c\u00e2ncer, o significante \u201cc\u00e2ncer gay\u201d j\u00e1 circulava (1).<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, os sujeitos acometidos pelo v\u00edrus foram sendo cristalizados em predica\u00e7\u00f5es de tom pejorativo pela parte majorit\u00e1ria da sociedade estadunidense. Al\u00e9m disso, n\u00e3o encostar, n\u00e3o compartilhar objetos ou o mesmo ambiente que algu\u00e9m com HIV \u2013 fato ilustrado no caso de um garoto hemof\u00edlico de 13 anos, portador do v\u00edrus, expulso da escola em 1984 (2) \u2013\u00a0 eram pr\u00e1ticas comuns, evidenciando as dimens\u00f5es simb\u00f3lica e imagin\u00e1ria que envolvem a aids.<\/p>\n<p>O estigma esteve presente desde a chegada do v\u00edrus aos EUA e sua dissemina\u00e7\u00e3o pelo mundo. A doen\u00e7a foi, por um tempo, chamada pelo CDC (Centers For Disease Control and Prevention) de <em>\u201cdoen\u00e7a dos 4H\u201d, <\/em>pois seria relegada a homossexuais, hemof\u00edlicos, haitianos e usu\u00e1rios de hero\u00edna. Em outro momento, o mesmo CDC utilizou o termo GRID, que significa, traduzindo para o portugu\u00eas, imunodefici\u00eancia relacionada a homossexuais (3).<\/p>\n<p>Como exemplo dos dados expostos, tem-se o filme <em>Clube de Compras Dallas<\/em>, no qual os registros imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico a respeito da aids para o personagem heterossexual Ron Woodroof (Matthew McConaughey), recebem um feroz golpe do real. Num primeiro instante, o texano nega violentamente o diagn\u00f3stico por acreditar que apenas pessoas homoafetivas contrairiam o HIV (4).<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o do estigma no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>O <em>\u00cdndice de Estigma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas vivendo com HIV\/AIDS<\/em> serve para detec\u00e7\u00e3o e medida relativas \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e estigmatiza\u00e7\u00e3o do HIV, partindo da perspectiva de pessoas que vivem com o v\u00edrus (5).<\/p>\n<p>O v\u00eddeo<em>\u201cComo a discrimina\u00e7\u00e3o afeta a vida das pessoas vivendo com HIV\/AIDS no Brasil?\u201d<\/em> (6), que divulga a pesquisa, traz, na marca de 2min e 18s, a seguinte declara\u00e7\u00e3o de uma das participantes:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cDe 28 anos atr\u00e1s, quando eu descobri o HIV, n\u00e3o muda muito. Quem recebe um diagn\u00f3stico hoje de HIV \u00e9 o mesmo impacto, e tudo em cima do estigma, n\u00e9 (sic). Ent\u00e3o o diagn\u00f3stico do HIV gera uma dor diferente de uma outra patologia que talvez possa matar mais r\u00e1pido. E tudo por causa do estigma.\u201d(ALOIA, Silvia,UNAIDS Brasil, 2019).<\/p><\/blockquote>\n<p>A fala da representante do MNCP (Movimento Nacional das Cidad\u00e3s Posithivas) aponta para o fato de que no Brasil, e pode-se dizer que como em muitos outros lugares pelo mundo, a estigmatiza\u00e7\u00e3o do portador de HIV\/aids se mant\u00e9m como importante balizador da manuten\u00e7\u00e3o do sofrimento do sujeito que descobre ter o v\u00edrus em seu organismo.<\/p>\n<p>A despeito de toda a evolu\u00e7\u00e3o do tratamento medicamentoso que, h\u00e1 um tempo e cada vez mais, ajuda a promover qualidade de vida, redu\u00e7\u00e3o da carga viral e longevidade para quem tem a doen\u00e7a, no campo da cultura h\u00e1 algo que, se \u00e9 que n\u00e3o se mant\u00e9m igual desde sua origem, no m\u00e1ximo apenas se atualiza.<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio: \u201cPaix\u00e3o do Ser\u201d\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cN\u00e3o cante vit\u00f3ria muito cedo, n\u00e3o\/ <\/em><\/p>\n<p><em>Nem leve flores para a cova do inimigo\/ <\/em><\/p>\n<p><em>Que as l\u00e1grimas dos jovens s\u00e3o fortes como um segredo\/ <\/em><\/p>\n<p><em>Podem fazer renascer um mal antigo\u201d(7)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Feito um recorte dessa estrofe da m\u00fasica <em>\u201cN\u00e3o leve flores\u201d<\/em>, de Belchior, podemos nos remeter \u00e0quilo que mobilizou Lacan ao ver \u201cchegar o retorno do \u00f3dio em uma \u00e9poca em que se acreditava haver dele se livrado para sempre e mais um pouco\u201d (8). Se o \u00f3dio \u00e9 uma paix\u00e3o do ser, como afirma Lacan em seu primeiro semin\u00e1rio (9), tem a ver com algo que se repete, se atualiza. N\u00e3o \u00e9 algo sobre o qual se obt\u00e9m vit\u00f3ria e se comemora, ao menos n\u00e3o t\u00e3o cedo. \u00c9 paix\u00e3o que permanece.<\/p>\n<p>Romildo do R\u00eago Barros, em pequeno texto intitulado <em>\u201c\u00d3dio, semblante e ser\u201d <\/em>publicado no quarto boletim OCI do IX ENAPOL, recorre a Freud e Lacan para situar a segrega\u00e7\u00e3o de modo topol\u00f3gico. A <em>Austossung<\/em>, expuls\u00e3o origin\u00e1ria, constitui o dentro e fora que ir\u00e3o se opor. Aquilo que \u00e9 expulso do sujeito retorna como \u00f3dio do estranho, sem excluir a dimens\u00e3o que se mant\u00e9m como \u00f3dio de si (10).<\/p>\n<p>N\u00e3o se poderia entender a pr\u00f3pria quest\u00e3o do \u00f3dio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTTQIA+ e, sua consequente segrega\u00e7\u00e3o, a partir dessa premissa psicanal\u00edtica? O que dizer, ainda, do \u00f3dio e da exclus\u00e3o relegada aos sujeitos portadores de HIV\/aids? Nos tempos atuais, especialmente no Brasil, a propriedade perene que parece favorecer um \u201ceterno retorno\u201d do \u00f3dio pode ser ponto de partida importante para tentar dar conta destas quest\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<ul>\n<li>\n<h6>Da Reda\u00e7\u00e3o: 25 anos de Aids. Superinteressante, 2006, atualizado em 2016. Dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"https:\/\/super.abril.com.br\/saude\/25-anos-de-aids\/\">https:\/\/super.abril.com.br\/saude\/25-anos-de-aids\/<\/a>&gt;. Acesso em 25\/06\/2021.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ibidem<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Ibidem<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>CLUBE DE COMPRAS DALLAS; Dire\u00e7\u00e3o: Jean-Marc Vall\u00e9. Produ\u00e7\u00e3o: Rachel Winter &amp; Robbie Brenner. Estados Unidos: Universal Pictures, 2013. 1 DVD (116 min.).<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/AIDS (UNAIDS). Sum\u00e1rio Executivo. \u00cdndice de Estigma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas vivendo com HIV\/AIDS \u2013 BRASIL. (acesso em25\/06\/2021) 2019 [cerca de 92 p.]. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/unaids.org.br\/2019\/12\/estudo-revela-como-o-estigma-e-a-discriminacao-impactam-pessoas-vivendo-com-hiv-e-aids-no-brasil\/\">https:\/\/unaids.org.br\/2019\/12\/estudo-revela-como-o-estigma-e-a-discriminacao-impactam-pessoas-vivendo-com-hiv-e-aids-no-brasil\/<\/a>&gt;.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>UNAIDS Brasil. Como a discrimina\u00e7\u00e3o afeta a vida das pessoas vivendo com HIV\/AIDS no Brasil?<strong>Youtube<\/strong>, 2019. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KaVXxzBhKrI\">h<\/a><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KaVXxzBhKrI\">ttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KaVXxzBhKrI<\/a>&gt;.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6><em> N\u00e3o Leve flores. Dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica: Aldo Luiz. S\u00e3o Paulo: Universal Music Ltda, 1976 \u2013 Universal Music\/ Polysom, 2017. <\/em><\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Navarrin editor.<em>Actualidad del odio, una perspectiva psicoanal\u00edtica. <\/em> 10 de setembro de 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/uqbarwapol.com\/actualidad-del-odio-una-perspectiva-psicoanalitica-anaelle-lebovits-quenehen-eol\/\">http:\/\/uqbarwapol.com\/actualidad-del-odio-una-perspectiva-psicoanalitica-anaelle-lebovits-quenehen-eol\/<\/a> (No presente texto foi utilizada a vers\u00e3o cedida para publica\u00e7\u00e3o neste boletim pela autora Ana\u00eblle Lebovits-Quenehen, traduzida por Bartyra Ribeiro de Castro e revisada por Vera Avellar Ribeiro).<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Lacan, J. (1979). O semin\u00e1rio, livro 1: os escritos t\u00e9cnicos de Freud, 1953-1954. (B. de Milan, vers\u00e3o brasileira). Rio de Janeiro, RJ: Zahar.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Romildo do R\u00eago Barros. \u00d3dio, Semblante e Ser. Boletim OCI 4. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-4\/\">https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-4\/<\/a>&gt;. (Texto extra\u00eddo da discuss\u00e3o ocorrida na EBP Se\u00e7\u00e3o SP, em 26 de novembro de 2018, dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"https:\/\/youtu.be\/M011CWWu68Q\">https:\/\/youtu.be\/M011CWWu68Q<\/a>&gt;).<\/h6>\n<\/li>\n<\/ul>\n<h6>*ou\u00e7a a m\u00fasica citada: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UF1sCH7g1P8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UF1sCH7g1P8<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Victor Caetano &#8211; Comiss\u00e3o de Boletim A pandemia com o segundo maior n\u00famero de v\u00edtimas fatais desde o s\u00e9culo passado, e que continua fazendo \u00f3bitos at\u00e9 a atualidade, \u00e9 a de HIV\/aids. A respeito da dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus e da doen\u00e7a, iniciada nos anos 1980, a rela\u00e7\u00e3o com o \u00f3dio \u00e9 direta. 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